O sol da tarde atravessava as janelas do gabinete real, onde a tensão dos mapas e decretos era quase sufocante. Gaspar e Richard analisavam um novo acordo de fronteiras, enquanto Caelum, encostado no batente da janela, parecia mais interessado no movimento lá fora do que nas palavras de seu pai.

​Lá embaixo, sob a sombra das mesmas acácias onde eles discutiram no dia anterior, Catarina e Stefan Drake protagonizavam uma cena digna de um romance de corte. Ela ria, jogando a cabeça para trás com uma leveza que Caelum raramente via quando ele estava por perto. Stefan, aproveitando a abertura, segurava a mão dela com delicadeza, aproximando-se para sussurrar algo galanteador no ouvido da jovem.

​Caelum soltou um riso seco e nasal, um som carregado de puro escárnio.

​— Olhem para aquilo — Caelum disse, atraindo a atenção de Richard e Gaspar. — Stefan Drake tentando ser um homem de ação. É como ver um bezerro tentando imitar o passo de um corcel.

​Richard aproximou-se da janela, observando o nobre galantear seu alvo.

— Ele parece estar se saindo bem, Caelum. Ela está rindo.

​— Ela está rindo dele, não com ele — debochou Caelum, cruzando os braços. — Olhe como ele segura a mão dela. Stefan tem tanta força de vontade quanto uma folha de outono. Se um vento soprar um pouco mais forte, ele cai em prantos. A dignidade dele cabe em uma colher de chá, e ainda sobraria espaço para o açúcar. O homem não sabe distinguir uma espada de um espeto de carne, quanto mais como lidar com uma mulher como Catarina.

​Richard soltou uma gargalhada, batendo no ombro de Gaspar.

— Ouviu isso, Gaspar? Nosso príncipe herdeiro agora é um crítico de cavalaria. Mas cuidado, Caelum, o "bezerro" está ganhando terreno enquanto você fica aqui em cima rosnando como um cão de guarda sem coleira.

​Gaspar, porém, não riu. Ele afastou-se da mesa e caminhou até o sobrinho, com um olhar que misturava sabedoria e severidade.

​— Vocês acham que o amor e o poder são conquistados com palavras afiadas em gabinetes? — perguntou Gaspar, fazendo o silêncio voltar à sala. — Eu e seu pai, Caelum, não chegamos onde estamos apenas por linhagem. Richard teve que lutar contra o próprio orgulho para conquistar Katrina, e eu... eu tive que provar a Claire que eu era mais do que uma coroa e um título de rei. Nós provamos com atos, com presença, com sacrifício.

​Gaspar colocou a mão no ombro de Caelum, forçando-o a olhar para ele.

​— Se você realmente gosta dessa moça, Caelum, xingar o Stefan pelas costas ou bater com canecas na mesa durante o jantar não vai te levar a lugar nenhum. Isso só prova que você é um menino ciumento, não um homem pronto para o trono.

​— Eu não estou com ciúmes, eu apenas... — Caelum tentou intervir.

​— Se quiser a loba, terá que ser o lobo — cortou Gaspar. — Prove com atos. Mostre a ela que você é o único homem capaz de sustentar o peso dela sem vergar. Brigas na mesa são para tabernas. Um príncipe conquista com a mesma firmeza com que governa.

​Caelum engoliu em seco, voltando o olhar para o jardim. Stefan ainda segurava a mão de Catarina, mas as palavras de seu tio queimavam mais do que qualquer provocação. O deboche havia morrido, dando lugar a uma compreensão fria: a guerra por Catarina não seria vencida com insultos, mas com a coragem que ele ainda temia demonstrar.