Na sala de reuniões, o ar estava denso com o aroma de charutos e do vinho encorpado que Gaspar reservava para ocasiões especiais. O clima era uma mistura peculiar de camaradagem masculina e o resquício da adrenalina da perseguição de mais cedo. Caelum, agora devidamente vestido e com a dignidade parcialmente recuperada, ocupava sua cadeira habitual, enquanto Julian, ainda lançando olhares de soslaio para o amigo, girava o vinho em sua taça.

​Richard foi o primeiro a quebrar o silêncio, soltando uma fumaça lenta e olhando para o filho com um brilho de puro divertimento.

​— Então... "Estratégia de Defesa", Caelum? — Richard soltou uma risada ruidosa que ecoou pelas vigas de madeira. — Tenho que admitir, meu filho, sua tática de se enrolar em um lençol e usar o trono do seu tio como escudo foi a manobra mais brilhante que já vi em Astúria.

​Caelum sentiu as orelhas arderem, mas manteve o tom de voz controlado, embora o canto da boca traísse um sorriso.

​— Foi uma manobra de emergência, pai. Julian tem uma tendência irritante a não bater na porta e a desembainhar o aço antes de fazer perguntas diplomáticas.

​— Perguntas diplomáticas?! — Julian interveio, batendo a taça na mesa, mas sem a raiva de antes. — Eu entrei no quarto e vi a minha irmã — que eu jurava ser uma loba intocável — parecendo um anjo caído nos seus lençóis! Por um momento, achei que o Norte tinha sido invadido por... bom, por você!

​Gaspar, que observava tudo com a calma de um rei que já viu de tudo, inclinou-se para a frente.

​— O que eu quero saber, Caelum, é como você sobreviveu — disse Gaspar, com um tom de voz sério que escondia o deboche. — Catarina não é uma dama que se deixa conquistar com flores e poesias. Ela tem garras. Como o Príncipe "Azedo" de Astúria conseguiu domar a tempestade de Valória sem sair com cicatrizes permanentes no rosto?

​Caelum tomou um gole longo de seu vinho, deixando o silêncio pairar por um momento antes de responder.

​— Eu não a domei, tio. Eu só aprendi que, com Catarina, a melhor defesa é o ataque. Ela gosta do desafio. Se eu fosse o príncipe perfeito que todos esperam, ela já teria se entediado e fugido com o Drake há muito tempo. O segredo é que ela é tão... perigosa quanto eu.

​— Ele tem razão — resmungou Julian, agora mais relaxado. — Ela sempre foi indomável. Mas eu vi o jeito que ela olhou para você quando gritou que te amava. Se você a fizer sofrer, Caelum, eu juro que da próxima vez não vou parar no trono do rei.

​— Se eu a fizer sofrer, Julian — Caelum respondeu com uma seriedade absoluta — eu mesmo te entrego a espada. Mas, por enquanto, minha única preocupação é como sobreviver ao casamento. Se o pedido foi aquela loucura, não quero nem imaginar a noite de núpcias com vocês dois por perto.

​Richard soltou outra gargalhada, levantando sua taça.

​— Bem-vindo ao clube dos homens que perderam o coração para mulheres de Valória, meu filho. É um caminho sem volta, cheio de brigas, lençóis revirados e sogros querendo sua cabeça. Mas, olhe para mim e para o seu tio... não trocaríamos isso por paz nenhuma no mundo.

​— Aos noivos! — brindou Gaspar, as taças de cristal se chocando no centro da mesa.

​Caelum sorriu, sentindo o peso do compromisso e o calor da amizade. Ele sabia que a paz no castelo seria curta, mas enquanto tivesse Catarina ao seu lado para provocá-lo — e Julian para persegui-lo — a vida em Astúria nunca mais seria monótona.