O vermelho sangue preenchia cada pedaço da minha boca. Meus olhos azuis violetas se destacavam embaixo dos imensos cílios postiços. Havia pequenos diamantes traçando a parte inferior das minhas sobrancelha. Alguns fios de meu cabelo loiro caiam emoldurando meu rosto, mas a grande maioria se enroscava em duas tranças finalizadas em um coque baixo.

O vestido semitransparente era coberto por pequenas pedrinhas cintilantes. Elas eram dispersas nas extremidades do corpo e mais densas no no tronco, escondendo qualquer vestígio da nudez ou das roupas intimas cor-de-pele que utilizava.

O vestido formato sereia, com longas e justas mangas, não permitia que me movesse com facilidade. Cada passo dado poderia ser medido com uma pequena régua. Não nego que ele destacava cada curva do meu corpo. Todos os homens e mulheres ao meu redor fixavam seus olhares em mim de uma forma que poderia me deixar constrangida. Mas eu estava gostando, e, por sorte, a maquiagem quase branca não deixava meu rubor tão evidente.

Emmett me esperava ao pé da carruagem. Não havia visto Royce desde o início da preparação. Inclusive, fui um dos primeiros tributos a chegar no local. Dentro de poucos minutos sairíamos em passeata pelas ruas da Capital. Não precisei tentar muitas vezes subir no veículo antes de ser erguida pelas mãos fortes de meu mentor. Ele ajeitou a barra do vestido e deu a volta se posicionando ao meu lado. Tentei passar melhor olhar gelado.

A fúria me tomou quando a risada dele cortou o ar. Não conseguia entender a graça que ele via em qualquer movimento feito.

– Guarde sua cara seca para o desfile, fofura. – Avisou dando alguns passos para brincar com os cavalos. Me agarrei aonde podia fortemente tentando me segurar caso os equinos dessem um pulo ou começassem a andar fora de hora. – Como é medrosa, eles são tão bem treinados que não precisam nem de rédeas. Completamente diferente de você.

– Achei que somente os estilistas poderiam entrar aqui. – resmunguei sem mirá-lo.

– Ninguém resiste ao meu charme, querida. Eu entro onde eu quero e quando eu quero. Entendeu? – Mesmo sem ter meus olhos nele senti seu olhar sobre mim. – Você não está tão mau. No meu ano me obrigaram a usar verde para representar as esmeraldas.

– Ninguém se interessa, Emmett.

– Que tal guardar um pouco dessa bravura para os Jogos? – questionou ajeitando as crinas dos animais – Seria bem útil.

– Só me diga o que fazer! – falei entre os dentes.

– Escuta só, todos vão acenar, sorrir e recolher flores pelo caminho. Eu quero que você olhe para os lados sorrindo, mas não acene e nem pegue nada que jogarem em sua direção. Me escuta, concentra no olhar. Eles não querem um tributo fofinho, eles querem alguém que vença e que mate sem rancor.

– Eu já disse que não mataria...

– Faça o que estou mandando – ele me cortou.

– Você quer que seja fria?

– Seu jeito frio de ser não bota medo, da crise de riso. – meu olhar se encaminhou para o dele. Mais uma vez carregado de raiva. Parecia que tudo o que ele queria fazer era me irritar. – Quero, somente, que pareça dura na queda.

– Sorrindo?

– Eu disse dura na queda, você ainda pode tentar ser amigável. Agora mude de assunto Royce está descendo as escadas com a estilista dele.

– Até onde eu sei, você também é o mentor dele. – resmunguei.

– Até onde eu sei, só posso tirar um de vocês de lá! – ele sussurrou. Meu coração palpitou descompassado. Minha mente deu voltas e mais voltas.

Seria possível? Ele querer me manter viva? Ele tinha muito mais a perder deixando o filho do prefeito à deriva.

Respirei fundo quando Royce se posicionou ao meu lado. Tentei esvaziar minha mente. Se Emmett queria me tirar da Arena, Royce não poderia desconfiar, e, se ele estivesse me enganando, eu não queria ficar com cara de trouxa. Não era o momento para desabar.

A garota do Distrito 4, Heidi, se não me engano, passou ao meu lado e me cumprimentou com um sorriso. Minha boca se mexeu em resposta, sem muita animação. Seu vestido para o desfile era maravilhoso. Um tomara que caia em formato de sereia, da mesma forma que o meu. Até o joelho podia visualizar pequenas pedras lapidadas em formato de escamas na tonalidade de um profundo oceano. O tecido da parte de baixo do vestido clareava a tonalidade até chegar ao branco. Ao vê-la se mover, lembrei de algumas entrevistas onde o mar era o cenário de fundo, e percebi que o caimento do fino tecido se mexia como ondas quebrando na areia.

– Estão prontos? – Emmett questionou chamando minha atenção para ele.

– É um belo vestido! – justifiquei o olhar, mesmo que ele não precisasse saber o motivo.

– O seu também!

– O meu não tem o movimento de ondas se quebrando. – argumentei.

– O seu é o coadjuvante, o dela o protagonista. E acredite em mim, você quer chamar a atenção para você, e não para o seu vestido.

Corei, mesmo sem saber o motivo, levantei meu queixo e olhei para o lado oposto. Não queria que meu mentor visse meu rubor. Royce não estava atento a nossa conversa, ele reclamava sobre algo com sua estilista. Talvez o terno branco não fosse de seu agrado. Ignorei quando seu tom de voz subiu e fechei meus olhos tentando controlar meu nervosismo.

– Royce, sobe – ordenou Emmett. Royce o encarou mais não desobedeceu.

– O que eu tenho que fazer McCarty?

– Você tem que deixar os patrocinadores simpatizados com você. Sorrir, acenar... Sei lá. Faça o que te der vontade. – ele deu de ombros enquanto o portão começava a se abrir.

Meu coração gelou. Não pelo fato de estrar a poucos segundos de ser apresentada para uma multidão com sede de sangue, mas porque as instruções eram totalmente o oposto das que ele me passou. Uma coisa estava certa, ou ele queria me dar glória ou me destruir. Naquele momento, jurava que era a segunda opção.

O estalar de um tapa em um dos cavalos me assustou. Eles se moveram e por descuido eu quase cai. Emmett murmurou algo baixo que não pude compreender enquanto sua mão voltava a me posicionar em pé. Quis perguntar para Royce o que era, mas ele estava alheio. Agarrei forte na carruagem e vesti a minha melhor feição de guerreira, mas por debaixo da minha roupa eu tremia.

Cada diamante cintilou de uma cor diferente quando a primeira luz caiu sobre nós. O ovacionar da plateia encheu meus ouvidos. Podia escutar meu nome sendo pronunciado algumas vezes, mas nunca localizava de onde ele vinha.

O vento bateu suave sobre meu rosto, seria uma boa brisa para apreciar caso não estivesse naquela situação. O caminho até o Círculo da Cidade era longo e detalhadamente decorado. O Presidente nos esperava no final do trajeto, e eu não estava animada para me encontrar com ele. A cada trote do cavalo eu percebia o quão real tudo aquilo era.

E que eu não podia fugir de nada.

Plastic smiles and denial

Sorrisos de plásticos e a negação

Can only take you so far

Podem somente te levar para mais longe

And you break

E você se destrói

When the paper signs you in the dark

Quando assina o contrato para a escuridão

Pretty Hurts– Beyoncé

Notas finais
Espero que se divirtam!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.