Sad Stories
1 Histórias tristes
Dizem que histórias que não dão certo não deveriam ser contadas para não desencorajar outras pessoas que estão na mesma situação, não é mesmo? Eu não concordo com isso, sabe? Histórias tristes merecem ser contadas e não jogadas de lado no fundo de uma mente desesperada por compreensão.
Entenda que muitas vezes as coisas não são o que parecem e que não escolhemos muitas coisas. Pode dar nome que quiser para isso. Muitos chamam de destino, acaso, entre outras coisas.
Eu prefiro dizer simplesmente que esta é a vida.
Não pense nem por um segundo que eu gosto de estar aqui. Essas palavras saem da minha cabeça por necessidade e por, provavelmente, desespero. Afinal, histórias tristes sempre vêm acompanhadas por pessoas desesperadas, eu não sou exceção à regra. Nunca fui.
Era fevereiro quando eu a encontrei chorando na beira da área mais deserta da praia. Era uma das minhas partes preferidas daquela cidade, nem parecia que eu estava no mesmo lugar com toda aquela calmaria e apenas o som da água batendo nas pedras e arrastando areia consigo.
Mas naquela tarde estava diferente. Não era apenas o som do mar, havia agora o choro e os soluços da garota de cabelos castanhos e longos. Sua cabeça baixa e seus braços abraçando suas pernas juntas de seu corpo me lembravam dessa vez em que caí e para tentar diminuir a dor do meu joelho, eu trouxe-o para mais perto de mim.
Algo sem sentindo eu sei, mas o que uma criança de seis anos poderia fazer?
A dor que eu senti era apenas física e passou quando minha mãe apareceu e cuidou do machucado... a dor que aquela menina estava sentindo não era em nada parecida com a minha e eu sabia muito bem daquilo. Eu estava com uma dor parecida no peito.
Andei de casa até aqui – alguns quilômetros – e durante o caminho inteiro eu tentei me convencer de que estava tudo bem. De que todos morrem e que nada mudaria na minha vida, que importância tinha um gato na minha vida.
É claro que eu estava fazendo isso sem sucesso algum.
Conforme me aproximei dela, seu rosto se levantou e eu pude ver aquele inchaço rodeando olhos grandes e cor de mel. Sem pronunciar nenhuma palavra, me sentei ao seu lado e abracei meus joelhos como quando caí. Acho que fiz isso com a esperança de que alguém viesse e cuidasse do meu machucado como daquela vez, mas isso não iria acontecer.
A única coisa que nós duas podíamos fazer naquela hora era dar suporte uma à outra, sem nenhuma palavra, apenas companhia. Era óbvio que o problema dela era maior que o meu e, após certo tempo, acho que comecei a chorar mais por ela do que por mim.
Passamos algum tempo chorando, abraçadas a nós mesmos, até que ela passou os braços por meus ombros e soluçou ainda mais forte. Eu a abracei. Abracei forte e ela não falou nada, apenas chorou em meu ombro e por algum motivo a sensação úmida das lágrimas dela na minha camiseta me doía mais do que a morte do meu gato.
O choro depois que parou seguiu-se por uma pergunta feita por mim.
Seu nome era bonito, tinha uma sonoridade linda e me lembrava de campos cobertos por lavanda. Ela me disse que meu nome soava forte, mas ao mesmo tempo delicado e teria rido da minha confusão se não estivesse tão triste.
Não, eu não perguntei por que ela estava chorando e nem ela me perguntou, nós simplesmente nos apresentamos e trocamos telefones. Quando o sol começou a se por, nós seguimos nossos caminhos em direções nem tão opostas. Nosso caminho se diferenciava em apenas um curto pedaço.
Nenhuma de nós mandou mensagens e muito menos ligou para outra por pelo menos um mês, até que numa madrugada de domingo enquanto eu estava no Skype com amigos ela me ligou. Ela estava chorando novamente e eu não pude controlar minhas pernas quando disse o que tinha acontecido.
Por que continuam a insistir que amar é errado? Quando eles dizem para a própria filha que ela é uma aberração e que preferiam que ela estivesse morte, o que eles acham que estão fazendo? O que leva alguém a dizer que prefere ver alguém da sua família morta a vê-la amando?
A incompreensão é uma das piores coisas existentes e quando isso vem da sua própria família a dor é muito mais profunda do que qualquer outra coisa. Tão profunda que faz-te questionar seu propósito de vida, sua felicidade, seu valor. Dói muito mais do que um machucado no joelho, é muito mais permanente que apelidos maldosos. É praticamente um tipo de tortura... a rejeição vinda de amigos doí, mas dá para superar. Você pode fazer novos amigos, por mais tempo que você os conheça você não passa vinte e quatro horas por dia com eles e por mais que você se sinta triste e abandonada, você ainda vai ter as pessoas que cuidaram de vocês desde quando nasceu, as pessoas que trocaram suas fraldas.
Agora uma rejeição vinda daí é outro... Nível?
Não. Não é apenas outro nível. É algo completamente diferente. Ser olhada com indiferença e nojo por pessoas de fora é doloroso, mas quando é a sua família parece que sua vida inteira está sendo rasgada e incendiada.
Foi por isso que corri às três da manhã pelas ruas sem nem me importar quem estava ali. Por que eu fiz isso por alguém que não conheço? Porque eu fui a primeira pessoa para quem ela ligou no momento em que seu pai a espancou por ter namorado uma garota.
Durante o mês inteiro eu não parei de pensar nela, para falar a verdade. Naquela garota de olhos mel e nome suave com voz macia e magoada. Talvez por isso que eu não hesitei em ir ajuda-la... Sinceramente eu não sei e não faz nenhum sentido ficar decorrendo sobre isso. Criei uma obsessão por ela e é apenas isso.
Falando com ela o tempo inteiro no celular, cheguei à quadra antes de sua casa onde ela estava sentada abraçada aos próprios joelhos.
Nossos olhos se encontraram e por mais que eu quisesse tirar toda a dor de seu olhar, tudo o que eu fiz foi ajuda-la a se levantar e a levei para minha casa. Meus pais exigiram respostas e eu as dei. Eles ficaram desconfiados e não queriam permitir aquilo, mas por fim a deixaram dormir ali.
Um banho depois estávamos nós duas em meu quarto. Sua pele tinha inúmeros pontos roxos e esverdeados aparecendo já que estava usando um pijama de calor meu. Eu a abracei e ela não chorou, apenas me agradeceu e pediu desculpas por todo o incomodo.
Incomodo era o que eu sentia em meu coração e quando nos deitamos – ela na minha cama e eu no chão – eu soube que não era apenas pena que eu estava sentindo. Eu queria dar a ela algo mais do que apenas abrigo, eu queria dar a ela conforto e tirar todo o sofrimento e as marcas da ignorância de sua mente e de pele.
Eu não podia fazer isso, entretanto.
Na manhã seguinte ela quis voltar para casa dela e nós discutimos. Discutimos como duas amigas de longa data e eu sabia que não tinha moral nenhuma para dizer a ela que ela não podia voltar para um lugar onde foi espancada só por ser diferente.
— Eles são a única família que tenho! – sua voz embargou. – Para onde eu iria?!
Eu não podia discutir com aquilo. Meus pais não a deixariam ficar mais, mas eu dei um jeito de fazê-la ficar por mais um dia e convenci meus pais de que ela precisava ao menos se recuperar de seus machucados.
Acompanhei-a até sua casa e sua mãe não disse nada quando ela entrou e fechou a porta na minha cara quando tentei falar que aquilo não estava certo.
Passei a trocar mensagens todo dia e em todo momento que eu estava com o celular na mão. Eu queria ter certeza de que ela estava bem e eu não sei se era mentira ou não, mas ela sempre me afirmou que tudo estava bem.
Demorou um mês para que eu a visse novamente na rua. Sua pele estava pálida de um jeito doentio e seu olhos estava tão roxo e machucado que na hora em que sorriu para mim, seu rosto virou uma careta de dor.
— Que merda está acontecendo?
— Vai ficar tudo bem.
Eu queria dizer para ela que nada ficaria bem se as coisas continuassem daquele jeito, mas o que eu poderia fazer sendo uma estudante que mora com os pais e não tem nenhuma forma de sustento próprio? Eu não podia oferecer nada além de palavras e ela dizia que isso era o suficiente.
É claro que isso não é o suficiente e foi isso que percebi quando numa noite de Setembro ela me mandou uma mensagem pedindo desculpas e dizendo que me amava.
Não podia ser algo bom e por mais que eu soubesse do que se tratava eu repeti para mim mesma enquanto descia as escada da minha casa aos tropeços de que aquilo não significava nada demais e que ela me amava e tudo daria certo. Daríamos um jeito.
Nós daríamos um jeito.
Levei vinte minutos correndo até a porta da sua casa e sua mãe abriu a porta assustada a me ver ali. Forcei minha passagem não dando a mínima para seus protestos imbecis. Subi tentando pular degraus e acabei escorregando e batendo meu joelho com força em um deles, mas a dor não era nada ali. Não a dor física.
Diante da porta do quarto dela os gritos de sua mãe não era nada enquanto eu esmurrava e implorava para que ela a abrisse a porta. Minha garganta doía e eu não liguei para as lágrimas quentes descendo pelo meu rosto.
Chutei uma, duas, três vezes e a maçaneta da porta cedeu. Adrenalina correndo em minha veias e eu não sei como não tive um infarto enquanto entrava no quarto metodicamente arrumado e seguia para o banheiro pequeno.
Eu gritei quando a vi jogada no chão com espuma no canto da boa e o três vidros vazios de remédios no chão.
Gritei.
Gritei.
Gritei.
Eu gritei que não, que ela não podia me deixar. Gritei seu nome, gritei desculpas por não estar ali. Gritei perguntando o que eu havia feito de errado. Gritei culpando seus pais. Gritei me culpando.
Nenhum daquele gritos iriam a trazer de volta. Nada que eu fizesse a trariam de volta.
Quando a ambulância chegou e colocaram um estúpido cobertor envolta de meus ombros alguém me trouxe um papel branco enrugado em várias parte como quando algo molha e depois de um tempo seca.
“Nada disso é sua culpa e eu sei que deve estar achando isso. Na verdade a culpa é minha por ser tão fraca então... Não se atreva a se culpar por que você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.”
Eu não queria ser a melhor coisa da vida dela. Eu queria ser a salvadora da vida dela.
Chorei e solucei diante da morte do primeiro amor da minha vida, chorei e solucei diante da minha impotência perante a sua dor. Como eu poderia ter sido a melhor coisa da vida dela sendo que ela não tinha aguentado e ido embora?
O que diabos um cobertor idiota ia ajudar naquela hora? Um psiquiatra e o olhar pesaroso de meus pais fariam alguma diferença? As ligações perdidas no meu celular de amigos facilitariam as coisas?
Não.
Nada daquilo faria diferença por que ela foi embora e eu não pude fazer nada para impedir. Ninguém a traria de volta e não importa quantas reuniões e visitas fossem feitas para tentar me fazer ver que a vida continua.
Depressão?
Ah, que termo bonito para dizer que a vida perdeu completamente o sentido. Que termo bonito para dizer que todas aquelas coisas que não estão ao nosso alcance, todas as escolhas que não são feitas por nós apenas acabam nos machucando.
É por isso que não há mais sentido de continuar com essa coisa chamada vida.
O que pode ser pior do que isso afinal?
É por isso que histórias tristes devem ser contadas. Para que sirvam de exemplo para outras pessoas, certo? Para que se agarrem e não deixem o que dá sentido a sua existência escorrer por seus dedos por que isso vai ser tão doloroso que nada vai importar após isso.
Histórias tristes devem ser contadas para que não tenham o mesmo fim que eu terei.
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