Sacrifice

2 A pequena vendedora de fósforos


Notas iniciais
Sem duvida é um dos meus contos favoritos e bem... Resolvi adapta-lo para escrever esse capitulo. È uma história bem triste e... Não culpo ninguém se derrubar uma lagrima... E então, preparados para conhecer Carrie?

Capitulo Um

A pequena vendedora de fósforos

Killian Jones

Inglaterra há muito tempo atrás

Seria muito estranho dizer que a minha história começou com um chinelo perdido nas ruas de Londres?

Talvez. Pelo menos na época não parecia.

Uma criança sem teto, órfã e perdida numa grande cidade. Um jeito breve de resumir minha infância desprezível. Um garoto de apenas oito anos com as roupas esfarrapadas, um amontoado de pano encardido que cobria os ossos volumosos moldados por uma camada fina de pele álgida rachada e ferida pelo frio e pela faca.

Estava caminhando incessantemente há dias, passos intermináveis no inverno londrino, sem receber uma única fatia de pão e deliciando-me apenas com a água suja que se apoderava das poças de lama que ainda não havia se congelado totalmente pelo inverno. Se eu fosse um menino inteligente teria roubado meia dúzia de comerciantes bobos que demonstravam suas iguarias ao ar livre, porém os princípios que minha mãe havia me deixado, seus conselhos e lembranças não me permitiam a cometer um ato como esse.

Mesmo sabendo que iria morrer ali.

–Não consigo andar mais- Murmurei ofegante, ajoelhando-me no chão coberto de neve. A neve branca e macia, gelada e aconchegante que aos poucos se salpicava de vermelho, a cor do sangue que chorava de meus pés feridos e descalços.

Pisquei, tonto, a vertigem fazendo-me ver a paisagem ao entorno levemente distorcida. Era difícil se concentrar com todas aquelas pessoas e sons, as vozes alegres e calorosas pelo espírito das festas do fim de ano, o galopar dos cavalos e das carruagens na avenida à frente. Tudo tão barulhento, alegre e irreal. Fantasioso para alguém que morava nas ruas.

–Me desculpa- Uma voz feminina e doce se entoou entre as demais, principalmente após seu corpo se encontrar com o meu. Um tropeço rápido, um acidente que nem mesmo tive consciência no momento. Estava tão distraído com tudo e com todos, com minha própria insignificância na multidão que nem... a notei ...

–Tudo... –Balancei a cabeça tentando visualizar a garota, mas ela estava distante, sua silhueta embaçada e inconclusa, os cabelos castanhos escuros soltos e selvagens, ondulados que batiam quase em sua cintura, se destacando na avenida- Bem... – Conclui para o vácuo, para ninguém.

“Mas que...” Comecei o xingamento mental, mordendo o lábio inferior de raiva. Minha mãe falava que herdará essa reação de meu pai, um pai que jamais conheci. Um gesto irritante, mas inconsciente, como roer as unhas ou mexer no cabelo.

–Ela deveria olhar para onde anda- Murmurei baixinho, tentando me levantar. Iria sofrer outro acidente se me mantivesse ali, ajoelhado. Tinha que me recompor e...

–Levantar- Falei em voz alta, notando o chinelo aos meus pés. Era um sapato grande, um número muito maior do que eu usava, disposto de uma simplicidade alarmante, antigo e extremamente usado, com uma tonalidade impossível de delimitar precisamente(um verde desbotado ou uma espécie nova e indecisa de azul?) ou mesmo se pertencia a um homem ou uma mulher.

Um único sapato, não um par. Parecia pouco, mas era o suficiente para diminuir o fardo que carregava em um dos pés.

O suficiente para caminhar mais um pouco.

Calcei-o com cuidado, preparando-me para correr um pouco mais pelas ruas da cidade. Tinha que buscar um abrigo antes que a tempestade piorasse. Era suicídio permanecer ali.

A pergunta era: Para onde eu iria?

Olhei para o horizonte, em direção onde a menina distraída tinha ido. A garota de cabelos longos e trajando um vestido rasgado e sujo havia corrido...

A verdadeira dona daquele sapato...

Sim, havia sido ela que tinha o perdido ao se esbarrar em mim. Fora ela que na pressa, havia deixado-o para trás, perdido ao relento, na neve monocolor. Algo inútil que provavelmente não faria falta para ela.

Ou será que faria?

Passei os dedos nos cabelos negros, um gesto rápido de apreensão. Novamente minha consciência estava me traindo, fazendo-me colocar a honra e o certo defronte minhas próprias necessidades básicas.

–Certo!- Grunhi, correndo em direção onde a garota havia ido. Como eu podia ser tão idiota indo atrás dela? Ela provavelmente nem precisava de algo tão inútil como aquilo!

Maldita consciência!

Comecei a correr pelas ruas, os pés pareciam tortos e errados com a diferença de estrutura daquele adorno no pé esquerdo. Escorregava e pisava no gelo em intervalos irregulares, passando e me desviando dos pedestres que me empurravam ou xingavam quando por distração tropeçava em seu caminho.

Embora a parte lúcida da minha mente trabalhasse pouco, os olhos, a visão primordial estava bem acesa e precisa. Analisava com vigor cada pessoa que passava por mim, certificando-me de quem se tratava com base nas características que possuía. Não seria muito difícil encontrá-la mesmo com a multidão. Poucas pessoas usavam vestido nessa época do ano e menos ainda deixavam seus cabelos soltos e despreocupados, sem o uso de penteados e agasalhos confortantes da moda.

“Onde você está?” Perguntava mentalmente, desesperado por não encontrar nada nem ninguém. Minhas pernas já doíam pelo esforço prolongado e a respiração se encontrava fatigada e incorreta. Talvez eu caísse nas sombras da inconsciência se continuasse assim, caminhando sem sentido por muito mais tempo.

Estava prestes a desistir quando finalmente a encontrei, no ultimo lugar que esperava encontrá-la:

Sentada, sozinha, na parede gélida e dura de um beco na quinta avenida.

Por um instante, tentei negar que era ela. A menina não poderia ser mais um indivíduo sozinho, com lagrimas silenciosas e palavras não ditas. Ela deveria ter uma família, uma estrutura estável por onde poderia voltar, com o calor e o aconchego a esperando, uma porta aberta, pessoas que dissessem que ela estava em casa.

Ela não poderia estar sozinha...

–O que você está fazendo aqui?- Perguntei para a menina. Apenas agora, com a proximidade alarmante, um passo e nada mais, que pude notar feições e características impossíveis de se determinar a distancia. A pele levemente bronzeada, os lábios grossos e rosáceos, os olhos doces, caridosos e ao mesmo tempo arredios, levemente puxados, sua íris preenchida com uma coloração singular e vivida de chocolate quente.

–Eu moro aqui- Respondeu, aproximando as pernas finas e nuas do resto do corpo, buscando desesperadamente uma fonte de calor, algo que fizesse com que seus braços parassem de tremer compulsivamente.

–Eu... È... Quer dizer... Você esqueceu o seu sapato- Eu não conseguia manter a compostura. Por algum motivo ela me deixava aéreo, distraído... Os movimentos quase tão lentos quanto meus pensamentos, confusos enquanto retirava o sapato e entregava tímido para ela.

–Pensei que jamais o veria novamente- Ela disse, esticando o braço para agarrar o objeto. — Obrigada é...

–Killian. Killian Turner- Apresentei-me, esticando a mão educadamente, assim como via os demais adultos fazendo.

–Carrie Andersen- Ela retribuiu o aperto, um pequeno sorriso nos lábios- O que você está fazendo aqui?

–Não tenho para onde ir- Confessei, sentando-me ao seu lado, os olhos fixos no chão, enquanto articulava- Eu não tenho mais para onde voltar...

–Eu sei como é sentir isso. Solidão...- Concordou, abraçando os joelhos e pousando posteriormente sua cabeça sobre eles, um sustento para o peso que sua consciência parecia carregar.

–Onde está sua família?

–Minha família... È um pouco estranho falar disso, sobre isso...- Ela parecia confusa, distante- Papai... Ele não gosta muito de mim. Ela acha que eu sou a culpada de mamãe ter falecido no dia do meu nascimento, a desgraça que acometeu a sua esposa e que levou conseqüentemente, a miséria que nos encontramos. No fundo, sei que o que ele diz é verdade. Sei que ela está morta por minha culpa, afinal se eu não tivesse nascido, nada disso teria acontecido. — Eu levantei a cabeça para olhá-la, ver sua cabeça voltada para o céu branco que parecia chorar junto com sua tristeza- Tudo, exatamente deu errado depois disso. Meu pai se afundou na bebida e não temos dinheiro para pagar as contas.- Suas lembranças pareciam dolorosas demais para ela suportar, pesadas demais para ela agüentar- È por isso que estou tentando vender esses fósforos, para ajudá-lo. Estou desde o nascer do sol caminhando pelas ruas tentando vender uma única caixa, porém nada consegui. Não fui capaz de conseguir um único e miserável níquel, nada que pudesse trazer uma mínima felicidade para casa. Nada que fizesse ele ter orgulho de mim- Lamentou, uma lagrima escorrendo pelo seu rosto, enquanto flocos de neve caiam em seus fios ondulados, levados pela brisa fria do mais congelante inverno.

–Não foi sua culpa- Rebati, agarrando sua mão, sentindo o misero calor passando como uma corrente pelos seus dedos- Você não fez nada de errado Carrie.- Insisti.

–Mas eu...

–Eu prometo- Interrompi, apertando sua mão com mais força- Prometo que vai dar tudo certo amanhã.

–Como você sabe?- Ela se virou para mim, sua áurea repleta de desesperança e amargura.

–Por que eu irei te ajudar!- Propus numa alegria e confiança incomparável.

–Promete?- O seu queixo batia, seus lábios se encontrando a cada segundo, os olhos pareciam cansados e pesados.

–Prometo- Falei, aproximando-me um pouco mais dela, o frio exalando de cada poro do seu corpo franzino.- Prometo que iremos sair logo cedo e venderemos todos, para que deste modo você possa voltar para casa.

–Casa- ela repetiu, como um eco no fundo de uma caverna sem fim- Como será que é ter uma casa... de... verdade- As palavras saiam pausados dos lábios levemente arroxeados e cortados.

–Eu... Não... Sei...- Confessei.

–Deve ser bonito nessa época do ano. Bem iluminado, uma lareira propondo um calor claro e tépido, aconchegante,com toda a família perante uma mesa suntuosa, repleta de pratos inimagináveis, uma fartura sem igual. As pessoas falam perante a mesa, cochichando o que ocorrera durante o dia, contando piadas e rindo...

–Como naquela casa- Apontei para a estrutura a frente, construídas com tijolos grossos e bem feitos. Não existiam janelas, nem nada para que pudéssemos olhar mais afundo o que estava acontecendo, mas era possível imaginar a descrição meticulosa de Carrie por detrás daquelas paredes inalcançáveis.

–Sim... Deve... Ser... Assim... — Seu corpo tremia compulsivamente, as mãos e pernas batendo uma nas outras numa intensidade muito maior do que há poucos minutos.

–Carrie você está congelando- Falei alarmado, notando o estado quase catatônico da menina.

–Eu vou agüentar. Suportei tantas noites como essa. Por que não suportaria mais uma?- Sua voz era apenas um sopro, um sussurro, tão baixo que estava sendo quase impossível escutar com clareza cada silaba.

–Espere... Eu vou te ajudar... – Comecei a retirar minha blusa fina e úmida, a única peça superior de roupa que eu tinha, a única coisa que me aquecia naquele ultimo dia do ano- Toma...-Entreguei para ela a veste, as mãos tremulas tentando finalizar o gesto de apoio.

–Não precisa fazer isso, Killian. Nós... Nós podemos usar os fósforos para nos aquecer... — Ela lembrou, enfiando a mão desesperadamente no único bolso do seu vestido.

–Não!- Gritei, interceptando o gesto bruscamente, agarrando seu punho com toda a força que tinha- Você não pode fazer isso. Temos que vender todos os fósforos amanhã, esqueceu-te? Eu prometi que ia te ajudar a voltar para casa e não poderá fazer isso se não o vendê-los.

–Mas...

–Por favor. Eu... Não quero que você perca sua família- Falei com um tom de voz inocente, as sobrancelhas grossas arqueando-se com a imagem que se refletia em sua mente. Uma pessoa sozinha, abandonada, olhando para um futuro que não existia.

–Mas e você?

– Não precisa se preocupar comigo- Afirmei, entregando a blusa com insistência, quase forçando-a a pegar o traje.

–Por que está fazendo isso por mim?Por que está me ajudando?- Insistiu a morena, os olhos oscilantes, buscando respostas nos meus.

–Por que eu não quero que ninguém acabe como eu- A sinceridade me surpreendeu, quase tanto quanto as lembranças carregadas junto a ela. Eu realmente não queria que isso acontecesse com ela. Se havia uma chance, mesmo que seja mínima para me redimir com esse mundo, eu iria fazer isso.

–Obrigada- Agradeceu por fim, enquanto colocava desajeitada a veste que eu lhe dera. Era possível perceber que as mangas ficariam muito largas e compridas,mais desproporcionais do que a mesma era para mim.

–Não foi nada.

–Estou cansada... — Reclamou, pousando sua cabeça em meu ombro, o corpo ainda trêmulo, porém menos do que antes.

–Pode dormir. Temos que descansar para estarmos mais fortes e preparados pela manhã.

–Isso me lembra as noites que passei com a minha avó. – Falou repentinamente entre os lábios rachados- Todas as noites, ela ia até o meu quarto, me abraçava e me desejava bons sonhos, antes de apagar a vela e sair e incrivelmente toda vez que ela falava isso, eu tinha. Eram gestos simples e insignificantes, mas aqueles pequenos momentos foram os melhores da minha vida. — Suas pálpebras começaram a ceder, caindo aos poucos na inconsciência. — Você mesmo não fazendo parte da minha família, me fez voltar a lembrar desses momentos. — Confidenciou.

Nas ruas o som da alegria e comemoração ao inicio do novo ano se iniciavam. Gritos e urros se espalhavam pelas ruas animadas. Sons de brindes e canções típicas incitavam-se ao longe. Pessoas felizes que tinham o que e o porquê ficarem felizes.

E eu, mesmo sentindo minha vida se esvair no frio e o corpo ceder à vertigem e os calafrios provocados pela febre e a doença, tinha porque comemorar.

–Feliz ano novo Carrie- Felicitei-a. As últimas palavras que meus lábios conseguiram produzir antes de cair nos braços abertos da inconsciência e do esquecimento.

Notas finais
E então, gostaram? O próximo capitulo só sai com reviews, então comentem, caso estejam gostando (ou não) da fic!