Sacrifice
1 Único
Notas iniciais
- Serão necessárias três pessoas para o feitiço funcionar. – disse a Fada Azul olhando para o corpo ferido e inconsciente de Emma. – Uma para receber as cicatrizes, uma para doar o sangue e uma para realizar o encantamento.
O hospital estava silencioso. Dr. Whale estava no canto com os braços cruzados olhando ao redor. Mal parecia o médico cheio de piedade que acabara de falar para Charming e Snow que Emma nunca mais acordaria.
Os anões faziam uma pequena barreira humana ao redor do quarto de Emma e o resto da cidade se enfiava no hospital lotado para ver o que estava acontecendo. Henry nos braços de Ruby soluçava sem parar, lágrimas correndo pelo seu rosto vermelho e assustado. Ruby o segurava com força e olhava para a figura loira adormecida na cama, torcendo para que ela acordasse logo e acabasse com aquela loucura. Snow nos braços de Charming olhava para a Fada Azul com seriedade.
- Ótimo, então faça. – disse Snow sem pensar duas vezes. – Se esse feitiço vai trazer a Emma de volta, então use a mim e ao Charming.
- Ela é nossa filha, faça agora. – disse o homem.
Ambos estavam com os rostos vermelhos. Assustados, furiosos e determinados. A Fada Azul suspirou e fez o que achava certo:
- Não posso. – disse. Snow iria retrucar, então firmou a voz e continuou. – Grumpy disse que conseguiu achar um pouco de pó de fada, eu preciso ver a quantidade e mesmo se for o suficiente, eu não posso fazer esse feitiço com a ajuda de vocês dois.
- Ela é nossa filha! – exclamou Charming ficando com mais raiva. Houve exclamações fora da sala. Soltou Snow e ambos se aproximaram. – Não ouse falar que não podemos ajudá-la!
A fada não recuou nem mesmo se sentiu intimidada.
- O feitiço não é 100% seguro. Eu o fiz poucas vezes e nem sempre deu certo. – suspirou – Na verdade, na maioria das vezes, o feitiço falha.
- Você disse- começou Snow com os olhos cheios de lágrimas.
- Eu sei o que disse. – continuou a fada – E é exatamente por isso que não posso usar vocês dois. Se o feitiço falhar, a vida de vocês correrá grande perigo e há a possibilidade de que os percamos. – mais exclamações – E o que será de nós quando isso acontecer? Eu entendo que Emma é a sua filha amada, Snow, mas a cidade precisa de sua Rainha.
- Mas-
- Quem cuidará de Henry quando vocês se forem? – indagou.
Snow e Charming se voltaram para o garoto que ainda chorava nos braços de Ruby.
- O preço é muito alto e a cidade não pode pagar.
Snow passou a mão pelos cabelos e se aproximou de Emma. Não impediu as lágrimas de começaram a descer por seu rosto mais uma vez.
A loira respirava através de aparelhos, os cabelos loiros espalhados pelo travesseiro e ataduras por todo corpo. Ela parecia pacifica, como um anjo.
- Ela parece só estar dormindo. – disse Snow, soltou um soluço. – O que vamos fazer?
Charming a abraçou, beijou os cabelos negros e jurou:
- Vamos salvá-la. – virou-se para Blue – Eu posso oferecer meu sangue. Só eu. Se algo acontecer, Henry e a cidade ainda terão Snow.
- Charming. – sussurrou Snow se virando para ele. – Eu não posso te perder também.
- Você não vai. – ele prometeu. Os olhos azuis estavam vermelhos, de sono, de tanto chorar. – Eu vou encontrá-la. Sempre.
Snow o abraçou e muitos “ahhhs” foram exclamados. Snow abriu um sorriso triste para os espectadores.
Blue pareceu satisfeita.
- Assim, só precisamos de mais uma pessoa para arcar com as cicatrizes.
- Eu faço. – disse Ruby.
Snow a olhou com medo e Charming assentiu.
- Ela é minha amiga, eu faço.
- Tem certeza? – indagou Blue – Como eu disse, o feitiço pode falhar e se isso acontecer, eu não garanto a sua vida.
- Tenho certeza. – disse firmemente e olhou para Granny, que ajudava na muralha humana ao redor do quarto. Eugenia “Granny” Lucas assentiu com os olhos cheios de lágrimas e Ruby sorriu. – Eu vou conseguir. – afirmou – O Lobo é mais resistente do que parece.
Blue concordou e Snow correu para abraçá-la. Henry aproveitou o momento para se aproximar de Emma.
- Vamos conseguir, Henry. – disse Charming tocando o ombro do rapaz.
Henry assentiu, mas não tirou os olhos do corpo machucado de Emma. Snow tinha razão, parecia que Emma estava dormindo pacificamente. O peito levantando calmamente, o barulho da máquina estável, o sangue já seco nos restos de roupas e ao redor dos ferimentos.
Tremendo, ele tocou uma das mãos da loira. Estavam ásperas, mas ainda quentes.
Era culpa dele. O estado de Emma era culpa dele e Henry sabia que ele nunca se perdoaria por causa disso.
Há dois dias, Henry pedira a Emma para passarem na mansão de Regina. Ele tinha alguns quadrinhos que queria ler. Snow o aconselhou a ligar a ex-prefeita e pedir para que ela pegasse os quadrinhos, mas ele não quis.
“Eu ainda não sei qual pegar.” – explicou – “Eu só quero esquecer da guerra, só um pouco.”
Cora estava ameaçando um ataque e Hook já tinha tido uns encontros nada pacíficos com Gold. Todos estavam com medo, mas Snow e Charming preservavam a ordem.
“Temos a Salvadora e nossos governantes.” – dizia Grumpy – “O que um pirata e uma bruxa velha podem fazer?”
Acontece que eles podiam fazer bem mais do que era esperado. Gold recuara nas lutas em que Cora aparecera e Regina interrompera algumas vezes, sempre no final do confronto para impedir maiores danos. Emma brincara com a situação: “Eles (Gold e Cora) parecem pais divorciados que não se agüentam e brigam o tempo inteiro, até que a filha (Regina) os interrompe.” Ruby falara que ela já tinha visto outra situação bem semelhante em Storybrooke.
Mas todos sabiam que Cora só os estava testando e os conhecendo. Gold dizia que ela provavelmente estava mais preocupada em convencer Regina a ir com ela do que lutar contra a cidade. Hook, por outro lado, parecia cada vez mais desesperado em suas táticas e se não fosse por Cora, o velho pirata já teria virado uma lesma.
No meio de toda aquela confusão, Henry pediu para Emma ir até a mansão de Regina para pegar gibis. Até então, não tinha problema nenhum. A ex- Rainha Má o atendeu com muito prazer e o acompanhou até o quarto do rapaz no segundo andar dizendo que comprara umas revistas novas para ele. Emma ficou para trás e fechou a porta com um sorrisinho. Subiu as escadas calmamente olhando ao redor enquanto ouvia o rapaz falar animadamente de alguma coisa. Mesmo com a guerra e tantos inimigos perigosos, a loira ficava feliz que o rapaz ainda se mostrasse tão otimista com tudo.
Emma olhou pela janela do segundo andar e se maravilhou um pouco com a paisagem, parecia tudo tão calmo. O pequeno jardim, que Regina ainda cuidava, passava uma sensação de paz. Deu as costas para a janela quando ouviu Regina e Henry rindo de algo e foi um grande erro.
Emma parou no meio do corredor, não conseguia se mexer nem gritar. Mentalmente, ela gritava implorando para que alguém a ouvisse. Emma estava presa. Sentia algo ao redor dos seus braços, de suas pernas, de sua cintura e de seu pescoço e esse algo a estava puxando. Lutou com tudo que tinha, mas a força que a puxava era muito forte.
Ela conseguiu lutar contra a força invisível pelo, que pareceu, minutos e quando menos esperava, a força triplicou. Quando sentiu seus pés saindo do chão, ela conseguiu gritar algo e antes de ser jogada contra a janela, ela viu Regina entrando no corredor e correndo com um braço esticado, seu rosto estava pálido e assustado. O impacto com a janela a deixou tonta, mas a força invisível não parou de puxá-la e Emma voou por alguns segundos. O objetivo era que Emma caísse no bug amarelo ou de preferência contra algum galho da árvore que, sem querer, perfurasse seu corpo. Naquele momento, suspensa no céu com os braços machucados e sangrando, Emma achou que fosse morrer.
Uma segunda força a puxou da trajetória traçada pela primeira e Emma ouviu Henry gritar. No fim, algo aconteceu e ela caiu no chão. Sem mais nem menos.
A ambulância a tirou de lá o mais rápido possível. Minutos depois, Charming apareceu na mansão e pegou Henry, não antes de lançar um olhar enfurecido para Regina, que silenciosamente aceitou a culpa.
Henry não disse nada, muito assustado e surpreso para pensar direito.
E assim, a Fada Azul declarou que o que tinha acontecido era obra de uma magia negra simples, mas eficaz. Cora provavelmente estava por detrás disso. E ainda ofereceu uma saída.
- “Há uma forma de salvar Emma: corpo e mente. Mas é perigoso e o resultado não é garantido. Eu vou precisar de duas pessoas. Uma doara o sangue necessário para a recuperação de Emma, tem que ser alguém compatível, forte e em plena saúde. Essa pessoa ficara terrivelmente debilitada por alguns dias, mas irá sobreviver. A segunda pessoa absorverá os ferimentos de Emma, as cicatrizes desse encontro com a morte.”
Toda mágica tem seu preço e trazer Emma de volta resultaria em completa exaustão para a Fada Azul, litros de sangue de um voluntário e o corpo saudável de um terceiro.
Ficou decidido que as três pessoas seriam: Charming, Ruby e Blue.
Blue pediu que todos descansassem. No dia seguinte, pela manhã ela começaria o encantamento e seria demorado além de muito doloroso. Grumpy deveria deixar o pó de fada no quarto de Emma e Blue prometeu ficar de guarda durante aquela noite.
— O dia será longo. – disse para Charming e Ruby – Comam muito bem e descansem bastante. Se vocês estiverem cansados, o feitiço provavelmente falhará. – olhou para Henry – Cuide bem do seu avô.
O rapaz tentou sorrir, mas estava cansado e triste demais para isso.
=
Ruby se levantou antes mesmo do sol aparecer. Ainda estava cansada, mas não conseguia mais dormir. Estava ansiosa e a último coisa que queria era atrasar Charming e Blue.
Granny já tinha a mesa lotada de comida quando Ruby foi até a cozinha.
- Não consegui dormir. – foi a resposta de Granny para a pergunta não feita. – E eu comecei a cozinhar.
- Vai dar tudo certo. – prometeu Ruby se aproximando de Granny e a abraçando. – Eu estou fazendo o que é certo.
- Eu sei. – respondeu Granny respirando fundo e retribuindo o abraço – Mas isso não me faz ficar feliz com a situação.
O telefone tocando fez as duas se separarem.
- Vá comer. Eu atendo. – disse Granny sorrindo para a neta e a empurrando para a mesa.
Ruby riu e não demorou em pegar o que pode. Tinha que se alimentar bem para suportar o feitiço, por Emma.
O ataque de Cora a Emma foi a noticia na cidade e todos estavam temerosos e furiosos com a situação. Uma coisa era entrar na cidade jogando bolas de fogo, outra era atacar sorrateiramente usando um feitiço sujo para derrubar a Salvadora. Claro, todos preferiam a primeira opção.
Alguns jogavam a culpa em Regina, afinal Emma estava na casa da bruxa quando o ataque aconteceu. Mas, Henry jurava que Regina não tinha feito nada e Blue foi muito objetiva quando disse que se Regina não tivesse feito o contra-feitiço, Emma estaria morta no momento. Ruby sentia dificuldade de respirar em só imaginar o que teria acontecido se a Emma estivesse em outro lugar, com alguém que não pudesse fazer nenhum tipo de mágica para salvá-la.
Tremia só de pensar na possibilidade.
- Ruby, temos que ir agora. – disse Granny voltando a cozinha. Ela desligou o fogão, tirou o avental e o jogou em algum lugar. – Cubra as comidas e precisamos ir agora.
- Estamos atrasadas? O que houve? – indagou Ruby se levantando com um pedaço de bolo nas mãos. Olhava ao redor sem saber o que fazer. Era tarde demais? Algo tinha acontecido com a Emma?
Granny suspirou e olhou para a neta com preocupação.
- Era Snow. – começou Granny e Ruby pensou em todas as coisas terríveis que poderia ter acontecido. — Emma acordou.
Ruby não respondeu por um momento. Tentou entender a situação, mas não conseguia. Lembrou-se do corpo quebrado e machucado do dia anterior e não existia qualquer possibilidade para Emma acordar.
- Mas é impossível.
- Acho que não. Charming e Snow chegaram mais cedo para ajudar nos preparativos e se surpreenderam quando Emma acordou. Fizeram testes e mais testes, mas ela está perfeita. Sem um arranhão, completamente lúcida e com muita disposição. Snow disse que é realmente como se Emma só estivesse dormindo.
- Mas o feitiço...
- Não foi feito. Pelo menos Blue disse que era impossível. O pó de fada está intocado. Charming e você estão bem.
- Então, o que aconteceu?!
=
Gold não precisou bater na porta da mansão. Ele sabia que ninguém poderia atendê-la. Estralou os dedos e a porta se abriu. Como esperado, a dona da mansão não tinha conseguido manter o encantamento na propriedade. Entrou e fechou a porta, silenciosamente.
Olhou ao redor. Só sentia uma presença na casa e vinha do quarto, no segundo andar. O quarto principal provavelmente. Subiu as escadas com cuidado, evitando os pedaços de vidro. A Janela ainda estava destruída. Suspirou e com um movimento simples, o cacos sumiram e a janela estava perfeita.
Um pouco de mágica fazia tudo melhor.
Andou calmamente até o quarto principal e com prazer viu que pelo menos esse cômodo estava enfeitiçado. Fracamente enfeitiçado, não manteria Cora longe, mas pelo menos avisaria a pessoa no quarto em caso de intrusos. Gold sorriu e tocou na porta destruindo o encantamento. Bateu na porta três vezes e entrou.
A visão não era bonita. O quarto cheirava a sangue e remédios. Havia restos de bandagens e embalagens abertas espalhadas pelo chão.
- Está aqui para admirar minha falha? – veio a pergunta rouca e fraca da cama.
- De forma alguma. – disse forçando um sorriso. – Mas se Cora te descobrir nesse estado, teremos problemas. Não acha melhor abrir as cortinas?
- A claridade machuca os meus olhos. – um suspiro. – Estou cansada. Volte mais tarde.
- Cansada? – indagou se aproximando da cama.
Regina estava deitada de bruços. Suas costas viradas para cima cobertas por bandagens ensangüentadas.
- Vai embora, Gold. – ameaçou.
O homem sentou-se no canto da cama.
- Mágica não vai fazer a dor nem o sangue sumir. Provavelmente as cicatrizes vão ficar ai para sempre. – comentou desinteressadamente.
- Eu sei como o feitiço funciona, Gold. Obrigada.
Silêncio. Regina voltou a fechar os olhos. Quanto mais dormisse, mais força recuperava. Não demoraria muito até voltar a antiga forma, portando mais cicatrizes do que nunca.
- Por quê? – veio a pergunta. Não era inesperada realmente.
Regina abriu os olhos. Pensou em mentir, em trocar de assunto, em falar qualquer coisa, mas... Estava cansada.
- Ela precisa continuar viva. Ela precisa proteger Henry. Minha mãe não vai parar e aquilo foi só uma prova de que ela está disposta a tudo para vencer.
- Eu a ensinei bem.
Ela soltou uma risada.
- Bem demais.
Novamente silêncio e ela fechou os olhos.
Gold a olhou. Seria tão fácil matá-la naquele estado e ela sabia, melhor, ela esperava. Aquele feitiço drena completamente os envolvidos e Regina não era uma exceção.
- Você vai dormir agora. – disse – e só acordará quando a dor passar. – colocou uma mão na testa da bruxa quase adormecida.
Regina não teve forças para reclamar e logo adormecera profundamente. Gold olhou ao redor e com um simples movimento de uma das mãos fez com que as ataduras e os remédios sumissem e fossem substituídos por novos. O cheiro no quarto mudou. Agora cheirava a mágica.
-Ah!- exclamou. Esquecera de perguntar quem a tinha ajudado com o feitiço e quem tinha doado o sangue para Emma. Suspirou. Agora já era tarde.
Levantou-se e saiu do quarto.
Ele podia matá-la agora, facilmente, mas seria fácil demais, simples demais. Gold sabia dar valor às suas peças mais importantes e com Cora em Storybrooke, sua Rainha caída voltara a ser parte central do tabuleiro. E a Rainha só tinha valor viva.
- “Não tenho medo de cicatrizes, Gold. Eu já tenho muitas e impressionantemente parece que ainda posso ter mais.”
Saiu da mansão e lançou um encantamento na propriedade. A casa desapareceria para qualquer um sem ser ele e só voltaria a reaparecer quando Regina abrisse os olhos depois dos dias de descanso. Ela precisava estar mais forte para enfrentar Cora,até lá ele suportaria as perguntas e redirecionaria o interesse de Emma e qualquer um que tentasse contatar Regina.
Era simples realmente.
Se Cora a achasse, ele perderia peças muito importantes e isso não podia acontecer.
Decidiu voltar para a loja o mais rápido possível, logo a família Charming chegaria exigindo respostas e felizmente, ele não as tinha completamente.
Ah sim, a ironia.
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