Sacred
1 Perigo nas Ruas
Sexta-feira, 21 de abril de 2006. Este foi o dia em que absolutamente tudo em minha vida começaria a mudar. Tudo mesmo.
Era uma noite um tanto atípica em Angelbrooke, as ruas estavam vazias e silenciosas, algo bem parecido com aqueles livros e filmes de terror, dos bem clichês. Eu estava voltando da casa de uma das minhas amigas, Rachel Jones, onde havia passado mais da metade do dia. Minha casa não era muito distante dali, apenas algumas quadras de distância.
Me lembro de cantarolar uma de minhas músicas favoritas durante o percurso de volta para casa, mas fui interrompida por um pedido de socorro — um grito para ser mais exata — vindo de um beco não muito distante dali, aquela voz pareceu uma lâmina em minha espinha. Curiosa, me desloquei até lá. Marchei à calcanhares trêmulos até o beco, que era composto apenas por tijolos rachados e limo entre suas fendas, ousei somente espiar sorrateiramente o que ocorria. Havia um homem, ele rastejava entre duas daquelas lixeiras gigantes, buscando apoio em algo para se levantar, desenhava uma faixa de sangue conforme se movia. Àquela altura minhas mãos já estavam trêmulas, minha garganta estava seca, eu gritaria se não estivesse com medo demais para o fazer.
Surgiram então alguns homens (cinco talvez), eram estranhos, suas peles pareciam com as de répteis, eram escamosas e nojentas, seus olhos cintilavam em um escarlate intenso, mas não possuíam íris, eram apenas um globo avermelhado. As unhas eram grandes, afiadas, sujas e escuras, os dentes eram pontiagudos e amarelados — podia imaginar o ótimo hálito que tinham. Eles cercaram o homem que a pouco rastejava, um dos homens-réptil aproximou-se dele e sem hesitar um segundo sequer, quebrou o pescoço dele. Quando dei conta, já estava gritando, apavorada com que acabara de presenciar. Não preciso dizer que meu grito atraiu a atenção daqueles caras e eles vieram atrás de mim, não é?
Eu já estava correndo há mais de dez minutos, estava ofegante e suada, eles, por outro lado, não pareciam sequer diminuir o passo. E como se as coisas não estivessem terríveis, havia começado a chover, eu estava ensopada, havia água até nas minhas meias. Um deles saltou para o telhado de uma casa, usando os telhados como piso. Estava desesperada, aquilo só poderia ser um pesadelo. Acabei por entrar em uma rua sem saída, fitava os lados na tentativa de achar uma rota de fuga. Nada. Não demorou muito para que eu fosse cercada por eles, eram ainda mais asquerosos de perto, e fediam a... enxofre e papel queimado. Eles riam satisfeitos, pareciam ter obtido mais uma conquista, no caso, eu.
— Esta vai servir, com certeza! — murmurou um deles, aproximando-se de mim.
— Olha, eu não vou contar à ninguém o que vi. Eu prometo.
Forcei um sorriso
— Estão aqui! Ela os atraiu! — exclamou o outro, preocupado
Não sabia exatamente quem eram "eles", mas lembro de levar um belo de um arranhão no rosto, que teria atingido meu olho se eu não tivesse me virado. Aquilo ardia, ardia muito mesmo. Senti o sangue verter de minhas bochechas, não sabia exatamente como estava aquilo, mas sabia que não seria considerada a oitava maravilha do mundo.
Os homens-réptil encaravam o céu, preparando-se para algo, a questão era bem simples: "O quê?". Não demorou muito para que um trovão ensurdecedor ecoasse e descessem do céu três figuras encapuzadas. Um deles sacou o que parecia ser uma espada, prateada e reluzente, atingindo um dos homens-réptil no peito, fazendo-o desfazer-se em chamas. Claro que aquilo só me fez ficar ainda mais desesperada, mas desta vez eu não tinha forças nem mesmo para gritar, minha visão, aos poucos, ficava mais embraçada e escura, chegando ao ponto de eu ser capaz apenas de ver borrões em movimento.
Instantes depois, era capaz apenas de ouvir vozes distantes, ecoando em minha cabeça, sabia que ainda estava acordada, só não tinha forças para mover um músculo do corpo.
— Victor, o arranhão no rosto dela. Está envenenada. — sua voz era delicada, claramente uma mulher
— Não há nada que possamos fazer... — esta voz, entretanto, era mais grave, com um sotaque britânico notável.
— Vamos deixá-la aqui? — ecoou uma voz também grave, mas diferente primeira.
— O que mais podemos fazer, Garan?
— Vamos levá-la para Bernard, oras! Nosso dever sagrado é proteger os humanos, custe o que custar, se esqueceu, Victor?
As vozes iam ficando cada vez mais distantes, até o ponto de sumirem completamente, mergulhando-me no mais completo e silencioso sono.
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