Sabor de Sangue

21 Capítulo 17


— Qual é o seu problema?

Angela ergueu os olhos de suas mãos fechadas em punhos no colo e se deparou com Annielle, fitando-a como se tentasse resolver um problema matemático complicado.

Qual era o seu problema? Ela gostaria de ter uma resposta para tal pergunta. Há horas vinha sentindo uma sensação estranha, um aperto no peito, algo que despertava seu lado emocional de uma forma que ela não sabia discernir ser boa ou ruim. Naquele dia mais cedo tinha sentido uma onda de poder que parecia atraí-la, chamando-a em sua direção. Algo que nem seus sentidos apurados conseguiram localizar com precisão. E não parecia que mais alguém havia sentido aquilo também, já que o maior motivo de inquietação na sede da Aliança era outro.

— Eu poderia perguntar o mesmo — rebateu, sem querer dar uma resposta que acreditava não ser capaz de colocar corretamente em palavras. — Não é como se uma simples reunião fosse destruir a cidade de Londres. Vocês não deviam ficar tão nervosos e irritadinhos.

— Quando o maior líder dos lobisomens do país, e até mesmo de fora dele, convoca todo seu círculo íntimo para uma reunião urgente e privada na qual nenhum membro da Aliança pode se infiltrar, não é algo que pode se chamar de simples. Eles ainda mantêm laços com Henrique, então, no momento, esse é o pior cenário — Annielle a encarou fixamente, parecendo querer deixar tudo o mais claro possível. — Estou tão irritada com isso que nem tenho humor para ir atrás de Hyden Morgan — cruzou os braços, empertigando-se. — Pronto, falei. Agora, você vai me dizer o que aconteceu pra te deixar assim. Desde que chegou aqui se enfiou no meu quarto como se fosse o lugar mais fascinante e nós sabemos que não é. Mentiu quando o meu irmão perguntou se você estava bem, apesar de ser uma pergunta idiota, já que vocês estão ligados pelo sangue graças ao Pacto e ele sabe muito bem como você está se sentindo, mas como o cara bonzinho que é, tentou não ser muito invasivo. Agora, você continua aqui em cima com essa cara de quem comeu e não gostou e ele está lá em baixo, ligando para todos os informantes que puder, tentando conseguir uma maldita informação, mas preocupado demais com você para se dedicar cem por cento. Isso é um grande problema!

Suspirando, Angela se remexeu na beirada do colchão da cama da amiga e apertou o lençol negro com as mãos de cada lado do corpo.

— Eu não menti para o Daniel — disse primeiro. — Eu estou bem.

— Claro, estou vendo — ela não deixou passar o tom irônico de Annielle ao dizer aquela simples frase.

— É sério. Eu só estou com uma sensação ruim — levou uma mão ao peito e fechou sobre o coração. — É como se algo ruim tivesse acontecido com alguém em algum lugar. Alguém importante. E eu não consigo tirar isso da cabeça.

A dhampir franziu o nariz e Angela soube que ela estava incomodada pela conversa ter partido para um nível mais sentimental. Não era um tema no qual Annielle estava acostumada ou se sentisse a vontade. Mas, assumindo uma postura mais suave, ela tentou sorrir.

— Angie, você nunca teve habilidades sensitivas desse modo. E todos nós estamos bem. Deve ser apenas impressão sua. Isso já aconteceu antes, lembra?

Sim, ela lembrava. Ao longo de sua infância, Angela teve sensações bastante parecidas, que no fim não davam em nada e ela acabava ignorando, para, por fim, esquecer. Mas dessa vez era diferente, porque aquela presença, nunca parecera tão próxima. Porém, ela não queria contrariar Annielle, estendendo aquele assunto ainda mais, e por isso, deixou que seus lábios imitassem o sorriso da amiga, hesitante e desconfortável, porque era o máximo que conseguia fazer naquele instante.

— É verdade — falou, levantando. — Você está certa, não deve ser nada — olhou da amiga para a porta, chegando a melhor decisão que acreditava poder tomar. — Já está tarde. Eu vou indo antes que a minha mãe mande uma dúzia de bruxos atrás de mim.

Annielle sorriu um pouco mais.

— Ok. Lembre-se de dizer tchau ao Danny antes de sair.

— Eu vou.

E logo que saiu da presença da amiga, a princesa das bruxas puxou o ar, procurando calma no fundo de si mesma. Ela tinha que afastar aquela sensação estranha se quisesse deixar de preocupar as pessoas.

♥♥♥

Foi como se uma corrente de ar massiva lhe atingisse em cheio e seu corpo se movesse por conta própria com a sensação desconfortável. Erin mal abriu os olhos e quando se deu conta, já estava de pé, olhando ao redor, se situando.

Estava em seu quarto e tudo estava escuro. Não sabia como ou quando tinha chegado ali, mas deduziu que alguém deveria tê-la levado. E esse mesmo alguém tirou seus saltos, deixando-a descalça.

Andando com passos leves até o interruptor, ela farejou o ar. O odor pungente de sangue, um dos motivos que a haviam lhe despertado, exalava pela casa, trazendo-lhe dúvidas e retalhos de memória. Lembrava do ódio que sentira, da sua falta de controle e até mesmo de alguma coisa sobre sua luta com Elora. Mas por mais que tentasse recordar de todos os acontecimentos por completo, tudo parecia se misturar e recortar ainda mais em sua mente, tornando-se fragmentos que ela não podia entender. E talvez não quisesse. Não agora quando estava no controle de si mesma novamente.

Quando a luz das lâmpadas de LED finalmente iluminaram o quarto, Erin piscou rapidamente, se adaptando a claridade. Respirou fundo pegando a maçaneta e abriu a porta, saindo para o corredor. E então andou pé ante pé, sem nem mesmo se preocupar com a hipótese de fazer barulho, já que a tempos tinha se adaptado a andar levemente. Descartou de seus pensamentos até mesmo as dúvidas que lhe atingiam e os sentimentos ruins. Tudo que ela queria saber no momento, era porque Hyden estava sangrando com tamanha intensidade em sua casa e emanando uma forte energia, diferente de tudo que sentira antes.

— Oh, meu Deus! — a exclamação saiu pela boca de Erin assim que ela chegou às escadas e viu o que exatamente estava acontecendo. Desceu os degraus rapidamente, aproximando-se dos irmãos. — Pode me explicar porque seu irmão está sangrando no meio da minha sala?!

Gabriel franziu a testa, olhando para ela como se dissesse “ah, você está aí” e depois sorriu.

— Não acho que o chão acarpetado de um dos quartos seria muito melhor. Tivemos um pequeno problema com isso na outra noite.

— O que diabos aconteceu aqui? — abriu os braços, olhando os móveis afastados ao redor da sala e para Hyden, encurvado no chão.

— Ela decidiu obedecer a nossa adorável mãe, só pra variar.

— Adorável… um inferno — Hyden disse, respirando com dificuldade. Ele obviamente estava sentindo muita dor e cansaço, pois mantinha seu corpo retraído e puxava o ar com força. O simples ato de respirar parecia exigir muito dele.

— Eu só não quero… ter o desprazer de ver… a cara daquela mulher tão cedo.

Sangue vermelho e dourado fluía de rasgões em suas costas, mescando-se com uma luz azulada do que pareciam ser chamas. Erin tentou imaginar o que poderia ter causado aqueles ferimentos, quando percebeu:

— Você tem uma capacidade regenerativa extraordinária.

Ajoelhou-se ao lado dele, ignorando o sangue que manchava o chão e estendeu a mão para tocá-lo.

— Se tentar alguma gracinha — Gabriel falou — eu corto seu braço fora.

Erin quase sorriu por perceber que ele estava falando sério. Mas o olhou, deu de ombros e afastou a mão. Não por saber que a ameaça era verdadeira, mas porque seu interesse tinha mudado de foco. Hyden não tinha se incomodado com a proximidade e a curiosidade dela. Não tinha se afastado.

— Gabe… poderia sair um pouco? Quero conversar com ela.

Pelo amor, o quê que é isso?!

Gabriel assentiu e se dirigiu a porta. Antes de sair, olhou para Erin por cima do ombro e seus lábios se curvaram num pequeno sorriso. Ela queria saber o que ele significava e ainda mais, o que eram aquelas oscilações de humor, as quais os dois irmãos pareciam apresentar.

— Você parece menos arisco — comentou, quando estavam sozinhos, sem disfarçar a surpresa por completo.

— O que eu sou, um gato? — sua respiração já estava mais calma, ela percebeu. Seu sorriso, diante da pergunta dele, fez com que Hyden revirasse os olhos. — Esqueça.

Plantando suas mãos no chão, Erin se sentou onde antes estivera ajoelhada.

— Então, que sangue bizarro é esse aí? — indagou, descontraída.

A cara de tédio do garoto a sua frente era quase cômica.

— Realmente, era tudo que me faltava. Você, pirralha… de todas as pessoas, dizendo que algo sobre mim é bizarro. — Erin franziu os lábios. As perguntas voltaram a se acumular, mas ela decidiu deixar tudo em ordem. — Minha mãe é um anjo. E isso não poderia estar mais longe de um elogio… estou falando literalmente. O que você vê aqui, é a minha aparência depois de libertar minhas asas pela segunda vez depois de muitos anos.

Sua boca se abriu em choque.

— Anjos existem de verdade? Isso é fantástico! Está explicado o porquê de eu não reconhecer seu sangue, juro que nunca vi um anjo na vida!

— Não é possível que você não soubesse da existência deles.

— Costumo a acreditar no que eu vejo, não no que ouço por aí. Mas eu já vi demônios de classes menores, então pensei que fosse uma possibilidade. Ei, espera, você disse que essa é a segunda vez depois de muitos anos? Imagino que a primeira tenha sido na noite passada, já que Gabriel disse aquilo sobre o carpete. Porque você não fez isso antes?

— Porque eu não quis — Hyden olhou em seus olhos e ela sentiu cada uma daquelas palavras com sinceridade. — Parei quando era criança porque era muito doloroso e porque queria uma vida o mais normal possível em vez de continuar obedecendo aos desejos dos meus pais. Se eu tivesse continuado o treinamento, hoje em dia seria tão fácil como respirar, mas como negligenciei o meu lado anjo, estou pagando esse preço.

— Ah, entendi. Na verdade, você é estúpido — ela disse.

Ele não se deu o trabalho de discordar.

— Agora que eu tenho o corpo quase adulto, vai ser mais fácil me adaptar. O que são duas ou três semanas de sofrimento comparada ao prazer de passar meses sem ver Mikaela de novo?

Hyden sentou mais ereto e ela percebeu que o ferimento em suas costas estavam quase curados.

— Parece que você odeia sua mãe ainda mais do que o Henrique.

Porquê?, era o que ela queria perguntar.

— Não é que eu odeie um mais do que o outro. Mas são formas diferentes de odiar e por motivos ainda mais distintos. Como um pai, em geral, Henrique não é tão ruim, porém eu odeio a pessoa que ele é como um dhampir. Como o rei dos vampiros. Como um amigo traidor. Mas eu não quero falar sobre mais sobre isso.

Apoiando uma mão no chão, Hyden se levantou. Erin observou aquela mão manchada do sangue que tinha começado a se coagular e seguiu seu exemplo.

— Eu vou limpar todo esse sangue agora, e você deveria tomar um banho. Meu sangue e o de Elora estão em você toda — explicou. — Então, quem sabe quando terminar, você possa descer pra comer alguma coisa, parar de ignorar o que aconteceu essa tarde e começar a fazer perguntas que envolvam a si mesma.

Hyden a pegou pelos ombros e a girou no lugar, então lhe deu um pequeno empurrão em direção as escadas. Erin sabia que ele estava certo, mas precisava admitir que estava com medo do que poderia ouvir. No entanto, esse medo não foi o suficiente para impedi-la de obedecê-lo. Até porque, se tinha algo que a estava deixando extremamente curiosa, acima do paradeiro de Elora e Kaz, acima de suas memórias fragmentadas, era o porquê de o inalcançável e evasivo Hyden, ainda que um pouco ranzinza, de repente parecer tão paciente e amigável em sua presença.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.