Notas iniciais
Nem sempre as coisas são o que parecem ser.

Uma brisa mais forte soprou, dissipando um pouco a névoa da floresta. Uma pequena silhueta curvada há uns cinco metros de distância pôde ser vista ao longe. Nesse momento a figura misteriosa olhou para trás e, para alívio de Arryn, não passava de um macaco de pelagem negra.

— Vem amiguinho, me dá minha mochila. – Disse com um sorriso amistoso, enquanto se aproximava agachado e estendia sua mão.

O macaco até então sorridente balançou a mochila em direção ao garoto e em seguida puxou-a de volta para seu peito. Seu olhar inocente agora se mostrava perverso e sua boca continha um riso cheio de dentes.

Arryn não havia percebido ainda, mas havia um par de pequenos olhos extras na cabeça daquela criatura. A fera guardou a nova aquisição em um dos braços e começou uma corrida desenfreada em direção ao centro da mata, demonstrando sua grande velocidade.

— Maldito macaco, volte aqui! – Esbravejou de forma impaciente.

Iniciou-se uma perseguição por entre as árvores. O macaco acelerava o passo e ria enquanto arremessava tudo o que não estivesse colado ao chão na direção do garoto, que esquivava da maior parte.

Já perdendo a paciência, Arryn empunhou sua adaga, correndo o máximo que podia, ele odiava está sendo feito de otário conta de um simples animal.

Dentro da mochila, sem saber, o macaco levava não só o mapa, mas várias fatias de pães de grão e todos os medicamentos que lhe foram dados pelos enfermeiros do orfanato, itens importantes para aquela jornada.

Aquela situação lembrou novamente seus momentos de treinamento dentro e fora de Mizuri, das perseguições de Gólidas, e como sempre era capturado por ele. Empolgado com aquele primeiro desafio, decidiu então começar a usar das mesmas estratégias que os batedores. Sem se fazer perceber, foi redirecionando a caçada para um local mais afunilado dentro da floresta.

Correndo distraído o macaco, que parecia está se divertindo, acabou encurralado entre um enorme paredão de rochas e várias árvores caídas. Arryn parou de correr e com o braço da adaga estendido para o lado, caminhou lentamente em direção a criatura. Ela estava assustada, então passou a berrar de forma ameaçadora e a bater forte no chão, mas aquele gesto não intimidou o garoto, que seguiu confiante.

Há dois passos de distância do seu alvo, apontou a lâmina em direção ao peito do macaco, tocando-o com a ponta. A essa altura o pobre animal já estava desesperado.

— Foi um prazer brincar com você, mas agora entregue as minhas coisas, a não ser que queira... – O discurso confiante de Arryn foi interrompido brutalmente.

Uma imensa pressão de ar em direção ao seu lado esquerdo foi percebida. Em instantes ele recolhe seu braço para forçar uma defesa. Infelizmente isso foi tudo o que ele pôde fazer.

Seu corpo pequeno foi arremessado a muitos metros do local parando apenas em um tronco de árvore que se partiu com a pressão do golpe. Uma besta similar ao macaco que ele perseguia fez presença diante dele com um rugido poderoso.

Diferente do outro, esse deveria ter pelo menos uns dois metros de altura e braços longos e poderosos. Sua pelagem também tinha uma cor escura e seus quatro olhos eram vermelhos e brilhantes como rubis. Era de causar espanto que algo daquele tamanho pudesse se mover tão rapidamente sem se fazer perceber. Aquilo o fez lembrar mais uma vez de Gólidas.

Os olhos de Arryn estavam semicerrados, molhados com o sangue que escorria do topo da cabeça e seu braço esquerdo, juntamente com algumas costelas, pareciam estar fraturados. Ele permanecia imóvel, temendo por sua vida.

A enorme criatura continuou se aproximando, e quando estava a um braço de distância, sua larga sombra obscureceu os poucos raios de sol que escapavam. A besta aproximou o rosto do corpo de Arryn que, inerte, só conseguia assistir. Com uma certa curiosidade, ela o cheirou para saber se o jovem ainda estava vivo.

Sem chegar a uma conclusão, estendeu a mão para pegá-lo, mas machucou a garra na adaga que o garoto empunhava, usando as últimas forças de seu corpo para não largar. Furiosa, a besta ergueu os braços e juntou as mãos para executar um último golpe, mas se deteve. Com uma cara de espanto, observou rapidamente os arredores e partiu.

Arryn foi fechando lentamente os olhos. Ele tinha a respiração fraca, mal conseguia se movimentar, a única coisa que passava em sua mente era que o fim não poderia ser assim, que de jeito nenhum deveria morrer naquele lugar. Seus olhos se abriram por um instante e um borrão surgiu em sua frente. Mais uma vez os seus olhos piscaram e o borrão já estava a poucos centímetros do seu corpo. Foi essa sua ultima visão que teve antes de desfalecer.

Notas finais
Fiquem de olho nos próximos capítulos e deixem aqui seus comentários.