SURYA: A última ilha
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Em alto mar, próximo à cidade de Pascal, Ramon Valdez, um velho pescador, apanhava alguns peixes para o Festival de Limpeza. Navegava sozinho a bordo de sua velha embarcação, fortificada com chapas de metal pesado desde o casco até a cabine, e que mostrava sinais de certa idade e constantes lutas, tal qual seu dono.
Ramon era um homem de alta estatura, cabelos negros e músculos notáveis, a sua barba era curta, mas completa. Ele estava sentado no canto direito da proa, Inclinando seu corpo para trás, fazendo com que a metade superior ficasse para fora do barco. Seus olhos estavam fechados e o rosto virado para o alto.
Ele aproveitava o sol claro batendo em seu corpo, molhado pelo ricochetear suave das ondas, quando sentiu uma fisgada maior que a de costume na rede que acabara de soltar. Uma segunda fisgada fez com que ele abandonasse o seu momento de descanso. Ramon colocou a mão sobre uma espada de formato irregular que carregava na cintura e, com uma força sobre-humana, retirou a rede da água em uma só braçada.
Ao ver seu achado soltou a espada e se abaixou para observar melhor o corpo inerte de um homem de uns vinte e poucos anos. Ele devia estar já a algum tempo a deriva, pois tinha a pele ressecada do sol e sinais claros de desidratação. Julgava-o morto, por conta de seu estado deplorável, quando inesperadamente começou a tossir e cuspir água.
— Parece que a sorte o acompanhou junto à maré, meu nome é Ramon Valdez, como se chama rapaz? – Perguntou, com uma voz alta e ranheta.
O náufrago, em péssimas condições, continuava a tossir e expelir água. Suas vestes tinham sido desgraçadas pelo mar e por, quem sabe, alguma fera. Ele tinha olhos com um azul escuro, profundo, uma cor só comumente encontrada nos abismos submarinos e cabelos naturalmente brancos. Seu corpo, era como uma tela, dividida entre a arte de tatuagens e marcas de cicatrizes.
Ramon olhou para a cintura do rapaz e percebeu uma espada de lâmina negra com alguns símbolos que ele desconhecia e com uma pedra azul brilhante no centro do guarda mão.
— Se tivesse largado a espada no mar certamente teria chegado com melhores condições em terra firme. – Disse Ramon enquanto direcionava sua mão para pega-la.
Nesse momento o náufrago agarrou firmemente a mão de seu salvador e o deteve.
— Eu estou bem, se fosse de minha espada afundar, que eu fosse arrastado junto com ela. – Falou pela primeira vez enquanto fitava Ramon com olhos firmes. – Me chamo Cannon Rackham.
Ramon sorriu.
— Você não é desta ilha, dá para ver pela vestimenta e pela hostilidade. – Disse. – A pergunta é, devo considerá-lo um amigo ou um inimigo? – Perguntou Ramon com o ar despreocupado.
— Você salvou minha vida hoje, se prometer manter suas mãos longe das minhas coisas certamente não teremos problemas.
Ramon riu alto e estendeu a mão ao novo tripulante de seu barco. O gesto foi bem recebido.
— Vamos até a minha cabine, você precisa comer e beber alguma coisa.
Aquelas palavras soaram muito bem nos ouvidos de Cannon. Chegando à cabine uma bela refeição foi servida, com vários peixes, alguns frutos do mar e bastante água de coco e cachaça que Ramon armazenava em tonéis.
A tempos Cannon não via tanta comida, o faminto viajante se fartou enquanto pôde. Ele encheu o resto de espaço que faltava com uma jarra cheia da deliciosa água de coco. Quando terminou de comer, bateu firme a jarra na mesa e suspirou profundamente, um sinal entendido, por Ramon, como de apreço pelo banquete.
De barriga cheia, Cannon parecia transformado, aquele semblante sombrio tinha mudado completamente e ele sorria atoa, até agradeceu a refeição juntando as duas mãos, fechando os olhos e se curvando.
— Já está escurecendo, melhor você descansar um pouco enquanto eu levo o barco de volta ao porto. – Disse Ramon ficando de pé. – Provavelmente irá demorar algumas horas, durma aqui e quando acordar, se desejar, pode me contar a sua história. – Sugeriu.
O pobre viajante cansado não quis discutir, deitou-se numa das camas da cabine e apagou imediatamente.
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