SURYA: A última ilha
10 Capítulo 10
Notas iniciais
A poucos quilômetros do porto de Pascal, o oceano estava calmo, mas a cabeça de Cannon parecia ter passado pela maior de todas as ressacas. Ele abriu os olhos e tudo parecia estar girando, mal conseguia lembrar o que havia acontecido ou há quanto tempo estava dormindo. Suas mãos estavam amarradas para trás e ele se encontrava sentado em uma cadeira de madeira.
— Finalmente está acordando, fiquei com medo de o sonífero ter sido forte demais para o seu corpo, você dormiu mais de um dia. – Disse Ramon.
Naquele instante, tudo veio a sua mente, o mar, o barco, o pescador, o banquete.
— Você batizou a minha água seu velho idiota. – Resmungou Cannon com dificuldade.
Ramon estava de costas para Cannon,, guiando a embarcação.
— Essa tatuagem. – Apontou, Ramon, para o desenho de uma serpente engolindo uma espada, que Cannon tinha em suas costas. – Quer me falar um pouco sobre ela?
Aquela pergunta fez com que o prisioneiro se assustasse.
— Pensei que não passasse de um pescador qualquer, mas se sabe algo sobre esta tatuagem, provavelmente já sabe demais. – Respondeu Cannon enquanto observava melhor o lugar onde estava.
Era a cabine de controle, mas no lugar do leme, Ramon estava usando a própria espada para guiar a embarcação. Parando para pensar melhor, tudo ali era meio improvisado, a porta igual a usadas nos bares, os copos do dia anterior alternavam entre taças, canecas e cuias de coco, as janelas sem nenhum padrão, nada combinava, era quase como se aquele barco tivesse sido montado pedaço por pedaço com restos de outros lugares.
— Ontem eu disse que quando acordasse você me contaria sua história, e você me falou que se eu não mexesse em sua espada não teríamos problemas. – Brincou Ramon com um sorriso grande no rosto.
Nesse momento Cannon olhou para sua cintura e observou que ainda portava sua espada, aquilo o tranquilizou por um segundo, mas em seguida o deixou inquieto, afinal, o que aquele velho queria com ele, o que o fazia tão confiante a ponto de deixar um prisioneiro armado e como ele sabia da tatuagem? – Pensou.
— Eu ainda não confio em você seu velho, mas se você me quisesse morto eu provavelmente já estaria. Bem se você quer saber, eu sou... – Dizia Cannon quando foi interrompido.
— Espere! Antes de você continuar, eu quero que saiba de uma coisa. – Ramon puxou um pouco o fôlego e em seguida continuou. – Eu sou Ramon Valdez, líder da décima primeira tropa da guarnição, o que você me contar aqui pode leva-lo à forca apenas com um comando meu, e o que eu não souber poderá salvar sua vida! – Falou de forma rápida e atropelada, quase ficando sem ar.
Cannon estava de olhos arregalados e boca aberta. – Aquele cara? Líder de uma tropa? Só pode ser brincadeira. – Pensou. – No entanto, isso explicaria o fato de ele saber sobre a minha tatuagem. Mas se ele sabe quem eu sou, porque não me levou direto para a guarnição, ou melhor, porque não me executou aqui mesmo enquanto eu estava inconsciente? E se ele é da guarnição, por que se revelaria assim, que truque seria esse? – Uma gota de suor escorreu por sua testa.
Aqueles pensamentos inconclusos todos de uma vez, torraram o juízo de Cannon por alguns instantes, até que foram todos interrompidos por uma gargalhada de Ramon.
— Os jovens são sempre divertidos. – Comentou enquanto ria.
Definitivamente não dava pra saber qual era a verdade, se ele era realmente parte da guarnição então ele teria que medir suas palavras de agora em diante, e se não fosse, poderia ser ainda mais perigoso já que seria uma incógnita completa. Cannon sintetizou seu raciocínio para essas duas possibilidades.
— Obrigado por não tirar minha espada, ela tem um valor inestimável para mim. – Disse Cannon suspirando e olhando para o lado. – Aonde nós estamos indo?
— Estamos indo para Pasqual, uma cidade no lado norte da ilha, visitar um velho amigo meu. Hoje a noite começa o Festival de Limpeza, eu prometi a ele que levaria os peixes esse ano. – Respondeu Ramon com um ar nostálgico.
— Eu nem sempre sou bom em julgar as pessoas, mas você parece ser um sujeito decente. Eu apenas ainda não entendi se sou seu prisioneiro ou seu convidado. Você me amarrou, mas tenho certeza que você sabe que posso partir essas cordas na hora que eu quiser. – Disse Cannon.
— Mesmo assim não o fez. Você tem bons modos e uma boa personalidade, estamos quase chegando, já pode se soltar se quiser. – Completou Ramon.
Cannon fez cara feia, aquele cara parecia sempre ter uma resposta que o deixasse sem reação, mas decidiu colaborar com Ramon, pelo menos até descobrir quais suas reais intenções. Ele esticou seus braços com força fazendo com que suas amarras se partissem massageou os pulsos por um instante e em seguida esticou todo o corpo.
— Ah, definitivamente assim é bem melhor, então quer dizer que vamos ter mais um banquete esta noite? – Cannon perguntou sorridente.
— O melhor de todos, meu amigo, o melhor!
O clima agora era ameno, tanto no céu quanto entre os dois, a viagem seguia em paz e já era possível ver, ao longe, o porto da cidade de Pascal.
Na praia, um grupo de pessoas acenava para o barco, alguns pescadores, uma garotinha de cabelos vermelhos, que aparentava ter quatorze anos de idade, estava apoiada em um pesado martelo de ferreiro e ao lado dela estava Heldone, tão elegante como sempre, a idade parecia apenas o fazer bem.
Quando o barco aportou, todos se direcionaram para receber o ilustre convidado, a menina pegou o martelo que antes usava de apoio com uma das mãos e correu pela prancha até a cabine. O martelo quicava no chão enquanto ela corria, e pelas marcas que deixava não parecia ser leve, mesmo assim ela o trazia sem mais problemas.
Quando avistou Ramon, a garotinha soltou seu equipamento no chão fazendo-o ressoar, em seguida pulou na direção dele agarrando-o com seus braços e pernas.
— Pai! – Os seus olhos brilhavam, enquanto ela abraçava Ramon. – Que saudades! – Disse com a voz abafada por seu rosto ficar colado no peito dele.
— Eu disse que vinha te ver querida, quero te apresentar uma pessoa, aquele ali é Cannon, um amigo que encontrei por acaso. – Comentou Ramon. – Cannon, essa aqui é Leeno, minha filha e aquele o meu melhor amigo Heldone. – Apontou Ramon.
Leeno, apesar da aparência e jeito infantil, já tinha dezessete anos, usava dois coques prendendo os cabelos vermelhos, roupas curtas, que deixavam sua barriga à mostra, e um par de luvas marrons.
— Muito prazer. Pai, o senhor trouxe o que lhe pedi? – Perguntou sorridente.
— Me deu muito trabalho pegar isso sem que ninguém desse falta, mas está aqui, tenha cuidado quando for usá-las. – Recomendou Ramon, enquanto entregava uma sacola de pano com algo de brilho vermelho dentro.
— Eu sou uma forjadora profissional, pai, não me trate como uma garotinha. – Disse Leeno apontando o dedo com ar de superioridade e um sorriso malicioso no rosto.
A garota saiu correndo pela porta da cabine, alegre com seu novo presente. Ramon sorriu e olhou para Heldone.
— A Leeno parece muito feliz, obrigado, sei que ela pode ser muito difícil às vezes.
— É um prazer tê-la aqui comigo, você fez a coisa certa a trazendo para cá. – Respondeu Heldone. – Chame o seu amigo e vamos para minha casa beber alguma coisa, hoje teremos muito trabalho com o festival.
Os três saíram do barco em direção à praia.
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