SEAWEED

1 Seaweed moss


Eu passei minhas tardes em silêncio,


esparramado, silencioso,

meu rosto afundado em travesseiros

como uma caveira na terra úmida da floresta,

enterrado sob musgo e memórias.


Fico olhando, por horas,

os meus óculos redondos —

rachados, manchados — apoiados no teclado,

suas armações quase combinando

com o vazio entre as teclas,

aqueles minúsculos glifos que zombam de mim,

que me provocam em uma página de escrita vazia

muito branca,

muito cruel,

muito silenciosa.


Meus compromissos murcharam,

até o menor suspiro,

assim como minha vontade de ficar.


Usei as horas para me desaprender.

Esculpi os dias para esquecer que existo.

E verdade seja dita —

eu queria que nós dois pudéssemos desaparecer.


Se eu não sou mais,

então que você também não seja.


Você já foi

a coisa mais preciosa que segurei,

e agora você se afasta dos meus murmúrios —

meus resmungos tolos lançados ao vento

das ruas digitais.


Você se afasta

das relíquias infantis que resgato e resguardo,

das memórias que embalo como pássaros moribundos

em palmas trêmulas —

tentando encantar o teu olhar novamente.


Eu não tentei —

não sangrar — nos trazer de volta?


Mergulhando nas profundezas

onde te enterrei,

apenas para descobrir que a maré te mudou.


Você não é mais você.

E eu —


Eu me enrolo em lençóis como algas marinhas,

me envolvo no aroma de semanas,

no cheiro de solidão e algodão.


Sinto falta do você que um dia toquei,

mas, sem nem perceber —

Eu também não sou mais eu.


Minha canção favorita morreu com você.


Nem mesmo nossa música ousa tocar.


E seu amor —

Eu não o quero mais.


Tão simples.


Então, a voz da sua mãe

gracejando sobre mim,

nos abençoando em tons suaves —

e depois me amaldiçoando,

me chamando de sua ruína,

seu infortúnio,

sua ruína.


Eu arruinei você?

Ou nós desfizemos o que era sagrado?


Eu menti.


Você segurou outros corações

enquanto o meu ainda batia em suas mãos.


Eu corri.

Eu temia seus votos, sua aliança,

seu sonho de eternidade.


Eu disse: há outro alguém.

Porque você não se oporia

contra aqueles que lhe disseram

para se afastar de mim.


Eu era seu ornamento —

sua obra de arte,

exibida em fotografias,

ostentada para estranhos,

enquanto sua família implorava

para que me jogasse fora.


Nada foi feito.

Nós nos deixamos levar.


Eu provei outros —

você também.


Mas eu escolhi com propósito:

aqueles com sua voz,

seu sorriso,

seu perfume.

Escolhi fantasmas familiares,

como se implorasse seu desprezo —

se você me odiasse,

eu nunca rastejaria de volta.


Você quebrou minha confiança

com mentiras suaves,

com manipulações doces como veneno de mel.


Reli o livro que escrevi

onde você viveu como personagem,

e sonho com nossos dezesseis anos novamente —

antes que a história te sangrasse para dentro de mim.


Agora,

você não se esconde.


Você, antes um pássaro trêmulo

em uma gaiola de ferro —

tão linda,

sua canção como um vento de inverno

contra as minhas janelas quentes.


Agora você vagueia livre

em uma vida que te veste como uma fantasia,

uma vida que sua família detestava em mim —

e ainda assim você a abraçou por si mesmo,

não por nós.


Você se optou pela bebida,

por corpos,

por lascívia,

mas não por mim.


E agora — esse distanciamento,

esse silêncio,

esse esquecimento estudado

de tudo o que éramos

Logo nós, outrora um dueto bêbado de almas,

devorando os versos do ser,

lendo um ao outro

como textos sagrados.


Eu te devorei naquele romance,

como você me leu uma vez —

e o fogo em seus olhos quase negros

arderam dentro de mim por anos.


Então agora, por mim,

e finalmente,

eu imploro:


Ou me deixe ir —

ou me leve com você.


Pois se não,

eu me jogarei

para um lado ou para o outro

deste muro invisível

que parte meu coração em dois.


E quando eu — ou você

retornarmos em mais dez anos,

talvez seja tarde demais

para ouvir as palavras que continuo

queimando na minha língua:


Eu não existirei mais.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!