​O dia no Teatro Municipal havia sido exaustivo. Elise passara horas repetindo sequências, corrigindo a postura e alinhando os passos com o restante da companhia de Londres. Seus músculos doíam, mas a mente estava ainda mais cansada. Assim que o ensaio terminou, em vez de voltar para o hotel, ela sentiu uma necessidade urgente de buscar o único lugar que um dia chamou de lar.

​O táxi a deixou em frente à mansão dos Pavanelli. Elise subiu os degraus da entrada com o coração batendo compassado e tocou a campainha. Quando a porta se abriu, o tempo pareceu voltar cinco anos.

​— Elise! Minha menina! — Letícia exclamou, com os olhos brilhando de emoção.

​Antes que Elise pudesse responder, a psicóloga a puxou para dentro, envolvendo-a em um abraço apertado, daqueles que curam qualquer distância. Elise enterrou o rosto no ombro da mãe adotiva, respirando o perfume familiar de lavanda.

​— Que saudade, mãe... Você não imagina o quanto eu senti falta disso — Elise sussurrou, deixando uma lágrima de alívio escapar.

​— Entre, meu amor. Venha para a cozinha, acabei de passar um café fresquinho — Letícia disse, limpando o rosto da filha com carinho e guiando-a pelo corredor.

​A mesa da cozinha estava posta com o mesmo cuidado de sempre. Havia um bolo de fubá quentinho e duas xícaras de porcelana. As duas se sentaram e, entre um gole de café e um pedaço de bolo, começaram a conversar. Elas sorriam, relembravam as tardes de lanche após os treinos de balé e atualizavam as novidades da vida em Londres. A conexão entre elas permanecia intacta, como se Elise nunca tivesse partido.

​O clima acolhedor, no entanto, mudou de frequência quando o som pesado da porta da frente batendo ecoou pela casa. Passos firmes cruzaram o corredor, e a silhueta imponente de Lucian surgiu no batente da cozinha. Ele usava calça de moletom escura e uma camiseta preta justa, que evidenciava seus ombros largos. Ao dar de cara com Elise, ele travou por um segundo, os olhos azuis faiscando na penumbra.

​Sem dizer uma única palavra, Lucian caminhou até o armário, pegou um prato e uma xícara, serviu-se de uma fatia de bolo e de café, e sentou-se na ponta oposta da mesa. O silêncio dele era pesado, quase palpável.

​Letícia, percebendo a eletricidade no ar, tentou ignorar a carranca do filho e continuou a falar com Elise, que se esforçava para manter o foco na mãe adotiva, embora sentisse o olhar gélido de Lucian queimando sua pele. A conversa entre as duas voltou a fluir, repleta de risadas e memórias, enquanto Lucian permanecia em um silêncio ranzinza, apenas observando a dinâmica das duas sobre a borda da xícara.

​De repente, o celular de Letícia começou a tocar em cima do balcão. Ela olhou para a tela e suspirou.

​— É da secretaria da clínica, preciso atender. Já volto, queridas... quer dizer, vocês dois — Letícia corrigiu-se rapidamente e saiu em direção ao escritório, deixando o ambiente imerso em um silêncio cortante.

​Lucian deixou a xícara no pires com um estalo seco. Ele empurrou o prato para o lado, cruzou os braços sobre a mesa e fixou os olhos em Elise, com uma expressão ríspida.

​— Então a estrela de Londres resolveu fazer uma visita de caridade aos reles mortais? — ele disparou, a voz grave destilando um deboche binal. — Veio ver se a casa ainda é do mesmo tamanho ou se o Brasil ficou pequeno demais para as suas piruetas?

​Elise respirou fundo, fechando os olhos por um segundo para não perder a paciência. Ela olhou para ele, com o semblante sério e maduro.

​— Eu vim ver a minha mãe, Lucian. Coisa que eu faço porque a amo, e não para ostentar nada. Mas pelo visto, o seu passatempo favorito continua sendo despejar frustrações banais em cima de mim.

​— Frustrações banais? — ele se levantou da cadeira, a postura imponente intimidando o espaço. — Você aparece aqui, age como se nada tivesse acontecido, e eu sou o errado por não bater palmas?

​Desgastada pela discussão que claramente não levaria a lugar nenhum, Elise jogou o guardanapo na mesa e se levantou.

​— Sabe de uma coisa? Eu não sou obrigada a ficar aqui ouvindo o seu veneno.

​Ela deu as costas a ele e subiu as escadas correndo. Instintivamente, seus pés a guiaram até o final do corredor do segundo andar, parando em frente à porta do seu antigo quarto. Ao girar a maçaneta e entrar, Elise sentiu o peito apertar. O cômodo estava exatamente do jeito que ela o havia deixado cinco anos atrás: a sapatilha de ponta antiga pendurada no espelho, a colcha clara sobre a cama de solteiro e os quadros de dança nas paredes. Letícia havia preservado cada detalhe.

​Lá embaixo, a voz de Letícia ecoou pelo vão da escada, gritando em tom de urgência:

​— Elise! Lucian! Deu uma emergência com um paciente na clínica, preciso correr para lá agora! Tranquem a casa se saírem! Beijos!

​O som da porta principal se fechando indicou que Letícia havia saído, deixando a mansão mergulhada em um silêncio profundo.

​Elise continuava de pé no centro do quarto, tocando a textura da colcha da cama, quando ouviu o som suave da porta sendo empurrada atrás de si. Ela se virou rapidamente e encontrou Lucian parado no portal. A expressão de raiva dele havia desaparecido, dando lugar a um olhar predatório, intenso e carregado de um desejo que ele claramente não conseguia mais conter.

​— O que você quer aqui, Lucian? Me deixa sozinha — ela pediu, a voz saindo mais fraca do que pretendia, o coração acelerando com a proximidade dele.

​Lucian não respondeu com palavras. Ele deu passos lentos e calculados em direção a ela, fechando a porta com o calcanhar. Toda a postura ranzinza deu lugar ao charme avassalador que ele sempre soube que tinha sobre ela. Ele parou a poucos centímetros de Elise, a diferença de altura fazendo-a ter que erguer o queixo para encará-lo.

​— Você sabe muito bem o que eu quero, baixinha — ele sussurrou, a voz rouca e sedutora enviando um arrepio imediato pela espinha de Elise.

​Antes que ela pudesse formular qualquer resposta defensiva ou tentar se afastar, Lucian estendeu as mãos grandes, segurando-a firmemente pela cintura e puxando-a contra o seu corpo musculoso. O impacto físico fez Elise soltar um suspiro sibilado. Ele segurou o rosto dela com uma das mãos, os dedos se enterrando nos cabelos ruivos, e colou seus lábios nos dela.

​O beijo começou urgente, selvagem, uma explosão de toda a saudade e da mágoa reprimidas por meia década. Elise tentou resistir por um breve segundo, espalmando as mãos contra o peito dele, mas o calor do corpo de Lucian, o perfume amadeirado e a familiaridade daquele toque desarmaram completamente as suas defesas. Ela soltou um gemido baixo contra a boca dele e entregou-se por inteiro, enlaçando o pescoço do homem com os braços, correspondendo ao beijo com a mesma paixão desesperada.

​As mãos de Lucian desceram pelas curvas das costas dela com possessividade, apertando-a contra si enquanto o beijo se aprofundava, as línguas dançando em um ritmo ardente e conhecido. Ele a conduziu com passos lentos, sem quebrar o contato dos lábios, até que as pernas de Elise tocaram a borda da cama.

​Lucian desceu os beijos pelo maxilar dela até o pescoço, fazendo-a arfar e jogar a cabeça para trás.

​— Eu tentei te odiar, Elise... Juro que tentei — ele sussurrou contra a pele quente dela, as mãos trêmulas desfazendo os botões da blusa dela com pressa. — Mas eu não consigo. É você. Sempre foi você.

​— Lucian... — ela gemeu o nome dele, os dedos cravando-se nos ombros largos do namorado, a maturidade cedendo espaço à entrega total.

​Sem mais nenhuma barreira ou palavra banal para afastá-los, os dois se deixaram cair na cama de solteiro daquele antigo quarto. As roupas foram deixadas pelo chão como se fossem as máscaras que usavam para o mundo exterior. Na penumbra do cômodo cheio de memórias, Lucian e Elise uniram seus corpos com uma paixão avassaladora e um amor que o tempo e a distância foram incapazes de apagar. A batida de seus corações voltou a ditar o ritmo perfeito daquela ligação inquebrável.