Eu sei que a perfeição não existe, mas estou cansada de sempre deixar fios soltos por onde passo. Não dormi essa noite, consumida pela ansiedade de vivenciar a pessoa que eu quero ser em cinco anos, e ainda estou de pé depois de dar aulas durante todo o dia. Um aluno me disse: "O que você está fazendo aqui, professora? Você é boa demais pra aqui." e a verdade é que não, eu não sou. Não estou nem perto. Nunca estive, e nunca vou estar. Não sou boa o suficiente, jamais serei "Boa demais".

Desde os tempos da minha mocidade sou assolada por uma sensação onipresente de incapacidade. Coleciono meus defeitos como as bonecas de uma menina mimada, enojada, admirada, obcecada por cada falha miserável que eu venha a ter. Não sou digna de ser amada, tocada, vista. Não, até ser boa demais pra algo. Não até ser uma das melhores. Não até ser a melhor. Eu me odeio, eu me desprezo, eu me responsabilizo por todos os danos colaterais que posso vir a cometer contra quem eu sou. Eu me cultuo, eu me venero. Poderia vomitar em cima de mim mesma e me obrigar a engolir meu próprio vômito como punição como poderia me jogar de um leque de escadas apenas pra concertar um único detalhe que somente eu vejo. É tão desconfortante ser pra sempre uma gasolina.