Síndrome de Gaea.
26 Wide wake.
Às vezes, inevitavelmente me pergunto onde eu estaria se não tivesse conhecido você. Eu sinto tanta raiva de mim, em dados momentos. Desde que conheci você, sinto como se houvesse uma mancha em mim. É como se eu tivesse rolado na lama, coberta por esterco que nunca sai. Banho atrás de banho, terapia atrás de terapia, sinto suas digitais por todo o meu corpo e tento conter meu impulso de arrancar minha pele com minhas próprias mãos, cortando cada centímetro da minha própria carne com minhas próprias unhas.
A boba, impressionada e inconsequente eu. Não sabia quão alto seria o preço que eu pagaria por tão pouco tempo. O tempo que estive com você é algo que quando fecho os olhos eu consigo me recordar da sensação. É como se afogar em areia movediça, minutos antes de desmaiar. É a queda de pressão após um estado gigante de euforia. Eu juro que não previ o que viria a seguir e acredito que mesmo se eu tivesse previsto, não daria a mínima. Hoje, adulta, olho o meu reflexo e sou corroída por remorço. Tudo o que eu fiz pra estar ali, todas as pessoas que eu egoistamente magoei apenas pra que pudesse ter mais e mais dopamina. E agora, quando vejo todos os sonhos pelos quais eu troquei por uma pessoa que não me amou, sinto vontade de vomitar. Todas as lágrimas que eu gastei em sua imagem e todo o ódio acumulado que eu tenho certeza que não te deixam seguir em frente. É claro que você é ridículo demais pra admitir em voz alta quão patético você é, mas eu faço isso por você.
Eu me envergonho de você. Se depender de mim, ninguém nunca vai saber que você existiu em mim, me devorando por dentro como um parasita, se alimentando da minha inocência e cuspindo toda e qualquer característica minha por ai como se um dia você pudesse algo menos do que básico. Eu te odiei secretamente, em cada momento em que eu fingi um sorriso pra você. Como poderia sentir qualquer outra coisa além de ódio pelo homem que roubou minhas asas enquanto eu dormia?
Acordar foi a parte mais difícil. Mas pelo menos eu não estou mais cega, novamente. E, quando tento concluir isso, eu me lembro de tudo o que eu passei. Não consigo deixar pra lá. Nunca sinto que me vinguei o suficiente. O ódio me consome como fogo e eu sinto que a qualquer momento vou desintegrar entre os carvões, virando pó. Eu nunca mais chorei desde aquele dia. Eu nunca mais fui a mesma desde aquele dia. Agora, toda brisa é vendava e a culpa é toda sua.
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