Síndrome de Gaea.
32 Vitória Padilha.
Não posso deixar de pensar na Vitória quando lembro dessa situação. Olhos azuis, cabelos loiros, um sorriso bonito e quatro anos mais velha. Contrastes opostos, mesmos interesses. Noites com gosto de abcinto, dias com sabor de licor de morango, rapazes com tatuagens old school, meninas com glitters nos olhos, tudo tão jovem e selvagem que não teria sido espanto se nós acabássemos em combustão em um corredor qualquer de uma balada decadente por causa de um perdedor qualquer que nem mesmo lembraríamos o nome três anos após, mas não. Contrariando as expectativas, aqui estamos, servindo de exemplo pro meu pobre coração lembrar-se de que não há desculpas para traições sutis.
O que eu aprendi com os doces olhos azuis nem mesmo dez anos em uma sala de aula do ensino superior poderiam me ensinar. O doce dom de aprender a confiar no caráter de quem você conhece com base na sua percepção de autovalor. Você sabe quem é, sabe o que vale. O valo da singularidade. Manter-se sendo quem você é independe das pessoas que te cercam. Acho que nunca vou conseguir ver as coisas tão perversamente, ao menos, não nos meus olhos. E eu agradeço isso pois em partes aprendi com ela. Todos achavam que iríamos competir uma contra a outra, mas a verdade é que quando a lua caiu, no dia em que nós nos conhecemos, uma parceria singular apareceu. Eu segurei sua mão enquanto ela chorava, ela limpou minha casa quando nem banho eu conseguia tomar. Acho que encontramos às vezes essas pessoas pelo caminho, as que verdadeiramente se importam, de graça, conosco. Elas nos mostram que nós temos sim algum valor, e às vezes curam coisas que a gente nem sabia que estavam feridas, mas, acima de tudo, nos ajudam a estabelecer novos padrões.
Eu sempre lembro da Vitória. No dia em que ela me disse que estava namorando, eu chorei. Eu estava tão feliz que poderia dizer que toda essa felicidade estava na minha vida, mas era dela. Eu me alegraria por qualquer que fossem suas conquistas. Um novo amor, um novo emprego, grana, qualquer coisa. E eu sei que era mútuo. De alguma forma aquele bom sentimento vai me acompanhar ainda por muitos anos, me trazendo à memória aquilo o que é correto em uma amizade.
Visitarei sua casa esse mês. Sentarei na mesa que um dia ela já achou estar distante de ser alcançada. Comerei a comida vegana que eu por anos fiz piada de bom grado e irei brindar com a namorada da qual eu assisti ela se apaixonando, no tapete indiano que eu a presentear por mais um sonho alcançado. No final é sempre sobre as sementes que nós plantamos no decorrer dos anos e de como nós podemos sim confiar que acreditar que nossa bondade não será, em todos os casos, usada até a última gota.
Cara, como eu agradeço de ter conhecido pessoas como Vitória Padilha, das quais eu sei de cor defeitos e qualidades, mas ainda assim eu sei que em seus piores dias ela não me venderia por tapas nas costas. A idade nos presenteia com coisas e pessoas assim.
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