Notas iniciais
Espero que estejam gostando! rs Agora irei postar às quintas-feiras e espero que possam acompanhar :3 Boa leitura!

As semanas passavam tranquilamente. Nunca havia muita agitação em nosso feudo, ainda mais quando se era um simples protetor. A matilha era dividida em quatro partes: a caça, a vigia, os guardas e o Hogosha. Para a minha sorte, a parte mais admirada era a que fazia menos.

Era uma tarde de outono e Ailee me convencera a levá-la para observar as divisões da matilha e como elas funcionavam. Na teoria, a garota sabia tudo que se podia saber; na prática a história era outra.

Eu estava em minha forma original. Era um grande lobo com a pele cor de bronze velho, como minha querida mãe gostava de dizer, e meus olhos brilhavam amarelados. Eu era um lobo muito diferente da minha raça, que normalmente possuía pelos cinzentos, azulados ou brancos; além disso, eu me tornara muito maior, cheio de músculos e sem nenhuma gordura. Para vocês terem uma noção, eu ficara tão grande como lobo que conseguia carregar a princesa em minhas costas e ainda sobrava espaço.

E era essa a cena que qualquer um que cruzasse o morro encontraria. Um lobo de pelo escuro carregando uma garota com um pequenino branco caminhando ao seu lado. Esquisito? Muito, mas eu não estava nem aí.

Estávamos caminhando pela vila. Bem, eu caminhava. Carregar Ailee sempre era um bom exercício e eu não me incomodava de ouvi-la fazer diversos comentários sobre as espécies de plantas e animais que encontrávamos pelo caminho.

Os caçadores haviam saído para fazer seu trabalho e eu levara a princesa exatamente para o lugar em que eles deveriam estar. Para a minha satisfação e a felicidade de Ailee, o grupo acabar de cercar um cervo. Sempre era impressionante para quem quer que estivesse olhando ver uma caçada. A menina segurou meus pelos com força, quase os puxando, e eu me refreei de grunhir dolorido. Se fizesse qualquer barulho, poderia espantar o bicho e acabar com a chance que o grupo construíra. Issa, o pequeno lobo branco que nos acompanhava, se escondeu entre minhas patas.

O cervo estava completamente cercado e os lobos rosnavam para ele. O bicho parecia completamente apavorado e girava de um lado para o outro, tentando encontrar uma saída. Cada vez mais o cerco se fechava e o animal se desesperava.

No momento em que Hiroíto Seiji – o lobo contra quem eu competira pela posição de Hogosha— atacou, o cervo tentou escapar, mas foi imobilizado pelas grandes patas do lupino, que o derrubou e cravou suas presas em seu pescoço. Os outros uivaram por sua vitória, Issa se juntou ao coro e até mesmo Evelyn bateu palmas, feliz.

Quando voltamos para o palácio, o Iro no Seiiki estava deserto como sempre e Ailee saltou de minhas costas como a atleta que ela não era. A garota caiu sobre as próprias pernas, rindo. Eu ofereci meu pescoço para que pudesse se levantar e ela o aceitou ainda sorrindo.

Aquela era uma parte da princesa que só eu e Issa conhecíamos. Normalmente ela era muito mais retraída e tímida, mas comigo se soltava e agia do modo como queria agir. Uma adolescente normal.

Eu sentei sobre minhas patas traseiras, a observando. Ailee bateu a terra que grudou em suas roupas – um par de calças azuladas, sapatilhas brancas e uma túnica que escondia a camisa que usava por baixo − para longe e se abaixou para retirar algumas folhas que estavam grudadas no pelo de Issa, que rolava no chão juntando cada vez mais. Os dois pareciam se divertir e eu invejei um pouquinho meu pequeno companheiro. Issa podia brincar com Ailee sem se importar no que os outros pensariam. Eu, não.

Quando se deu por satisfeita, veio em minha direção e sentou-se perto de mim. Eu pensei que não valera de nada ela ter limpado a própria roupa minutos antes.

— Ei, Katsuo, deita aqui – pediu apontando para frente.

Olhei-a com incredulidade, mas deitei. Era muito difícil que eu lhe recusasse algo. Com cuidado, Ailee colocou as mãos sobre o pelo entre minhas orelhas e acariciou com carinho. Eu suspirei, como não deveria, e deixei que fizesse aquilo por um tempo. Quando notei que ela se aconchegara contra o pelo de minhas costas, me remexi, fazendo que levantasse e assumi minha forma humana.

— Por que voltou? – questionou bocejando. Ela óbvio que passáramos mais tempo naquela posição do que deveríamos.

— Sabe que não somos mais crianças, Ai. Não podemos ficar assim – respondi sério.

Ela revirou os olhos e deitou a cabeça em minhas costas. Issa olhava para mim com o rabo batendo, como se soubesse que eu começava a suar ansioso.

— Isso é ridículo. Não somos mais crianças, tudo bem, mas não vejo nada de mais – comentou encostando completamente suas costas contra as minhas. – É você, Katsuo.

Se eu entendi o que ela queria dizer? Não, mas não era exatamente aquele tipo de coisa que eu desejava ouvir a algum tempo. Impedindo-me de suspirar, eu endireite as costas e a forcei a fazer o mesmo. Ailee me lançou um olhar magoado.

— Por que você se importa tanto com o que os outros vão pensar?

Aquela era uma boa pergunta, que possuía uma boa resposta, porém, eu não lhe diria. Eu não tinha o direito de dizer aquilo.

— Vamos entrar, Ailee.

***

Passei o resto de meu dia de mau humor. Não acreditava que Ailee podia ser tão obtusa quando estava perto de mim sendo que quando estava sozinha com seu pai era a lógica em pessoa. Sem contar que, depois de todos aqueles anos, eu não sabia o que fazer mais para que ela notasse. Na verdade, eu não podia permitir que notasse.

Anos antes, quando ainda nem era o Hogosha, Hidetaka falara para mim que eu podia passar todo o tempo ao lado da princesa, mas não que poderia ultrapassar os limites... Eu não entendera quais eram esses limites na época, mas agora compreendia perfeitamente.

Eu era a única pessoa que conhecia todas as facetas de Ailee, todos os lados bons e ruins. E acabara me apaixonando por ela. Clichê? Muito. Que saber algo mais clichê? Esse era justamente o limite que eu não podia ultrapassar e isso me matava aos poucos. Ailee era uma menina carinhosa e cuidadosa naturalmente e não se importava de me tratar bem em frente aos outros, o que era um grande problema, já que eu sofria com isso e era obrigado a mentir para fazê-la se afastar de mim.

Entretanto, não importava o que eu sentia, minha missão era manter Ailee segura e feliz. E era isso que eu pretendia fazer.

Notas finais
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