Série Lobos II - O Clã da Lua
11 Décima Primeira Caçada: Casa?
Notas iniciais
Saber que meu pai era o maldito por trás de tudo aquilo foi uma decepção. Eu o conhecia e tinha consciência de que não era a melhor das pessoas, mas nunca esperaria que se voltasse contra o próprio reino. Toda aquela história do verdadeiro Hogosha também era algo que eu não podia engolir, ainda.
Enquanto eu fazia o caminho que deveria, depois de semanas, minha mente rebobinava tudo que havia descoberto e o que precisava fazer para transformar o clã Tsume (Garras) em um lugar pacífico novamente.
Primeiro, teria que voltar ao feudo e ver como o lugar se encontrava, tinha a ligeira impressão de que Tsukyomi preparara tudo para que sua chegada fosse como um sinal de salvação; depois, os teria que convencer de que seguir para uma batalha era uma boa ideia; e, por fim, poderia trazer Ailee para casa. Simples? Pode ser que sim, não faço a menor ideia de como está a situação no feudo, mas me preparo para descobrir.
***
Estou cansado de fazer perguntas, mas a surpresa que eu tive ao colocar os pés em minha terra de nascimento foi tamanha que mais uma surgiu em minha mente: como as coisas podiam estar daquele jeito?
Tudo bem, parece uma coisa totalmente diferente do que estou vendo.
O feudo está a mesma coisa de quando sai. Ainda com sérios problemas de segurança, mas as pessoas parecem felizes e continuam suas vidas como se nada tivesse acontecido. Isso era o estranho. Se a situação estava tão ruim, como elas poderiam aparentar que nada estava ruim? E as perguntas continuam surgindo.
Caminhei decidido até a entrada do palácio, apenas para encontrar um cadeado enorme que impedia a entrada de qualquer um. Era como se aquela porta tivesse sido bloqueada. Em minha forma canina, eu conseguiria destruir aquilo; entretanto, o estardalhaço que causaria me traria mais problemas do que apenas tentar descobrir o que estava acontecendo.
Voltei para a vila, pronto para investigar do melhor jeito que pudesse quando uma pequena tropa – formada por lobos da matilha real – passou perto de mim, fazendo-me esconder para que não levantasse suspeitas ou resolvessem me trancafiar, por ter fugido.
O mais estranho foi que, no meio de toda aura natural e animada, as pessoas abriram espaço e abaixaram a cabeça, como se evitassem contato visual com as pessoas que deveriam protegê-las. Reconheci apenas dois lobos, a maioria eram novatos com a expressão carrancudas e cheios de marcas.
— Senhores, hoje é mais um dia de seleção — anunciou um lobo que era antes o chefe de um dos esquadrões. Parecia que algumas posições haviam mudado. — Viemos buscar seus filhos para a participação de mais um campo de treinamento. Os que passarem serão levados para dentro do palácio, os que perderem serão devolvidos com desonra para a vila ou mandados embora. Fracassados não são algo que nosso Rei aprove.
"Sendo assim, quero que todos os jovens entre dez e doze anos se aproxime e façam uma fila entre os lobos. Qualquer pai que quiser se voltar contra a vontade do monarca será exilado ou morto".
O discurso acabou causando-me náuseas. Aquilo era ridículo. Levar crianças com menos de doze anos para o treinamento da matilha era como se pedissem para eles fracassarem. Aquilo virar um regime de terror e o novo monarca – ou melhor, meu pai – estava criando um exército. Eu não fazia ideia de para que, mas iria descobrir a qualquer custo.
Aos poucos, as crianças se juntavam dentro do círculo formado pela matilha. Novamente, meu estômago embrulhou ao ver minha mãe parada entre os aldeões, junto ao meu irmão mais velho, dando um último abraço nos netos. Meus sobrinhos deveriam ter completado dez anos quando eu estava fora e seriam obrigados a passar por aquela tortura. Engoli em seco, controlando-me para não fazer nenhuma besteira. Precisava continuar escondido, anônimo.
Quando o homem terminou de conferir a quantidade e os nomes, gritou uma ordem para que todos começassem a andar e, como eu previra, direcionaram-se para dar a volta e entrar pelo portão lateral. Deixei que a multidão sumisse para sair de minha toca. Era vergonhoso ter que me manter afastado das pessoas por quem deveria lutar, mas não sabia se havia algum preço pela minha cabeça e não queria descobrir.
Mantendo-me na forma humana, dei a volta da forma mais rápida que consegui. Cheguei ao portão lateral no momento em que os guardas terminavam de trancá-lo novamente. Aquilo era ótimo, mas não surpreendente. Teria que escalar o muro.
— Já não dificultaram minha vida o suficiente? — perguntei para o nada antes de segurar os espaços entre as madeiras. Um latido breve chegou aos meus ouvidos e olhei para baixo. Issa me mostrava os dentes e abanava o rabo com força, me desafiando a abandoná-lo. — Você não pode estar falando sério...
Ele latiu de novo, mais alto. Corríamos o risco de sermos vistos.
— Está bem! — cedi irritado. Tinha pressa em invadir o palácio, mas abaixei-me e coloquei Issa dentro da mochila que carregava. Meu corpo humano começava a se cansar, pedindo para que parasse de fazer os exercícios e ficasse sentado, quieto, ou voltasse para a forma lupina. — Não faça mais nenhum barulho.
Voltei a me concentrar na subida. Era muito mais fácil quando não se estava exausto por viagens malucas que tinha sido obrigado a fazer por um deus, mas não demorei tanto tempo para atravessar quanto pensei que levaria. Cai do outro lado com um som surdo e me arrastei até a árvore mais próxima.
O lugar estava vazio, como não deveria. As pessoas dentro do castelo deveriam estar se sentindo muito seguras para manter os muros tão desprotegidos.
Esgueirei-me até onde consegui entre as árvores. Por um momento, não soube onde estava. As coisas dentro do castelo eram bem diferentes do lado de fora. As cores que enfeitavam e tornavam o lugar bonito estavam desbotadas e não existiam mais as flores cultivadas pela família Tsukiko. Foi nesse momento que percebi onde provavelmente estava: Iro no Seiki (Santuário das Cores). Meu coração apertou, mas a movimentação de Issa, dentro da bolsa, fez com que eu desviasse minha atenção e o deixasse sair.
— Pronto, garoto. Está livre. Agora fiquei quieto, pois estou tentando...
Ele simplesmente me deu as costas e saiu correndo. Correndo. Para dentro do castelo. Tentei correr atrás, mas o grupo de novatos começou a ocupar o espaço e me obrigou a dar a volta. Encontrar Issa seria um problema a mais para mim.
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