Série Lobos II - O Clã da Lua
10 Décima Caçada: O deus da Lua
Notas iniciais
Recapitulem comigo... Eu perdi minhas memórias por causa da Bokyaku no han'i (cordilheira do esquecimento) – que tem essa capacidade graças a um deus; fiquei como um animal por muitos dias até que esse cara, que afirma ser Tsukuyomi, apareceu e me trouxe de volta a forma humana. Se não perdi nada, então é melhor voltar a prestar atenção no que ele diz, porque não consegui decidir se isso tudo é sério ou apenas uma brincadeira.
— Então espero que você entenda que não te mandei aqui de propósito — falava fazendo a expressão mais inocente que conseguia. — Precisava tirar você do feudo o mais rápido possível! Era muito perigoso permanecer e...
— Espera! — pedi erguendo uma mão. Minha cabeça ainda estava confusa com tudo que acontecia, mas, aos poucos, eu conseguia me lembrar do que era importante. Como o fato de ter ido até ali pensando que iria encontrar Ailee. — Ailee não está aqui? Fiquei umas... três semanas perdido para nada?!
Espero que me desculpem por minha voz ter aumento vários decibéis e ficado tão fina, mas podem compreender que saber daquilo, naquele momento, era bastante perturbador.
— Não diria "para nada" — respondeu o deus levantando e abaixando os ombros. — Salvei sua vida, se quer saber. Aquele homem, com certeza, teria te matado se não tivesse se afastado do feudo.
— Que homem? — inquiri irritado. Minha cabeça e corpo doíam e nada parecia racional o suficiente para me convencer de que perder três semanas, sendo que eu poderia estar no feudo ajudando meus amigos ou procurando por Ailee, valiam alguma. — Por que estariam tentando me matar?
— Quer ouvir uma história? — perguntou Tsukuyomi animado e batendo as mãos levemente, ignorara completamente minhas perguntas.
— Não! — respondi irritado.
— Há muito tempo; quando o feudo ainda era muito novo, um jovem lobo foi escolhido para proteger o herdeiro ao trono dos ataques que aconteciam — começou ignorando completamente minhas questões. — Foi ele quem protegeu e permitiu que minha família continuasse a crescer e cuidar de suas funções.
"Graças a essa façanha e por ter sido tão útil, o herdeiro, ao virar Rei, decretou que a partir dali todos os herdeiros deveriam ter seu próprio Hogosha, para acompanhá-los e aconselhá-los sempre que fosse necessário. Sua decisão veio do fato de que seu companheiro fora uma boa pessoa, mas nem sempre isso acontecera.
Acho que, no mínimo, umas três vezes os Hogosha se voltaram contra seus mestres e tentaram derrubar a família Tsukiko do poder; outras três, foram tão inúteis que foram mandados embora do castelo; acho que em apenas uma o Hogosha que o herdeiro morresse em serviço.
Contudo, tirando o primeiro Hogosha, todos os outros serviram apenas como acompanhantes dos herdeiros e, depois, modelos para os jovens lobos que nasciam. "Nisso, incluo Hidetaka e seu pai, Katsuo.".
Quando ele parou para respirar, parecendo estar escolhendo as novas palavras que usaria, aproveitei para fazer as perguntas que queria.
— E o que isso tem a ver com toda essa história? O que a chegada do servo do seu amado pai tem a ver com os Hogosha?
— Para começar, garoto irônico — falou cruzando os braços e estreitando os olhos. Fiquei chocado por estar sendo chamado de garoto, quando, para todo meu feudo, já era um homem há muito tempo. — Aquele homem inútil não é o servo de meu pai. Ele é só um fantoche para que o verdadeiro vilão possa tomar conta de tudo. Depois, o servo já toma conta do feudo a muito mais tempo do que você pode imaginar, por isso mesmo eu fiz com que o resto da família Tsukiko saísse do palácio. Eles corriam muito perigo.
Meus músculos travaram. Ele dissera que mandara os membros da família saírem do castelo, mas aquilo não fazia sentido com as coisas que meu cérebro, que começava a desnublar, sabia.
— Uma carta chegou ao palácio — comentei recebendo toda a atenção dele. — Ela informava que você já não era mais o responsável por nós, que Izanagi tomaria conta e pedia para que toda a família Tsukiko saísse do palácio. Foi você que a escreveu?
Um silêncio estranho caiu entre nós e ele apenas desviou o olhar. Pela primeira vez, o deus que parecia ser uma criança birrenta envelhecera uns bons vinte anos e seus olhos pareciam carregados por tristeza.
— Foi você, não foi? — insisti recebendo um suspiro em troca.
— Sim, fui eu — finalmente respondeu. — Meu pai já estava a muito tempo atrás de mim, dizendo que seria minha culpa que todos os lobos do mundo se extinguiriam. Há muito que me culpava por ter dado a forma humana para sua raça.
— Você nos abandonou... — murmurei mais para mim mesmo do que para ele, mas tinha certeza de que ouvira.
— Não, não abandonei — respondeu assumindo uma postura mais firme e séria do que antes. Naquele momento, quando voltou a falar, foi como se toda a floresta ganhasse mais claridade, mesmo que estivesse de noite. — Dei uma chance para que se provassem como os verdadeiros lobos que são.
— O que quer dizer com isso?
Sabem aqueles calafrios que descem por nossa espinha e que são como predições de um futuro nada agradável e não muito distante? Então, mais de um desceu pela minha e eu sabia que sobraria para eu resolver aquela situação. Um sorriso satisfeito surgiu nos lábios dele enquanto olhava para meu rosto.
— Fico feliz que já tenha entendi — comentou fazendo-me rosnar levemente. — Você tem que voltar, imediatamente, para o feudo e se encontrar com as pessoas que esperam por ti; depois, irá direto para o Jikan no Shinden (templo do tempo), buscar a verdadeira rainha.
— Por que eu? Você poderia ter escolhido qualquer outra pessoa! Conheço vários que adorariam servir e realizar suas vontades!
Eu estava muito irritado. Não queria nem mesmo continuar aquela conversa. A única coisa que pensava era no momento em que poderia sair dali e ir atrás de Ailee, já que conseguira a confirmação de onde ela estava. Tsukuyomi olhou para baixo, parecendo envergonhado, depois sorriu como se tivesse encontrado o que queria.
— Você, Katsuo, conquistou o direito de ser o Hogosha desde que nasceu — explicou fazendo meus olhos arregalarem-se por reflexo. — Estava escrito nas estrelas que seria grande. Que faria coisas pelas quais seria adorado e amado. Sei que, no momento, não está procurando por essas coisas, mas Ailee precisa de você. Sua família precisa de você. Os amigos que tanto aprecia precisam de sua ajuda.
"Você é o que eu gosto de chamar de verdadeiro Hogosha. Desde o primeiro, ninguém cumpriu o que a posição exigia. Entretanto, também estava escrito que você seria o próximo. Foi por isso que, no dia em que foi levado para a seleção, você foi chamado no lugar de seu irmão. Além disso, sua apreciação por sua verdadeira forma faz com que seja o melhor representante de sua raça".
A explicação era a coisa mais louca que eu já ouvira em minha vida. Ter algo escrito nas estrelas, um pré-destino, era algo que não me agradava; mas não pude deixar de lembrar-se das coisas que Ailee gostava de lembrar... Sempre falava das estrelas, das mensagens que não podíamos enxergar, mas que ela podia. Do grande amor que ela dizia, com a expressão meio distante, que os deuses reservaram para mim.
— Você sabe do que estou falando, Katsuo. Sabe que não estou mentindo — insistiu fazendo com que minha mente que vagava voltasse a focar nele. — Precisa voltar para o feudo e preparar suas forças, porque o inimigo não vai parar até transformar todos em humanos completos, até extinguir os lobos.
— E se isso aconteceu? — perguntei engolindo em seco. Não gostaria que acontecesse, mas lembrava-me claramente do quanto os habitantes da vila gostavam dessa forma. — Por que é tão importante?
— Porque, Katsuo, eu desaparecerei junto com os verdadeiros lobos e minha família.
Um novo arrepio desceu por minha espinha e eu acenei, mostrando que entendera a gravidade do que poderia acontecer. Não seria apenas ele que sofreria as consequências, mas todos que o seguiam.
— E quem é a pessoa que eu tenho que derrubar?
Ele hesitou. Novamente desviando o olhar. Depois de um tempo, parecendo ter decidido algo consigo mesmo, voltou a me encarar. Poderia ser impressão, mas pude ver pena em seus olhos.
— Toshio Kobayashi. Seu pai.
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