Série Guerreiros: As Domadoras
1 As Domadoras
Notas iniciais
Um rugido soa alto na selva atrás de nós, estamos correndo e Maya, a aprendiz que colocaram conosco para fazer disso uma espécie de treinamento de campo não para de soltar gritos empolgados mesmo estando com o nariz ensopado de sangue.
–Ai, isto é tão legal!Agora eu sei como as feras se sentem!- Ela diz com uma voz aguda pela adrenalina e eu dou uma rápida olhada para trás.
– Talvez, se você não estivesse tão animada com a possibilidade de termos virado a caça, se lembrasse de que na selva existem árvores e não batesse de cara nelas.- Eu falo e ela resmunga alguma coisa como resposta enquanto limpa o sangue na manga da camisa.
Paramos embaixo de uma grande árvore para recuperar o fôlego.
–Não devia ser assim.- Digo com a respiração acelerada- Ele é muito mais forte do que nos levaram a acreditar, disseram que era uma coisinha boba e nem precisávamos de muitas armas.
Outro enorme rugido e o som de galhos caindo, mas para fazer este barulho teriam que ser galhos realmente grandes.
–Isso são árvores!?Ai meu Deus, ele está derrubando árvores!- Ela dá um suspiro nervoso.
–Aposto que não está tão animada agora, não é?- Não dando espaço para ela rebater continuo- Nós precisamos de uma estratégia, talvez se encontrarmos as out...- Sou interrompida por gritos femininos.
Maya e eu nos entreolhamos e corremos em direção aos gritos.Isso com certeza não é o certo a se fazer, estamos quebrando pelo menos uma dúzia de regras da sobrevivência indo em direção ao perigo deste jeito, sem nem se quer fazermos silêncio. Mas são minhas companheiras lá, as garotas com quem eu treinei e cresci junto, e uma delas é a treinadora de Maya. Por isso, infelizmente, o bom senso escapa de mim e ele não é a única coisa que escapa de mim, toda a segurança e a adrenalina de uma caçada se vão ao ver os corpos espalhados pela grama. Como bonequinhas descartadas depois de uma brincadeira, os corpos sem movimento, os olhos vidrados.
O sangue está espalhado por todo o chão em poças, manchas ocasionais em folhas ou troncos de árvores como se alguém tivesse se arrastado.
Uma das poças é maior do que as outras e o sangue que se concentra lá é negro azeviche e tem cheiro de mofo, deitada em cima dela está uma enorme criatura de pelo negro e com dentes afiados saindo de dentro de uma grande boca escancarada. Ela tem enormes orelhas felpudas e sua barriga está grotescamente aberta como se tivesse sido cortada por uma navalha afiada. Uma figura com uma estrutura pequena está presa em baixo do corpo da criatura. Reconheço Liza, a mulher que era vinte anos mais velha que todas nós , com seus olhos azuis e sua gentileza era como uma mãe.
Ouço pessoas gritando, o barulho dos cascos dos cavalos batendo na terra e os soluços de Maya. Só que a única coisa que eu consigo fazer é me deitar enrolada numa bola em cima do chão sujo da selva e soluçar baixinho. A minha única família se foi. Eu perdi todos, primeiro minha mãe me abandonou junto com meu irmão, depois meu pai morreu e agora as minhas amigas, a única família que me restara se foi também.
Sinto braços me levantando depois de algum tempo que pareceram horas, mas provavelmente foram só minutos.Ouço meu nome sendo chamado , mas só consigo permanecer de olhos fechados e deixar a escuridão me levar como o único consolo que me resta.
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