Réquiem

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Não lembro como fiz, nem quando fiz isso. As vezes me dá esse apagão e eu escrevo coisas que nem lembro que escrevi. Simples assim.

Réquiem

Para salvar algo... Você precisa destruir algo.

Foi apenas um instante. Apenas um instantezinho e ele enxergou Alma Karma chorando. Alma, o seu amigo. Alma aquele que o tirou da solidão. Alma. E então Kanda pensou sobre o que ele fazia: Era realmente Alma.

E eles lutavam de novo.

Eles tentavam se destruir novamente.

Não havia mais risos, nem os monólogos intermináveis do seu amigo. Seu amor. Por que não admitir? Ele amava Alma, tanto quanto amava aquele rosto feminino que o atormentava em seus sonhos. Sua memória, sua sombra; os vestígios da sua outra vida. Que nome teve? Quem ele foi? Não importava. Ele amou a ela. E tudo o que restou dela foi uma sombra. Um vestígio. Uma miragem. Um sonho bom. Doce e inatingível. Como o céu que todas as flores lótus tentam alcançar.

Ele tinha destruído Alma uma vez por uma lembrança. E agora o destruiria pelo que? Por causa da maldita ordem? Para salvar o que restou do seu coração? Por que ele destruiria mais uma vez aquilo que amava?

Kanda não sabia. Seus olhos só enxergavam Alma Karma; e o que restou do Moyashi. Que já não era mais ‘Moayashi’. Moayashi era o décimo quarto. Era seu inimigo.

O sangue dele estava em suas mãos. Assim como sangue de Alma. O akuma. O amigo. O parceiro. O amor. O tudo. O nada. Alma Karma.

Kanda não queria ter sentimentos. Ele não queria sentir. Ele não queria se prender a conceitos. Queria viver e fazer seu trabalho. Queria encontrar um meio de viver nas sombras. Cercado pela lótus. E a memória dela sorriria. Depois Alma sorriria. E por último o Moayashi sorriria.

Ele odiava pessoas que sorriam em meio as trevas, porque ele inevitavelmente não conseguiria ser imune. Ele poderia agredir, assustar, fugir, tentar escapar, mas aqueles sorrisos inevitavelmente... Um dia...

Alma chorava. E ele queria ver alma sorrir. O Moayashi voltou a ser Moayashi (por quanto tempo?). Moayashi desistiu de tudo, até de si próprio, para lhe dar liberdade.

Allen Walker sorriu uma última vez, e Kanda ficou junto de Alma até os momentos finais do seu amor. Alma que também era ela. Alma que também era a sua memória. Era o motivo da sua vida, o seu ar e seu tudo. Alma era sua esperança, que agora jazia morta em seus braços. O que restava da sua esperança?

O Alma que ele amava estava morto. E o que restou do Moayashi?

Do seu Moayashi? Porque era inevitável. Kanda não entendia a si mesmo, nem aos sentimentos que tanto evitava nutrir. Mas era inevitável. Seu coração fraquejava diante de quem sorria em meio as sombras. Era inevitável amá-la. Foi inevitável amar a Alma.

(Será que restou alguma coisa do seu amor?)

Kanda quis saber. E o procurou, o procurou muito. Porque os últimos momentos de Alma Karma eram dele. Graças ao pierrô triste chamado Allen Walker. O pierrô que chorava diante de si, o pierrô com um destino traçado e trágico que ele, Yuu Kanda, acelerou. O pierrô que ele amava.

Para ganhar algo, você precisa sacrificar alguma coisa.

Pelos últimos momentos com Alma Karma, Yuu Kanda sacrificou Allen Walker. Ou será que foi Allen Walker que, para ver Yuu Kanda feliz, se auto-sacrificou?

Nada que Kanda pudesse fazer agora traria seu Moayashi de volta.

(Então por que ele ainda esperava um sorriso? Por que ele ainda esperava que Allen conseguisse?)

Kanda acreditava que para conseguir algo, você tem que sacrificar alguma coisa. E agora ele entendia que uma vez sacrificado, não havia como pegar de volta. Allen Walker lentamente escapulia por entre seus dedos, se tornando o décimo quarto. O Moayashi morria. Corria para longe, para onde ele nunca mais poderia vê-lo sorrir.

Allen Walker nunca voltaria para ele. Seria eternamente o décimo quarto.

Com a inocência, ainda enquanto Allen era Allen, enquanto adormecia, Kanda o golpeou. Allen acordou, cuspindo sangue. Seus olhos arregalados em dor e incredulidade, sem sorrisos. Ainda Allen. O ferimento era fundo, em seu coração, mais grave do que qualquer um que já tivera.

-Por que...?

-Eu queria que fossem meus últimos momentos a serem seus. Mas não seria justo.

Allen cuspiu um pouco mais de sangue e sorriu uma última vez, como Allen Walker. Ele estendeu o braço bom, quase como se tentasse alcançar algo, Kanda queria que fosse o seu rosto. Não foi. Um sussurro baixo soou.

-Ma... Na...

E tão logo o sussurro morreu, o braço caiu ao lado do corpo e Allen adormeceu. Allen Walker dormiu, mas não virou o décimo quarto.

E Kanda precisou conviver outra vez com as sombras, dessa vez, sem qualquer sorriso para que ele pudesse amar. Pelo menos ele tinha a certeza que os momentos das pessoas que ele mais amou no mundo foram com ele.

Era o tipo de sacrifício com o qual poderia conviver.

Notas finais
Não está betado e é a minha primeira fic postada no fandom de dgm, daí nem sei se consegui manter os personagens IC. O que acharam?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!