Réquiem
1 Save me...
Acordei.
À minha volta, não haviam cores. Eram figuras disformes preto-e-branco, como em filmes antigos.
Eu não sabia se eram meus olhos ou o próprio cenário... Mas... Aquilo dava medo.
Onde estavam todos? Por que eu não ouvia nada?
Abri a boca para gritar, mas nenhum som saiu dela. Tentei mais algumas vezes, sem sucesso. Decidi, enfim, recostar a cabeça no chão novamente. Dei-me conta do quão sedento estava. Minha boca estava seca. Completamente seca.
Piscava os olhos esperando minha vista retomar o foco. As cores mórbidas que antes se mesclavam formando uma imagem quase surreal logo voltaram aos seus respectivos lugares e pude ver tudo com clareza, bem como lembrar.
Eu estava em um campo de guerra. Não me lembrava quem era meu oponente; Rússia ou França... Realmente não conseguia me recordar. Mas consegui retomar as memórias mais recentes. Estava junto de outros soldados e corríamos em território inimigo, quando algum deles gritou algo sobre uma bomba...
Houve uma explosão estrondosa, tão perto de mim que o calor chegou quase a ficar insuportável. Muito mais perto de alguns. Bem em cima de outros.
Fui jogado contra um tanque queimado e perdi a consciência.
Tentei virar a cabeça para a direita. Meu corpo doía a cada pequeno movimento que fazia e dei-me conta de que estava com apenas um olho aberto, enquanto o outro recusava-se a imitá-lo.
Eu continuava ao lado daquele tanque. Via o metal verde, sujo de lama e fuligem. Eu via cores, afinal... Mas o campo continuava cinza. Carbonizado.
Virei-me para olhar o outro lado. Deparei-me com os olhos aterrorizados de um soldado já morto e voltei-me para o tanque imediatamente, gemendo baixo. Sabia que, olhasse para qualquer outra direção, poderia ver mais corpos e membros espalhados pelo chão.
“ ... Alguém...”, implorei baixinho, uma voz sussurrante que saía em um chiado, atrapalhada também pela minha respiração ofegante que não cessava. Era o máximo que conseguia.
Encolhi-me como pude. Meu corpo doeu ainda mais, como se centenas de facas me rasgassem a pele e carne. Tremia com o medo e o frio que fazia ali e as lágrimas que escorriam de meu rosto eram as únicas coisas que contrastavam com aquela temperatura, deixando um rastro de calor temporário por onde passavam. Meus olhos alarmados rastreavam ansiosamente o que conseguiam, em busca de qualquer sinal... De vida...
“ ... Alguém... “, repeti, no mesmo tom. Sabia que estava em território inimigo e que precisava sair dali... Mas minhas esperanças de que algum herói aparecesse voando no céu para me resgatar diminuíam à medida que o tempo se passava e eu nada ouvia.
Nada... Literalmente nada. Era estranho..... Assustador. Mas não haviam problemas com minha audição. Eu ouvia minha própria voz.
“ ... Please...”, falava sozinho. Mesmo se houvesse alguém nos arredores, era pouco provável que me ouvissem. Sentia claramente as forças abandonando meu corpo aos poucos e sabia que logo iria perder a consciência novamente. Minha sede aumentou devido às lágrimas... Mas eu não podia desmaiar de novo. Podia ser confundido com um morto caso me achassem.
Eu... Queria ir para casa....
“ Help me... Somebody...”
Fui obrigado a calar-me se quisesse permanecer acordado por mais tempo. Mais um sentido foi reativado aos poucos e senti o cheiro de carniça misturado ao das cinzas. Aquilo apenas dificultava para que eu parasse de chorar.
E, aos poucos, eu perdia a noção do tempo... Perdia a noção de onde estava... Desnorteava-me mais e mais, esquecendo tudo novamente.
A dor que me acompanhava desde que acordei lentamente me recolocava para dormir e, mesmo com meus esforços, eu cedia aos poucos. Meu cansaço fazia com que aquele chão seco tivesse a maciez de um travesseiro.
Com o coração batendo rápido e a dificuldade para respirar aumentando, fechei o único olho que mantinha aberto. Não sabia se voltaria a abri-lo.
“ ...... Somebody...”, mesmo sem esperanças, mais uma vez tentei.
“ América...”
Ouvi. Ouvi algo. Meu nome. Uma voz abafada cujo dono não consegui identificar; apenas sabia que era masculina. Dado à minha situação a primeira coisa em que pensei foi que pertencia a um anjo.
Dois braços envolveram meu corpo e levantaram-me. Meu peito continuava a subir e descer frenéticamente e quem quer que estivesse me segurando deveria ter percebido aquilo.
Tentei abrir os olhos, mas nenhum deles obedecia. Malditos...
Ele não falou mais nada. Se não tivesse me chamado pelo nome, poderia jurar que fora capturado por algum soldado inimigo. Foi a segunda coisa em que pensei.
O tal homem colocou-me em suas costas. Postou-se de pé com certa dificuldade e caminhou comigo para longe dali. Meus braços pendiam, um de cada lado de seu corpo, fracos demais para se agarrarem nele. Minhas pernas pareciam que iriam ser rasgadas de meu corpo a qualquer momento devido ao peso de meu coturno, que insistia em puxá-las com força para baixo.
Tentei, novamente, abrir os olhos. Consegui forçar um deles a manter-se parcialmente aberto por um curto período de tempo e olhei para aquele que me salvara.
“ ....... Iggy....”, minha voz saiu pior do que antes pela falta de saliva e fôlego.
Ele dava andava devagar, os passos um tanto cambaleantes. Era evidente que não conseguia nem mesmo sustentar o peso do próprio corpo direito, e ainda levava o meu nas costas...
Voltei a fechar o olho.
“ Vai ficar tudo bem...”, foi a única coisa que ele disse. Sua voz, mesmo que dominada pela fadiga, não apresentava nenhum sinal de sofrimento.
Contrariando minha situação, permaneci acordado apenas repousando a cabeça em seu ombro até que ele colocou-me no chão. Ouvia-o arfar pesadamente e entendi que não conseguia mais continuar.
Deitei-me no chão e voltei a sentir a dor, mas não chorava mais. Arthur deitou-se ao meu lado e puxou-me com cuidado até ele. Sentia-o expirar ar em meus cabelos.
Sem fôlego para expressar-se com palavras, ele levantou meu queixo sem empregar qualquer força e tocou seus lábios nos meus. Entrelaçamos as línguas em uma brincadeira boba e ele me passou um pouco da umidade de sua boca, mas não conseguimos beijar-nos por muito tempo. Estávamos exaustos demais.
Voltei a encostar a cabeça em seu peito. Senti sua mão adentrar meus cabelos, acariciando-os levemente. Ele sabia que eu gostava.
Não sabia que horas eram, onde estava ou que raios estavam eu e ele fazendo ali... Mas não me importava mais. Aos poucos eu voltava a render-me ao sono, acalentado pelo inglês que serenava-me simplismente com sua presença.
Adormeci.
Fale com o autor