Ryans Tales

3 Terceiro Conto - O Conto das Pessoas Indesejadas.


#Terceiro Conto#: O conto das pessoas indesejadas.

George acordou mais cedo aquele dia. Tinha um sorriso estampado nos lábios finos e deixou tudo pronto para que seu amado acordasse feliz e que ele tivesse um dia ótimo. Ligou para a clínica pedindo o dia de folga, porém não lhe fora concedido por causa de uma maratona de cirurgias que iam fazer e, também, a instrução de internos nessas maratonas. Ross então pegou sua maleta e se preparou. Em seguida escreveu num papel uma longa parte das aventuras de Alec e Joshua para que Brendon – se quisesse – leia. Essas histórias talvez funcionassem um pouco e Ryan, estando bastante atarefado, não estivesse notando.

O que ele escreveu, tinha muitas folhas e ele deixou no quarto de Brendon que, com certeza, voltaria a ser quarto de hóspedes. Disse também naqueles papéis que se Bden precisasse de mais informações, poderia procurar Alex McWay no hospital ou Boyd, seu pai.

O neurologista acordou o amado com um beijo. Meio dormindo, meio acordado, Brendon não entendeu muito do que ele disse, mas ouviu a promessa de que o dia seguinte seria só deles dois, não importaria o que acontecesse. Bden concordou com a cabeça e Ross foi tranqüilo para sua estressante maratona de trabalho.

#Flash Back #

O neurologista pôs o estetoscópio em volta do pescoço e ajeitou o cabelo castanho antes de entrar no quarto do homem que amava para examiná-lo. Queria ser o primeiro a vê-lo acordado e antes de liberar para a família tentar enchê-lo de perguntas sobre qualquer coisa, que talvez ele não estivesse pronto para dizer. Mesmo conhecendo as poucas chances de lembranças, o doutor desejou que aquilo fosse só um sonho. Ao pôr a mão na maçaneta sentiu como se seu coração fosse parar de bater, porém ele abriu à porta e tudo aquilo que – supostamente – não deveria sentir, aconteceu. O medo arrebatou-lhe da pior forma possível, mas quis mostrar-se como um bom neurologista. Ser paciente e frio.

- Dr.Urie. – O homem que fora chamado levantou sua cabeça e olhou para o doutor que folheava o prontuário. Urie estava segurando em mãos um pequeno álbum de fotos aonde tinha guardado todos os momentos que o jovem não pôde participar.– Como está se sentindo?

O médico ficou extremamente feliz por ver Brendon folheando o álbum e lendo com cuidado os rodapés de cada foto deixado por Boyd. Para Ryan era a melhor coisa que lhe aconteceu nos últimos três longos anos. Brendon tinha reconhecido o doutor das fotos, apesar da aparência acabada que ele tinha: olheiras, cabelo desajeitado, mais magro que nunca. Porém não lhe disse absolutamente nada, apenas limitou-se a responder a questão do homem:

- Como se eu tivesse passado os últimos anos sem me mexer. – Respondeu ao médico naturalmente, tentando parecer o melhor possível, mesmo estando um pouco tonto e com um pouco de receio por causa das fotos. – E como eu realmente estou, doutor... Ross?

Na verdade a pausa no nome foi porque Brendon leu no crachá. Mal ele sabia que o homem bem ao seu lado era simplesmente a pessoa que mais lhe amava nesse mundo, mesmo sendo o tempo todo, a pessoa mais imperfeita dele. Porém qual a pessoa que não tem medos? Qual a pessoa que não tem imperfeições? Dizem que é isso que nos torna humanos... Dizem que são as imperfeições que nos fortalecem.

Nem um, nem o outro tentava tocar no assunto dos familiares de Urie, de suas lembranças. Tentavam ser formais ao máximo que pudessem, mesmo que o coração de Ross pedisse outra coisa, mesmo que Brendon tivesse um milhão de perguntas, mas nenhuma queria sair dos seus lábios. A voz lhe faltava, os olhos expressavam uma estranha felicidade ao ver o médico ali, preocupado com sua saúde:

- Em uma avaliação extra-oficial, Sr. Urie eu diria que o senhor está ótimo, porém vou submetê-lo a alguns exames para saber se estou correto.

Em nenhum momento, George olhou para os olhos do rapaz. Agora era ele que tinha medo, mesmo a sua voz soando firme e profissional. A verdade é que o doutor queria, mesmo, beijar seu namorado ali mesmo, mas Urie parecia não se lembrar dele e isso frustrou o mais velho de uma forma inevitável e irreversível.

- Eu sempre achei que quando se acorda de um coma, as pessoas encontravam seus familiares em volta dela e eles dizem o quanto o sentiram falta. – resmungou apertando um pouco o álbum. – Supostamente minha família me ama, não é, doutor? Ao menos, é o que mostra esse álbum.

- Bde... Dr. Urie, sua família te ama. As pessoas aqui amam você. Eu não os deixei entrar porque queria examiná-lo primeiro, para que você pudesse ficar tranquilamente com sua família. – Urie assentiu com a cabeça enquanto o médico encarava os sinais vitais do homem no aparelho – Eles não saíram daqui em nenhum minuto sequer desses três anos.

- Três anos? – Disse espantado – Caramba! Por que, doutor, eu não me lembro das pessoas que estão nesse álbum? – Perguntou inocentemente e de forma doce. Os olhos dele voltaram para o castanho que não disse nada, apenas fingiu apertar alguns botões. — E por que o senhor está nele? E por que eu não lembro desses momentos no álbum?

- Três anos, meu caro. – Foi só o que se permitiu falar. Queria manter sua postura, mas acabou sentando em uma poltrona perto da cama. Ele tinha caído e por mais que não quisesse, a vontade de chorar estava presente – Quando se volta de um coma longo como o seu, é provável apresentar quadros de amnésia. Com um exame, vou poder dizer com toda a certeza se será permanente ou não.

- Não respondeu minha questão, doutor. Por que o senhor faz parte dessas fotos?

Ryan não teve condições nenhuma de responder as perguntas de Brendon. Ele não sabia definir se aquela vontade de chorar era por Brendon – finalmente – ter acordado, ou se era porque ele não lembrava de tudo o que eles tinham vivido para ficar juntos. Vendo que não seguraria mais, entrou no banheiro que tinha no quarto de Brend e extravasou. Deixou a vontade de chorar se transformar numa intensa cascata. Arrastou-se pela porta até que seu corpo tocasse o chão.

Ouviu então três batidas na porta, seguidos pelo barulho dos sinais vitais de Brendon se apagando e aquele ‘pi’ insistente. Mais que depressa, Ryan limpou o rosto de qualquer jeito e voltou para o quarto o mais rápido que pôde encontrando Brendon de pé, perto da porta.

- Você está bem, doutor Ross? – Perguntou e Ryan levou o homem de volta à cama apenas assentindo com a cabeça. Talvez fosse à hora certa de recuperar forças porque Ryan descobriu que ele teria que enfrentar um problema invisível que nem ao menos ele sabia como.

- Quem devia perguntar isso sou eu, uh? – Brendon sorriu, sendo posto de novo na cama com um cuidado extremo. Ross deu um beijo bem devagar na testa de Urie que sorriu de leve e tocou a mão do doutor com doçura. Para Brendon um ato de amizade e de gratidão, para Ryan, um toque pequeno, mas renovador. – Vou deixar você sozinho com sua família e aproveitar para pedir alguns exames para o laboratório.

- Okay, Dr. – Sorriu Brend – Pode vir me ver sempre que quiser, porque eu... Queria conversar.

- Claro.

Ross saiu do quarto e encontrou-se com os pais de Bden esperando por informações do filho. Ryan engoliu o sorriso que a última frase de Bden, criado devido à esperança de conversas com o namorado. Tinha tanto que ele queria falar e, isso, deixava o doutor em êxtase.

- Como era esperado, Sr. e Sra. Urie, ele não se lembra de nada. Ainda não posso lhes afirmar com precisão se essa amnésia é passageira, mas vou pedir alguns exames para ter certeza absoluta, mas eu aconselharia procurar uma segunda opinião. – Disse Ryan, o mais profissional possível.

- Confio no seu profissionalismo. – Afirmou Boyd enquanto Grace cruzava os seus braços. – Agora perca a pose de profissional e diga para mim como se sentiu ao vê-lo acordado?

- Ah... – Ross desfez a pose e sorriu – Não foi como nos meus pensamentos, mas foi muito confortador, mesmo sabendo que ele não tem noção de quem eu seja ou de quem ele é.

- Eu quero uma segunda opinião. – resmungou Grace e Ryan apenas deu de ombros. Era uma reação previsível.

- Retomando a parte profissional, Boyd, eu prefiro que o deixe descasar e não o force a lembrar das coisas. Ao chegar, apresentem-se a ele porque – apesar do álbum que você deixou –, Bden não se lembra de nada e nem de ninguém.

Meses depois, Brendon passou a reconhecer os pais, Ryan e o pequeno Charlie, só não sabia o que tinha passado com cada um deles e o que significavam em sua vida. Reconhecia-os por novas lembranças e não pelas antigas. Ross estava feliz com o resultado, mas parecia que a família estava achando tudo muito lento demais.

Por fim, Ryan receitou alguns medicamentos, fez alguns quebra-cabeças com fotos de familiares, amigos, pacientes e principalmente de Bden com o namorado e sugeriu que os familiares contassem histórias que o ajudassem a se lembrar, mas no dia da alta, Brendon estava tão feliz com os cuidados e conversas que tinha com Ross e Charlie que pediu para ir morar com eles.

Foi, com certeza, um dos dias mais felizes da vida de George.

#Fim do Flash Back#

Brendon lembrava-se de ter tido – finalmente – coragem de beijar seu desejado Ryan e se lembrava de não ter sido rejeitado por ele. Recordou-se que Ryan tinha lhe prometido novas lembranças das quais ele se apegaria o quanto vivesse e sentiu-se cheio de alegria por ter as lembranças da noite passada.

Urie não leu o que Ryan deixou escrito, até porque, só foi em seu quarto para transferir as suas coisas para o quarto de Ryan. De certa forma, ele estava querendo retomar um direito que ele não sabia que tinha. Preferiu deixar a casa organizada mesmo que para Brendon fosse um tanto complicado organizar alguma coisa, porém gostava de se sentir útil. Decidiu então, de fato, ir procurar algum emprego. Iria começar com algo que não precisasse de suas lembranças em medicina.

Colocou uma roupa toda branca e penteou os cabelos de lado, estilo social, virado de lado e viu algo que nunca se separava dele: seu estetoscópio. Bden pôs em volta de seu pescoço e bateu uma foto instantânea e a colocou no espelho de Ryan com a seguinte questão: “Eu poderia ter sido um médico bom, bonito e acessível?”

Apesar de, nesse um ano e meio ele estava acordado, nunca ter – verdadeiramente – buscado por respostas e se satisfazer com as evasivas de Ryan, ter seu estetoscópio no pescoço lhe deu vontade de saber se ele poderia – ou não – ter sido um médico, se ele teria sonhado com isso quando criança. Na verdade, ele queria ter sentido o gosto do sonho realizado e principalmente, de ter Ryan com o mesmo gosto realizado.

Acordou de seus pensamentos com a campainha tocando e praguejou um pouco por não ser uma hora muito propícia, mas atendeu encontrando com Sandra e George Ross, os pais de Ryan. Ela vestia um vestido acinzentado e se protegendo do frio com um sobretudo preto que batia em sua panturrilha. Sua maquiagem leve deixava a ruiva elegante e com um ar jovial. Os óculos escuros dela tapavam a cor natural de seus olhos, mas aquela visita tinha um cheiro hostil. O homem se apresentava com uma camisa social preta e uma calça jeans, ele também usava óculos escuros e, novamente, Brendon notou certa hostilidade.

Gentilmente o morador do chalé abriu um sorriso, típico dele. Atendia a todas as pessoas assim, sem maldade sem importar qual era o motivo da visita ou se a hora era, ou não, inoportuna. Ele cedeu espaço para o engenheiro civil – George Ryan – entrar conduzindo a sua mulher em passos incrivelmente elegantes. Bden admirou aquilo e isso ampliou o seu sorriso.

Então, ele lembrou-se que o homem ali presente era pai do homem que ele estava ficando. Que estava cuidando dele com sua vida e que estava sendo o mais paciente possível. Aquilo lhe fez ficar muito nervoso. A alfaiataria de George era maravilhosa e deixava a conversa com um tom mais formal e amedrontava o pequeno Brenny. O pior foram às caras e bocas que o casal fez ao ver a casa que seu filho estava morando, expressões de desdém que deixaram Bden bem pior.

- Sr. e Sra. Ross. Sentem-se. – Brendon apontou o sofá não muito conservado. – D-desculpem-me a desordem, mas é que eu não tive tempo de dar uma organizada melhor. Então, ao que devo a honra da visita?

- Quanta cordialidade, Sr. Urie. – disse a mulher sentando-se no sofá, seguida pelo seu marido – O motivo é o meu filho Ryan.

- Podem me chamar de Brendon, por favor. – sorriu de forma atordoada enquanto tirava o estetoscópio do pescoço – Querem beber algo?

- Não. Grato. – Disse George, altamente centrado, provocando calafrios malucos em todo o corpo de Brendon. O mais velho olhava diretamente para Brendon e, por um breve tempo, voltou a olhar para o chalé dos garotos. – Que espelunca! – Resmungou baixo para si mesmo, mas Brendon ouviu e, com certo receio, calou-se. Foi então que ele percebeu que a conversa seria mais difícil do que ele imaginava que seria.

- Vamos direto ao assunto. – Disse Sandra por fim, pondo os óculos escuros na cabeça – Quando meu filho tinha dezesseis anos, você entrou na vida do meu filho. Você o mudou completamente, certas mudanças foram ótimas, certas não foram. Você pôs tudo o que tínhamos construído a perder. Ao contrário de você que teve uma infância invejável, o meu filho viveu sozinho por anos. George, meu marido, estava sempre viajando e eu estava sempre de um lugar a outro. Quando nós dois percebemos, nosso filho tinha crescido e estava perto demais de você e ele virou outro. Ele ficou agressivo, rebelde e do nada – supostamente – se apaixonou por medicina.Ele nunca sonhou em fazer medicina...

- Na realidade, Brendon, eu achei que era algo de puberdade, que passaria. Eu sempre disse a ele que a amizade de vocês acabaria logo, mas quando ele fez dezessete anos, já estava completando dois anos que vocês se viam periodicamente. Eu recebi uma visita, era teu pai, Boyd. Ele dizia que tinha descoberto vocês se beijando na boca. Eu perdi o chão, já tinha desconfiança, mas jamais teria a certeza. Ryan sempre foi cuidadoso com as suas coisas. Eu tentei separá-los levando o meu filho para estudar numa escola de engenharia, mas ele preferiu a Harvard. Quando, por fim, os meses se passaram e meu filho teve que encarar a faculdade, ele chorou. Chorava feito bebê e eu nunca tinha visto meu filho daquela forma. Ele foi mesmo para medicina para realizar o seu sonho. Percebi então, que tinha perdido aquela batalha para você.– George parecia estar em uma crise nostálgica enquanto falava. Estava resumindo e tentando não parecer hostil, apesar de serem venenosas cada uma de suas lembranças. Bden, por sua vez, estava com os olhos cheios tentando conter as lágrimas, porque ele não tinha a frieza dos Ross.– Só que, Urie, eu tinha uma cartada na manga desde sempre.Eu dei tudo o que o Ryan quis, sempre. Mesmo estando longe, mesmo distante, meu filho vivia do bom e do melhor: coberturas de luxo, salões, festas, roupas, muito, muito, muito dinheiro e eu disse que o deserdaria.

- Sinceramente eu achei que ele desistiria de você. Ninguém no mundo vive sem dinheiro, ainda mais quem era acostumado a viver com o bom e com o melhor. Porém, por amor a você, ele largou tudo para ficar contigo. Eu descobri que o meu Ryan tem uma força sobre humana dentro de si. Um ano mais tarde e você foi para Harvard e vocês retomaram esse ‘amor’, o casinho de antes e depois que saíram da faculdade com louvor, conseguiram um emprego na clínica do Telles. Até aqui, o problema foi menor, mas depois vocês alugaram esse chalé. Pra você, uma casa ideal que conseguiriam pagar, para ele uma casa ridiculamente pequena e sem aparência. Um tempo morando juntos e vocês passaram a brigar muito, os seus ciúmes sufocavam o meu filho, a frieza dele te incomodava, então... Você sofreu o acidente, mudando novamente a vida do RyRo.– A mulher olhava fundo nos castanhos de Bden e mantinha seu teatro. Ela tinha os olhos cheios d’água o que dava certa ‘verdade’ aquilo. – Ele não tinha escolhido uma especialidade e o seu acidente o fez largar a cardiologia que ele amava pela neurologia que odiava só para tirar você do coma.

- O que a Sandra está querendo dizer é que você tem sugado e sufocado o meu filho Brendon. Ryan sofreu quando você se acidentou e ele ainda está sofrendo e sem forças. Você não tem ajudado o meu filho recuperar as forças, só o tem sugado. – George recostou-se no sofá e Sandra Ross segurou as mãos de Brendon fingindo dar forças – Eu me importo com meu filho e por isso estou aqui.

- Eu sei que é complicado, mas você tem que entender que o meu filho precisa se recuperar de tudo o que ele sofreu até agora. Ross precisa de um tempo para ele.– A mulher deixou um beijo falsamente protetor no topo da cabeça de Brendon que deixou as lágrimas caírem. – Charles também tem se afetado. Passa na escola e confere as notas dele que você vai ver o que eu estou falando.

- É isso que viemos dizer, Brendon. A gente já vai e você decide o que fazer. – Bden assentiu, os levando até a porta. – Grato pela atenção.

Os pais de Ryan deixaram Bden sozinho com sua cabeça cheia de dúvidas. Brendon correu para o quarto deles e se jogou na cama para sentir o cheiro de Ross e se torturar mais ainda. E Brendon agora começava, também, a perder as suas forças.

#Flash Back # (Brend)

Las Vegas. Inverno que deixava a cidade toda agasalhada e com ar branquinho e natalino, mas também com uma pitada de tristeza por causa da data. No dia seguinte, Ryan estaria embarcando para Cambridge em Massachusetts. Seriam mais de três mil e oitocentos quilômetros separando os dois.

Bden já estava chorando, pois por telefone soube da briga que teve com seus pais e que fora expulso de casa se entrasse na Escola de Medicina e mesmo assim, Ryan persistiu. Ele estava chorando mais pelo fato de ter que vê-lo somente no recesso de Harvard e teria que agüentar esse relacionamento à distância, mesmo sabendo o quanto medicina ferra a vida social das pessoas.

Ryan estava triste também, mas sua personalidade fria não deixava que ele demonstrasse e, antes disso, ele sabia o quanto Brendon é emotivo e estaria também arrasado.Ele tocou a campainha da casa de Urie e foi ele mesmo que o atendeu. Os pais dele estavam na sala e trataram de deixá-los a sós. Grace e Boyd esperavam que esse um ano de distância fizesse o favor de separar os dois.

Eles apenas se olhavam, sem falar nenhuma palavra, porque talvez não fosse necessário naquele momento desconfortável. Então, o maior abraçou seu pequeno. Deu-lhe um beijo carinhoso na face e sentiu as lágrimas quentes de Brendon caírem em seu ombro. Seus dedos longos acariciavam os cabelos escuros dele e seus olhos estavam fixos em um ponto qualquer. Como se lutasse para não demonstrar tudo o que sentia. Ross levantou a cabeça de Urie e secou as suas lágrimas com todo o cuidado e em seguida selou os lábios deles por diversas vezes.

- Não chora, okay? Chega. – Sussurrou Ryan entre os lábios de Bden que sentia os finos lábios se moverem. Estava tão fraco e mole que se Ryan tirasse as duas mãos de seu rosto, com certeza ele cairia. Ao contrário de Brendon, Ryan mantinha os olhos abertos para guardar para si a imagem de um Brendon frágil e triste, para que ele fizesse disso a motivação para voltar nas férias e esperar com ansiedade a hora de tocar seu namorado novamente. – Lembre sempre que eu vou estar perto de você, que será só um ano. Lembre-se sempre de todos os nossos sonhos, lembre-se da mesa com a placa ‘doutor Ross-Urie M.D’, lembre-se de mim, sempre e sempre, só... Não quero fazer você chorar.

- Eu não posso pedir que não... N-não vá, não é? – Brendon abriu os olhos encarando os castanhos de George que fez um não com a cabeça. Ross não era de largar seus sonhos por nada, mas era capaz de coisas incríveis por amor. Os olhos de Brendon estavam cada vez mais vermelhos e mais tristes. – Não queria que você fosse.

Nessa hora, as pernas de Ryan ficaram tão bambas que ele sentou-se. Era a primeira vez que Ryan perdia as forças na frente de Brendon. Era a primeira vez que ele sentia que nada ia dar certo em sua vida e que era melhor desistir de tudo. Ficar eternamente pobre e voltar correndo para seus pais dizendo que estavam certos, que ele não dava conta de viver sozinho. Apenas na frente de Brendon cair não parecia errado e fracassar poderia ser sinônimo de recomeço.

Ross sentiu-se abraçado e agora era consolado pelas mãos do seu namorado. Ele deitou sua cabeça no colo de seu garoto e se encolheu. Mais nada bastava ser dito. Nesse momento, as lágrimas banharam mais ainda o rosto delicado de Brendon Urie e, Boyd que espiava a cena atrás da porta percebeu o quão apaixonados estavam, mas não quis admitir, porém, não tinha mais o ódio que antes expressava.

- Eu... E-eu preciso ir pra Harvard... M-mesmo. – Sua voz saía frágil e ao mesmo tempo, triste.– E depois... Sei que você irá para lá, nós vamos construir família, vamos ser médicos muito bem sucedidos, ter nossa clínica, ter nossa casa grande e espaçosa, aonde nossos filhos vão correr e brincar... E vamos ser felizes. – Ryan olhou Brendon e este voltou a selar os lábios dos dois até que esse ato se aprofundasse calmamente, sem pressa nenhuma.

- E se eu não for aceito, hm?

- Nem cogite isso. – Respondeu em tom autoritário. Brendon assentiu com a cabeça. Talvez aquilo fosse o motivo que faltava para se entregar de vez aos estudos. Se apoiar neles para ter de novo a recompensa de ter o seu George Ryan para si que se levantou do colo do namorado e selou novamente seus lábios. Precisava mesmo ir para o hotel fajuto aonde estava morando até ir para um alojamento em Harvard.

Era a pior hora do dia. De costas, Ryan começou a caminhar até a porta. Contemplava os olhos tristes do namorado, mas esse era seu ponto fixo. Brendon sentiu uma força estranha o impulsionar para fora do sofá e, não agüentando mais vê-lo partir, Brendon correu para seu quarto e Ross parou de caminhar, olhando bem para a escada da casa simples dos Uries.

Finalmente, Ryan atravessou a porta e o que Brendon não pôde ver foi a lágrima que Ross não fez questão de limpar.

#Fim do Flash Back#

Eram mais ou menos dez da manhã quando Brendon acordou. O choro mais a pequenarecordação fizeram Bden pegar novamente no sono. Ele levantou-se desajeitado e tomou um novo banho, pôs uma nova roupa, almoçou. Organizou cada detalhe da casa, mas deixou o pequeno porão por último. Lembrou-se que iria procurar um emprego e então, começou a deixar seus currículos improvisados em todos os lugares possíveis até que, por fim, passou em frente à clínica que Ryan trabalhava. Não custava nada entrar.

O que Brendon não esperava era a recepção de glória que teve. Deliberadamente e sem controle. Até o doutor Telles ter que contê-las, mas ao ver Bden, alegrou-se muito. Brendon sentia que aquele ambiente era familiar apesar de não lembrar de fato dali. Então, uma das enfermeiras se aproximou:

-Bom dia, Dr. Urie. – Ele sorriu. Havia muito tempo que ninguém não o chamava assim, nem mesmo Ryan e era bom ouvir alguém diferente dos demais reconhecê-lo. Apesar deestranhar tamanha demonstração de carinho das pessoas – Lembrou-se de alguma coisa/

- Na verdade, não tudo. – Disse Brendon desanimado, mas em seguida sorriu de forma doce, típico dele, passou a mão por entre os cabelos escuros e a garota o analisou.– Na verdade, eu só passei por aqui pra conhecer... É aqui que o Ryan trabalha e eu só decidi entrar.

- Era aqui que você trabalhava. – Corrigiu a mulher fazendo Brendon franzir o cenho e depois sorrir timidamente. – C’mon doutor. Você sempre será bem-vindo aqui quando quiser nos ajudar, quando quiser trabalhar ou mesmo quando vier nos ver.

- E qual era minha especialidade? – Perguntou com curiosidade, arqueando a sobrancelha para ela. Um gesto classificado como adorável, então Bden caiu em si, nem ao menos tinha perguntado qual o nome da garota – Qual o seu nome, doçura? E... Desculpe a grosseria eu... – calou-se por não saber como desculpar-se, porém a mulher soltou apenas uma risada baixa, conduzindo o homem para o pátio do hospital.

- Ashley Blue. – Respondeu ela, apontando o banco de concreto para que ele sentasse e se sentou ali também. Existiam alguns anos que queria se aproximar dele, tinham alguns anos que ela invejava Ryan. Era sua chance, porém mesmo com tudo nas mãos, não conseguia mentir para o garoto doce e gentil que amava.

- O Sr. não tinha escolhido ainda.– Suspirou ela e ele deixou seu grosso lábio inferior ficar preso em seus dentes. Maneou negativamente a cabeça e coçou a nuca de forma constrangida. Então ela se lembrou que ele odiava ser chamado de senhor. Doutor até que ele aceitava, por respeito, mas somente em horário de trabalho. Ela tapou a boca com as duas mãos e Brendon sorriu novamente.– Mas preciso considerar que você era ótimo com crianças.

- Ah... Entendi. – Disse Brendon com o cenho franzido. Conversar com a enfermeira fora libertador. Deu-lhe sede de saber quem era, de ter mais do seu passado, esquecendo-se completamente da noite anterior. – E Ryan? Como era minha relação com ele?

- Dr. Ross?- Respirou fundo antes de começar a falar. Bden tinha os olhos curiosos e brilhantes. Ela escolheu bem as palavras, porque, o pouco que conhecera dele já estava exalando esperança naquele romance. Pobre Ash. – Ele sempre foi um tirano com todos a sua volta. Até mesmo contigo.Raramente vocês chegavam aqui em paz e as brigas de vocês pioravam a tirania. Todo mundo aqui era lixo para ele até alguém convencer você, Brendon, de conversar com ele e acalmá-lo.Não sei como ele era contigo, a sós e talvez ele tenha mudado.

Aquelas palavras foram duras, porém em nenhum momento a enfermeira mentiu. Para Brendon, Ross era uma das pessoas mais doces que tinha conhecido e esse suposto passado parecia querer pregar uma peça nele. Por um momento, não entendeu como aquele suposto grosso tinha lhe conquistado.

- E como eu ficava?

- Péssimo. Você sempre foi uma das pessoas mais alegres, sensíveis e engraçadas que eu já tive o privilégio de conhecer. Você nunca foi tão workaholic como Ryan e gostava muito da ala pediátrica. Um pouco de carinho das crianças sempre fazia você parar de chorar e esquecer a dor que Ross causava. – Respondeu ela com pesar na voz.

- Obrigado, Ashley.– Brendon puxou uma caneta do bolso e escreveu seu número de telefone no pulso da garota. – Me liga quando quiser, hm? E eu preciso deixar você ir trabalhar.

- E o doutor Ross não ficará com ciúmes? – perguntou ela, bastante curiosa.

- Talvez, mas eu quero novas lembranças e isso inclui novos amigos, não acha? – Ele piscou para ela que ficou vermelha com a atitude, de frente pra ela, Bden foi pra casa.

No meio do caminho, Bden tentou achar seu pai, mas não conseguiu. Ele queria descobrir que Ashley estava mentindo. Brendon não queria aceitar a verdade, não queria um Ross workaholic metido de antes do acidente. Queria que ele continuasse sendo esse homem doce de sempre.

Ao entrar em casa, pela primeira vez, achou que aquela casa tinha um pouco dele. E começou a revirá-la atrás de qualquer resposta sólida sobre seu passado. Ele forçaria a sua memória aproveitando-se que Ryan ainda não tinha voltado. Queria saber como tinha sido sua vida até aqui, mas principalmente, como era seu passado com Ryan.

Encontrou um álbum de fotos no porão e começou a folheá-lo. Não se lembrava de nada do que as fotos lhe mostravam, mas ao leras legendas que ele continha. Ryan tinha escrito de próprio punho cada uma delas e da maneira mais doce possível. O que Bden não sabia era que aquele álbum foi feito para presenteá-lo dias antes da tragédia.

Brendon chorava por não conseguir se lembrar. Ver e não conseguia saber ao certo do que se tratava, consumia-o. Matava-o aos poucos e cada vez mais.

Ryan só chegou às cinco da manhã com a cara péssima, despenteado, com a gravata afrouxada.Encontrou Brendon já na sala, rodeado de papéis, fotografias, antigos prontuários e debruçado sobre um livro. O maior sorriu ao vê-lo daquele jeito, mas foi difícil vendo-o buscar respostas. Sentou-se no chão, ao lado do seu amado e começou a enchê-lo de pequenos beijos até que seus olhos se abrissem.

Foi então que notou que o menor tinha passado a noite em claro, chorando. Seus olhos castanhos estavam avermelhados, inchados e seus óculos vermelhos estavam tortos infantilmente em seu rosto. Aquilo, além de lhe preocupar, partiu seu coração em vários pedacinhos. Bren olhou o maior nos olhos e o abraçou com todas as forças que tinha em seu ser. Dessa vez, era Ryan o amedrontado.

- Sh... O que houve? – Perguntou em um sussurro doce enquanto acariciava as costas de Brendon.

- N-não foi nada. Eu...estava revirando umas coisas e acabei mexendo com todas essas coisas eu... – Respondeu aflito e achando que Ryan ia ficar bravo, mas o último apenas beijou-lhe a testa.

- Sabe que não devia ter se forçado tanto. – Bden assentiu – Eu tenho paciência o suficiente para esperar você para sempre.

- Porém eu não tenho paciência pra me esperar. – Brendon rolou os olhos e o outro deu um sorriso pequeno. – É difícil não saber quem eu sou, porém eu sei que é mais difícil ainda para você e eu... Eu... Eu tenho que te agradecer pela sua paciência, pela sua dedicação...

- Sh... – Ross o repreendeu com o dedo indicador em seus lábios do menor. Aqueles lábios doces e aveludados que tanto ele amava. – Eu entendo seu desespero, mas vamos com calma. Quero explicar como a gente era de acordo com o que você lembra. Sem manipulações, sem chantagens.Sem drama, só o que a gente era, o que a gente é e o que eu quero que a gente venha a ser.

As palavras do Ryan encantavam até o pequeno Charles que tentava ir pra escada pé anti pé para não atrapalhar, mas escutou um ‘canrran’ vindo de Ryan. Charles voltou para a sala onde Brendon estava sentado e os olhou.

- A gente precisa conversar, mocinho. – Disse Ross com o semblante bem bravo – Estava mesmo a sua espera.

- Mas olha só, pai... V-você... – O menino prendeu o lábio inferior nos dentes, notando o rosto do pai ficar mais carregado. –Pode falar. – E sentou-se ao lado de Brendon, enquanto Ryan sentou-se na mesinha de centro para olhar os olhos do filho.

- Eu soube que você andou usando de violência na escola e está desatento em algumas matérias. O que há contigo? – Ryan perguntou fazendo o menino se encolher no sofá antes de começar a responder. – Charles!

Ryan segurou a mão de Brendon e também as pequenas mãozinhas de Charles que abraçava os próprios joelhos. O menor deles não queria falar sobre o que acontecera, mas devia. Seu pai – Ryan – não era de esperar muito tempo por respostas e sabia que sua demora estava irritando-o.

- Eles xingaram o papai Bden e eu nunca vou aceitar que falem mal dele. – Encostou então sua testa na mão de Ryan que estava em seu joelho e o menino olhou para baixo – Eles disseram que... Que... – Deixou a frase morrer ali, porque as lágrimas lhe caíam e a voz lhe faltou. Charles não se orgulhava de ter brigado na escola, mas não se arrependia de ter defendido seu pai com unhas e dentes. Brendon, com calma, pegou o garoto no colo e o sentou no mesmo, Charlie escondeu o rosto no peitoral de Brendon e completou dizendo: — Desculpe, eu não vou fazer mais isso.

- Charlie, olha um pouquinho pra mim, pequeno... – Disse Bden e o menino desviou seu olhar até se encontrar com os de Bden. – Eu não acho errado, mesmo, o que você fez por mim e por toda a classe de homossexuais existente. Você foi lá e deu uma lição em quem é homofóbico ou em quem acha que minha amnésia não tem cura. Defender a família é uma coisa ótima de se fazer, de verdade. Sei que palavras doem muito mais que um monte de porrada, porém, como seu pai, eu não gosto de violência. E você é um menino doce, lindo e sensível, essa violência não levou você a nada...

- Me desculpe, papai. – Bden estava radiante por ser chamado de pai e, por ver a felicidade do seu amado, Ryan não repreendeu o garoto por tê-lo chamado assim . – Não acontecerá mais, eu prometo.

- Duas semanas sem vídeo-game e computador até você se recuperar das matérias que precisa se recuperar. – Sua mãe tinha trazido o menino muito cedo e ele ainda tinha o rostinho bastante sonolento – Vai pra cama, são cinco e meia da manhã. Você nem deveria estar acordado.

- Ta.

O menino subiu correndo as escadas do chalé, arrancando gargalhadas do casal. Bden e Ryan voltariam a ficar sozinhos, conversar, namorar, dormir juntos. Coisas que Ryan sonhava em ter, porém Brendon não sabia se era merecedor. Aquela conversa com Charles lhe doeu muito. Sandra tinha dito que estava afetando o desenvolvimento do menino nas notas. Brendon estava se decidindo se continuava com aquela forma egoísta de viver a vida ou se deixava seu amado se recuperar.

Em sua mente, Brendon achava a segunda possibilidade mais plausível e estava a ponto de decidir por ela.

“When you come back down

If you land on your feet

I hope you find a way to make it back to me”

Quando você voltar atrás

Se você pôr os pés no chão

Eu espero que encontre uma maneira de voltar pra mim.”

#Fim do Terceiro conto#