Runnin' Home to You
1 Prólogo: O Velocista Escarlate
Notas iniciais
Muitas pessoas acham que sabem como suas vidas vão ser. Planejam o futuro como se ele fosse algo concreto e imutável sem considerar que talvez a vida siga um percurso completamente diferente. Sem considerar que ela tenha vontade própria e que reserve algo para você independente do que você queira.
O futuro quer acontecer. E isso é um fato que Elly Frost nunca esqueceria. Todos os caminhos sempre a levaram a apenas um lugar. A apenas uma coisa.
Particularmente, tudo que Elly queria era ingressar em uma faculdade, ter seu próprio laboratório e viver uma vida de aventuras.
Mas isso foi antes. Antes do Flash matar a sua mãe.
Elas estavam visitando Central City quando aconteceu. A noite estava abafada, quente demais para a primavera, o ar era denso e pesado.
Mesmo próximo ao mar com a brisa soprando o cheiro de sal e umidade, Elly sentia as gotas de suor escorrer pela sua nuca. Ela nunca fora muito fã do calor...
Elly passou a mão no pescoço e secou na calça. Sentia toda a pele pegajosa por baixo da roupa e ela olhou para o céu, esperando ver algum indício de chuva. Mas ele estava tão límpido que era possível ver todas as estrelas.
—Não é uma cidade agradável? — Sua mãe estava dizendo. -Absolutamente deslumbrante.
Elly conteve um suspiro. Lá vamos nós, pensou.
Desde que chegaram a Central City naquela manhã, sua mãe se dispôs a elogiar cada casa, cada lanchonete e cafeteria por onde passavam como se isso, de algum modo, tornasse a idéia de se mudar mais agradável.
—E é completamente segura.
Martha tirou um cigarro do maço e acendeu. Adquirira esse hábito recentemente. Era detestável.
—Coast City é segura, mãe.
—Não o suficiente. disse soltando uma nuvem de fumaça.
—É o suficiente para mim.
Um silêncio pairou entre elas, tão pesado que o som das cigarras ficou repentinamente alto.
—O que está dizendo? -Perguntou ela por fim.
Elly sabia que a mãe a estava encarando com o olhar que ela reservava para quem a desapontava. Este geralmente vinha acompanhado com o vinco entre as sobrancelhas bem feitas de Martha e uma voz incisiva.
Ela não está usando a voz de chefe, pensou.
Elly pisaria em ovos,então.
— Vou ficar em Coast City -Disse.
Daquela vez o silêncio não durou tanto.
—Não.
Elly se empertigou.
-Eu não estou pedindo.
Martha franziu o cenho fazendo o vão das sobrancelhas desaparecer por completo.
-A resposta continua sendo não.
-Faço dezoito em menos de um ano, mãe. Posso cuidar de mim mesma.
—Pois não. Bem-vinda a Central City. -Não pode me obrigar a fazer o que você quiser. — Sim, eu posso.
—Eu tenho uma vida! Pessoas que são importantes para mim.
Seus pensamentos voltaram para Gaven. Martha era extremamente intolerante quanto ao namoro deles. Ela não o aprovava. Gaven não era um cientista, não entendia de Física e tampouco sabia o que era um acelerador de partículas.
—Isso é por causa dele não é?
—Eu sou culpada por querer mais para minha filha? Você merece mais que do que um faxineiro.
-Ele só é um faxineiro por sua causa.
Gaven não entendia de Ciência mas sabia como mexer em um computador. Elly sugerira que Martha o contratasse como secretário ao que a mãe recusou terminamente.
—Talvez ele ganhe bem demais para encher a sua cabeça de histórias. -Martha apagou o cigarro no parapeito. -Você tem uma escolha,Elly. Seu futuro ou o dele.
Elly virou a cara.
Às vezes ela sentia falta da mãe que Martha havia sido um dia. Ela era diferente quando John ainda era vivo. Elly tinha boas lembranças das tardes de experimentos no laboratório e histórias para dormir a noite. Essa mulher era fria,implacável e chantagista.
Eu nunca vou ser como ela,prometeu a si mesma.
O silêncio recaiu. Não havia necessidade de Elly dizer coisa alguma. Martha sabia sua resposta e ela apostava que a qualquer momento,Gaven receberia um grande envelope contendo sua demissão juntamente com mais dinheiro do que recebia polindo o chão.
Chantagem em sua forma mais pura.
Ela mordeu o lábio enquanto Martha discorria,como se nada tivesse acontecido,sobre a casa já então comprada e parcialmente mobiliada,o resto dos pertences que estavam sendo trazidos,o novo emprego,a faculdade,quem sabe até um futuro namorado.
Isso foi seu limite. -Aparentemente você já tem tudo planejado_disse antes de se afastar.
-Aonde você vai?
-Para longe. Não se preocupe,não tem mais nada para mim lá fora -E deu as costa para ela.
Ela caminhou até o outro lado da ponte,em direção ao centro daquela cidade barulhenta e tão pouco familiar se perguntando o que Martha teria feito para impedir que Gaven viesse atrás dela. Um bilhete terminando tudo? Ou havia sido algo mais ameaçador?
Elly sabia que Martha tinha meios de arruinar a vida de alguém se quisesse.
Já havia se distanciado um bom tanto quando percebeu que se esforçava para não chorar.
Quando nos tornamos tão disfuncionais a ponto de querer estragar minha vida,mãe?
Consternada,passou a mão no rosto. Não choraria,decidiu.
Então Elly sentiu o vento,um forte sopro de ar que levantou seu cabelo e fez mechas castanhas caírem em seus olhos. Ela não teve tempo de assimilar antes que fosse empurrada para longe. Foi extremamente rápido. Primeiro Elly sentiu o impacto que a levantou do chão e então estava rolando sobre o asfalto.
A primeira coisa que viu foi o céu,e de algum modo ele girava. Elly tinha certeza que havia quebrado algo. Algumas costelas,talvez. Era difícil saber,tudo doía.
A segunda coisa que viu foi ele. Ele entrou em campo de visão e a encarou de cima. Elly não conseguia vê-lo com clareza. Ele não passava de um borrão vermelho.
Ela tentou levantar. E ele a chutou.
Ela não viu sua perna mexer,apenas sentiu o impacto em seu estômago que apenas fez perder o fôlego. Ela ouviu Martha gritar seu nome e tentar chegar até onde estava. O velocista porém,após uma olhada para Elly,a interceptou. Ele se movia de forma tão rápida que era impossível ver algo além dos raios que demarcavam sua passagem.
—O que você está fazendo? -Elly conseguiu dizer.
Por um momento ele apenas ficou parado,a postura rígido e os punhos fechados,apenas encarando. Então levantou o braço.
Elly assisitiu,com a cabeça rodando,o momento em que a mão dele desceu até o peito dela. Foi como se ele nem tivesse encostado. Primeiro Martha estacou,e por um segundo os olhos dela encontraram os de Elly,mas então seu corpo desmontou no chão.
Elly gritou e não soou nada como qualquer grito que já tivesse dado. O velocista olhou para ela e por uma fração de segundo ela pode ver o símbolo que ele carregava no peito.
Cambaleando,ela chegou até o corpo de Martha. Cada passo enviava ondas de dor por todo seu corpo. A mãe olhava fixamente para o céu,a boca ligeiramente aberta. Elly caiu de joelhos ao lado dela,estarrecida,esquecendo completamente que pouco tempo antes tudo que queria era se afastar dela.
—Mãe. Mãe!
Elly não chorava desde que o pai havia morrido e não imaginava que choraria de novo. Martha sempre parecera invencível.
Encolhida sobre o corpo dela,Elly voltou a ser uma criança observando a terra cobrir o homem que sempre fora seu herói.
Por quê?,ela se lembra de perguntar para o nada.
Algo perfurou seu esterno,incisivo e pungente. Não se lembrava de já ter sentido algo parecido. Seria essa a sensação de perder toda a família? De ter o último pedaço da sua infância tirado de você?
Outra pontada insistiu,dessa vez mais forte. Talvez estivesse morrendo também. Ou apenas constatação de que agora podia seguir sua vida como havia planejado?
Uma faca cortou caminho através do seu tórax ou era apenas impressão?
Elly levou a mão ao peito quando a dor a fez curvar. Era como se algo rompesse dentro dela. Um frio intenso a invadiu como milhares de pontas afiadas. Por um momento ela não conseguiu respirar. Era parecido com a sensação de entrar em um chuveiro desligado. Só que pior.
O frio estava em todo lugar,em cada membro,cutucando cada nervo como uma garra afiada. Pulsando com cada batida do seu coração,bombeando água gelada em suas veias. Ela estava tremendo,a pele arrepiada e dormente.
Estou congelando.
Mas poucos foi diminuindo. Pareceu se esvair dela,recuar até que não sentisse mais sua presença. Tampouco havia calor.
Elly pendeu para frente,respirando fundo e apoiou a mão no chão. Foi nesse momento em que ela percebeu que havia mudado.
Uma névoa densa começou a exalar entre os dedos e no local onde tocavam o asfalto,pequenas linhas fluíam como serpentes de gelo.
E também havia o som. Como estilhaços. Como pedaços quebrados que voltavam a se integrar depois de congelados. Era o som do frio.
Elly olhou para as mãos pálidas e todo seu potencial ficou claro. Tudo que podia fazer,ao alcance de um toque. Mas havia um preço,ela sabia.
Voltando a se aproximar do corpo,Elly fechou os olhos da mãe. Sua pele estava quente em contato com a sua.
—Eu vou encontrá-lo,mãe -Elaprometeu,sua voz soando diferente ao seu ouvido.
Como o eco glacial de um abismo.
— E eu vou matá-lo.
Os prédios se erguiam imponentes,as luzes da cidade brilhantes mesmo ao longe quando ela deu as costas para sua antiga vida.
-Eu vou matar o Flash.
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