Runaway
1 ♠ Capítulo Único
Notas iniciais
O telefone tocou três vezes seguidas. O sol forte que passou pela janela me acordou rapidamente. Estive muito cansado recentemente para simplesmente pegá-lo e atender. Sempre que ele tocava de manhã, eu me lembrava do que aconteceu. Como eu queria pegar o telefone mais cedo, como eu queria ter salvo ela, como eu queria.. ter ela junto de mim novamente.
”Olá.” atendi o telefone, era um dos meus amigos de trabalho perguntando o motivo de eu não ter ido trabalhar esses dias, enquanto ele falava tanta coisa, eu pensava novamente sobre aquilo. Já fazia seis meses que eu estava completamente no fundo do poço. Desliguei o telefone na cara dele, eu não aguentava mais.
Me sentei na beira da cama e coloquei meu sapato. Gastei uns minutos olhando para o chão, até que levantei da cama e me dirigi ao guarda-roupas, onde peguei uma camisa branca e uma gravata vermelha. E, antes que se pergunte, não, eu não irei para o trabalho. Abri a porta do banheiro, taquei uma água no rosto para despertar realmente e vesti a roupa. ”Se acalme.” repeti a frase várias vezes para mim enquanto me olhava no espelho. Peguei a bolsa-carteiro marrom ainda com a quantidade de dinheiro e fiquei um tempo olhando para o criado-mudo, que em cima havia um retrato dela. Seus olhos tinham a mesma pequena faísca tênue que iluminava meu dia, mesmo que fosse pequena. O relógio marcava nove e quinze da manhã, mais ou menos a hora que haviam me ligado.
Abri a porta correndo e a tranquei com as chaves, que logo depois botei no bolso da calça. Chamei o elevador, e quando ele chegou no meu andar, puxei a porta e entrei. Graças a Deus estava sozinho lá. Abotoei os botões do meu casaco enquanto o elevador parava no Térreo do edifício. Passei voado pelo porteiro, nem o dando um olá, assim como de todas as pessoas que eu passei naquele caminho que fiz até o tal prédio vazio que meu pesadelo aconteceu. Quanto mais me aproximava, mais triste ficava. As memórias corriam pela minha cabeça: o homem botou sua arma no gatilho, o relógio marcou nove e meia, e então ele atirou. Tentei me esquecer dessas memórias e abri a porta do alto prédio cinza, sorrindo na esperança de ainda salvar ela. Mas não havia ninguém mais lá. As memórias voltaram com tudo. Minhas pernas tremeram e me sentei no chão, olhando para a sala que a alguns meses havia acontecido tudo, tudo o que tirou o meu amor de mim.
S E I S M E S E S A T R Á S
L O C A L D A M O R T E — 9 H 2 5 M I N
”Ele não vai atender.” o assassino disse com a arma na mão, pronto para disparar o gatilho.
Presa na cadeira, a mulher tentava se soltar. As lágrimas corriam dos seus olhos até o queixo, onde caiam no chão. O barulho do tique-taque do relógio apavorava-a. A sala toda estava escura pelo fato de não ter janelas e a porta estar fechada, apenas a luz da lâmpada pendurada no teto clareava um pouco mais a área. O assassino andava em círculos atrás dela, junto com o seu companheiro que ficou apoiado na mesa retângular cinza, que tinha o relógio em cima. A arma tinha apenas uma bala e o relógio não esperava: os ponteiros pareciam correr mais rápido do que o normal, para amedontrar mais a mulher. ”Ele vai ter que vir.” ela pensava, olhando para o chão. O assassino apontou a arma para a cabeça dela, fez uma força com a mão e puxou o gatilho.
A P A R T A M E N T O 6 0 1 — 9 H 1 5 M I N
O telefone tocou. Rolei na cama procurando por ela, mas não estava lá. Poderia estar fazendo um café da manhã, ou qualquer coisa do tipo. O primeiro toque foi ás nove e quinze, depois ás nove e vinte, e por último ás nove e vinte e cinco. Poderia ser trote, não? Me levantei e fui logo em direção ao banheiro. Passei uma água no meu rosto e escovei meus dentes, como sempre faço. Antes de sair, desliguei a luz do banheiro e fui direto para a cozinha, onde preparei um rápido café para beber. O relógio marcava já nove e quarenta e cinco. A campainha tocou duas vezes.
”Mas já essa hora da manhã? Cara, eles não descansam!” observei pelo olho mágico da porta, tinha um cara usando uma roupa que chuto ser roupa de paramédicos. Girei a maçaneta e destranquei a porta. ”Olá?”
”Olá.” ele me mostrou uma foto da minha noiva. ”Conhece essa mulher?”
”Conheço. É a minha noiva.” olhei para ele. ”O que houve?”
”Lamento, senhor..” já começou assim, já sei que lá vem merda. ”.. mas a encontramos... inconsciente.” o sorriso do meu rosto desapareceu. ”A cerca de 20 minutos, assassinada. Você poderia vir conosco?”
”Eu.. sim.” peguei uma das minhas camisas e a coloquei rapidamente, devido ao frio lá fora, coloquei também um casaco azul. Desci as escadas correndo junto com o paramédico, controlando as lágrimas. Uma ambulância nos esperava lá fora, preferia ir correndo mas eu não estava bem, realmente não estava bem.
Subi na gélida ambulância, me sentando em um dos assentos dela, enquanto o paramédico conversava com seu colega de trabalho ao meu lado, normalmente viravam o rosto para ver o meu estado. A ambulância parecia nunca chegar ao local. Nas janelas da ambulância, vi as nuvens do céu sairem de fininho, enquanto o sol surgia e deixava tudo claro. Após uns momentos, o veículo parou e eu saí depois dos paramédicos. Retirei o casaco e o amarrei na cintura. Uma outra ambulância estava com as portas abertas, na frente de uma outra porta ao lado de dois prédios. Policiais entravam e saiam do local, alguns nem ligavam e estavam conversando, rindo. Quando fui me aproximar da porta, uma maca de hospital saiu com uma pessoa lá. Era ela. Um dos paramédicos botou o polegar no pulso dela, sussurrou algo como "ela está morta, não tem como ajudar mais" para seus companheiros de trabalho. Olhei para ele perplexo.
”Como que eles vêem isso e não fazem nada a respeito?” questionei para um dos médicos.
”Amigo, não tem como fazer nada ou ficar triste.” ele apoiou a mão no meu ombro e se virou para mim. ”Imagine só um médico ficar triste cada vez que uma pessoa morrer... ele não ia aguentar ver tantas mortes e ficar triste por cada uma delas. Pessoas morrem todos os dias.” assenti com a cabeça, ainda perplexo pela situação que minha noiva se encontrava.
Me aproximei dela. Ela estava fria, sem vida nenhuma. Passei a minha mão pelos fios de cabelo e me lembrei de ontem, a última vez que vi ela com vida eu havia passado a mão pelo cabelo dela. Para evitar ficar mais triste ainda, virei meu rosto e respirei fundo, prendendo um pouco mais as lágrimas que estavam prestes a correr pelo meu rosto até o chão. Me distanciei e vi a ambulância indo embora, levando com ela a minha felicidade.
T R Ê S D I A S D E P O I S D A M O R T E
O enterro dela ocorreu dia 17 de novembro, três dias depois de ela ir dessa pra uma melhor. Uma lágrima desceu de meu rosto, eu ainda não acreditava que minha amada tinha morrido, mesmo vendo ela num caixão prestes a ser colocado em um buraco de 7 palmos de altura. Os parentes dela, como seus primos e sua irmã lamentavam sua morte. Lá na frente, seu pai falava sobre ela para um dos amigos dela. Cada um tentava se acalmar, mas ela era uma pessoa tão pura, tão fiel, tão amada. Ninguém conseguiu engolir a morte dela direito.
A volta para a casa foi a pior. Depois do enterro, pessoas botavam flores no caixão, mas a minha eu botei no centro. Um buqué de flores azuis, as que ela mais amava. Mesmo depois desses três dias, eu ainda negava a morte dela. Preparava duas xícaras de café, escolhia os filmes que ela mais gostava para assistir, as vezes até fazia perguntas que eu sabia que não teriam respostas.. Acordava de pesadelos frequentes, me lembrando da cena. Jogava vasos de plantas no chão, chorava como se não houvesse o amanhã. Eu tentei trabalhar outros dias, mas a minha mente estava uma bagunça. Me senti cada vez mais debaixo do poço, cada vez mais afundando. Queria desaparecer ou acordar desse pesadelo sem fim. Sempre atendia os telefonemas de primeira, sem nem tocar duas vezes. Meu quarto tinha várias garrafas de bebida, que tentava tomar para esquecer disso tudo, mas não adiantava. Nada vai voltar a ser como era antes.
Como eu queria ter atendido o telefone.
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