Notas iniciais
Desculpem a demora, aguardem só mais um pouco pelos próximos capítulos. Tenha calma...

Rudolf se posicionou no palco improvisado na sede do projeto. Havia um púlpito com um microfone e uma cadeira. Ele ajustou o microfone para poder ler o texto-base que havia preparado enquanto estava sentado. Pensara em ler a história sem recorrer a nenhum texto, mas os professores de Língua Portuguesa e Oratória que atuavam no projeto lhe sugeriram que tivesse uma base escrita para que não se perdesse em meio à narração.

-Olá, todo mundo. Iremos começar nossas contações de histórias. Hoje estou inaugurando para vocês, mas todos são convidados a inscrever suas histórias para fazer parte desta atividade, também. Esta é uma que conheço desde a infância, da qual conversei esta semana com um amigo de infância. Ao nos recordarmos dela, me veio a ideia de compartilha-la com vocês.

Rudolf se pôs a iniciar a narrativa.

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Meu pai, Carlos, me contou essa história dezenas de vezes. Trata-se de um acontecido entre ele e seu velho amigo, Alessandro Chagas, que é carinhosamente chamado nessa história e por todos que o conhecem, de Chagas ou Chaguinha. Hoje, Chaguinha é subgerente do restaurante Farofa D'Água, um dos principais restaurantes de Ponta Negra. É casado com uma das primas de Carlos, médica Ivoneta Sandra, chamada de Sandrinha Medeiros. Por meio do casamento, Chaguinha se referia a Carlos, ou Carlinhos, como seu "primo por afinidade".

Certa vez, Carlos emprestou o carro para Chagas, que iria participar da festa da banda Gália, que saía nas ruas de Natal no período do Carnaval. Chagas estacionou o carro de Carlos próximo ao Bar do Vovô, localizado no bairro de Petrópolis, zona Leste de Natal, na localidade perto de onde hoje se localiza a Padaria PuroTrigo, na esquina entre a Rua Dr. Manoel Dantas e a Av. Floriano Peixoto. Deixando lá o carro, foi seguindo a banda a pé. A banda Gália percorreu a principal avenida do centro da cidade, a Av. Rio Branco, até descerem em direção às praias urbanas daquela parte da cidade. Chagas bebeu durante o percurso da banda, e lá pelas tantas, começou a chover. A essa altura, o percurso da banda já se encontrava na praia de Miami, também na zona Leste de Natal, no bairro Areia Preta. Chagas se sentou no meio-fio para descansar e, quando sua cerveja acabou, olhou em volta, sem se lembrar de onde tinha estacionado o carro de Carlos (um Fusca recém-adquirido), até que bateu os olhos num Fusca, da mesma cor que o carro do primo.

Sob os efeitos da embriaguez, Chagas se encaminhou até o carro. A chave de Carlos coube na maçaneta da porta e também na direção do carro, fazendo ele acreditar que se tratava do mesmo carro. Pela hora e por estar chovendo, Chagas decidiu voltar para casa, residindo, na época, no bairro Nossa Senhora de Candelária, próximo da Escola Mundo do Saber.

Chagas foi dirigindo, até que, ao chegar próximo de sua casa, se deu conta de duas coisas: havia entrado água no carro, o que era estranho, pois Carlos lhe havia garantido que não entrava água no carro mesmo em dias de chuva. Um pouco mais à frente, já ao estacionar o carro defronte à sua residência, Chagas foi dar uma olhada completa no carro e se deparou com um adesivo político, levando em conta que haveria eleições indiretas para governador (ainda decorria a ditadura militar) naquele ano. O adesivo lia: "Cortez Pereira para governador".

"Que estranho... o carro de Carlinhos não tinha esse decalque, que eu me lembre", disse Chagas para si mesmo.

Lembrou-se de mais cedo naquele dia, quando Carlos viera deixar o carro na casa dele para que ele pudesse seguir o percurso da banda. Carlos o havia acordado, pois Chagas estivera repousando em sua rede.

"Primo, acorde! Você não pediu meu carro para ir atrás da banda?"

Chagas se levantou de supetão, e ergueu as mãos, como se estivesse se rendendo, e disse:

-Tenha calma.

Logo ele havia se levantado, se arrumado e estava pronto para acompanhar o bloquinho. Reparou no carro de Carlinhos, que por fim pedira apenas que Chagas, a caminho da banda, o deixasse em sua casa. Chagas consentiu e deixou o primo em casa; na época, Carlos e seu pai Lincoln, assim como boa parte de sua família, moravam numa casa localizada na esquina entre as ruas Segundo Wanderley e Calistrato Carrilho, no bairro de Barro Vermelho.

Recordando-se disso, Chagas lembrou-se que olhara todo o carro de Carlinhos na ocasião, e não havia mesmo nenhum adesivo de Cortez Pereira nem de nenhum outro político. Ele começou a estranhar aquela situação.

No dia seguinte, Carlos chega até a casa de Chagas para pegar o carro de volta. Dessa vez, Chagas acordara cedo, já antecipando o momento em que teria que conversar com o primo sobre esse incidente.

Quando Carlos bateu os olhos no carro, ficou claro que:

-Chagas, esse não é meu carro. Onde está meu carro??

Chagas ergueu as mãos novamente e disse:

-Tenha calma.

Prontamente Chagas disse a Carlos, onde havia encontrado o tal carro — na praia de Miami. Carlos conferiu que sua chave realmente coubera na porta e na direção do tal carro.

Assumindo o volante, Carlos e Chagas foram até o local onde Chagas encontrara o carro, presumindo que o carro de Carlos estivesse por lá. Depois de alguns minutos, ficou claro que Fusca não se encontrava ali.

-E se o dono deste carro tiver pego o meu carro?? O que faremos, Chagas??

-Tenha calma. — Chagas, novamente, oferecia prontamente sua resposta e erguia as mãos.

Os dois se puseram a repensar o trajeto que Chagas devia ter feito enquanto seguia a Banda Gália. Chagas se recordou de que a banda passara em uma boa parte do seu trajeto pela Av. Rio Branco, de modo que os dois se dirigiram até a principal artéria do centro da cidade.

Contudo, depois de revirarem a avenida de cima a baixo, ficou claro que o Fusca também não estava estacionado ali.

-E agora, Chagas, o que fazemos?? — perguntou Carlos. — Não é melhor chamarmos logo a polícia?

Mas Carlos deu essa sugestão um tanto hesitante, sabendo que chamar a polícia poderia implicar, possivelmente, que seu primo fosse acusado de roubo do veículo que eles estavam dirigindo no momento.

Chagas, com sua infinita contemplação e sabedoria, respondeu:

-Tenha calma.

E mais uma vez repetia o gesto de erguer as mãos, como se estivesse pedindo que Carlos parasse de fazer alguma coisa ou como se estivesse se rendendo.

Chagas e Carlos se sentaram num banco na Rio Branco, com o carro estacionado diante deles, pensando em qual seria o próximo passo na busca pelo Fusca perdido.

"Nos dias atuais, o local na Avenida Rio Branco aonde os dois primos se sentaram, fica próximo do Motiva Colégio e Curso, um dos locais de trabalho atuais de Rudolf", ia dizendo o próprio narrador, todo orgulhoso do local de trabalho mais longevo que possuía, ainda que este, em uma determinada época, o tivesse atrasado seus salários mensais, numa época antes da herança do vovô Lincoln. Rudolf fizera até mesmo uma vaquinha virtual, contando com a compreensão e empatia dos amigos, para que conseguisse pagar suas próprias contas, já que seus pais o haviam dito, desde que conseguira seu primeiro emprego, que eles não o iriam ajudar com mais nenhuma de suas contas ou compromissos financeiros. "A escola se localiza numa galeria, localizada entre a Rua Princesa Isabel, por trás de uma ala do centro de Natal aonde ficam alguns dos principais bancos — Banco do Brasil, Caixa, e Itaú — e a rua Felipe Camarão, em homenagem à princesa redentora, proclamante da abolição da escravidão e herdeira do trono brasileiro, e do herói indígena potiguar durante a guerra de invasão dos holandeses. Defronte ao Motiva, ali na rua Felipe Camarão, ficava localizado um dos principais colégios e faculdades de Natal, o Facex unidade Centro, no espaço onde antes se encontrava o colégio CIC — Imaculada Conceição." Nesse momento, os convidados que faziam ou fizeram parte do alunado ou das equipes de Facex, CIC e Motiva aplaudiram brevemente.

Voltando a Chagas e Carlinhos, os dois tentavam pensar onde iriam procurar o carro a seguir.

-E pensar que eu estava ansioso para ir mostrar o carro a meu avô, já que faz pouco tempo que eu o tenho e ele iria gostar de vê-lo — dizia Carlos.

De repente, um gatilho ocorre na mente de Chagas, com a simples menção da palavra avô, no discurso de Carlinhos.

"Avô... avô... avô..."

De repente, então, Chagas se levantou do banco em um supetão.

-Tenha calma. — Ele ergue os braços mais uma vez. — Acho que já sei onde está seu carro.

-Onde??

-Tenha calma. Está lá no Bar do Vovô.

-Bar do Vovô...? Você andou muito com a banda, então.

-Sim. Mas... tenha calma.

Definido o destino, os dois entram no carro novamente e seguem até o bar. Tal qual Chagas se recordara, o carro de Carlinhos, sem água e sem adesivo de político, encontrava-se ali, do modo que Chagas o havia deixado desde o dia anterior, quase à porta do estabelecimento.

-Bom, Chagas, acho melhor deixarmos pelo menos o carro dessa pessoa com o tanque abastecido. É o mínimo que podemos fazer, já que não sabemos de quem é esse carro e essa pessoa provavelmente passou o mesmo perrengue que nós, tentando encontrar seu veículo.

-Tenha calma. Mas, sim, eu concordo — disse Chagas.

Carlinhos levou o carro para um posto de gasolina não tão longe dali, próximo da Praça Pedro Velho e do Palácio dos Esportes. Encheu o tanque e depois voltou para a rua do bar, onde Chagas estivera esperando ao lado do carro de Carlinhos.

Estacionaram o carro do dono desconhecido em frente ao bar e entraram no carro de Carlinhos. Olharam em volta na rua, mas ninguém parecia estar prestando atenção neles dois nem no carro que acabavam de deixar para trás em frente ao bar.

-Acho que ninguém estava olhando pra cá ou pra nós. Espero que não haja problema... Só penso que no mínimo, iremos torcer para que a pessoa também encontre logo seu carro.

-Sim. Tenha calma — respondeu Chagas.

Carlos foi deixar Chagas em casa e depois seguiu com sua rotina, como se nada tivesse acontecido.

Alguns dias depois, Renê, primo deles, dentista que também tinha um cargo no Banco do Brasil, disse que ouvira de um colega de trabalho o seguinte desabafo:

"Má rapaz... não acredita no que houve comigo! Eu fui até Miami para passar o Carnaval... tomar banho de praia, beber, aproveitar... e não é que meu carro sumiu? Roubaram... Mas o carro reapareceu, poucos dias depois, todo molhado, cheio de água, mas com o tanque cheio, em frente ao bar do Vovô... como é que pode?? Pelo menos, não tiraram nada do carro, e ainda devolveram com o tanque cheio... Que assaltantes mais estranhos! Mas, também, muito educados, eu devo dizer".

Ao Renê terminar de falar isso, na mesa da casa de Lincoln, os demais primos presentes começaram todos a rir, inclusive Carlinhos. Ele olhou de esguelha para Chagas, que estava visivelmente envergonhado, mas conseguiu dar um sorrisinho e dizer com toda sua sabedoria:

-É... tenha calma.

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Terminada sua história, Rudolf dobrou a folha do texto e se levantou, no que todos os presentes o aplaudiram, inclusive os antigos e atuais colegas de trabalho das escolas, bem como alunos e ex alunos. Ele notou que Ibrahim saíra rapidamente, após ter acenado para ele em parabenização, como havia anunciado que teria que sair logo após o evento.

-E agora quero apresentar... Chagas e Renê, meus dois primos, mencionados nessa história.

Chagas e Renê se levantaram e se encaminharam para a frente do palco, e também foram aplaudidos. Chagas estava um tanto magro, perdera muito peso recentemente, com os cabelos levemente grisalhos, mas com uma expressão feliz, como se fosse começar a rir ou a soltar piadas a qualquer momento. Ele levantou apenas uma das mãos dessa vez, e disse para a plateia:

-É tudo verdade. Tenham calma.

O público explodiu em risadas. Renê, já com um aspecto um tanto mais velho, alto, imponente como muitos dos Medeiros (alguns membros da família paterna de Rudolf levavam sobrenome Medeiros, alguns o sobrenome Silvestre, e outros, mesmo alguns outros sobrenomes) e com a cabeleira cinza, também acenou para os presentes. Havia se aposentado do banco, mas continuava atuando como dentista. Passara anos em Portugal, exercendo sua profissão, mas agora voltara ao Brasil para atuar em Parnamirim, na região metropolitana. René era divorciado, mas teve um filho de seu casamento, Raphael, que era um dos melhores amigos de Rudolf. Raphael já morava em Portugal com a mãe há algum tempo, mas vinha de férias para Natal ocasionalmente.

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Rudolf apertou a mão de Renê e de Chagas e convidou-os para a sessão de comes e bebes após a história. Enquanto os primos de seu pai se encaminhavam para se servir junto com os demais convidados e presentes, Rudolf tirou do bolso o recado dado por Ibrahim.

Afastando-se um pouco da multidão, ele abriu a carta. Era uma mensagem de Padre Mário, convidando-o para uma reunião com algumas pessoas de confiança do padre na paróquia. Porém, não dizia o que era o objetivo da reunião. Rudolf concluiu que teria que esperar até o dia seguinte para perguntar diretamente ao padre na reunião sobre o que aquilo se tratava.