Naquele dia, Ayesha e ele estavam voltando para o apartamento, dirigindo pela Via Costeira, a avenida litorânea de Natal, que ligava Ponta Negra aos bairros e praias da Zona Leste, e onde estavam localizados alguns dos melhores hotéis da cidade e da região.

Rudolf havia feito um exame nos olhos recentemente, para encomendar um novo óculos, e devido a isso, não podia dirigir no momento até que atualizasse sua CNH. Então, Ayesha assumira o volante.

Porém, nesse dia em específico, os dois estavam em meio a uma discussão. Haviam cessado de discutir enquanto Rudolf esperava ser chamado e enquanto fazia o exame, mas, logo que saíram da clínica, o assunto se viu retomado, logo que o carro adentrou na Via Costeira.

Ayesha notava que Rudolf parecia emburrado, e, vez ou outra, o rapaz apertava os botões para mudar de emissora de rádio ao qual estavam escutando, para mudar a música que estivesse sendo transmitida, ou mesmo para trocar para o MP3 que estava instalado no veículo, para colocar uma seleção de músicas que ele gostava, que Ayesha gostava, ou que os dois gostavam.

-Essa é a sua forma de me dizer que quer ganhar uma nova coletânea de músicas de presentes para o Natal ou o seu aniversário? — disse a moça, em tom leve, tentando manter a conversa em um modo divertido e infantil.

Rudolf não respondeu, mas parou de mexer nos botões.

-Olha, gatinho, eu não estou com raiva de você.

-Ótimo, porque não tem motivo para estar — respondeu Rudolf, de forma um tanto brusca.

Ayesha pareceu surpresa ao olhar para ele e notar essa reação.

-Seja como for... acredito apenas que precisemos ajustar alguns detalhes entre nós. Alguns limites... privacidade, por exemplo.

-Eu já disse que nem eu nem ninguém tentou bisbilhotar os perfis da sua família e amigos lá do Egito.

-Rudolf, mesmo que fosse assim, foi muito estranho e coincidental. Sua tia encontrar os perfis de justamente alguns dos meus melhores amigos e meus parentes próximos... Pareceu sim uma vigilância, pareceu sim uma invasão de privacidade.

-Eu não mandei minha tia fazer isso. E por que eu estaria te vigiando?

-Saber o que eu faço quando estou longe, por exemplo. Você fica confortável quando eu tenho que voltar para o Egito ou para Londres?

Rudolf demorou um pouquinho para responder.

-Eu...

-Se você está inseguro ou tem algum desconforto, alguma desconfiança em relação a mim, é melhor dizer logo.

-Não! Não... não é isso. Eu só fiquei surpreso com a sua reação. Achei um tanto de ...

Ele próprio se cortou.

-Um tanto de que? — questionou ela. — De exagerada? Eu estou fazendo uma tempestade em copo d'água?

Rudolf sentiu-se afundando no assento do carona. Ele sabia que Ayesha dizia aquelas palavras específicas de propósito, pois ele próprio havia usado exatamente esses mesmos argumentos em discussões anteriores entre os dois.

-Não — ele tentou se apressar em dizer. — Não estou dizendo isso. Não quis dizer isso.

Ayesha suspirou profundamente, fixando o olhar à sua frente, na avenida, enquanto dirigia.

-Talvez precisemos de um tempo para pensar — disse ela. — Um tempo antes de decidirmos o que fazer com essa situação entre nós.

Rudolf sentiu que afundara ainda mais no banco.

-É... tudo bem.

...

...

...

...

Após tê-lo deixado no apartamento e estacionado o carro na vaga dele na garagem do prédio, Ayesha juntou suas malas e suas coisas e foi se hospedar num hostel, não muito distante de onde Rudolf morava. Pediu que Rudolf não telefonasse para ela de imediato e que só a procurasse quando estivesse disposto a "ter uma conversa séria e civilizada" entre os dois.

No dia seguinte, Rudolf, após muito tempo pensativo e reflexivo, ainda que se sentindo um tanto impulsivo, telefonou para Ayesha. Sugeriu que se encontrassem no hostel, mas ela pediu que fossem para outro lugar. Ele então sugeriu uma padaria, não muito distante do hostel. Ela aceitou e os dois se encontraram lá, acomodaram-se a uma das mesas e Rudolf pediu café para ambos.

-Antes de mais nada, eu quero pedir desculpas pelo meu comportamento — começou ele.

Ayesha sentara-se com uma postura ereta, com as próprias mãos entrelaçadas repousando sobre a mesa. Não tocara no café.

-Desculpado. Estou ouvindo.

-Eu comentei por alto numa das vezes em que estivemos numa festa na casa da minha tia, que você era do Egito, e falei os nomes de algumas pessoas da sua família e amigos. Pelo que descobri, minha tia usou-se desses nomes e pesquisou na internet, nas redes sociais. Eu não mandei ela fazer nada, mas não tive o devido cuidado com a privacidade e os nomes dos seus entes queridos. De certa forma, tenho sim uma parcela de culpa.

Ayesha ergueu as sobrancelhas.

-Estou impressionada... Antes você evitava assumir a culpa por várias coisas. Tenho que admitir que isso é uma mudança positiva, um progresso. Você está se parecendo mais com um homem maduro, como eu sempre achei que você seria.

-Bom... é a empatia. Se colocar no lugar do outro. Talvez a minha reação fosse diferente, mas, no seu lugar, provavelmente eu não teria gostado dessa "procura", também. Eu conversei com minha tia e pedi que ela não fizesse mais isso. Até penso em conversar com ela novamente para ajustar algumas coisas e prevenir que algo parecido aconteça novamente. Como você sabe, minha tia passa tempo demais na internet e às vezes se mete aonde não foi chamada.

-É, eu percebi. Já que estamos nos abrindo, compartilhando... Eu peço desculpas pela minha reação. Eu fiquei sim chateada, e não queria que isso tivesse acontecido... jamais esperei que fosse passar por algo assim. Mas entendo que a minha reação pode ter sido acima do que deveria. E que isso fez você se retrair, se assustar, até o ponto de ficar emburrado comigo, como estava ontem.

Rudolf deixou os ombros caírem.

-É... foi bem isso mesmo. Mas obrigado por me dizer isso.

-Você me perdoa?

-Claro. E você me perdoa?

-Sim, gatinho.

Ayesha estendeu a mão para ele.

-Amigos, sem brigas?

Rudolf começou a estender a mão também, mas se conteve.

-Pensei que éramos mais do que amigos...

Ayesha riu levemente.

-Estou brincando, gatinho. É claro que somos mais do que amigos.

Ele apertou a mão dela, e os dois trocaram um beijo.

...

...

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...

Ayesha apanhou suas coisas no hostel e voltou para o apartamento, com Rudolf a auxiliando a levar as malas e pertences. Quando terminaram de guardar tudo, Ayesha puxou ele pela gola da camisa e deu-lhe um beijão.

-Ora, olá para você também — disse Rudolf, assim que ela o soltou. Ele a puxou de volta para outro beijo...

-Você ainda não viu nada — disse ela, rindo como se tivesse enlouquecido. Empurrou-o para a cama e se atirou nele, com os dois começando a tirar a roupa um do outro.

...

...

...

...

De volta ao tempo presente, Rudolf se viu novamente diante da porta da casa de Johnny. Não convidara Ibrahim dessa vez. Inventara uma desculpa qualquer e saíra do projeto, enquanto o velho dava aula para as crianças. Lembrou-se de uma de suas antigas conversas com Johnny, e resolveu que devia fazer outra visita ao antigo amigo.

Ainda guardava desconfianças com relação ao velho, mas lembrar de algumas coisas com Ayesha o fez pensar: e se Ibrahim tivesse alguma razão em desconfiar dela? Rudolf precisava investigar isso, mas precisava agir de forma discreta para que não incorresse da raiva de Ayesha. Ele também não queria ainda admitir para Ibrahim que compartilhava um pouco dessa desconfiança, porque também desconfiava do velho e tinha algumas questões quanto ele ainda. Pretendia confronta-lo, de alguma forma, quando tivesse alguma chance adequada de fazer isso.

Tamar abriu-lhe o portão e deixou que entrasse. Ela se recolheu para a cozinha, para jantar, e disse que depois iria preparar o banho de Johnny. Disse que Rudolf podia ficar o tempo que quisesse, pois quando ele ou alguma das pessoas da antiga vida de Johnny apareciam para uma visita, os sinais vitais dele melhoravam bastante, como era mostrado nas examinações diárias. Ele podia não falar sempre, não demonstrava perceber as coisas sempre, mas era nítido que as visitas dos amigos causavam-lhe um bom efeito. Era nítido que parte dele ainda estava ali, e que escutava algumas coisas que os amigos vinham lhe dizer. Era nítido que escutar os amigos, ainda que não totalmente, lhe trazia bons efeitos e davam-lhe um pouco mais de "vida" em meio àquele estado em que se encontrava.

Johnny e Rudolf sempre falaram em escrever, seja juntos ou de forma solo, cada um acompanhando o trabalho do outro. Rudolf se recordara de uma matéria que havia lido no jornal há pouco tempo, e lembrou-se de Johnny automaticamente assim que lera a matéria. Trazia consigo um livro.

-Velho amigo. Como está? Sempre sinto a sua falta.

Como sempre, Johnny não respondeu. Seus olhos estavam abertos, mas perdidos, como que distantes no horizonte, olhando para algum ponto não determinado da estante da sala.

-Sempre direto ao ponto, hein? Seu grande brincalhão. Pois bem, mister. Vamos ao que interessa... O velho Johnny sempre se interessou por novas histórias, novos autores. Dizia que nós devíamos apoiar os autores brasileiros em ascensão. Comprei este livro depois que li uma matéria sobre ele no jornal... Acho que você gostará de ouvir.

Rudolf abriu o livro, mas, antes de iniciar a leitura, voltou-se novamente para Johnny.

-Iremos iniciar sessões de contação de histórias lá no projeto. Me lembrei de você. Alguns alunos irão escrever histórias próprias. Mas, também, aproveitaremos essa ideia para iniciar as encenações de histórias já conhecidas. Amanhã iremos apresentar a encenação de uma parte da nossa adaptação teatral da novela Os Dez Mandamentos. Gostaria muito que você estivesse conosco assistindo...

Rudolf suspirou, contendo um pouco de choro que ameaçava cair de seus olhos.

-Até eu eles colocaram de ator. Ibrahim vai ficar engraçado vestido de... Bom, seria bom se você fosse assistir. Quem sabe eu mando eles gravarem e deixo aqui para você, para que você possa assistir ao tape alguma outra hora. Este livro, por sua vez, foi escrito por uma autora libanesa, que veio para o Brasil na infância e vive aqui desde então, pelo que entendi ela mora em São Paulo. Muito promissora. Ela se chama, Bianca Assef. É uma história deliciosa de se conhecer. Você vai adorar, imagino.

Rudolf tomou fôlego e voltou a se debruçar sobre o livro. Tamar e outras enfermeiras sempre lhe disseram que conversar com o Johnny ajudava a melhorar os sinais vitais dele, como se ouvir o deixasse animado, e aconselharam que Rudolf e os outros amigos o procurassem sempre para conversar com algum assunto específico em mente, para que a conversa não se perdesse nem ficasse vaga ou escassa demais. Uma das ideias que Rudolf teve foi justamente trazer o livro da jovem libanesa para mostrar a Johnny. O historiador começou sua narração:

-Sem mais delongas. Era uma vez um jovem paulistano, chamado Henry...