Rudolf: Uma Jornada Extraordinária
8 Capítulo 08
Notas iniciais
No dia seguinte, ainda um pouco mordido com as lembranças sobre Ayesha, Rudolf deu seu expediente no trabalho, e depois rumou para o projeto na parte da tarde.
Quando terminou suas atividades por lá, encaminhou-se para a recepção, aonde encontrou Ibrahim, conforme previsto e conforme havia sido combinado na conversa entre ambos no dia anterior.
-Mal consegui pregar o olho — disse o velho. — Você sabe mesmo criar um suspense, deixou um pobre senhor se revirando de ansiedade por dentro.
-Pobre senhor?
-Não tem pena de mim? — disse Ibrahim, esboçando um sorriso travesso pelo canto da boca.
-Chega, velhote. Vamos em frente... Está pronto?
-Prontíssimo — disse Ibrahim, erguendo-se de supetão, exibindo uma disposição digna de um jovem cheio de energia.
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Entraram no carro de Rudolf. A Av. Praia de Genipabu era uma das portas de entrada do Conjunto Ponta Negra, na zona sul de Natal. Muitas ruas do bairro contavam com nomes relativos a praias de diversas partes do Brasil. Outras partes de Natal também seguiam uma temática parecida, com alguns bairros tendo ruas com nomes de flores, ruas com nomes de estados Brasileiros ou cidades Brasileiras, ruas com nomes de ex-presidentes, rios do interior do RN, ex-governadores do estado e outros exemplos.
Foram pela Av. Praia de Genipabu e entraram à esquerda, na Av. Praia de Areia Branca — era uma das avenidas que costumavam tomar para ir até a igreja Santa Rita de Cássia, que Rudolf e alguns dos seus amigos frequentavam. No entanto, Ibrahim logo notou que o trajeto seria diferente nesse percurso. Passaram em frente à delegacia do bairro e pouco adiante, Rudolf estacionou diante de uma casa, com um muro de envergadura média e um pequeno portão.
Desceram do carro e Rudolf apertou a campainha.
-Então. Aonde estamos? — indagou Ibrahim, claramente se doendo de curiosidade.
-Tenha calma, velhote...
Uma moça abriu a porta para eles. Tinha cabelos cacheados, pele parda e olhos azuis muito vívidos; contava mais ou menos com a mesma altura que Rudolf. Usava uniforme de enfermeira, como se estivesse em um atendimento de Home Care.
-Ah, sr. Rudolf — disse ela, abrindo um largo sorriso como se já os esperasse. Claramente Rudolf já era um conhecido dela. — Por favor, entrem. Que bom que está de volta, e vejo que trouxe um amigo. Sejam bem-vindos.
-Como ele está hoje? — disse Rudolf, como se tivesse ensaiado perguntar isso. Ibrahim achou que não havia ouvido direito; não entendera o que o rapaz quisera dizer. De quem ele estava falando?
O sorriso da enfermeira vacilou por um momento.
-Está na mesma. Em paz, calmo, mas... na mesma.
-Agradeço, Tamar. Vamos dar um alô para ele. Este é meu amigo, Ibrahim... trouxe-o para fazer uma visita ao nosso campeão.
-Fez muito bem — disse Tamar. — Visitas costumam ter um bom efeito nele, pelo que o psiquiatra nos diz.
Rudolf assentiu, e se encaminhou para dentro da casa, fazendo sinal para que Ibrahim o seguisse.
O velho cumprimentou brevemente a enfermeira, ainda bastante curioso, e seguiu o passo de Rudolf.
A sala de estar da casa era bem ampla. Contava com uma estante cheia de livros e imagens de santos, e no centro dela havia uma televisão, ligada exibindo uma novela brasileira antiga. Um tapete de aspecto oriental, talvez persa, enfeitava o chão. Havia um sofá com aspecto de novo, como se tivesse sido usado poucas vezes. Em frente à estante, a uma distância razoável da TV, havia uma poltrona reclinável. Meio sentado, meio deitado na poltrona, havia um rapaz aparentando mais ou menos ter a mesma idade de Rudolf. Pele branca, cabelos castanhos, olhos cor de mel. Contudo, o rapaz apresentava uma magreza alarmante, seus olhos eram afundados, com olheiras, o cabelo estava desarrumado, e ele estava quase que totalmente coberto por um lençol. Seus braços repousavam cada um sobre um dos braços da poltrona. Os olhos estavam abertos, mas seu olhar parecia desfocado; sua boca estava levemente entreaberta. Ele "olhava" em direção à televisão, mas não parecia prestar atenção no conteúdo por ela exibido. Ibrahim imaginou, enquanto o contemplava, que esse jovem havia sido bonito em algum momento do passado, talvez alguém elegante e cheio de vida; mas que, agora, parecia que sua vida havia se esvaído. Recordou-se de ter visto um garoto próximo a Rudolf na foto que o historiador contemplara ontem em seu apartamento. Com um sobressalto, Ibrahim se deu conta de que devia ser aquele mesmo rapaz.
-Este é Johnny — disse Rudolf, acompanhando o olhar de Ibrahim, como se deduzisse o que a curiosidade do senhor oriundo do Levante estava o induzindo a querer perguntar. — Um de nossos melhores amigos... Um dos meus melhores amigos.
Rudolf disse cada uma dessas palavras como se carregasse uma enorme tristeza e pesar embutidos em sua fala.
-Johnny era talvez o melhor de todos nós — continuou dizendo o jovem professor. — O mais alegre, o mais cordial, carismático, cortês... Muito educado... animado... Sempre disposto e encorajador, motivador, sempre apoiava todos nós quando necessário. Aquele amigo com quem sempre podíamos contar. Aquele amigo que sempre esteve presente. A alegria das festas, em pessoa... Sempre o primeiro a topar qualquer aventura, qualquer encontro entre os amigos, qualquer festa, qualquer motivo para que a turma se encontrasse, para nos reunir e nos confraternizar. Também era muito estudioso, trabalhador, dedicado, esforçado, empenhado, disposto a aprender. Porém... infelizmente, ele perdeu a vontade de viver. Por alguns motivos.
-Motivos? Que motivos? O que poderia tê-lo deixado assim? — quis saber Ibrahim.
Rudolf suspirou.
-É uma longa história. Se importaria de eu ir contando aos poucos? Talvez possamos ficar visitando ele algumas vezes durante a semana.
Ibrahim assentiu.
-Tudo bem.
-É de cortar o coração, podemos dizer assim — comentou Rudolf. — Johnny tinha muitos sonhos... mas, um dia, o que pareceu foi que ele havia sonhado demais. E depois, não soube lidar com a vida dali em diante. Ficou em estado catatônico. Hoje, o máximo que podemos ter dele são estas visitas que fazemos.
-Os pais dele são vivos?
-Os pais...? — Rudolf suspirou novamente e baixou os olhos, exasperado. — Os pais de Johnny cortaram relações com ele muito antes de ele ficar assim. Ele viveu a vida dele. Seguiu em frente... fez de tudo para não voltar a ser dependente dos pais. Deu duro, deu o máximo de si... Mas um acidente de percurso, podemos dizer, fez com que tudo mudasse. Ah, os pais dele estão vivos, sim, mas... É como se fingissem que não têm mais filho. Sabemos onde eles moram, aqui mesmo, na cidade... Mas não faz diferença. Saber que Johnny ficou desse jeito não mudou nada. Eles continuam a não querer saber do filho.
Ibrahim andou em volta da sala.
-Mas então, esta casa...
-Um tio dele cedeu para que o colocássemos aqui e o tratamento dele pudesse ser feito residencialmente — explicou Rudolf. — Quanto a isso, os pais dele não ajudaram em nada. Como disse, vivem como se o filho não existisse. O tio dele é um dos poucos parentes que ainda se preocupa com ele. Um outro amigo nosso, que é médico, custeou todo o tratamento. Tamar foi indicação minha. Ela ajudou a cuidar da minha tia-avó alguns anos atrás, até ela falecer. Todos sempre elogiaram o trabalho de Tamar, meus pais, meu avô, então eu decidi chama-la para auxiliar o Johnny. Cada um de nossos amigos buscou fazer algo para atender a situação dele. Do contrário, nos sentiríamos impotentes... bom, mais impotentes do que já estamos nos sentindo, sem saber se algum dia ele voltará a ser o Johnny.
-E por que você disse que ele é uma perda para você assim como foi a perda dos seus pais?
-Porque Johnny era meu melhor amigo... Mais do que isso. Johnny e eu éramos iguais em muita coisa. Como se tivéssemos sido filhos da mesma mãe. O que aconteceu com ele... eu sempre imagino que poderia ter ocorrido comigo. E claro, a falta que eu sinto dele, mesmo ele estando aqui ainda, é algo bem difícil de explicar, às vezes nem eu mesmo consigo compreender. Tem vezes que eu acordo... e desperto de algum pesadelo em que isso teria acontecido comigo, e não com ele. Antes de conhecer Ayesha... eu andava bem desesperançoso com relação a muitas coisas. Por enquanto é o que posso ou consigo te dizer. A história de Johnny é realmente muito longa...
-Entendo.
Ibrahim ainda parecia curioso. Continuou andando pela sala, até que notou algo na estante. Pegou uma folha de receituário médico e reparou no nome do paciente.
-Quem é João Rômulo?
-Esse é o nome de batismo dele — disse Rudolf. — Nossa turma de amigos sempre deu apelidos legais uns aos outros. Johnny era fã do Johnny Depp, do Johnny Bravo, do Johnny Lawrence de Karatê Kid e Cobra Kai... então, o chamávamos de Johnny.
-Entendo...
-Uma última coisa.
Rudolf se preparou para dizer algo, mas foi interrompido.
-Rudolf.
A boca de Johnny se movera e logo depois tornou ao seu status anterior de entreaberta. Não fosse por isso, Ibrahim não acreditaria que tinha sido ele a falar.
-Mas...
-Isso acontece as vezes. — Rudolf suspirou novamente e deu de ombros. — As vezes é como se ele sentisse a nossa presença quando o visitamos. E ele solta uma ou outra palavra.
Rudolf foi até o antigo amigo e deu uma leve palmadinha no ombro.
-Oi, meu chapa. Trouxe um amigo meu para visita-lo. Espero que esteja bem. Todos sentimos muito a sua falta...
Johnny não se moveu dessa vez, mas Ibrahim achou que tinha notado o semblante dele havia ficado mais leve por ter percebido a presença de Rudolf.
-Ele não mexe muito os olhos, mas Tamar e as outras enfermeiras que ficam com ela as vezes, nos dizem que os sentidos dele continuam funcionando, só não com o mesmo grau de alcance que ele possuía antes de ficar assim. É uma situação bastante singular e peculiar essa a dele.
-Compreendo, parece mesmo peculiar. Mas você ia dizer... Uma última coisa?
-Sim. Antes que combinemos nosso próximo encontro com Johnny, acho válido te contar mais algo sobre o que vinha acontecendo com Johnny antes dele ficar nesse estado.
-E o que era?
Rudolf respirou fundo antes de responder.
-Amor, Ibrahim. Para o Johnny, foi amor.
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