Rudolf: Uma Jornada Extraordinária
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Ao chegar à reunião, no salão paroquial da Igreja Santa Rita de Cássia dos Impossíveis, localizada ao bairro de Ponta Negra, zona sul de Natal, para a reunião convocada por Padre Mário, Rudolf se deparou com alguns velhos conhecidos seus, de seu pai e de seu avô.
Sentado em uma das cadeiras, como se fosse apenas um cidadão comum, estava o senador da República, Francisco Raimundo Ferreira Negreiros. Senador por 2 mandatos, o sr. Negreiros transitava facilmente em Brasília e no RN, sempre buscando e mantendo diálogo com os partidos de direita, esquerda e centro; menos preocupado com as disputas ideológicas e polarização radicalizada e mais preocupado em garantir o envio de emendas para o RN para as obras de fato tidas como realmente essenciais. Menos preocupado com obras faraônicas, de pompa e grande porte, e mais preocupado com obras pontuais, atendendo aos ensejos e necessidades da população de Natal e do interior. Era um homem alto, pardo, magro, de cabelos escuros já se tornando grisalhos e usava óculos de grau. Especulava-se sobre o futuro de sua carreira, visto que faltavam menos de dois anos para as próximas eleições; até mesmo uma possível aposentadoria do senador era mencionada na mídia. O avô dele, que também havia sido senador, havia sido um dos criadores da marca de sabonetes “Senador”.
Ao seu lado, um homem branco, alto, magro, de cabelos pretos e de rosto jovial, com um sorriso leve no rosto. O padre Francisco Ferro Calheiros era o responsável pela Paróquia de São Sebastião, no bairro do Alecrim, zona leste de Natal, e amigo pessoal do Padre Mário, de Rudolf e de seu pai. Já atuara também como professor de Ensino Religioso e Catequese em algumas escolas de Natal. Participava discretamente de algumas das reuniões promovidas por Mário, mas não podia comparecer sempre, uma vez que não era do interesse de nenhum dos padres que alguém pensasse que o pároco de outra paróquia estava se metendo demais nos assuntos da paróquia Santa Rita.
Na outra cadeira do outro lado círculo, sentado defronte ao padre Francisco, estava Ibrahim. Rudolf se surpreendera um pouco com a presença do velho, mas, dado que ele é quem havia lhe passado a mensagem do padre Mário e que Ibrahim e o padre conversavam bastante, era natural que houvessem desenvolvido uma amizade. Logo, o padre não deixaria de convida-lo, também.
Na cadeira seguinte, estava o diácono Sergio Alexander. Moço de estatura mediana, negro, de cabelo curto em estilo de corte militar, magro, com óculos de grau e um olhar astuto por trás das lentes. Servia na paróquia, auxiliando o padre em diversos assuntos pontuais. Era cogitado para se tornar professor do Seminário ou pároco ou administrador apostólico interino de alguma das outras paróquias da zona sul quando fosse ordenado padre, mas sonhava mesmo era com o Vaticano. Desejava atingir o cardinalato e quem sabe, participar de um conclave representando o Brasil. Sergio cursara algumas matérias na faculdade de História-UFRN ao lado de Rudolf, tendo obtido permissão especial do Seminário de São Pedro para poder integrar a grade do curso e agregar aos conhecimentos adquiridos na formação diaconal e sacerdotal. Havia sido na faculdade que haviam feito amizade, e Rudolf o apresentou a praticamente toda a comunidade de Ponta Negra composta pelos fiéis que compareciam à paróquia, quando Sergio foi designado para ser diácono transitório na paróquia.
Completando o círculo, havia duas cadeiras vazias, uma em cada extremidade. Rudolf presumia que estivessem destinadas a ele e ao padre Mário.
Sentou-se numa das cadeiras, de modo que não apenas ficaria defronte a padre Mário, mas próximo de Sergio e Ibrahim. Um amigo do passado e um “amigo” do presente, ao qual Rudolf ainda não conseguia fazer um juízo de valor completo.
Os presentes pararam de conversar entre si para saudar Rudolf quando ele chegou, mas logo voltaram a conversar entre si quando o rapaz se acomodou à sua cadeira.
- O que acham que será o assunto do padre Mário? – indagou Sergio para Ibrahim e Rudolf. – Rudolf, estávamos nos perguntando isso antes de você chegar, mas... eu não tenho nenhuma ideia.
- Eu também não imagino o que possa ser – emendou Ibrahim. Rudolf olhou de esguelha rapidamente, desconfiado, mas logo voltou a se dirigir a Sergio.
-Vamos aguardar... O que quer que seja, ele não nos chamaria a menos que fosse muito importante.
Pouco tempo depois, Padre Mário chegou ao salão. Sentou-se na cadeira vaga e estava com um semblante sério, como se não quisesse perder tempo e como se não estivesse ali para brincadeiras.
- Não irei fazer rodeios com vocês. Meus amigos, anuncio que deixarei a Paróquia.
Todos fizeram um murmurinho de espanto.
- Conseguirei realizar um de meus antigos sonhos... bom, em parte. Irei estudar meu Doutorado em Ciências da Religião. Mas não consegui ser mandado para Roma, como imaginava que seria.
- E para onde o senhor vai? – disse o senador Negreiros.
- Para a PUC Minas – anunciou Mário. – É onde passarei os próximos 4 anos. Já me designaram também para ficar numa paróquia lá em Belo Horizonte, aonde auxiliarei o pároco local.
- Mas e como é que não houve nenhum anún... – começou Sergio, mas o padre o interrompeu prontamente.
- A arquidiocese só anunciará essa mudança nos seus canais oficiais amanhã. Estou adiantando a vocês, meus amigos, em consideração. Passamos muito tempo juntos aqui na paróquia... inclusive também com os pais e avós de vocês.
O olhar dele recaiu particularmente em Rudolf e no senador.
- Ainda tenho só mais uma semana aqui com vocês, e depois viajarei de vez. Será o tempo para colocar a casa em ordem...
- Bom, padre, se me permite – disse o senador, interrompendo. – Eu também tenho um anúncio. Não irei concorrer nas próximas eleições. Será meu último mandato e minha aposentadoria da política e da vida pública.
Todos os fitaram, surpreendidos – até mesmo Padre Mário, que parecia não ter antecipado que o anúncio do sr. Negreiros causaria mais espanto que o dele.
- Mas, senador... Todo o seu trabalho, as obras que direcionou para Ponta Negra e para todo o estado... Tudo isso... O senhor vai mesmo...
Rudolf estava quase gaguejando ao tentar articular suas ideias e pensamentos, mas o senador pareceu entender a ideia geral e o interrompeu, levantando a mão como que num gesto de “pare”:
- Meu filho, já é hora. Temos que reconhecer a hora de parar. A fala de padre Mário acendeu algo em mim. Eu preciso curtir os últimos anos que me restam. Curtir meus filhos, meus netos, minha família enquanto ainda os tenho.
Ibrahim assentiu.
- Eu não esperava, senhor... mas é uma decisão sábia.
- Muito obrigado.
Todos os demais também parabenizaram o senador pela decisão.
- Como já produzi meu anúncio impactante, padre Mário, peço desculpas, porque acho que interrompi o senhor. Se havia mais algo a ser dito, pode prosseguir...
Mário assentiu, pigarreou e continuou:
- Sim, certo. Bom, além da minha despedida, preciso apresentar a vocês o padre que me substituirá aqui em Ponta Negra, ainda que de forma interina.
Era impressão, ou Rudolf notou um sorriso tímido, porém largo, em Ibrahim ao ouvir essas palavras? O velho sabia de alguma coisa do qual os demais presentes não sabiam?
- Ele chegou há pouco à igreja. Deixei-o rezando no Santíssimo antes que ele viesse para cá; ele pediu um tempo para orar antes de vir conversar com vocês. Ah, vejam, ele está aqui.
Todos se viraram, ainda sentados. De fato, vindo da igreja em direção ao salão, estava um homem caucasiano de aspecto jovial, barba completa, porém superficial, olhos negros profundos, cabelo preto, alto e um tanto forte. Não dava para negar que fosse um padre, visto que usava uma roupa idêntica às roupas de Padre Mário e Padre Francisco.
- Meus caros, este é o nosso novo padre, José Ronald – anunciou Mário.
Todos se levantaram para saudar o recém-chegado e recebe-lo. Alguns estenderam a mão para cumprimenta-lo – no entanto, o novo pároco estendeu primeiro a mão a alguém que ainda não havia feito sinal de que o iria saudar com o aperto de mãos: Rudolf.
Mesmo sem esperar, Rudolf retribuiu o cumprimento educadamente. Então Ronald pareceu analisa-lo por um momento e disse:
- Minha nossa... então é você. Já ouvi falar muito sobre você. É um prazer conhece-lo, Rudolf.
O rapaz gelou. Como esse cara sabe o meu nome??
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