Rudolf: Uma Jornada Extraordinária
3 Capítulo 03
Notas iniciais
- Sabe, você podia escolher aparecer de uma forma menos misteriosa, para variar.
- Sabe que eu tenho um dom teatral, meu pequeno Rudolf — disse o velho.
- Sei, sei, é bem verdade até que os alunos do projeto curtem muito as suas encenações. Daqui a pouco, até a igreja vai pedir que você passe a encenar as peças lá da paróquia, Ibrahim, para dar um up no movimento da juventude.
Ibrahim deu de ombros.
- Se aceitarem minha proposta para encenar outras passagens além da Paixão de Cristo, quem sabe... Digo, a Bíblia tem tantas passagens incríveis, porém eles insistem em querer encenar sempre e somente a Paixão...
Rudolf riu levemente.
- Não sei, não. A semana santa está chegando... pode ser que eles ainda optem pelo velho caminho da encenação da Paixão.
Ibrahim deu de ombros, mas manteve seu sorriso jovial e brincalhão no rosto.
O senhor grisalho tinha um olhar brincalhão e jovial, olhos num tom meio-termo entre azul e cinzento, aspecto caucasiano, mas com a pele levemente ressequida pelo sol, e tinha uma altura médio para alta, sendo somente um pouco mais alto do que Rudolf. O historiador notou que ele engordara um pouco desde que saíra das ruas.
Ibrahim havia sido um dos ex-moradores de rua ajudados por Rudolf e Ayesha no projeto, e agora que estava "reintegrado" à sociedade com um emprego, sendo atualmente subgerente de uma gráfica localizada na Avenida Praia de Búzios, uma das principais ruas da parte central do Conjunto Ponta Negra, sempre comparecia ao projeto, especialmente para ajudar com peças de teatro, uma de suas antigas paixões, como forma de retribuição por tudo que Rudolf, Ayesha e a equipe do projeto haviam feito por ele.
Nunca cobrou um centavo pelas aulas de interpretação, atuação e teatro que fazia com as crianças, adolescentes e jovens adultos que compareciam ao projeto em busca de conhecimento e atividades extra-curriculares ou de lazer.
A gráfica aonde ele atuava também havia crescido muito, atendendo a um público cada vez maior não só em Ponta Negra, como também em alguns dos bairros vizinhos, pois cada vez mais pessoas procuravam o atendimento de Ibrahim e da gráfica vindos dessas outras localidades.
- Bom, o que o traz aqui? Que bons ventos o trazem, meu velho?
- Sempre ansioso e indo direto ao ponto, Rudolf — respondeu Ibrahim, sempre sorridente. Era uma das coisas que Rudolf mais admirava nele. Não importava o quanto havia sofrido no tempo em que era morador de rua; o sorriso de Ibrahim nunca vacilava. — Sendo sincero... Eu soube através de alguns conhecidos sobre suas recentes aulas e palestras aqui no projeto. Especificamente... suas falas sobre a área de biblioteconomia.
Rudolf piscou.
- O que tem isso?
- Ora, uma área bem específica, não? Não imaginava que você gostasse ou tivesse conhecimento desse campo.
Rudolf deu de ombros. Além de falar sobre sua paixão pela dramaturgia, cinema, teatro e outros campos da atuação, uma constante nas conversas dele com Rudolf era de que Ibrahim, por vezes, desatava a falar sobre os mais diversos assuntos, as vezes, de forma bem aleatória.
- Foi uma curiosidade. De vez em quando ainda pesquiso alguns artigos ou algumas coisas pela internet. Não é muito diferente de pensar em História, sério.
- Foi? Ao que parece, ainda está sendo... — riu Ibrahim, de leve.
Rudolf o olhou desconfiado.
- Certo, "bom velhinho". Desde que Ayesha o ajudou a resgatar sua árvore genealógica sírio-libanesa, você tem ficado cada vez mais curioso não só sobre nossas vidas, mas também sobre nossos hobbies, ofícios... Basicamente, tudo sobre nós, Se não te conhecesse, diria que é um paparazzi disfarçado.
Ibrahim se limitou a uma piscadela matreira para o rapaz.
- Nunca diga nunca!
Rudolf fez uma careta, e olhou-o de forma enviesada.
- Chega de enrolação. Vou começar a achar que você me tirou de casa apenas para testar minha paciência...
Ibrahim riu mais alto, quase gargalhando. Dessa vez até Bruna o olhou de soslaio, mas logo voltou a digitar assuntos do trabalho no computador da recepção. Rudolf não podia censura-la. Mesmo o projeto sendo praticamente um estágio para ela, a moça levava sua função muito a sério. Provavelmente, Ibrahim a estava distraindo muito com aquela conversa cheia de rodeios.
Rudolf estava preste a sugerir que a moça fizesse uma pausa para o almoço quando Ibrahim retomou sua fala.
- Não, minha visita dessa vez não se trata de paciência, jovem. Depois de tudo que fez, você e a moça egípcia, por mim, acho que chegou a hora de te contar enfim.
- Me contar o que?
- Não era apenas para me reintegrar à sociedade que eu pedi sua ajuda. Eu o reconheci logo que o vi naquele dia. A verdade é que eu sou um antigo conhecido do seu avô.
...
...
...
...
- Como é?
- Sim. Seu avô, Lincoln, foi um contemporâneo meu.
Rudolf fitava o velho, sem saber o que dizer.
- Mas... se é verdade, por que não me contou antes?
- Como fiquei sabendo de suas aulas por intermédio de amigos, colegas e conhecidos... imaginei que, se você se aventurou pela biblioteconomia, não iria demorar para se aventurar por outras áreas. Mais ainda... não iria demorar para ir atrás dos antigos documentos do seu avô.
Rudolf piscou várias vezes. Depois passou um dedo no ouvido, como se conferisse se estava com cera nele. Pensou se realmente havia escutado direito àquilo.
- E como você...
- Como sei disso? Já disse, meu caro rapaz... Seu avô foi um colega próximo. Poucas coisas do velho Lincoln ainda são um mistério para mim. Talvez nós dois sejamos as únicas pessoas que ainda estão por aqui, que realmente o conheceram bem, ainda que você tenha convivido pouco tempo com ele, mas não deixou, certamente, de ser um tempo proveitoso. Mesmo com pouco tempo, posso imaginar que a conexão com seu avô foi muito forte.
"É verdade...", pensava Rudolf. Afinal, seu avô fora um segundo pai para ele, depois do acidente que levara os pais de Rudolf.
Era impressionante e absurdamente estranho, ao mesmo tempo, que Ibrahim tivesse conhecido seu avô e que também soubesse de tantas informações sobre ele.
Mesmo assim, Rudolf estava mais maravilhado do que assustado. Havia uma pessoa ali com quem podia falar sobre seu avô e seus trabalhos, algo que achava que só poderia compartilhar com Ayesha ou se rastreasse algum de seus parentes distantes que tivesse tido mais contato com Lincoln.
- Imagino que você já tenha ido procurar os artigos do seu avô — falou o velho, trazendo os pensamentos de Rudolf de volta à realidade e ao momento atual.
- E como ...
- Mais uma vez, eu conheci seu avô — insistiu Ibrahim. — E acredito que já muito dele, em você. Seu avô também era muito curioso e ávido pelo conhecimento.
- Hm. Bom, tem razão. Estou procurando lá em casa, mas poderia precisar de uma ajuda. Infelizmente, não sei ainda quando a Ayesha...
- Que tal se eu oferecer uma mãozinha a você nessa aventura? — interpôs Ibrahim.
Rudolf achou um pouco estranho ele ter cortado a conversa, coincidentemente, logo que começara a mencionar Ayesha, mas decidiu não questionar.
- Você, velhote? Será que não vai ter dor nas costas ou coisa parecida?
Ibrahim fez um gesto com a mão, como se estivesse afastando uma mosca ou algum pensamento negativo.
- Por favor. Eu posso não ser um bibliotecário ou um ás e expert nessa área, mas tenho muito orgulho do meu nível organizacional. Você verá o quanto posso ser útil.
Rudolf olhou em volta. Na mesma hora, notou que algumas crianças acenavam para ele do pátio, dentre elas, alguns que frequentavam suas aulas.
- Tenho uma ideia. Por que não vou na frente e espero por você na portaria? Não pedirei para entrar no prédio sem que antes você chegue. De todo modo, acho que não me autorizariam a entrar sem que estivesse convidado ou acompanhando um morador. Enquanto isso, você pode... tomar conta de suas tarefas por aqui, antes de começarmos a nos debruçar sobre o trabalho do seu avô.
Ibrahim fez um sinal para as crianças. Também notara que elas acenavam para Rudolf animadamente.
- Ok... Hm. Ok. Tudo bem, eu acho. Tá certo.
Ibrahim sorriu e levantou-se, tocando o ombro de Rudolf antes de sair.
Bruna aproveitou esse momento para chamar a atenção do chefe:
- Sujeitinho estranho e bem curioso, se o senhor me permite dizer, patrão.
- É... talvez — disse Rudolf, acompanhando Ibrahim com o olhar enquanto o velho atravessava a rua, rumo à guarita do prédio. — Mas creio que ele não fez por maldade. É só o jeitão dele, mesmo.
Bruna deu de ombros e voltou-se novamente para a tela do computador.
Rudolf se levantou e foi até o pátio.
Nesse momento, duas meninas em meio à multidão de crianças correram em direção a ele. Uma delas de uns 10 anos, a outra de uns 9 anos.
Milena, morena de uma pele cor de mel, olhos amendoados e cabelos encaracolados castanho-escuros, estava sempre brincando pelo pátio, mas também podia ser vista estudando na biblioteca, fazendo algum dever de casa e lendo algum livro.
Ao seu lado, Maria Cecília, uma das principais alunas de Rudolf no projeto. De etnia afro-brasileira, Cecília tinha o cabelo preto trançado (sua mãe trabalhava como trancista) e havia sido aluna de Rudolf na Escola Jardim Caixa de Pandora, localizada próxima à rodoviária de Natal, antes de ingressar também no reforço escolar oferecido pelo projeto. Cecília encontrava-se no quarto ano da escola, e Milena, uma aluna um tanto avançada e dotada intelectualmente, no sexto ano.
Cecília era esforçada, mesmo não dominando tanto as matérias da escola. Em muitas vezes, Milena era quem a auxiliava com os deveres, leituras, e a preparar resumos e relatórios dos livros que liam para as aulas.
- Tio! — disseram ambas.
- Oi, filhinhas. Como estão?
- Estou bem — disse Milena.
- Estou só um pouco cansada de tanto brincarmos — admitiu Cecília, rindo alegremente, apesar de estar com a respiração ofegante.
- Bom. É bom estarem se divertindo. Querem me contar alguma coisa??
- Tio, o senhor ainda vai participar da peça com a gente? Todo mundo se divertiu com o figurino, ensaiando, fazendo o roteiro... — inquiriu Milena.
- Mas é claro — garantiu Rudolf. — Eu não perderia por nada.
- O senhor vai mesmo interpretar Josué? — perguntou Cecília.
- Claro, claro que sim — respondeu o professor. — Eu adorei quando sugeriram encenarmos a conquista de Canaã e a queda das muralhas de Jericó. Josué é um personagem que as pessoas precisam conhecer mais. Gostei que me escolheram para fazer ele.
- Não tire a barba — disse Cecília, pulando para alcançar e tocar a barba do "mestre". — Ouviu, tio?
- Claro, claro, querida Cecília... — disse Rudolf, dando-lhe um beijinho no topo da cabeça, e acariciando o cabelo de Milena. — Bom, madames, se me permitem, eu preciso dar uma saidinha.
- Aaaaaaaaah — reclamou Milena. — Não demora, tio. Vem conversar com a gente, depois, logo que você voltar!! Ouviu??
- Mas é claro — disse Rudolf, se curvando para a garota. — Não sou doido de desobedece-la, Madame Milena.
Milena se deu por satisfeita, retribuiu a reverência para o professor, e depois saiu de volta para o pátio, animada, feliz e gritando a plenos pulmões, como se desafiasse os coleguinhas a serem mais animados e divertidos do que ela.
Cecília só balançou a cabeça, levando à mão a testa como se censurasse o comportamento da amiga.
- Ela não tem jeito, tio.
- Ah, eu acho que ela é só muito animadinha... rsrs — afirmou Rudolf, tranquilizando sua fiel aluna, a quem ele chamava de "fiel escudeira" nas aulas, devido à amizade que os dois desenvolveram.
Ainda se lembrava do quanto havia chorado quando fizeram uma festa surpresa e trouxeram um bolo para Cecília, no aniversário dela, em 18 de março daquele ano...
Pensando bem, havia sido no mesmo dia em que Rudolf começou a pesquisar sobre biblioteconomia. E agora, Ibrahim não só revelava que conhecia seu avô, mas também que podia ajuda-lo a pesquisar não só sobre a área, mas também sobre os artigos do avô.
O historiador balançou a cabeça. Estava pensando em coisas demais ao mesmo tempo.
- Bom, Cecília, não se preocupe com ela. Ela só sabe muito bem como se divertir...
- Está tudo bem, tio?
Rudolf ergueu uma sobrancelha. Talvez Cecília tivesse percebido um olhar de preocupação traspassando seu rosto brevemente.
- Está, minha filha, está. São só caraminholas na cabeça de um adulto atrapalhado. Vão se divertir. Depois conversamos mais sobre a peça.
Ela estendeu os braços. Rudolf a abraçou fraternalmente. Ela tinha uma proximidade com ele de tal modo que o tratava como se fosse um pai.
Cecília logo saiu, se afastando em direção a Milena para que continuassem brincando com as outras crianças.
Feliz pelas meninas poderem aproveitar a infância da maneira ideal, e olhando de esguelha para a portaria, aonde Ibrahim ainda o esperava, sentado num banquinho, Rudolf se despediu de Bruna e de alguns funcionários e rumou de volta para o condomínio.
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