Rubis e Esmeraldas
6 Dia 6: Proposta
Notas iniciais
Um dia desses, eu comentei com ela que eu gostava do jeito dela de resolver as coisas. Assim… acho que disse que “gostava” naquele sentido. Também disse que queria que pudéssemos ter autonomia sobre nossas próprias vontades e vidas. E depois, beijei ela.
Eu ia usar a velha desculpa de que foi culpa do álcool. Tinha até feito questão de beber bastante pra pegar o cheiro forte de bebida na esperança de ter um motivo minimamente decente para ter feito aquilo, já que – convenhamos – um “te beijei porque queria saber como você beija” ou, pior, um “porque eu te quero” pegam muito mal. Principalmente se o alvo da sua dúbia afeição é uma mulher casada.
Mas voltando ao assunto original: Fazer o que bem desse na telha. Não é bem exatamente como muitos podem pensar; não é que somos proibidos de fazer qualquer coisa. É só que, como numa sociedade, há um código de convenções chamada “moral”. A infração ao código ativa a culpa como um sistema penal particular. Em poucas palavras, o tal “anjinho e diabinho” em cima do teu ombro.
E digamos que eu aprendi a ouvir só o meu diabinho, porque eu me arrependi profundamente na última vez que eu deixei o anjinho puxar a minha orelha.
Jovens são muito idealistas. O mundo da imaginação é muito mais bonito do que essa realidade incômoda, não é? O plano das ideias de Platão, intangível e intocável, abrigava todas aquelas minhas visões de menino misturadas ao desejo do homem que crescia em mim. Os meus sonhos e minhas aspirações. Ainda que, quando moleque, eu sonhava bastante com terras, dinheiro e vastos exércitos. Garoto ambicioso…
Mas quando eu finalmente descobri que tinha um passarinho dentro de mim que teimava em piar e colidir contra as minhas costelas – sua gaiola – quando eu pensava no garoto que na verdade era uma garota, alguma coisa mudou dentro de mim. O garoto que não queria mais brincar comigo porque virou mulher do dia pra noite para se casar com um outro germânico (bem menos forte e muito mais patético, na minha opinião). A pequena ave em meu peito queria voar com a lagarta que tornara-se borboleta. Dois singelos animais, cada um preso à sua própria gaiolinha.
O pássaro se aquietou por um tempo, porque eu tive que crescer um pouco para consolá-lo. Porque o anjinho me disse que eu seria uma pessoa melhor se eu resistisse à tentação de tomar a mulher de outro homem. “Ok, anjinho,” eu disse a ele enquanto baixava a minha cabeça para a voz da razão.
Ainda assim, lá continuava o passarinho a se debater, a machucar suas asas enquanto eu pensava nela. Aí eu dizia “Ela não quer homens violentos como eu, passarinho,” e ele parava quieto por mais um tempo enquanto se afundava em meu peito. Doía dizer isso, mas talvez fosse melhor assim. Melhor para ela.
E, maldita seja aquela borboleta, que vinha chamar o maldito bichinho dentro de mim. Cuja dona, apesar de sermos inimigos, ainda vinha me visitar nos sonhos, vinha responder aos meus beijos em noites de bailes formais. O álcool deixa as pessoas valentes, transforma passarinho vermelho na Garuda de rubi e transforma borboleta verde em Naga de esmeralda. Águias e serpentes, para sempre destinadas a se caçoarem, mas se complementarem em Sol e Lua. Nós nos amávamos e sabíamos disso mesmo sem precisar trocar cartas ou olhares.
Tanto é que, em um desses aniversários de casamento dela, houve uma grande cerimônia de consolidação de matrimônio. Era como se eles casassem de novo, fazendo toda aquela palhaçada mais uma vez. Eu queria fazer merda, mas o anjinho estava lá, me obrigando a sentar e ouvir mais um sermãozinho. O último dele em toda a minha vida. Então deixei a porta da gaiola se abrir e ri enquanto via a ave, meu diabinho, meu coração, alçar voo no salão. Corri atrás do danado pássaro e só parei quando, na frente de todos, segurei-a firme em meus braços. Sua cabeça encostou em meu peito, ouvindo meu coração bater e seus olhos verdes refletiram o brilho das velas dos candelabros antes de ela responder ao chamado do meu peito e rir, me beijando.
“Erzsébet…”
“Sim, Gilbert?”
O estouro da garrafa de champanhe de repente evocou os aplausos da multidão. Eu estava sentado no fundo enquanto, no altar, outro homem segurava a minha noiva nos braços. Os lábios de Roderich Edelstein beijavam pela milésima vez os lábios que eu beijara apenas uma vez.
E ainda aguardo a resposta para a pergunta que só eu ouvi:
“… Casa comigo?”
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