Rubis e Esmeraldas
4 Dia 4: Me desculpe
Notas iniciais
Um dia, eu li um livro sobre o conflito “Humano x Máquina”, de como a eficiência das máquinas poderia substituir a mão de obra orgânica em fábricas e linhas de montagem e toda essa asneira teórica. A idade faz isso com você.
Por algum motivo, comecei a tentar entender onde as nações se encaixariam nessa classificação. Eu não passava de uma marionete para os meus reis e muitas vezes eu simplesmente obedecia sem objeção alguma às ordens deles. Mas antes que você me chame de assassino, monstro, lembre-se que a vida de um humano não era algo que eu podia compreender a todo momento. Eu não conseguia entender a possível significância de um período tão curto de tempo que era a vida humana perto da minha. Eram como peões num jogo de xadrez.
Ainda assim, eu não era totalmente insensível às mortes ao meu redor; pelas minhas mãos ou não, direta ou indiretamente. Era oito ou oitenta: A minha consciência andava em uma corda bamba entre a empatia e a frieza. Culpa era uma velha conhecida minha nos meus pesadelos, em sonhos lúcidos em que uma pilha de corpos brancos como fantasmas – cujas faces sempre apareciam horrivelmente desfiguradas – se empilhavam sobre mim, rindo de mim, zombando de mim e de meus erros.
Erros bestas e pequenos, como naquela vez em que Erzsébet me tirou pra dançar num baile na Hungria em plena Belle Époque. Foi sacanagem por parte dela mesmo, porque eu nunca tinha treinado o suficiente para ser um bom dançarino de Csárdás. Parecia que o meu jeito estabanado era tão engraçado que recompensava todos aqueles pisões nos pés dela e os passos ilegalmente improvisados. E eu me desabava a pedir desculpas enquanto dançávamos, mas ela apenas continuava rindo e dançando.
“Me desculpa.”
“Ne állj!” [1]
Em guerras, eu queria ser uma máquina e não precisar sentir medo de errar. Em épocas de paz, eu queria ser humano e poder ver graça na vida. Era engraçado, porque eu nunca acertava a medida das coisas. Então, me contentei em ser máquina. “Máquinas não erram, não sentem.” Talvez, meu trabalho fosse obedecer mesmo. Era bom nisso.
Só que o medo dos pesadelos apenas se tornou o medo que eu passei a ter de não conseguir sentir mais nada. Nada além dos piores sentimentos humanos. Raiva, inveja, ciúmes, ganância…
Algumas poucas pessoas ainda tentavam manter um contato minimamente decente comigo. Erzsébet era uma delas. Mas a guerra muda as pessoas, faz nossos monstros emergirem e nos prenderem dentro de nossos próprios corpos para testemunhar nossos pecados. E quando a última guerra acabasse? Seríamos máquinas ou humanos? Perfeitos ou defeituosos? Ou seríamos mesmo apenas monstros?
Era uma dúvida que eu carreguei por muito tempo até eu comentar com ela numa dessas vindas à minha casa que ela realizava de vez em quando. Até eu sentir o álcool me obrigar a expressar a minha confusão diante da minha própria teoria. E até você me beijar com força e me dar um novo rótulo.
“Nem máquina, nem humano. Você é Gilbert. Eu sou Erzsébet.”
Ela me deitou na cama e tirou a roupa. Deitou-se sobre mim, explorou meu pescoço, beijou meus olhos, mordeu minha orelha. Devagar, ela ia me despindo, me descobrindo. Traçou um caminho de mordicadas do meu pescoço até onde a cintura da minha calça permitia. Minhas mãos procuravam por apoio em seu corpo, que arqueava-se aos toques.
Nem erro, nem acerto. Independentemente dos resultados, apenas a experiência vivida era importante. Como a dança das Csárdás. Como fazer sexo.
Eu me movia dentro dela, e ela suspirava de um jeito diferente.
“Me desculpe.”
“Ne állj…” ela murmurava e me puxava para si, deitando-me sobre ela e pedindo para que eu a beijasse de novo.
E de novo.
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