Rubis e Esmeraldas
2 Dia 2: Meias e Suéteres
Notas iniciais
Quando eu era moleque, adorava o frio. Simplesmente adorava sair nas manhãs de inverno e brincar na neve sozinho. Talvez fosse porque eu havia crescido nas redondezas do Mar Báltico, ou talvez porque o sol queimava a minha pele com facilidade. Seja o que for, o frio nunca foi um inimigo meu.
Pelo menos, não o frio climático ou o que vinha com a neve que caía do céu. O frio da alma me assolava durante a noite. Os meus maiores medos saíam de seus esconderijos e me atormentavam antes de eu poder cair no sono. Muito mais que pesadelos, esses medos eram parte de mim. Todo mundo tem seus monstros; alguns mais do que outros.
Era teimoso também. Querer fazer tudo sozinho para mostrar que era forte, que não tinha medo… Até hoje sou assim, mas quem me dera eu soubesse do peso do fardo que se carrega sozinho.
Em toda a minha longa existência, eu nunca duvidara da perpetuação da minha nação. Oras, eu era uma das maiores potências militares que já caminhara sobre aquele planeta. Quem teria a audácia de me peitar em momento de glória? Momentos de glória não duram para sempre, e isso eu aprendi quando já era tarde demais. O mundo já não era mais o meu quintal, e a espada que eu empunhava já perdera o fio de corte há séculos.
Assim, eu caí como Lúcifer caíra do Céu: Não mais um anjo, muito menos um homem normal. Mas o Inferno era muito mais frio do que eu imaginava, muito mais escuro do que pensei que fosse. Prússia morreu em 1947.
No corpo dele, acordou Gilbert. Olhou para os lados, e viu a União Soviética. Algumas faces lhe eram familiares: Ivan, Feliks, Toris, Eduard, Raivis, Natalya, Yekaterina. E, finalmente, Elizaveta. Não…
Erzsébet.
Eu estava tão distante de você que nem acreditava ter autorização para olhar em seus olhos novamente. Eu não sabia exatamente o que tinha feito de errado, mas o fantasma de Prússia gargalhava de mim quando eu tinha medo de te confrontar. Eu estava com medo de você e não sabia.
Embora eu merecesse que você me esclarecesse da pior maneira possível, você não o fez. Quando eu acordei perdido, derrotado, você apenas sorriu e saiu do meu quarto na grande casa Soviética. Demorei bastante tempo para finalmente me situar na situação. Ivan me explicou as consequências da guerra, a política da nova ordem bipolar, o Leste e o Oeste, os muros. Só não me explicou o que eu queria saber: Quem era eu? Até onde ia a linha que separava Prússia de Gilbert? O eslavo apenas me deu um tapinha nos ombros e se despediu, dizendo que eu deveria me mudar para Alemanha Oriental.
A casca vazia chamada Gilbert ajeitou suas coisas e saiu. Era uma casa pequena em Berlim, então dividida, picotada em quatro setores. O frio lentamente invadia a minha vida, congelava os meus olhos no lugar por muito tempo e só me deixava olhar para as paredes. O frio congelou minhas pernas e me proibiu de andar para muito longe de casa. O frio congelou minha alma e me impediu de sentir qualquer coisa a não ser o próprio frio. Mesmo assim, uma fagulha foi o suficiente para me erguer da cama e arrastar os meus pés em direção à porta. A campainha tocava insanamente.
Quando abri a porta, o seu sorriso estranhamente tímido pedia licença. Timidez nunca foi muito a sua cara. E pela primeira vez em muito tempo, senti alguma coisa. Pode ter sido uma certa irritação no seu jeito de ser feliz como se nada estivesse acontecendo, mas certamente foi bom sentir alguma coisa. E talvez, pelo jeito como eu reagi, também ignorando qualquer outro problema, ignorando o frio, você tivesse sentido aquela velha intimidade que compartilhávamos antes da distância e do silêncio.
Você largou o casaco em cima do meu sofá e fez uma piada muito sem-graça. Mas eu ri. E você riu também. Tossi alto e você se preoucupou, sentando-me no sofá.
“Espera aí,” e saiu pela casa procurando pelo meu cobertor enquanto eu pensava em alguma coisa para te dizer ou alguma desculpa por algo que eu ainda tentava compreender, como se eu fosse pedir perdão por um pecado que eu não tinha cometido. Até lá, você já voltava com o cobertor e se sentava o meu lado perguntando por novidades.
“Nada acontece,” menti. Eu bem sabia que você ainda conseguia me ler como um livro. Porém, o que eu não sabia era que os meus olhos imploravam tanto por um abraço, mas obrigado por me dá-lo. Obrigado por me dizer em um aperto que eu não estava bem, nem que eu precisava aguentar aquilo tudo sozinho. Até hoje sinto sua mão passar por entre meus cabelos, acalmando-me. Todo aquele frio, toda aquela angústia pareciam derreter no momento.
Não existia Guerra Fria, não existia medo, não existia dúvida. Só aquele sentimento morno borbulhando no meu peito fraco.
“Eu estava pensando em um motivo pra vir te visitar, porque fiquei sem-graça de vir aqui pra falar que queria te ver. Então comprei essas coisas.” Eu fingi estar mais debilitado do que eu realmente estava só pra ela me vestir com o suéter e as meias que ela comprou. “Quero ver ficar doente agora.”
A gente nunca tinha chegado a falar sobre o que a gente escondia entre piadas, flertes ocasionais e contatos físicos como esse, mas – lá no fundo – a gente já sabia.
“Doente só de amor mesmo.”
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