Rubis e Esmeraldas
1 Dia 1: Infância
Notas iniciais
Eu te odiava. Não te achava só inconveniente, não desgostava de você. Eu te odiava demais. Sonhava mil e uma maneiras de como eu ficaria cara a cara com você e de como eu finalmente te mataria. Inclusive, teve até uma vez em que eu simplesmente arrebentava a tua cabeça com um tacape, como num jogo de golfe.
Na real? Eu não te suportava; não aguentava ouvir a tua voz, tua risada estridente de criança afetada. Odiava o jeito como você andava como se o mundo fosse teu; como se tudo fosse teu.
Eu odiava o jeito como você ia às batalhas com aquela armadura e aquela espada pesadas e impunha respeito com tanta segurança, sem ao menos fraquejar diante de um general cumano maior. Você não tinha medo e isso me incomodava. Podia ser porque você nunca tivera nenhuma experiência de derrota com os turcos, podia ser porque você era realmente ridículo e sem noção.
Era engraçado, porque éramos muito diferentes um do outro. Eu escolhia ouvir. Tu escolhia falar. Eu escolhia a defesa. Tu escolhia o ataque. Talvez tenha sido por isso que, apesar das nossas desavenças passadas, a gente tenha se dado (razoavelmente) bem depois que nos aliamos para defender Burzenland. Treinamos juntos por muito tempo. Confesso que mantive um pé atrás por muito tempo, porque alianças eram coisas que mudavam tanto quanto a direção dos ventos, mas em uma coisa eu ficava feliz por você não saber ainda; do quanto era ruim não poder confiar em ninguém. E às vezes me perguntava se você um dia tivera um amigo.
Foram naqueles pequenos detalhes, no jeito que você me acordava cedo para ver o sol nascer, para ver os coelhos saírem das tocas nos últimos dias de inverno, para fugir dos nossos superiores… Foram nessas coisas pequenas que construímos esse sentimento forte que sabíamos que resistiria a força do tempo, das intemperanças da vida.
Algumas vezes eu achei que eu tinha perdido esse meu amigo em você, como na vez em que eu te contei que eu iria me casar com o Roderich. Você esbraveja por qualquer coisa, mas daquela vez, você só sorriu e me deu as costas. Sem mais nem menos, não ouvi falar de você por quase dez anos. E eu achei que estava cometendo um erro.
Também não entendia o porquê de eu ser uma garota mudar quase que completamente o jeito que você me olhava. Você me olhava com receio, com medo de dizer alguma besteira. Não, você nunca precisou me contar tudo isso. Eu já tinha aprendido a ler e entender os teus olhos.
Era ruim ter de te tratar como um desconhecido diante de praticamente todo mundo. Era ruim ser tratada como uma desconhecida. E a situação só piorava quando eu tive de tomar partidos. Porque você passou a me evitar, a não olhar mais para mim. Desaprendi a te ler. Desaprendi a te entender. Tanto é que tudo o que eu podia ver dentro dos teus olhos era revolta, ira, raiva… As mesmas que eu achava que tinha antes de te conhecer direito.
Os sentimentos são como chamas; e toda chama nasce de uma fagulha. Esse é o combustível de nossas vidas. Eu te odiava tanto naquele momento… Mas não era um sentimento de todo ruim, porque se eu não me importasse tanto com você, eu não te odiaria: Eu simplesmente te apagaria. Eu ia lá tentar te apagar de vez das minhas lembranças todas as noites…
Mas você estava sempre ali sorrindo, me trazendo para algum lugar no bosque para assistir o sol nascer. E a chama em meu coração queimava intensamente de novo, fazia a água dentro de mim borbulhar. Pela física, quando a água encosta em algo frio, condensa e se torna água mais uma vez; quando o vapor dos meus sentimentos tentava sair, encontrava apenas o meu eu mais severo, a Erzsébet que tentava te destruir… Minha fria mente.
A água condensava. As lágrimas apareciam.
Não importa o quanto eu tentava me provar que você era odiável, desprezível e egoísta. Pra mim, você não era. Nunca foi. Eu tive a honra de te conhecer por inteiro, Gilbert. De te conhecer no seu momento mais intrinsecamente humano.
Tive a honra de conhecer a sua criança… pela qual a minha se apaixonou.
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