Ruínas da Guerra
7 Auréola Negra
O sol se estendia no céu e Hector estava finalmente chegando à cidade de Jazga depois de uma noite inteira de cavalgada em direção a oeste. Hector estava com um grande manto negro com grandes desenhos de dragões em prata, ele mesmo havia ordenado que aquela sua veste fosse feita.
Os orcs eram grandes seres fortes, que eram conhecidos por serem selvagens e ter um desprezo enorme pelos humanos, eles possuíam grandes presas, na quais duas delas saiam da parte inferior da sua boca, todos iguais para Hector. Eles possuíam grandes armamentos e eram excelentes na dianteira de um exército, embora não seja de seu costume participar de guerras a não ser que sejam atacados por alguém.
Jazga estava entre as árvores na floresta e era protegida por uma grande muralha de madeira com um grande portão que era protegido por dois grandes orcs verdes, logo acima era possível ver uma grande tenda com panos vermelhos na parte superior, para se abrigar em dias de chuva, lá estava um grande orc marrom, que diferentes dos outros aparentava ter uma patente maior.
—Alto! – disse o orc na cabana acima do portão. – Quem vem lá?
—Desejo falar com o seu líder. – respondeu Hector.
—E qual é o nome do elfo que pretende falar com o nosso líder? – perguntou ele.
—Meu nome é Hector. – respondeu Hector enquanto os guardas dos portões trocaram olhares. – E desejo falar com o seu líder, urgentemente.
—Aguarde. – disse o guarda enquanto chamava outro orc e falava algo em seus ouvidos. – Podem entrar, mas apenas três. Não mais que isso.
—Venham comigo. – disse Hector para dois elfos que estavam segurando um baú e uma elfa que segurava um livro pesado.
Os portões de madeira começaram a abaixar com um barulho de correntes sendo puxadas. Hector pegou as rédeas do cavalo e avançou, seguido por seus elfos negros, entraram em Jazga e se depararam com grandes tendas caseiras, que eram maiores do que qualquer elfos, pois, os orcs tinham o dobro do tamanho.
Eles olhavam atentamente para Hector, e cochichavam entre si, aparentemente baixo demais para ser ouvido por Hector. Entre as grandes tendas de madeira, havia uma grande cabana que se erguia maior do que as outras e dela saia uma grande luz verde, que mesmo pela manhã era possível enxergá-la.
Hector seguiu para ela, quando chegou lá, o orc que estava na tenda do portão disse para eles:
—Nada de armas a partir daqui. – ele então esticou as mãos e Hector tirou as espadas presas na cintura e entregou. –Isso seve para eles também.
—Eles não possuem armas. – disse Hector.
—E o que é aquilo? – questionou o orc apontando para o baú.
—Digamos que é um presente para o seu líder. – respondeu Hector
Ele entregou as armas para outro orc e pediu para eles o segui-lo. No centro da cabana havia uma grande fogueira com a luz verde, que crepitava dentro de um grande jarro de concreto redondo.
Ao fundo da cabana estava sentado em seu trono acima de vários degraus de barro, um grande e velho orc verde encapuzado, que possuía uma espessa barba branca que caia até seus joelhos, em seu pescoço havia um cordão com diversos esqueletos de crânios que pareciam humanos, ao lado do trono havia um grande cajado mágico de madeira com uma grande joia verde no topo.
—Ora, ora, ora. Vejam o que temos aqui! – disse o velho com voz rouca. – Hector o Renegado! Pensei que estivesse morto rapaz.
—Muitos pensam assim. – disse Hector com os braços por detrás do corpo.
—Nunca achei que viveria para ver tal coisa acontecer aqui. – os olhos do orc brilharam em verde. – E ainda mais com cabelos curtos...
Após a Guerra do Triunfo Hector disse para seus seguidores que precisavam criar seus próprios costumes, sua própria identidade, em seu primeiro ato ele cortou seus cabelos brancos e o deixou curto, logo em seguida batizou esse costume e para todos os elfos negros.
—O que quer elfo? – perguntou o orc.
—Eu vim aqui pedir a sua ajuda. – respondeu Hector.
—Você? Ajuda? – o orc então começou a cair na gargalhada, mas apenas ele, os orcs que estavam na cabana junto com eles pareciam ter sido transformados em pedras. – Achei que o grande Hector não precisava de ajuda de orcs.
—Creio que o que eu quero também possa agradar vocês. – disse Hector começando a fervilhar em raiva.
—E o que seria isso? – perguntou o orc.
—Acabar com os humanos de uma vez por todas. –respondeu Hector sério.
—Você sabe quem sou eu? – disse o orc pegando o seu cajado e se levantando. – Eu sou Likgar o senhor dos orcs, o único e maior mago que os orcs já viram, eu sou fúria e morte e não meu juntaria a você e a sua escória para tal despreza.
—E por que não? – questionou Hector. – O que tem a perder?
—A minha vida e a dos meus homens. – disse Likgar. – Vocês não são confiáveis.
—Lhe dou a minha palavra.
—Palavras de um mentiroso não valem nem por escrito. – disse o mago.
— Me diga... – disse Hector. -Por que eu viria até aqui e pediria a sua ajuda para no final matar vocês? Toma-me por um tolo?
O mago fitou os olhos de Hector por um bom tempo. Likgar então se sentou em seu trono novamente e perguntou:
—Caso eu me junte a sua causa suicida os humanos possuem o dobro de sua tropa, mesmo com a minha ajuda. Eles se procriam como porcos, o que vai fazer em relação a isso?
—Eu tenho um plano. – disse Hector. – Livros de história antigos contam sobre um anjo que caiu graças a sua ganância pelo poder, então ele foi aprisionado.
—Sim, sim a história de Leonhard o anjo caído. – disse Likgar. – Mas não sabemos exatamente o que aconteceu com esse tal anjo caído antes de ser aprisionado.
—Não sabemos. – afirmou Hector. – Mas sabemos que os livros antigos de história não mentem, e isso é suficiente. A história conta que qualquer mago com grandes poderes pode trazer o demônio de volta, basta apenas o livro de magia certo e três penas da asa do anjo.
—Coisa que você não tem.
—Pelo contrário. – disse Hector enquanto um dos elfos se aproximava. – Os livros de histórias sobre os orcs contam que você fez grandes maravilhas para o seu povo.
Hector então chegou ao elfo com o baú, ele lhe deu a chave e Hector então o abriu.
—Isso é... – disse Likgar incrédulo. — Não é possível... Como?
—Digamos que você tem muito tempo para explorar as terras quando se é um elfo andarilho com mais de mil anos. – disse Hector. – Mas não acabou...
Então a elfa negra se aproximou revelando em suas mãos um grande livro pesado, cuja capa era roxa com um grande olho em dourado.
—Eu procurei por esse livro por anos. – disse Likgar surpreso enquanto se levantava e descia os degraus do trono. – Finalmente vou poder descobrir magias antigas e me tornar mais poderoso.
O grande mago se aproximou do livro apoiado em seu cajado, e então esticou seus braços para pegar o livro quando Hector se pós à frente e disse:
—Esse livro é seu, se e somente se, você e seu exército se juntarem a minha causa.
Likgar olhou para o livro e então para Hector novamente, ele ainda não estava totalmente convencido, mas Hector pretendia virar o jogo.
—O anjo caído está aprisionado há milhões de anos e creio que ele iria servir quem o lhe libertasse, não acha?
—Sim, sim... – disse o mago alisando a sua barba.
—Pois bem, você teria domínio sobre o demônio, não por meio da magia, mas pela gratidão dele, até demônios servem, não é? – disse Hector. – Isso seria mais uma arma para você me atacar caso seja cometido traição por mim.
Likgar parecia pensativo, ele então olhou para as penas das asas que eram negras como carvão.
—Imagine você governando toda Nomentum sem nenhum humano para atacar, você seria tratado como um verdadeiro rei. – disse Hector fazendo o mago liberar a ganância. – É isso que vou lhe dar em troca, um exército de demônios e todas as terras de Nomentum que desejar, exceto o sul, as terras do sul serão minhas.
—Em seu plano ainda existe um grande problema. – disse o mago. – Você tem as penas, o livro e o mago para conjurar tal magia, mas não possui a localização exata de onde o anjo caiu.
—Mais uma vez está enganado Likgar. – disse Hector. – A localização do anjo caído está a algumas horas de cavalgada daqui. Está disposto a pegar o seu exército e se juntar a mim?
—EL! – gritou o mago e um grande orc foi de encontro para o mago. – Arrume cada orc disposto a batalhar, cada armadura, cada armamento e avisem que vamos partir, ordene para eles seguirem os elfos negros e arrume logo as minhas coisas!
—Sim meu senhor. – disse o orc saindo imediatamente da cabana.
—Se tentar alguma coisa eu e meus homens estaremos de olho em você Hector. – disse Likgar enquanto saia da cabana deixando Hector e seus elfos negros para trás.
Depois de algumas horas de cavalgada, o sol da tarde já estava se pondo no oeste e Hector estava em seu cavalo na dianteira com Likgar ao seu lado, ele estava indo a pé, pois orcs não possuíam o costume de andar a cavalo ou qualquer outro tipo de animal de grande porte.
—É aqui. – anunciou Hector descendo do cavalo.
—Mas aqui não há nada. – questionou Likgar. – Está tramando algo elfo?
—Apenas ressuscitar um demônio. – respondeu Hector com um sorriso no rosto enquanto apontava para um grande círculo negro no chão.
Dentro do grande círculo negro havia um pentagrama de mesma cor, ele estava na grama e mais ao fundo havia um grande penhasco que dava direto ao mar que estava laranja por causa do grande sol que estava se escondendo ao fundo.
A poucos passos do círculo, Hector ordenou que o elfo negro que estava encarregado de carregar o baú colocasse as três penas em forma de triângulo no meio do círculo, e assim foi feito, em seguida ordenou que a elfa entregasse o livro para o mago.
—Comece. – ordenou Hector para Likgar que já estava com livro em mãos.
Likgar começou a ditar as palavras em voz alta, então uma chama começou a circular o fogo e em questão de segundos todo o círculo estava em chamas queimando as penas e a grama. Likgar continuou com a sua magia e de súbito uma mão em ossos começou a sair do meio do círculo em chamas, a mão então segurou o chão como se estivesse subindo, então a outra mão em ossos emergiu e fez o mesmo movimento.
Logo em seguida um crânio uma caveira emergiu do chão com a boca aberta como se estivesse gritando, mas nenhum som saia da sua boca em ossos. O esqueleto começou a levantar enquanto Likgar conjurava a magia, o esqueleto de súbito começou a receber cartilagem, nervos e peles. Enquanto isso a sua voz foi de aguda para grossa atingindo a voz humana, então o grito cessou, um grande clarão atingiu a todos e as chamas se ergueram ao seu máximo.
Quando Likgar havia finalmente acabado a conjuração, as chamas foram, aos poucos, se abaixando e ali estava o demônio, sem roupas e ajoelhado no meio do círculo ainda em chamas. Ele então se levantou e olhou para todos as sua volta, ele possuía aparência humana com grandes marcas negras em todo o seu corpo, as suas mãos estavam negras como se estivessem queimadas até os cotovelos, os seus cabelos e seus olhos brilhavam em branco vibrante, ele suspirava pesado.
—Quem são vocês? –perguntou Leonhard o demônio. – Onde estou? O que aconteceu?
—São muitas perguntas que poderei responder com o tempo. – disse Likgar. –Eu lhe libertei e você agora precisa seguir os meus comandos, vamos à guerra e você bem junto.
—Não sigo a ninguém! – disse Leonhard. – Não tenho nada haver com a suas intrigas aqui na terra!
—Não, não tem. – confirmou Hector. –Tão pouco não possui nada, nenhuma terra, nenhuma herança e pelo que pude perceber, não possui memórias do que aconteceu.
—Minha família... O anjo Uriel... – disse Leonhard olhando para as mãos e a cerrando-as. – É tudo o que lembro.
—Vou recuperar as suas memórias, mas para isso terá que nos seguir e obedecer as minhas ordens. – disse Likgar.
—E para onde nós vamos? – perguntou Leonhard.
—Para o sul. –respondeu Hector. – Vamos batalhar contra os humanos.
Hector então se virou para os elfos negros e disse:
—Lhe deem vestimentas.
Hector então deu as costas para o mago e o demônio e então montou o seu cavalo, pronto para marchar com a sua tropa para o sul. Agora era só questão de tempo para Leonhard trazer o inferno para a terra, mas isso por hora não era necessário, não até ele recuperar as memórias perdidas.
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