Ouvi dizer que paixões podem reacender muito facilmente, mas torço para que não seja o caso.

Voltando ao lugar em que a conheci, posso sentir um mix de nostalgia com alegria, mas também uma pontada de ansiedade e melancolia.

Porque também foi o palco do cenário onde eu parti.

Cenário em que a deixei aqui.

Mas como todo amor inicial, nós tentamos persistir, e eu sempre admirei a vontade dela em fazer dar certo.

Era como alguém que eu nunca havia conhecido, uma mulher completamente diferente. Tão persistente, tão dissimulada, tão honesta, tão expressiva.. tão... intensa...

Sei lá.

Ela era incrível, ela via sempre o melhor das coisas, o melhor... de mim.

Acredita? Enxergar o melhor de alguém que não consegue enxergar o melhor de si mesmo?

Ela era assim. Ela me inspirava.

Era doida e sensual na mesma medida.

Ao mesmo tempo em que dizia coisas lindas, com palavras bonitas e gramática perfeita, também cuspia xingamentos e dizeres — manias — repetidos.

Era dona de muitos hobbies. Ela pintava, dançava, lia, assistia dez séries e quinze filmes em um único dia. Ela jogava qualquer video-game porcaria. E a parte mais impressionante pra mim sobre ela, era que ela me incluía em tudo o que fazia.

Ao invés de se abandonar como muita gente, inclusive eu, fazia, ela dava um jeito de me tornar parte do seu dia-a-dia. Sem se perder.

Jogávamos juntos, assistíamos séries e filmes juntos...

Pra resumir, passávamos boa parte do nosso dia juntos. Fazíamos questão disso.

Só que minha agenda foi apertando...

Trabalho.

Escola.

Treino.

Eu também queria passar tempo com os meus amigos. Queria jogar alguma coisa com eles.

Eu estava preso.

Queria aproveitar, mas tinha meus deveres a cumprir. Tinha que ser um bom filho, um bom irmão, um bom namorado e um bom amigo.

Como ela fazia tudo isso?!

E ela falava sobre o futuro. Sempre falou.

Fazia planos comigo, e eu amava aquilo. Falávamos sobre casamento, casa, carro, filhos...

Jovens, né? Sonhando alto. Mas pelo menos era com a gente que ela sonhava.

Mas quando se tornou real demais. Quando eu comecei a ver os passos que teria que dar para realizar... Eu...

Não sei...

Senti um peso.

Eu senti...

Medo.

E se eu não conseguisse?

Pior.

E se eu não a acompanhasse?

Quero dizer... Poxa, olha pra ela. Ela dá conta de tudo isso e mais um pouco. Eu nunca a vejo reclamar de nada. Ela parece tão incrível, tão surreal. E perto dela, eu sou o que?

Ela queria se mudar por mim. Queria ir primeiro, talvez, e quando eu conseguisse, iria depois. Que mulher maluca, né? Ela iria mesmo fazer isso?

Minha irmã e minha mãe começaram a comentar que eu não a merecia. Pois, olha o que ela estava fazendo. E o que eu estava fazendo por ela?

Ela ser mais velha que eu, não justifica a minha não-cooperação.

E com tudo isso acontecendo, todo esse peso que eu estava carregando. Eu me senti sufocado.

Aquilo tudo estava me entalando.

E um dia, ela me fez uma pergunta que acessou um gatilho profundo para que toda essa dor subisse à mesa, e infelizmente, se mostrasse à ela.

Ela perguntou "Você se consideraria uma pessoa autêntica?", e eu, burro, perguntei o que era ser autêntico.

Quando ela me disse o significado, percebi que a resposta era não. E percebi o quão desonesto, não só comigo, mas com ela também, eu estava sendo.

Contando daquele dia, faltavam três dias para nos vermos de novo. Ela havia comprado uma passagem para me visitar.

Mas eu entrei em pânico, depois de tudo isso, e a chamei para conversar.

Minha intenção era clara: Eu queria terminar com todo aquele sufoco... Mas acabei terminando o nosso relacionamento.

Não lembro ao certo onde na conversa nos perdemos. Mas vendo que não havia como me expressar naquelas circunstâncias, e que não havia desculpas para o que eu estava fazendo...

Eu disse que eu não a amava. Não mais.

Foi mais fácil.

Foi a desculpa mais fácil que eu inventei. Foi só assim, só quando eu disse isso, que ela parou de tentar me entender e tentar, sei lá, me convencer a não fazer o que eu estava fazendo.

Foi assim que ela aceitou o que eu disse, e foi embora.

Lógico que eu senti dor pelo que fiz, mas o que eu podia fazer depois de toda a escrotice que eu fiz com ela?

Eu já tinha feito.

Já tinha tomado a decisão.

Não podia voltar atrás, e tenho quase certeza de que nenhum perdão seria suficiente pra ela.

Eu machuquei a mulher que eu mais amei em toda a minha vida, e tudo por medo? Por cansaço?

Até hoje não sei definir em palavras.

Mas o alívio que eu senti, foi imediato.

Eu pude voltar a jogar com os meus amigos e sair com eles.

Pude encaixar a minha agenda da melhor maneira possível.

Consegui botar em dia as séries que eu não conseguia assistir pela falta de tempo.

E podia descansar mais durante o dia, sem me preocupar demais com... ela.

Puta momento bom em que decidi voltar aqui, né?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.