Rotten Flesh
15 Capítulo XV
Notas iniciais
George:
“Ela se sentou em um canto da cozinha abraçada ao corpo de papai e ficou por lá durante duas horas em silêncio encarando o nada com os olhos cheios de lágrimas. Dan tentou se aproximar dela, eles haviam criado um laço forte, mas nem isso a fez olhar para ele, ela não prestou atenção em nenhuma das palavras de conforto que o menino lhe dirigiu. Amber apenas ficou lá, em silêncio.
Marina notou que não sairíamos dali tão cedo, comigo sentado no sofá desolado e Amber daquele jeito, ela e Dan eram os únicos em condições de fazer alguma coisa.
Fiquei surpreso por ela não nos deixar e tentar seguir em frente sozinha.
Após trazer os suprimentos para dentro, ela fechou a porta e fez uma barricada ali, teve o trabalho de checar todas as janelas e saídas, todos os cômodos, todos os lugares onde um morto podia entrar ou se esconder.
Dan arrumou o lugar para que pudéssemos passar a noite ali, ele pediu permissão para entrar no quarto de meus pais e eu não disse muito mais que um “sim”. Ele revistou o local, pegou cobertores e travesseiros para si e para Marina, ele disse que ambos dormiriam na sala naquele dia, enquanto eu e Amber dormiríamos nos quartos. Só havia três, o dos meus pais, o meu e o antigo quarto de Amber que foi mantido mesmo quando ela se mudou.
Dan achou que fosse desrespeitoso se ele ou Marina passassem a noite por lá.
—É melhor assim. —Marina disse—É bom ter alguém para vigiar a entrada, nunca se sabe o que pode acontecer à noite.
[Dan: Ela não é incrível...?]
[Marina: Eu vou chutar você, perro]
[grunhido irritado]
[George: Podem não me interromper, por favor? Estou em uma parte importante]
[Dan: O quê? Vai falar sobre o gravador? Desde quando ele é mais importante que a Marina?]
[grito agudo]
[Marina: Pode continuar, G]
Enquanto Marina preparava algo para comermos com os suprimentos que ela pegou no carro e o pouco que havia ali na casa, Dan se sentou ao meu lado no sofá, eu encarava meus dvds fixamente, mas minha mente não estava fixa neles, não exatamente.
“A madrugada dos mortos”, “A volta dos mortos vivos”, “World War Z”, “Terra dos Mortos”...
—Você realmente é um geek de primeira mão. —Dan falou
Fiquei em silêncio.
—Eu gostava dessas coisas também, não filmes, mas eu amava um bom vídeo game de zumbi. —riu amargamente
“Resident Evil”, “Left 4 Dead”, “Dying Light”, “Dead Rising”, “The Walking Dead”...
—Eu também desejei isso, G.—ele disse—Mas não é por isso que essa coisa aconteceu, não é nossa culpa.
Eu sabia, mas ainda sim...
Dan suspirou e tirou algo do bolso da calça.
—Eu achei isso na calçada quando Marina e eu fomos pegar as coisas no carro, eu acho que pertence a você. —ele colocou em minha mão
Era um antigo gravador que meu pai me dera de presente no meu aniversário de quatorze anos. Ele disse: “Eu sei que não é o vídeo game caro que você tanto queria, mas para mim isso tem muito mais valor, cuide disso, enquanto você o tiver consigo eu estarei lá também”.
Apertei o botão para ouvir as gravações, eu nunca havia o usado, mas alguém o usara e eu esperava que fosse ele. Eu só queria ouvir sua voz...
[Marcus Peterson: ...George, eu estou morrendo...]
Comecei a chorar.
[Marcus Peterson: ...Quando você ouvir isso...se ouvir...eu não estarei mais aqui. Você e sua irmã partiram há dois dias para San Diego e eu espero que as coisas estejam melhores ai do que estão por aqui... Há coisas nas ruas, como aquelas que você via na tevê... há vândalos e assassinos também...]
[Tosse]
[Marcus Peterson: ...Sua mãe está assustada e eu só estou piorando...]
[Tosse]
[Marcus Peterson: ...O mundo não é como antes... você estava certo quando se preparou para aquelas coisas e eu... eu estava tão errado quando te disse que não servia para nada Eu só espero que me perdoe, meu filho, por te obrigar a fazer algo que não queria... eu só queria que você passasse mais tempo comigo, que fosse mais parecido comigo...o que eu não notei é que você já era... não, você era melhor do que eu, e tudo o que você precisava ser era você...]
Meu corpo todo tremia, as lágrimas escorriam pelo meu rosto de forma incessante.
[Marcus Peterson: Eu te amo muito, meu filho, queria que estivesse ao meu lado quando eu partir...cuide da sua irmã, do seu jeito e... não desista.]
—Eu... eu sinto muito. —Dan sussurrou, ele estava triste também, talvez até se culpasse por ter me feito chorar
[Dan: Não era por fazer você chorar que eu me sentia mal]
Amber estava encostada no batente da porta da cozinha, olhando para onde estávamos e chorando, ela caminhou até nós e se sentou entre mim e o menino. Nós nos abraçamos.
—Eu vou cuidar de você, como ele pediu, vou cuidar de todos vocês. —falei—Eu prometo.
O gravador fez um barulho estranho atraindo a atenção de nós três.
[Adam McQuinzel: É melhor você cuidar dela, G, porque quando eu achar vocês, e eu vou achar, eu quero a minha Amber inteira!]
Sorri de canto secando o rosto.
—Pode deixar.
–
–
–
–
–
–
Adam:
Eu sou Adam, Adam McQuinzel de San Francisco.
Eu não acho que à esse ponto ainda exista uma alma viva que vá gastar seu tempo ouvindo um idiota no rádio. Mas eu acho que se eu não falar nada, se eu continuar guardando isso tudo para mim eu vou enlouquecer...
[risos]
Que ironia... para não ficar louco o idiota resolve falar sozinho...
[mais risos]
Bem, agora que eu disse quem eu sou é hora de eu dizer o que eu sou.
Eu não sou uma boa pessoa, eu sou um monstro. Eu sou a Besta.
E se tem alguém ai me ouvindo, se prepare, minha história não é agradável.
[risos]
Mas nesse mundo... você já deve ter se acostumado com coisas assim.”
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