Rota Zero
86 O Último Dia de Castelia - parte 1
Notas iniciais
December
Ainda era muito cedo, o sol não tinha nascido e o céu tinha um tom azulado de final de noite, Castelia já era nitidamente visível a distância e aquilo me dava um efeito nostálgico. A última vez em que eu estivera na cidade, eu trabalhava na galeria de arte do Burgh e Haila estava ocupada vendo Castelicones para conseguir algum dinheiro. Tudo parecia muito mais simples, nós éramos ingênuos e despreparados.
Eu estava exausto e sonolento, e tudo o que eu queria era ficar mais cinco minutos na cama, mas eu não teria mais direito a esse tipo de luxo tão cedo. Tinha sido uma noite longa, tão longa quanto a que eu passara em Anville, ou até mais longa do que isso.
Arthur tinha guiado o barco na direção da capital de Unova e enquanto as ondas leves quebravam contra o casco da embarcação, Lila usava sua dupla de Psyduck para usar o Aqua Ring em todos os Pokémon que tínhamos usados nas batalhas na Floresta. Skyla e Cilan tinham alguns medicamentos, mas não era o suficiente para todos os Pokémon e Lila tivera a ideia de recuperá-los com as habilidades de seus Pokémon, mas eles pareciam mais exaustos do que eu. Não eram necessárias as habilidades de Corin para ver como os Pokémon estavam se esforçando além de sua capacidade e que aquilo deixaria Lila fora da batalha de Castelia.
Na sala ao lado Skyla, Cillan, Tom, Kara, Haila e eu passamos a madrugada fazendo planos do que deveríamos fazer ao chegar em Castelia. Tínhamos quase nenhuma informação e muitas suposições, não sabíamos quantas antenas eram, onde Cobalion estaria, se Terrakion estaria ali. Haila e Kara emendavam uma discussão atrás da outra, por motivos completamente pífios, até que Tom se irritou e mandou a irmã sair da sala, coisa que pareceu deixar Kara mais feliz do que irritada. Skyla tinha um plano audacioso de como recuperarmos os lendários, mas eu estava receoso.
Todas as informações que tínhamos provinham de Rose, e por mais que fossemos naturais da mesma cidade e tivéssemos certa afinidade, eu não tinha total certeza se deveria confiar nela. Talvez aquilo tudo não passasse de uma armadilha para nos dominar e ela subir vários rankings dentro da organização. A verdade é que eu não esperava que Rose fosse esse tipo de pessoa, mas depois de Roxie, minha capacidade para julgamento moral não era a mais confiável.
Dei um muxoxo e pedi licença para buscar um copo de água, era só uma desculpa para sair da sala. Eu não estava ajudando em nada e cada vez mais sentia que estávamos indo para uma armadilha. Passei diante da porta do porão, onde Fome estava amarrada a uma cadeira. A mulher tinha dito todo o tipo de impropério com o objetivo de nos desmotivar, até que Cillan se irritou e a amordaçou. Mais cedo ou mais tarde, algum Team Plasma daria falta dela e talvez interceptasse a embarcação, mas eu não queria pensar nisso naquele momento.
Cheguei ao convés principal e a brisa de fim de noite trazia a salinidade no ar, parecia só mais um dia comum, e não que estávamos prestes a enfrentar a Team Plasma, embora, aquilo também estava se tornando terrivelmente comum. Eu tentava não pensar muito nisso, mesmo que fosse um encontro eminente.
E pela primeira vez em dias, eu estava com medo. Não de morrer, mas de falhar, de ver a Team Plasma dominar tudo e mudar as coisas como eu as conhecia. Eu ainda concordava com a ideologia que eles pregavam, mas eu sabia que se eles vencessem, as coisas não seriam daquela maneira, não preto no branco, mas muito acinzentado, como Roxie dissera.
E naquele momento, eu queria estar em casa, no conforto da minha cama e da minha família, dizendo que aquela guerra não era a minha, mas mesmo se eu fugisse, aquela ainda era a minha guerra e um dia, mais cedo ou mais tarde, não haveria mais o conforto da minha cama e a minha família me esperando em casa.
Encarei o Xtransceiver trincado e liguei, tocou uma, duas, várias vezes até que finalmente o rosto sonolento do meu pai apareceu no visor, geralmente era minha mãe quem atendia ao telefone, mas pelo horário, ela deveria ter mandado ele se levantar.
— Deedee?
— Fala aí, velho – sorri, um sorriso cansado que foi o melhor que consegui.
— Tudo bem? – Perguntou desconfiado, meu pai sabia que eu não ligava só para bater papo.
— Sim, e você? – Ele não pareceu muito convencido. Eu percebia ele analisar meu rosto surrado e cheio de hematomas e cicatrizes.
— Bem, também. – Silêncio.
Eu amava meu pai, mas nossas conversas não eram muito longas, geralmente era minha mãe quem falava pelos cotovelos suprindo nosso silêncio.
— E como vai o trabalho? – Perguntei a primeira coisa que consegui pensar.
— Bem – meu pai abriu um sorriso amigável – o Pyer andou fazendo coisas erradas de novo, e nosso chefe está louco porque provavelmente a empresa vai descontar do nosso abono anual. – Eu não fazia ideia do que meu pai estava falando, mas o tom leve que ele usava me fazia crer que as coisas em Aspertia continuavam como deveriam ser, felizes e sossegadas. – E onde você está? – Ele perguntou de repente.
— Indo para Castelia – respondi sem pensar.
— O que você vai fazer em Castelia, a cidade está sitiada – isso era novo. Rose comentara que havia exércitos da Team Plasma, mas estado de sítio era completamente diferente.
— Como assim?
— Foi decretado essa tarde, pelo próprio presidente – meu pai informou.
— Mas, o exército está sitiando a cidade? – Perguntei em dúvida.
— A Team Plasma – meu pai coçou o bigode – parece que o presidente e eles entraram em um acordo provisório.
— Que tipo de acordo?
— Eu não sei os detalhes, o jornal não tem noticiado muita coisa a respeito.
— O que mais sabe sobre isso?
— Toques de recolher, revistas em qualquer cidadão que acharem necessário, ninguém entra ou sai da cidade sem autorização – meu pai explanou. – Deedee, o que você está planejando?
— Nada – respondi evasivo.
— É por causa do Cheren? – A voz do meu pai saiu mais alta e autoritária. – Sei que ele te enfiou nessa guerra maluca, mas você sabe que pode voltar para casa, não precisa participar disso.
— Pai, o Cheren não me enfiou em nada, e essa guerra é de todos nós – expliquei. Era um pensamento muito simplista, o do meu velho, achar que estava fazendo tudo aquilo porque o líder dissera.
— Você fala igualzinho sua mãe – ele cofiou o bigode. – Inclusive para defender esse rapaz.
— Pai... – e era impressão minha, ou meu pai não dividia o amor fraternal que minha mãe nutria pelo líder de ginásio?
— Bem, mas é graças a ele que sua mãe tem notícias suas, já que você simplesmente desaparece – e admitia que não ligava tanto para casa, mas tanta coisa tinha acontecido, que eu mal tivera tempo ou cabeça para avisar sobre minha condição.
— E a mãe como está? Ela está dormindo?
— Como se estivesse – ele deu um suspiro exagerado. – Ela está convencida que mais cedo ou mais tarde a Team Plasma vai tomar Aspertia e motivou um pequeno exército na cidade. Deve estar patrulhando agora mesmo.
— Sério? – Perguntei incrédulo.
— Ela fez isso das outras vezes que a Team Plasma esteve em ação, mas acho que você era muito novo para se lembrar – e eu me lembrava vagamente da minha mãe estar pouco em casa nessas épocas, mas sempre julgara que era algo relacionado ao trabalho.
— E ela conseguiu angariar muita gente? – O povo de Aspertia não era exatamente o mais preparado para ir para guerra.
— Não no começo, mas agora, é um número considerável, até aquele garoto, o Hugh, se juntou as fileiras – Hugh tinha a mesma idade de Rose e até onde me lembrava, ele era um treinador bom, mas que não tinha embalado na carreira por qualquer motivo que eu desconhecia. – Eu disse que ela deveria deixar a polícia tomar conta disso, mas ela diz que um Charleston nunca desistiria de lutar.
— E você não concorda?
— Você sabe, meu filho, que eu não nasci para isso. Os Hanks não têm esse fogo pelo desafio e aventura, você puxou isso um pouco de mim – e no passado eu concordaria plenamente, mas agora não poderia discordar mais. Não adiantava chorar, me lamentar ou desejar que as coisas fossem de outro jeito, porque elas simplesmente não seriam se eu não fizesse nada para mudá-las. Eu não conseguiria me acomodar e deixar as coisas acontecerem, como meu pai fazia, eu precisava lutar pelo que achava correto, não era pelo desafio ou pela aventura, era simplesmente ter a liberdade de escolher o rumo da minha vida.
— Eu sei, mas agora, eu preciso ser um Charleston – e aquela era a primeira vez que eu sentia orgulho de ser um Charleston.
— Eu sabia que você diria isso, você é igualzinho a sua mãe – o velho sorriu. E eu sempre discordava quando meu pai dizia isso, mas agora, depois de tudo o que tinha vivido e de saber das batalhas que minha mãe travava na surdina, realmente, éramos muito parecidos.
— Mande beijos para ela por mim.
— Eu vou mandar, e Deedee, volte seguro para casa – meu pai falou finalizando nossa conversa.
— Eu vou – mesmo que não tivesse certeza que pudesse cumprir essa promessa. Desliguei o Xtransceiver com uma sensação diferente de minutos atrás, ainda tinha medo do fracasso, de ver a Team Plasma dominar tudo, mas algo me dizia que mesmo se eu fracassasse, haveria alguém que continuaria a batalha de onde parei.
Voltei para a sala de reuniões, e Skyla parecia ter traçado o plano perfeito, eles pareciam apenas ajeitar os últimos detalhes.
— Não vai funcionar – informei assim que entendi o plano.
— Por que não? – Tom questionou.
— Castelia está sob estado de sítio – respondi e vi eles se entreolharem confusos.
— E como você sabe disso? – Skyla colocou as mãos na cintura.
— Eu estava no telefone com o meu pai... – expliquei.
— E por que isso seria um problema? – Haila perguntou encarando os líderes.
— Não vamos conseguir entrar na cidade – Cillan explicou.
— E são não estamos lá dentro, não importa o quão bom nosso plano seja – Skyla bufou.
— Deve ter algum jeito – Haila comentou pensativa.
— Eu imaginei que os portos estivessem sendo vigiados, mas estado de sítio... – Skyla deixou a frase vagar.
— Além disso, somos alvos fáceis, Skyla é uma líder de ginásio e vocês dois estão muito visados – Cillan apontou para Haila e eu.
— E como vamos fazer? – Tom bateu as mãos sobre a mesa.
— Talvez Rose tenha alguma ideia de como nos colocar para dentro – Haila deu de ombros.
— Ela disse que iria nos retornar para marcar um ponto de encontro, o que significa que ela esperava que já estivéssemos lá – Cillan constatou e Haila pareceu desanimar depois de ouvir tais palavras.
— Mas ela deveria ter falado sobre isso – Tom salientou.
— Ela é mesmo confiável? – Skyla questionou, os olhos pregados em mim. E eu não tinha uma resposta certeira para aquilo, porque eu não tinha certeza.
— Bem...
— Eu tenho uma ideia – Arthur apareceu no batente da porta. – Bianca disse que os portos estão fechados, mas que navios pesqueiros continuam trabalhando normalmente, acho que poderemos entrar dessa forma. Bianca? Fazia muito tempo que eu não ouvia esse nome, fora quando ela me entregou Bacon, eu só a tinha visto uma vez, pelo Xtransceiver, quando a Haila ligou para professora Juniper. – Eu acho que se passarmos como um barco pesqueiro local, não devemos ter problemas.
— Você tem contato com a Bianca? – Haila questionou, curiosa.
— Bem, Tris e eu encaminhamos nossos dados de pesquisas para a professora Juniper – Arthur respondeu.
– A professora está bem? – Tom perguntou, havia um tom aflito na voz.
— Eu não se te dizer, Tom – Arthur coçou o rosto, sem graça. – Tudo o que eu sei é que a Bianca foi sozinha para Castelia.
— Bianca está em Castelia? – Skyla perguntou e havia uma exagerada animação na voz.
— Aparentemente, Juniper a mandou para Castelia – Arthur deu de ombros.
— Se ela está na cidade, podemos contar com mais uma ajuda – Cillan disse com um sorriso.
— Arthur, consegue entrar em contato com ela novamente? – Skyla perguntou.
— Creio que sim.
— Ótimo.
— Mas mesmo que possamos atracar, como vamos desembarcar, se vocês são cartas marcadas? – Tom retomou ao nosso problema, desviando a conversa sobre Bianca.
— Eu tenho um plano – Skyla deu um sorriso enigmático – mas talvez, você não vá gostar muito dele, Haila.
— Por que não?
— Bom, eu vou depender da ajuda do Corin e da Dania...
=8=
Os primeiros raios de sol tinham despontado no céu, enquanto Arthur manobrava o barco no atracadouro. Skyla tinha conversado com Bianca através do rádio da embarcação, ela e alguns outros cidadãos contra o estado de sítio tinham se refugiado na cidade, junto com Burgh e Alder, e juntos, eles planejavam um ataque as forças da Team Plasma. Ela tinha passado instruções pedindo para que os encontrássemos em um local secreto, já que a cabeça do líder de ginásio estava a prêmio e o ginásio e galeria foram bloqueados.
Assim que nos aproximamos, meia dúzia de soldados da Team Plasma que faziam a vigia do porto se aproximou do píer três, onde iriamos atracar. Apesar da movimentação, não havia nenhum sinal de Rose ou qualquer ligação sua.
Kara estava com uma cara excelente, como se tivesse dormido a noite toda, enquanto o resto de nós parecia um exército de zumbis. Aida estava no porão, amarrada e amordaçada, mas isso não parecia ser o suficiente, caso a embarcação passasse por uma revista. Então, Cillan usou um de seus Pokémon para dar um Paralyze nela e Arthur a escondeu melhor entre as tralhas que tinha no fundo da embarcação.
Eu tinha ouvido plano da Skyla, mas não estava muito confiante que conseguiríamos desembarcar seis pessoas sem sermos vistos. Arthur atracou o barco e Lila o ajudou a amarrar as cordas nos cabeços. Eu não queria deixá-la para trás, porque se desse algum problema, certamente sobraria para Arthur e ela, consequentemente, mas com os Pokémon exaustos pelo uso do Aqua Ring, ela seria só um peso, como ela mesmo dissera.
Arthur mal terminou de atracar o barco e três Team Plasma se destacaram, exigindo para embarcar. O homem gritou que éramos apenas um barco pesqueiro, e que Lila era sua jovem assistente, mas o que pareceu ser líder exigiu uma revista na embarcação. Estávamos todos escondidos no passadiço e eu sentia a ansiedade correr pelas minhas veias. Todos estávamos com as mãos nas Pokéball, ansiosos. Corin estava agarrado a Haila e encarava Dania com um olhar que eu não compreendia, mas parecia transmitir a mesma cumplicidade que Haila e eu dividíamos.
Arthur tentou argumentar, mas o líder foi taxativo e apontou uma arma para o homem ao menor sinal de resistência. Sem outra opção, Arthur desceu o portaló, mas antes que os Team Plasma embarcassem, Skyla fez um sinal para Dania. A garota girou o corpo e jogou as Pokéball por cima do quebra-peito, o facho vermelho se formou acima do espelho d’água e os Pokémon sumiram no mar antes de se tornarem visíveis. Segundos depois, as ondas calmas do porto começaram a se agitar, e um enorme Gyarados avermelhado surgiu no final do ancoradouro, destruindo parte da passarela de madeira.
Do nada, o Pokémon submergiu, e um enorme rodamoinho surgiu na água, arrastando o resto da passarela consigo. Os Team Plasma correram para o final do ancoradouro, com as armas em punho, enquanto o restante deles parecia ocupado demais em reportar o acontecido.
— Agora – Skyla comandou, Tom e Kara pularam na água, pelo outro lado do convés, usando o barco como escudo. Eles caíram na água agitada e segundos depois, Butterfree, o Slowpoke da Lila surgiu, eles se agarraram desajeitadamente no Pokémon e nadaram, por baixo da passarela de madeira ao lado, que permanecia inteira. – Vocês dois – Skyla indicou e Haila me puxou pelo braço.
Mal tive tempo de processar o mar agitado, Haila me empurrou e caímos no mar, segundos depois o Dewott de Dania apareceu e nos agarramos a ele, seguindo o mesmo caminho que Tom e Kara tinham feito. Eu sentia a roupa encharcar, os braços escorregarem do Pokémon lustroso, mas eu me mantinha firme.
Skyla gritou um novo comando, que eu não entendi pela distância, mas sabia muito bem o que era. Pude ver Corin liberar seu Flareon e com uma rajada de fogo, cobrir o resto da passarela, atingindo os Plasma e destruindo as cordas que amarravam o barco. Arthur correu para o passadiço, assumindo controle do barco, enquanto Skyla e Cillan saltavam na água. Eles surgiram na superfície, agarrados a um Swanna que os arrastava pelo mesmo caminhou que tomávamos.
Alguns membros da Team Plasma se jogaram na água, fugindo do fogo, mas antes que pudessem se organizar, o Gyarados surgiu, mandando uma torrente de Dragon Breathe sobre eles. Quando o barco de Arthur já tinha se afastado o suficiente do porto, Dania se apoiou no parapeito e chamou os Pokémon de volta, Dewott sumiu sob nossos braços, mas já estávamos perto o suficiente do píer 1 e Tom nos ajudou a sair da água.
Mal tivemos tempo de nos organizar ou respirar, Skyla chegou ao píer e nos arrastou para um prédio abandonado próximo ao porto. O local estava cheio de trapos, como se mendigos se abrigassem ali, havia um forte cheiro de urina e muitas pichações nas paredes mofadas, mas para nossa sorte, não havia ninguém ali. Estávamos molhados e cansados, Kara estava torcendo o cabelo, tirando o excesso de água e reclamando da roupa encharcada.
— Entramos, primeiro problema resolvido – Skyla disse com um sorriso vitorioso, mas nenhum de nós parecia tão animado. O plano era desviar a atenção da Team Plasma e entrar pelo porto, através do píer 1. Tínhamos feito isso, mas não tinha sido tão discreto como Skyla planejara, Gyarados deveria ser só uma distração e não destruir metade do porto no processo. Talvez Dania não tivesse total controle sobre ele, assim com Haila e Serpio, mas não era algo que deveríamos nos preocupar agora.
A segunda parte do plano era nos encontramos com Rose, pegar os dispositivos e então irmos até Burgh, mas a garota simplesmente tinha sumido. Cillan tinha tentado ligar para ela antes de aportarmos, mas o Xtransceiver sequer deu sinal.
— E o que vamos fazer agora? – Tom questionou. Não poderíamos ficar ali por muito tempo, o fogo e destruição do porto chamaria atenção de outros membros da Team Plasma e em breve, teria muitas pessoas por ali.
— Precisaríamos encontrar com a tal Rose não? – Kara resmungou.
— Ela ainda não nos contatou – Cillan explicou.
— E então?
— Rose disse que as antenas serão ativadas só as nove horas, então temos tempo de encontrar com Burgh – Tom comentou.
— O plano era nos encontramos com a Rose primeiro, antes de ficarmos zanzando por Castelia – Skyla cruzou os braços diante do corpo – vamos continuar dentro dos planos.
— Mas se Rose não ligou, o que vamos fazer? – Tom inquiriu.
— Podemos nos dividir – Kara se manifestou – uma parte vai atrás do Burgh e a outra espera a tal garota fazer contato.
— Nada disso – Skyla foi taxativa – ninguém vai se separar.
— Então? – Cillan se voltou para Skyla.
— Vocês sabem que estamos praticamente sozinhos aqui – Skyla deu um muxoxo. – Elesa vai permanecer em Nimbasa, é nosso último refúgio se Castelia cair. Tudo que sabemos veio de informação da Rose e sinto dizer que não é a fonte de informação mais confiável – e percebi o olhar que ela me lançava.
— Eu sei que o plano era pegar os colares e coletar mais informações antes de irmos até as antenas – Cillan começou – mas acho que angariar as forças do Burgh nos dará uma vantagem. Seis pessoas não vão conseguir fazer muito, sejamos realistas.
Skyla fechou o semblante pensativa. Cillan tinha razão, dois líderes de ginásio, um ranger e três civis não dariam conta de libertar uma cidade em estado de sítio. Só então percebi que fora o tumulto que tínhamos feito no porto, o resto da cidade parecia funcionar normalmente. Da janela do prédio, podíamos ver as pessoas indo ao trabalho, crianças indo para a escola, a vida seguia normalmente, como se não houvesse tropas da Team Plasma nas ruas.
Meu pai dissera que o presidente tinha feito um acordo temporário com a Team Plasma, e eu não conseguia imaginar que tipo de acordo seria para que o exército inimigo tomasse as ruas.
— Certo, vamos atrás do Burgh – Skyla se deu por vencida. – Fiquem todos juntos e ajam normalmente.
— Normalmente, com as roupas ensopadas? – Kara provocou.
— Cala a boca, Girafarig – Haila rebateu e a menina só fez uma careta.
Saímos discretamente por uma saída lateral e demos diretamente em uma rua movimentada. Não havia Team Plasma ali, mas um número elevado de pessoas que iam apressadas para os seus trabalhos. Agora, vendo de perto, não parecia tão normal quanto eu julgava. Quase todos os cidadãos andavam encarando o chão e ninguém conversava, não havia som de vozes ou risadas, apenas o som dos passos contra a calçada de concreto. Até mesmo as crianças caminhavam em silêncio agarradas as suas mochilas. Não havia também nenhum Pokémon na rua, era comum os cidadãos andarem acompanhados de seus parceiros, mas ao menos naquele quarteirão, não consegui avistar nenhum.
Eu caminhava ao lado da Haila, logo atrás de Skyla e Cillan. Eu achei que Haila se oporia a ideia de deixar Corin para trás na invasão, mas quando Skyla explanou seu plano, Haila apenas concordou. Por mais que eu soubesse que ela não quisesse se separar do irmão, também sabia que ela não desejava arrastá-lo para uma guerra eminente, não com a chance de toparmos com Jaden em cada esquina.
Andamos cerca de quatro quarteirões até dobramos uma esquina e pude avistar ao longe o Central Plaza, o parque da cidade, em formato circular. Ali havia um número considerável de membros da Team Plasma, circulando de um lado para o outro, mas antes de chegarmos as imediações, Skyla virou em uma pequena alameda e continuou nosso caminho. Quando atingimos o próximo cruzamento, Skyla discretamente apontou para o alto e ali, em um prédio próximo, havia uma enorme antena que eu tinha certeza que não existia ali da última vez em que eu estivera na cidade. Aquela deveria ser uma das antenas que Rose citara.
Saímos daquela alameda e entramos em uma viela, ali havia alguns prédios baixos com vários letreiros luminosos que estavam apagados àquela hora. Os letreiros eram grandes, com desenhos de copos de bebidas e mulheres seminuas.
Chegamos em frente a um local chamado de Café Sonata, era uma fachada vermelha e chamativa, no luminoso havia uma mulher com os peitos de fora que tocava uma harpa. Aquilo parecia um clube para gente adulta.
— O que estamos fazendo aqui? – Kara encarou a fachada com desgosto.
— Cala a boca, Kara – Skyla acenou. Cillan bateu a porta de um jeito engraçado, como se fosse uma espécie de código. – Tem certeza que fez isso certo? – Skyla questionou.
— Foi o que Bianca mandou fazer – o ex-líder deu de ombros.
Demorou alguns minutos, mas ouvimos um barulho vindo de dentro, até que porta se abriu em uma fresta e uma garota de cabelo loiro apareceu no vão. Ela espiou por um momento, antes de abrir a porta totalmente.
— Skyla – Bianca disse sorridente – E Cillan, como vocês estão? – Ela parecia cansada e mais magra do que eu me lembrava, e o cabelo tinha crescido consideravelmente. Ela lançou um olhar para nós e com um aceno de cabeça cumprimentou Tom. Eu não tinha certeza se ela não se lembrava de Haila ou de mim, mas ela não pareceu prestar muita atenção a nossa presença.
— Meio molhados – Cillan deu um sorriso fraco. – Podemos entrar? – O rapaz acelerou antes que algum Team Plasma nos visse acumulados em frente a porta do local.
Bianca deu um passo para o lado e nós entramos rapidamente. E bem, era mesmo um clube para adultos. Havia postes de polidance e gaiolas, a decoração era toda em vermelho com espelhos no teto e um longo balcão cheio de bebidas.
— Belo lugar para se esconderem – Skyla observou em volta.
— Bem, foi o local mais discreto que encontramos – Bianca disse um tanto sem graça.
— Sua escolha? – A líder provocou.
— Não, não. Burgh já tinha esse local na manga quando eu cheguei a Castelia.
— É a cara do Burgh – Cillan analisou e o local era tão extravagante quanto o líder.
Caminhamos pelo lugar até chegar ao palco principal, Bianca subiu e sumiu por trás de uma cortina purpura, a qual seguimos. Atrás da cortina havia um pequeno hall e uma longa escadaria até um local usado como depósito. Ali havia longas prateleiras com garrafas de bebidas e barris, no fundo, havia uma grande mesa circular.
Burgh estava acomodado nela, acompanhado de Louis e Clarice, Alder e Cheren. No resto do ambiente havia um grupo reduzido de pessoas que eu desconhecia.
— Eu esperava um contingente maior – Alder proferiu antes mesmo que Burgh nos cumprimentasse.
— Qualquer ajuda é bem-vinda – Cheren rebateu, mas o ex-champion pareceu indiferente.
— Chegaram aqui sem problemas? – Burgh se levantou e veio ao nosso encontro.
— Só um probleminha no porto – Cillan respondeu.
— O incêndio que ouvimos pelo rádio? – Louis perguntou agitando um dispositivo da Team Plasma.
— Onde conseguiram um desses? – Skyla parecia um tanto interessada.
— Meus aprendizes abateram um membro menor da equipe de vigia, o rádio foi uma boa aquisição – Burgh explicou. – É o que tem nos mantido seguros e vivos até agora.
— Acabamos de chegar – Skyla retomou – talvez você possa nos deixar a par da situação.
Burgh deu um suspiro antes de retornar ao seu lugar na mesa e fazer sinal para Clarice e Louis arranjassem assentos para nós.
— Ontem, por volta das quatro horas da tarde, foi declarado estado de sítio na cidade – Burgh entrelaçou os dedos sobre o tampo da mesa. – Desde então, grupos que a Team Plasma considera como perigosos estão sendo caçados – e os olhos desviaram para as outras pessoas que ocupavam o ambiente. – Líderes, ex-líderes, ex-champions, rangers, cuidadores de Day-Care, todas as profissões que são diretamente ligadas a Pokémon estão na lista negra da Team Plasma.
“O ginásio foi fechado, e os cidadãos comuns podem portar suas Pokéball, mas os Pokémon não podem andar soltos na rua, exceto sob ordem expressa – deu um suspiro exagerado. – Não sabemos que tipo de negociações foram feitas, mas o presidente não parecia muito interessado a cooperar, alguns dias atrás. Então, ontem pela manhã, eles chegaram com uma maleta e todo o discurso mudou – Uma maleta só poderia ser uma coisa, a cabeça do Grimsley, desviei o olhar para Haila e ela tinha uma expressão grave no rosto. – Acabamos nos refugiando aqui, para podermos nos reagrupar e pensar em uma maneira de recuperar o controle da cidade.”
— Mas se o presidente é conivente com essa situação, vale a pena? – Kara cruzou os braços com uma expressão enfadonha.
— Tenho certeza que ele foi obrigado – Clarice choramingou. – Ele é um bom homem e muito justo nas suas decisões.
— Por mais que eu não morra de amores por ele – Burgh deixou claro – acredito que Clarice está certa, ele mudou de ideia muito rápido, algo deve ter acontecido. Algum tipo de chantagem ou...
— Não duvido que aquele inútil do Grimsley tenha sido o responsável, mesmo que ele e o pai não se deem muito bem, vocês sabem que ele pode ser bem persuasivo – Alder comentou com descaso. Ele parecia tratar aquilo como um problema pequeno.
— De certa forma, foi Grimsley – Skyla deu um muxoxo – os membros da Team Plasma o decapitaram dentro do trem para Nimbasa, vocês devem se lembrar dessa história – conforme Skyla falava podia ouvir um burburinho das outras pessoas ali. O acidente de trem mal foi noticiado pela imprensa, e os poucos jornais que se dispuseram a falar, maquiaram bem a situação. Ninguém citou Grimsley ou a Team Plasma, nem mesmo o número de mortos e feridos era preciso, aquilo era tido apenas como um descarrilamento acidental.
— A Team Plasma disse que não estava mais aberta a negociações – Haila finalizou, repetindo as palavras que o Team Plasma proferira antes de matar o elite.
— Aposto que ele está sendo obrigado a isso – Clarice argumentou. – Temos que salvá-lo.
— Bem, aparentemente, vamos ter que acrescentar isso a nossa lista de coisas a fazer – Burgh sorriu cansado. Eu estava tão acostumado ao Burgh ser uma pessoa que esbanjava purpurina por onde passava que chegava a ser estranho vê-lo sério e sombrio, sentado em um lugar que parecia esquecido no meio da guerra.
— Vocês têm algum plano? – Cillan perguntou.
— Sabemos que o presidente está na mansão presidencial – Burgh tamborilou os dedos na mesa. – Não é muito longe daqui. Além disso, soubemos pelo rádio que uma tropa da Team Plasma está sendo destacada para atravessar o deserto.
— Nimbasa? – Skyla perguntou visivelmente aflita.
— Provavelmente.
— Elesa sabe se cuidar – Cheren comentou ao ver a expressão no rosto da líder. – Ben foi até lá com alguns rangers – explicou.
— Mas...
— Skyla, nós sabíamos que isso poderia acontecer – o líder cortou. – Elesa me mandou para cá porque achou que eu seria mais útil aqui, ela sabe o que está fazendo – e poucas vezes vira Cheren usar um tom tão autoritário, ainda mais contra uma líder mais velha e experiente do que ele.
— Sabe alguma coisa sobre as antenas? – Cillan perguntou se voltando para Burgh.
— Eles redirecionaram todas as antenas menores para a estação de rádio da cidade. Além de terem reposicionado duas antenas maiores, mas não sabemos direito o que eles pretendem com elas. Mas ouvimos que algo será ativado agora pela manhã...
— Vocês ficam de conversa, deveríamos derrubar os membros em Central Plaza e depois irmos até a casa presidencial – Alder deu um soco na mesa. – No meu tempo, não ficávamos nos escondendo como Ratatas assustados.
— Isso é muito diferente da sua época – Cheren protestou.
— É diferente porque vocês demoraram em agir, quando eu era o Champion, não deixei a coisa toda atingir essas proporções – se gabou.
— Falou o cara que deixou sua cidade cair – saiu tão espontaneamente que até os olhos de Haila se arregalaram diante da minha frase.
— Está insinuando o quê, moleque? – Ele bateu as mãos na mesa com força que as pernas de madeira tremeram na base.
— Você não deveria estar em Flocessy protegendo a sua escola? Protegendo a Cassie? – Sentia minha voz sair falhada, mas eu não podia simplesmente me calar. Eu não sabia o que tinha acontecido a jovem treinadora. Eu tentei ligar para ela enquanto estávamos em Nimbasa, mas o Xtransceiver sempre dava fora de área.
— Escute aqui, você nem deveria estar aqui para começo de conversa – Alder se levantou, derrubando a cadeira no processo. – E não fale de coisas que você não sabe – ele espumava de ódio e parecia querer pular no meu pescoço. Mas ouvir o discurso dele me irritava, Iris tinha morrido, todos estávamos fracos e fragilizados e tudo o que ele sabia fazer era se gabar dos tempos áureos. Se ele fosse tão bom como dizia ser, não deveria ter deixado Flocessy cair, nem deveria ter deixado Castelia ter sido tomada. – Esses moleques – e agora ele abrangia Haila e Kara no pacote – eles deveriam estar em casa e não no campo de batalha, eles vão ser só um peso.
Haila fechou a cara e começou a argumentar, mas antes das palavras se formarem claramente, Cheren se levantou.
— Chega disso, qualquer um que queria lutar é uma ajuda que não podemos dispensar. Além disso, não me lembro de você recusar minha ajuda, ou a da Bianca ou do Hilbert quando a Team Plasma atacou no passado.
Alder encarou o líder com o mesmo ódio que dirigia a mim, mas deu um muxoxo e se afastou do grupo, largando a cadeira caída. Demorou um tempo até que os ânimos se acalmassem e Cilan prosseguisse com a conversa.
— Vocês sabem alguma coisa sobre os lendários?
— Nada – Burgh respondeu desesperançado. – Nem mesmo pelo rádio.
— E sobre os cabeças da Team Plasma?
— Alguma movimentação, nenhum sinal do Ghetsis, mas Draiden parece ter assumido a cabeça da Team Plasma, e Haila, Jaden está aqui – Cheren encarou Haila demoradamente e ela apenas sustentou o olhar.
— Roxie? – Perguntei e vi alguns olhares confusos se voltarem em minha direção, aparentemente, Cheren e Skyla não tinham compartilhado aquela informação com todos.
— Não – o líder respondeu lacônico.
— Vocês têm algum plano em mente? – Burgh se debruçou no tampo da mesa, ele parecia muito abatido.
— Precisamos tirar o trunfo da Team Plasma – Skyla disse convicta. – Os planos deles estão todos pautados nos lendários, então se conseguirmos libertar os lendários, certamente vamos desestabilizá-los.
— Mas nem sabemos onde os lendários estão – Bianca comentou. – E mesmo que soubermos, nossos Pokémon não vão dar conta.
— Vizirion vai – Haila falou, mas apesar da confiança que tentava transmitir na voz, ela não parecia assim tão confiante. Tínhamos Viziron, mas eles tinham Cobalion e Terrakion, eu entendia o receio dela. E eles tinham um exército, nós tínhamos um grupo de Pokémon cansados. Além disso, como ela ficara de posse do Pokémon, boa parte da responsabilidade tinha caído sobre suas costas e eu só poderia imaginar o peso que aquilo deveria ser.
— E como vamos convencer um lendário que nem sabemos... – Bianca começou, mas Cheren a interrompeu, havia um brilho nos olhos escuros.
— Vocês conseguiram?
— Sim, Haila está com ele – Skyla indicou, Cheren a encarou desconfiado, como se não fosse a melhor ideia ela estar de posse do lendário. – Ele a escolheu – Skyla completou diante do olhar do rapaz.
— Isso é uma excelente notícia – Burgh disse animado e um pouco do seu tom purpurinado estava presente novamente. – Mas precisamos saber onde os outros lendários estão.
— Na torre de rádio? – Tom disse de repente. – É o mais óbvio não, perto do que Rose nos disse.
— Rose? – Burgh curvou as sobrancelhas.
— Temos um contato dentro da Team Plasma – Cilan explicou – ela disse que eles pretendem usar o controle mental do Cobalion, reforçado pelas antenas de rádio.
— É isso que eles irão ativar? – Bianca perguntou receosa – O que eles pretendem controlando todos Pokémon?
— Não sabemos – Cilan respondeu sinceramente – estamos aguardando um novo contato da Rose – e eu podia ver o rosto da Clarice se contorcer cada vez que o nome da garota era proferido.
— Basicamente, precisamos desabilitar as antenas, resgatar o presidente e libertar os lendários – Burgh listou – parece fácil – zombou.
— Sim, muito – Skyla completou.
— Bem, precisamos nos preparar para isso... – Burgh fez um sinal para Louis que se retirou e voltou algum tempo depois com um grande mapa de Castelia que foi aberto sobre a mesa circular.
Burgh assinalou a mansão presidencial, a estação de rádio e a localização das antenas que sabia, assinalou um outro prédio que ficava perfeitamente entre a estação de rádio e a mansão presidencial, que segundo ele, poderia ser usado como QG da Team Plasma, além disso ela marcou algumas rotas que poderiam ser usadas, algumas subterrâneas, pela rede de esgoto desativada. O líder não sabia quais locais estavam sendo vigiados, mas sabia que as avenidas e o Central Plaza era onde havia o maior contingente.
Burgh, Skyla, Cillan, Bianca e Cheren discutiam a melhor estratégia, Alder permanecia em um canto, com uma carranca, como uma criança contrariada. Louis e Tom conversavam com as pessoas que se abrigavam ali, analisando quais delas tinham Pokémon em condições de lutar.
Clarice estava ao lado de Burgh, mas por vez ou outra, me lançava um olhar atravessado, eu estava ladeado pelas duas garotas que ela mais odiava em Unova, o que explicava toda a sua animosidade.
Eu estava ansioso com aquilo e com medo. Tínhamos um plano, mas ele não parecia ser o melhor dos planos e tínhamos um pequeno grupo de combatentes. Algo me dizia que tudo daria errado, mas eu não podia externar isso, não podia desmotivar o resto do grupo. Eu só rezava para que a coisa não terminasse mal como em Twist Mountain ou Anville.
De repente, o Xtransceiver de Aida começou a tocar e Skyla atendeu apressadamente, apenas para ver Rose do outro lado do visor.
— Onde você esteve? – A líder inquiriu furiosa.
— Eu tive problemas para me separar do esquadrão sem ser percebida – Rose choramingou do outro lado da linha.
— Conseguiu os dispositivos?
— Sim, eu não tenho muito tempo – a voz de Rose era ofegante, como se ela tivesse corrido uma maratona. – Eu preciso voltar para o meu posto.
— Certo, onde vamos nos encontrar?
— Depois daquela confusão no porto – Rose comentou alheia ao fato de que nós éramos os responsáveis – o patrulhamento nas ruas redobrou. O local que eu tinha planejado não é mais seguro.
— Apenas diga aonde, garota – Skyla tinha perdido a paciência e Rose se sentiu acuada. – Nós ficamos esperando o seu contato e você nos deixou na mão.
— Não é nada disso, é só... – e a voz de Rose saia mais fraca e instável.
— Você conheceu o Joslyn? – puxei o Xtransceiver da mão da Skyla, que me encarou irritada. Rose pareceu um pouco confusa, mas confirmou com a cabeça alguns segundos depois. – Nós encontremos lá.
— Mas não tem nada lá – a garota protestou.
— Exatamente por isso – e eu não sabia qual o estado do que sobrara do bar, mas um local destruído não deveria ser muito visado.
— Certo, seja rápido – Rose pediu antes de desligar.
— O que diabos foi isso? – Skyla esbravejou ao recuperar o dispositivo.
— Precisávamos de um ponto de encontro – expliquei.
— Quem é Joslyn?
— Longa história – Haila deu um muxoxo.
— Bem, vamos para o tal lugar – a líder disse descontente.
— Talvez só o Deedee devesse ir – Cilan comentou.
— Eu disse nada de separar o grupo – Skyla protestou.
— Eu sei, mas somos um grupo grande e vai ser difícil se esgueirar por aí com tantas pessoas.
— Mas...
— Essa garota confia no Deedee, ela vai ser mais aberta a falar as coisas que sabe com ele do que com você – Cilan pontuou. – Está tudo bem para você, Deedee?
Eu não sabia se estava ou não, não me agradava a ideia de zanzar por aí, em uma cidade que eu conhecia muito pouco, mas eu não podia dizer isso a eles.
— Sim, tudo bem.
— Eu vou com você – Haila propôs.
— Nada disso – Skyla vetou. – Você está com o lendário, não podemos te deixar sem proteção.
— Eu sei me defender sozinha – a loira protestou.
— Essa não é a questão, se você for capturada, vamos perder a única chance que temos.
— Tudo bem, eu posso ir sozinho – e aquilo não soou nada confiante.
— Eu vou com ele – Clarice se ofereceu. – Eu conheço a cidade melhor, e sei qual é o ponto de encontro.
— Não acha que se for só os dois é muito perigoso? E se for uma armadilha? – Tom perguntou pensativo.
— Melhor, assim o resto do grupo sai inteiro – Kara deu de ombros como se fosse a resposta mais lógica, e infelizmente era. Se fosse mesmo uma armadilha, ao menos Rose não teria Haila, o lendário e nenhum líder de ginásio. – Além disso, que membro da Team Plasma perderia seu tempo revistando um casalzinho tão sem graça nas ruas?
— O que você quer dizer com isso? – Clarice perguntou furiosa.
— Bem, é um ponto – Haila concordou com um sorrisinho e para ela ter concordado com algo proferido pela Kara, só poderia ser para irritar a Clarice.
— Melhor irmos – eu disse antes que as garotas se engalfinhassem. Clarice pegou sua bolsa e passou por cima do ombro, cruzando a alça sobre o peito.
— Certo, tomem cuidado, Clarice faça o caminho mais seguro e não tentem nenhum heroísmo – Burgh aconselhou. – E liguem se algo acontecer.
— Certo – respondemos em uníssono.
— Deedee – Cheren me chamou antes de partimos – Não faça nada idiota – disse antes de puxar o capuz do meu moletom e cobrir o cabelo cor de rosa. – Não chame a atenção mais do que naturalmente você já faz – havia aquele tom de voz quase maternal e senti como se fosse minha mãe me dizendo aquilo.
— Vocês são muito irresponsáveis de deixar isso nas mãos de duas crianças – Alder repreendeu do seu canto.
— Está desmerecendo minha aprendiz? – Burgh alfinetou e Alder só esbravejou.
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