Rota Zero
57 O Mito do Herói
Notas iniciais
December
O MITO DO HERÓI
— Aposto que a cena ficaria mais legal se ele surfasse em um dos seus Pokémon nessa onda gigante que o vilão criou – Marlon comentou, interrompendo o filme novamente.
Roxie, na poltrona no outro extremo da sala, revirou os olhos, mas de alguma forma conteve a vontade de voar no pescoço do líder de Humilau. O clima entre eles não era nada amistoso e eles já tinham discutido duas vezes desde a chegada da rockstar e isso só fazia uns quinze minutos.
Estávamos na casa da família da Lila, vendo um filme qualquer na televisão enquanto a mãe dela terminava o jantar. Apesar de termos nos oferecido para ajudá-la, ela simplesmente nos despachou para a sala. O pai da garota estava sentado em uma das poltronas, mais concentrado no jornal do que no filme. No sofá principal, Lila, Haila e Marlon dividiam o espaço. Roxie estava na outra poltrona e eu estava sentado no chão.
Estava passando um filme antigo e a trama já estava bem avançada quando Lila ligou o aparelho, mas era sobre um herói que precisava salvar sua amada de um terrível vilão que queria conquistar o mundo. Para isso, ele contava com um time de Pokémon bem simpático e poderoso. Era estranho que meses atrás acharia apenas uma ficção absurda, mas depois de Nimbasa aquilo parecia bem real e palpável.
— Oh, esse filme é muito bom – comentou a senhora Davis aparecendo na sala com uma bandeja cheia de aperitivos. – O Bryce era tão bonito quando jovem – e a mulher corou após esse comentário. O senhor Davis apenas deu uma espiada por cima da borda do jornal, mas não disse nada.
— Bryce? – O nome não me era totalmente estranho, mas não conseguia me lembrar exatamente de onde ouvira.
— Você vivia numa caverna? – Lila questionou risonha. – Bryce é ex-líder de ginásio e um grande ator de filmes de aventura. Ouvi dizer que ele está para lançar um novo filme este ano.
Ah, Bryce, o ator. Meu pai era fã dos seus filmes e eu tinha assistido alguns deles com o velhote. Mas eu nunca dera muita importância porque achava as histórias muito repetitivas e a fotografia antiquada. Eu não sabia que ele era líder de ginásio.
Meus olhos se desviaram para Haila, esperando algum comentário atravessado, mas ela não disse nada. Apesar dos olhos presos a tela, ela não parecia estar prestando a mínima atenção.
— Você está bem? – Perguntei.
— Sim – ela respondeu sem realmente dar atenção a pergunta.
— Você está muito quieta. Não era para estar pulando por ai e falando da sua incrível vitória? – Talvez não tivesse disso uma batalha tão bonita quanto contra Elesa, mas ela recebera a insígnia e aprendera muitas coisas sobre como se tornar uma especialista. Era um daqueles momentos onde ela estaria convencida e arrogante, esfregando a insígnia na cara de cada pessoa com quem cruzássemos do ginásio até o Centro Pokémon e depois até a casa de Lila, mas isso não aconteceu. Talvez ela realmente tivesse mudado.
— Não foi assim tão incrível e não foi uma vitória – disse se virando no sofá.
— Você se saiu muito bem – Lila falou animada enquanto pegava um dos aperitivos que a mãe trouxera. Marlon confirmou com a cabeça, concordando com as palavras da prima.
Apesar das palavras de Lila, eu sabia que Haila não pensava da mesma maneira. Tecnicamente ela havia sido derrotada. Serpio havia dado trabalho e Couve-Flor precisaria passar a noite no Centro Pokémon para ficar totalmente recuperado. Leaf precisaria de uma boa noite de descanso, mas mesmo que nada disso tivesse acontecido, ainda havia a Deerling para se preocupar. Seria uma recuperação seria lenta e progressiva e Haila não tinha como saber quanto tempo isso iria levar e se a Pokémon ficaria cem por cento.
— Será que um dia vou ter um homem assim? – Lila suspirou romanticamente enquanto o personagem do Bryce beijava a mocinha.
— O Bryce? – Perguntei sem entender.
— Claro que não. Um herói que vá ao meu resgate – disse exageradamente.
— E por que alguém te sequestraria? – Perguntei sem entender onde ela queria chegar com aquele diálogo. Lila fechou a cara, como se eu tivesse feito uma grande ofensa e Haila acabou exprimindo um sorrisinho de deboche.
— Eu te salvaria, prima – Marlon emendou pomposo e Roxie revirou os olhos novamente.
— Eu agradeço, Marlon. Mas nós somos parentes, não vale – Lila cruzou os braços e fez um beicinho.
— Eu não sei se na vida real existe alguém heroico desse jeito – comentei.
— Claro que sim, sempre haverá homens corajosos dispostos a salvarem donzelas e defender o bem na Terra. – Disse empoleirando no sofá. Abri a boca para responder, mas me lembrei de Roxie aparecendo heroicamente para me salvar em Nimbasa. Não tinha sido nada planejado, ela simplesmente estava passando, mas não deixava de ser algo admirável.
Encarei a mulher apenas para ver que ela ainda estava com a cara amarrada, enquanto comia um dos aperitivos preparados pela senhora Davis. Roxie não fazia o tipo heroína, que é simpática e diz palavras delicadas, mas não deixava de ser corajosa e destemida. Talvez Lila tivesse razão e houvesse pessoas heroicas no mundo real.
=8=
A casa de Lila era pequena e a sala de jantar parecia ainda menor com todas aquelas pessoas sentadas em volta da mesa. Mas era um local acolhedor e aconchegante perto do mar e o barulho das ondas quebrando na areia da praia era relaxante. A comida da mãe da Lila era deliciosa, tinha um sabor fresco e tropical que era muito diferente do que eu estava acostumado.
Lila falava pelos cotovelos a mesa, narrando sua apresentação no Contest e a batalha de Haila e Marlon aos pais. Haila sorria vez ou outa ao ouvir seu nome na conversa e tentava extrair algumas informações complementares de Marlon, de como se tornar especialista. Roxie estava excessivamente quieta, o que não combinava muito com ela. A líder não tinha contado nada do que ficara fazendo em Undella, mas geralmente, ela sempre chegava reclamando da Caitlin e sua falta de iniciativa. Mas desta vez, ela só lançava olhares atravessados a Marlon e parecia querer furar alguém com o garfo.
Os pais de Lila eram muito gentis e me lembravam da hospitalidade de Arthur e Tris, o casal que conhecemos no deserto. A dupla parecia já um tanto idosa para ter uma filha da idade da Lila, mas eles conversavam com a mesma desenvoltura que minha mãe e eu, até melhor, porque não havia as partes das discussões.
Quando o jantar acabou, a senhora Davis retirou a mesa com a ajuda de Lila. Eu podia ouvir o som da torneira aberta e de mãe e filha conversando animadamente. Entretanto, o clima na mesa não parecia nada feliz. Depois que a senhora Davis saiu do recinto, Roxie fechou ainda mais cenho.
— Até quando vai fingir que não é problema seu?
A pergunta era diretamente para Marlon. Pela primeira vez na noite ele desfez o sorriso bobo que adornava o rosto e encarou a rockstar. Eu não sabia se Haila e eu deveríamos permanecer ali e eu percebi que a menina me encarava duvidosa. O senhor Davis, sentado a ponta da mesa, ajeitou os óculos no rosto.
— Você está sendo paranoica – ele respondeu e novamente o sorriso voltou aos lábios.
— Paranoica? – Ela cuspiu as palavras. – O que precisa acontecer para você perceber que estamos em guerra? Cair um míssil na sua cabeça de vento?
— Olha, eu entendo a sua preocupação, mas o que aconteceu em Nimbasa foi um caso isolado. Até mesmo a polícia está investigando dessa forma... Ainda não dá para dizer que realmente a Team Plasma voltou ou algo do gênero. Você sabe o quanto de fanáticos e oportunistas usaram o nome do grupo, mesmo após eles terem sido desmantelados.
— Qual é o problema de vocês? A água do mar corroeu seus cérebros? Primeiro Caitlin...
— Até onde sei você vem de uma cidade litorânea também – o líder interrompeu. Eu me perguntava se Marlon não tinha noção do perigo. Dizia aquelas coisas com a maior naturalidade possível enquanto Roxie queria arrancar sua pele.
— Você é tão estúpido que não percebeu a movimentação estranha que está acontecendo na cidade – socou a mesa. – Caitlin também negligenciou isso e no fim, havia membros da Team Plasma rondando as rotas...
— Somos uma cidade turística, normal recebermos visitantes – Marlon deu de ombros. Achei que Roxie iria voar no pescoço dele, mas o senhor Davis a segurou pelos pulsos e a fez se acalmar.
— Que movimentação estranha você observou? – Perguntou o velho a líder.
— Eu percebi uma movimentação elevada quando cheguei, muitas pessoas circulando pela cidade. Eu sei que Humilau é uma cidade turística, mas estamos em baixa temporada. Além disso, não faz sentido visitar uma cidade litorânea com roupas tão grossas... Não estamos no alto verão, mas não está realmente frio.
— Entendo. Realmente vi algumas pessoas com casacos pela cidade – o senhor Davis coçou a barba rala e branca na borda do queixo. – Mas achei que eram só turistas, o povo que vem de Sinnoh não tem muita noção das estações do ano.
— Talvez não seja nada e eu esteja só paranoica – Roxie lançou um olhar atravessado a Marlon. – Mas uma trainer foi atacada na Rota 13, se há membros da Team Plasma por lá, nada impede de terem se espalhado pela região.
— Mas por que eles estariam aqui? Mesmo das outras vezes, nossa cidade sempre acabou ficando fora dos ataques...
— Provavelmente por causa da profecia... – O velho a encarou sem entender e percebi que Marlon lançou um olhar curioso a Roxie, por ela estar falando tais coisas tão abertamente. – Você sabe sobre isso, certo? – A líder se voltou para o garoto de Humilau.
— Sim, Grimsley me contou sobre o livro roubado e as suspeitas de Lenora – coçou a cabeça ligeiramente incomodado. – Mas você deveria falar tais coisas assim? – E percebi que ele encarava Haila e eu.
— Eles já sabem – disse com naturalidade.
— Achei que era um assunto restrito aos líderes e órgãos de segurança.
— De certa forma. Mas esses dois fizeram mais por Nimbasa do que você que ficou com essa sua bunda sentada numa prancha de surf – rosnou furiosa. – Além disso, Skyla e Cheren deram carta branca a eles e eles também tem meu aval.
O rapaz bronzeado nos encarou demoradamente, provavelmente tentando avaliar o que havíamos feito. Haila havia perdido para ele e eu nunca vencera Contest algum, então eu entendia como era difícil de acreditar nas palavras da Roxie.
— Bem, mas essas profecias são só lendas, certo? – Marlon voltou sua atenção a mulher.
— Lendas ou não, é tudo o que temos. E por isso estou aqui, Lenora disse que um dos lendários provavelmente está em uma região litorânea.
— O litoral em Unova é bem extenso, inclui Castelia e sua cidade natal.
— Burgh está cuidando de Castelia e meu pai está segurando as pontas em Virbank. Eu vim até aqui porque sabia que nem Caitlin nem você tomariam alguma providencia.
— Não fale dessa forma – ele disse com um sorriso – faz parecer que eu sou irresponsável. – Não sei se ele esperava que o tom casual amaciasse Roxie, mas parecia estar surtindo efeito contrário. – Além disso, como eu disse anteriormente são só suspeitas...
— Suspeitas? – Roxie perdeu a razão, se levantou, derrubando a cadeira no processo e enfiou um dedo acusador na cara do rapaz. – Enquanto você fica curtindo uma praia, ou Caitlin fazendo festivais ridículos, o resto de nós está trabalhando muito duro para impedir que algo ruim aconteça...
— Eu sei disso – ele se levantou também e de repente Roxie pareceu muito pequena. – Mas Grimsley disse que não precisava de tanto estardalhaço e pânico desnecessário. Nossa função como líderes de ginásio não é ficar caçando bandidos, caso tenha se esquecido, essa função pertence à polícia. Nossa função é manter a população calma e segura e do jeito que você está nervosa, você não está passando segurança a ninguém.
Roxie fechou a cara, mas podia ver que ela ainda espumava. Eu não sabia qual era exatamente a função de um líder em épocas como aquela, mas sabia que todos eles acabavam se envolvendo. Era tipo um sentimento heroico e patriótico que te fazia querer proteger a paz com unhas e dentes mesmo que houvesse alguém mais preparado para isso.
— Você fala como se nós nunca tivéssemos passado por isso antes – rugiu.
— Eu me lembro muito bem, mas tudo o que temos até agora foi um ataque e uma teoria maluca sobre o Sword of Justice...
— Não é uma teoria maluca!
— Roxie, seja razoável... – mas antes que ele pudesse terminar, ela tirou algo do bolso. Era um pedaço de papel enrolado que ela simplesmente jogou na cara dele.
Marlon desenrolou o papel e começou a ler o texto. Os olhos corriam cada linha e os lábios se moviam silenciosos.
— Lenora conseguiu interpretar uma parte do poema? – Haila questionou durante o silêncio que se seguiu, presumindo o que estava contido no papel que o surfista lia.
— Sim, mas essas coisas não são tão fáceis de entender e mesmo com todo o conhecimento dela, alguma parte pode ter sido interpretada erroneamente.
— Cheren disse que às vezes não é fácil encontrar o local por causa de mudanças no terreno... – a loira comentou puxando parte da conversa que ouvira entre Cheren e eu.
— Sim, ele está certo e por isso vim para Humilau.
— Você quer minha ajuda? – Marlon abaixou o papel depois de lê-lo pela quinta vez.
— Não necessariamente a sua – e se virou encarando o senhor Davis. – Lila me disse que o senhor é geografo.
Eu me lembrava da garota contando sobre isso, sobre tudo, aliás. Mas eu nunca dera muita atenção a essa informação. Mas pensando melhor, quando a enfermeira do Centro tinha dado a garota um mapa com as correntes marítimas e migração dos Slowbros, ela soubera ler muito bem.
— Bem, estou aposentado, mas acho que posso ajudar.
Quando Lila e a mãe voltaram, trazendo deliciosas sobremesas geladas, já havia uma infinidade de papeis e mapas sobre a mesa. O senhor Davis rabiscava em um grande mapa que trazia o litoral de Undella até englobar toda a costa de Humilau e algumas pequenas ilhas que ficavam no caminho. Ele fazia marcações das mudanças de maré, das cavernas que apareciam durante a maré baixa e das ilhas que submergiam na maré alta.
Roxie anotava coisas em um caderninho tentando acompanhar o ritmo do homem, mas era possível ver que ela não estava entendendo tão claramente. Haila tinha lido o poema que tinha sido esquecido sobre a mesa e eu tinha espiado por sobre o ombro dela. Eu não tinha entendido absolutamente nada do que lera. Eram só palavras rebuscadas que não faziam sentido para mim.
Marlon tinha tentado interagir, mas tudo o que ele dizia, Roxie refutava e no final, ele havia se jogado numa cadeira ao meu lado.
— Você e a Roxie não parecem se darem muito bem – disse meio receoso se deveria mesmo falar sobre isso.
— Ela é só um tanto energética – e sorriu despretensiosamente.
— Roxie não é uma boa opção – Lila falou de repente, se unindo a nós no canto da mesa. – Ela é muito independente, não deixaria você salvá-la – disse se voltando para o primo e percebi que assim como ela sonhava com um herói para salvá-la ou num impossível romance entre Bulba e Grangan, ela estava querendo jogar Roxie no colo do Marlon. – Ela é o tipo heroína, provavelmente, ela acabaria te salvado da Team Plasma...
— Se Roxie estiver certa, isso não vai acontecer – e o sorriso sumiu. – Se a Team Plasma tiver mesmo voltado isso será uma guerra, e guerra não é um espaço para heróis.
— Mas ela irá se esforçar para ajudar as pessoas boas, não? – Perguntei sem realmente entender o que ele queria dizer.
— Em uma guerra você não tem tempo de se preocupar com isso, você tem que fazer o que precisa fazer. Não é um lugar para heróis.
Então me lembrei novamente de Roxie em Nimbasa, ela havia me salvado sim, mas obviamente não estava lá para isso, seu único objetivo era rechaçar a Team Plasma. Será que ela teria sido tão amigável em me ajudar se eu tentasse defender Rose, mesmo ela estando do outro lado? Talvez realmente não houvesse espaço para heróis no mundo real.
=8=
Quando eu era criança tinha mania de herói, gostava de brincar com meus bonequinhos e salvar o mundo. Mas desde que me tornara adolescente achava isso uma tremenda bobagem. Ninguém se arriscaria para salvar outra pessoa só porque é isso te torna legal. Era verdade que eu tinha pulado na frente do Chiclete no Contest em Nimbasa, mas eu diria que foi muito mais burrice do que heroísmo.
Eu me perguntava se Haila sonhava com seu herói fantástico, assim como Lila, mas considerando o quanto a menina era independente, acho que Haila não ficaria esperando alguém vir ao seu resgate.
A noite tinha sido longa e estranha, apesar de estarmos hospedados no Centro Pokémon, a mãe de Lila insistiu que passássemos a noite em sua casa. Ainda mais que estava tarde e depois de toda aquela conversa, não era seguro que andássemos na rua àquela hora, mesmo com Roxie nos escoltando.
Roxie tinha virado a madrugada na companhia do senhor Davis, estudando mapas e o poema. Marlon tinha se recolhido em um dos quartos de hospedes, Lila ao seu quarto e Haila e eu ficamos na sala. Abóbora estava deitado em cima do meu cobertor e Haila tinha mantido seus parceiros nas Pokéball porque eles precisavam de muito descanso.
Eu podia ver a luz que vinha da sala de jantar e ouvir as vozes sussurradas da líder e do velho. Roxie estava muito preocupada que as pessoas estranhas ali estivessem fazendo o mesmo que ela, pesquisando sobre o Sword of Justice. E se houvesse mesmo um lendário na região, era provável que a Team Plasma iria tentar capturá-lo. De acordo com ela, havia dois Team Plasma nas imediações da Rota 13, já que eles haviam fugido, e pelo que ela constatara, tinha pelo menos mais quatro pessoas com os casacos estranhos em Humilau, e julgava haver mais, afinal, se em poucas horas na cidade ela já tinha visto quatro, deveria ter outros com quem ela ainda não cruzara.
Eu me perguntava como a rockstar faria diante daquele cenário. Ela não podia pedir reforços sem ter certeza de um ataque iminente, pois muitos lideres teriam que deixar seus postos. A polícia também não se mobilizaria por tão pouco, mesmo que estivessem cientes da situação. Afinal, mesmo com o retorno da Team Plasma, outros crimes ainda ocorriam e eles precisavam delegar sua força para várias situações.
Mas e se realmente houvesse um lendário ali e ela não tivesse reforço? Apenas Marlon e ela não dariam conta de proteger um lendário e dar cabo da Team Plasma. Os pais da Lila poderiam ajudar e outros cidadãos, mas não acho que Roxie gostaria de envolver tantos civis assim. No final, não haveria espaços para boas ações e heroísmos e talvez alguns poucos civis tivessem que pagar pela segurança de muitos. Era como Marlon havia dito. Não haveria espaço para heróis, mas na minha mente, Roxie ainda parecia uma pouco com uma heroína e eu acreditava que ela não envolveria civis em uma luta brutal, mesmo que fosse necessário.
Acordei várias vezes durante a noite, inclusive uma porque rolei por cima de Abóbora e ele me mordeu. Quando despertei novamente, o céu já estava assumindo um tom alaranjado, sinal de que o sol nasceria em breve. Não havia mais vozes vindas da sala de jantar ou luzes, mas o colchonete de Roxie, ao lado do meu, estava vazio. Me virei e vi que o Haila também estava.
Sentei no meu colchonete, me ajeitando para não acordar Abóbora e só então percebi que ambas estavam na varanda da sala, olhando o mar e o nascer do sol. Roxie ainda estava com as roupas do dia anterior, mas Haila estava de pijamas, enrolada com a manta que dormira nos ombros.
— Mas eu disse que podemos ajudar – ouvi a loira dizer, o som meio abafado pelo barulho do mar.
— Eu agradeço Haila, mas isso é muito perigoso e eu não quero envolver vocês.
— Mas você disse ao Marlon que nós somos úteis...
— E vocês foram, principalmente você, que teve coragem de salvar a Skyla em um momento tão difícil. Mas as coisas vão ficar ainda piores agora e você sabe que você não está pronta.
— Mas se for realmente a Team Plasma, você não pode lutar contra todos eles sozinha.
— Eu sei da sua vingança – Roxie começou depois de um longo silêncio – mas aqui não é hora e nem lugar para isso.
— Não é pela minha vingança – e notei que a voz da Haila ficou mais alta – se isso realmente é coisa da Team Plasma, não é só algo que tem a ver com os líderes, mas com todos nós. Todos nós precisaremos lutar.
— Eu entendo, mas não posso permitir que você confunda imprudência com coragem.
Eu só podia ver as silhuetas de ambas entrecortadas pela luz que surgia lentamente no horizonte, mas sabia que Haila estava com a cara amarrada.
— Me prometa que não fará na idiota enquanto estivermos em Humilau – e elas se encararam. – Se você tomar uma decisão errada, ele irá te seguir e eu prometi ao Cheren que cuidaria dele. – Ah, ele então era eu.
— Você não cuidou muito quando o deixou ir para Lentimas sozinho – Haila provocou. – Admita que você se preocupa com ele e pare de jogar isso como responsabilidade do Cheren.
A rockstar ficou em silêncio enquanto a brisa marítima sacudia os cabelos de ambas.
— Ok, eu me preocupo com ele e não tenho tempo para ficar de babá dele, de nenhum de vocês. Então prometa que você não fará nada. – A voz saiu mais grossa e incisiva, como uma ordem.
Haila não gostava de ordens e imaginei que acabaria saindo no tapa com Roxie. Mas depois de um muxoxo, respondeu provocativa.
— Certo, mãe.
=8=
Roxie não deveria ter dormido nada quando a mãe de Lila nos acordou para o café da manhã. Ela tinha olheiras enormes e o cabelo todo desgovernado. Quando as duas voltaram da varanda, eu me joguei no meio das cobertas e fingi dormir porque imaginei que ambas ficariam bravas de saber que eu ouvira a conversa.
Lila estava descansada e radiante, assim como Marlon, que já surgiu todo sorridente. O senhor Davis parecia cansado, mas tinha um amontado de livros cartográficos abertos do seu lado na mesa. Eu tinha dormido mal, por ter acordado várias vezes e a mordida do Abobora ainda doía um bocado. Haila parecia disposta, mas trocou um olhar curioso com Roxie que eu não soube dizer o que significava.
O café foi simples, mas muito saboroso. Depois da refeição, Lila nos arrastou para fora de casa, pois tinha planos de capturar o seu sonhado Slowbro e queria nossa ajuda. Haila a fez prometer que depois passaríamos no Centro Pokémon, ver como Couve-Flor estava.
Embora Roxie também estivesse hospedada no Centro, ela acabou ficando na casa dos Davis, pesquisando e estudando mais informações sobre a região. Marlon voltou para o ginásio, mas nos fez prometer que almoçaríamos todos juntos no seu restaurante preferido.
A parte norte de Humilau City era toda cheia de passadiços de madeira e casinhas construídas em palafitas. Conforme avançávamos sobre as estruturas de madeira as casas começavam a rarear e apenas a imensidão do oceano se abria a nossa frente. No extremo norte, havia um longo píer com vários barcos de todos os tamanhos amarrados. Havia uma movimentação ali, de alguns barcos chegando e outros partindo e Lila explicou que eram pequenos barcos de passeio, onde era possível acompanhar cardumes de Mantine que migravam para águas mais quentes naquela época do ano.
Lila contornou a movimentação no píer e se encaminhou para outro passadiço, onde muitas pessoas estavam sentadas a beira com suas varinhas jogadas no mar. Ela caminhou entre eles até achar um bom local, se acomodou e tirou uma vara de pesca desmontável de dentro da mochila.
Com uma paciência que pareceu demorar uma vida, montou a vara, arrumou a linha e colocou a isca, lançando o anzol no mar.
— O que você está fazendo? – Haila questionou se abaixando ao lado dela.
— Pegando meu Slowbro.
— Pescando?
— Como você esperava?
— Com uma batalha? – Questionou a loira como se isso fosse óbvio.
— Eu prefiro métodos mais tradicionais – respondeu risonha. Eu me perguntava se usar uma Pokéball não era um método mais tradicional do que pescar, mas eu não era tão entendido do assunto e achei melhor me calar.
Enquanto morria de tédio com a pescaria que não acontecia nada de Lila, me peguei prestando atenção as pessoas que circulavam por ali. Havia muitas crianças pescando e alguns velhos. Muitos turistas e trabalhadores iam e vinham nos barquinhos e havia algumas pessoas com o casaco suspeito que Roxie descrevera.
Chamei a atenção de Haila e mostrei a ela, desde então nossa atenção se voltou para a mulher no casaco cinzento. Apesar disso, a mulher não fez nada demais. Ficou no Xtransceiver, conversou com o locador dos barcos, comprou um doce de um ambulante, tirou algumas fotos e depois foi embora, rumando para a cidade, parecia uma simples turista e talvez fosse mesmo.
Haila queria segui-la, mas então pareceu se lembrar de algo (provavelmente a conversa que tivera com Roxie) e mudou de ideia. Ficamos no passadiço, esperando Lila pescar seu tão sonhado Slowbro. De acordo com ela, depois que eles pegaram as rotas marítimas que passavam por Undella, eles deveriam ficar alguns dias em Humilau, até mudarem a migração para uma rota mais quente.
E ela não estava errada, já que um garotinho que deveria ter a idade da Cassie, pescou um Slowpoke enorme há poucos metros de nós. Isso fez Lila se animar, mas já era quase meio-dia e a linha dela não tinha dado nenhuma puxadinha.
Como havíamos prometido almoçar com Marlon, ela recolheu suas coisas e voltamos para o centro da cidade. Ela tagarelava sobre seu azar e que nós voltaríamos lá no dia seguinte para uma nova tentativa.
Quando chegamos ao Centro Pokémon, Haila ficou um longo tempo no balcão esperando a enfermeira responsável. Couve-Flor estava bem e só precisaria de mais algum descanso, de forma que foi retornado a Haila. Ela também aproveitou para fazer um check-up em Deerling, e sua recuperação estava sendo bem mais lenta do que ela esperava.
A Pokémon ainda parecia um pouco assustada ao ver Haila, como se esperasse que Serpio fosse surgir do nada, mas no final, sempre permitia que a treinadora lhe fizesse um carinho.
Saímos do Centro já passava do meio-dia, Lila ia saltitando a nossa frente e dizendo que pretendia ligar para Clarice, pois Bulba estava com saudade da Grangran, Haila revirava os olhos e eu estava tão faminto que nem me importava mais com aquela ladainha. Ela estava tão distraída com seu discurso romântico que só percebeu que esbarrara em alguém quando foi ao chão.
— Você está bem, menininha? – uma voz grossa questionou enquanto um homem grande e corpulento estendia a mãozona para Lila se apoiar e levantar.
Ela espanou as roupas e com um sorriso tímido se desculpou. O homem então fez uma pequena reverência, levantando a boina e se despediu passando por nós.
Eu ainda podia ouvir a voz de Lila, desta vez meio choraminguenta enquanto Haila a repreendia por ficar pulando desordenadamente pela rua. Eu podia ouvir o som do mar batendo na areia e nas pedras e o som das outras pessoas que transitavam pela rua.
Eu podia ouvir o som de um Drilbur perfurando o chão e o silvo da chicotada da cauda de um Krookdile. Podia ouvir o som de fogo crepitando e comendo os papeis de parede, de vidros explodindo e tilintando pelo chão. Eu podia ouvir claramente a voz de Joslyn nos mandando correr.
— Deedee! – Senti Haila me balançar pelos ombros, com um olhar estranho como se não me reconhecesse. – Está tudo bem? Você está muito pálido e nós falamos com você e você nos ignorou totalmente.
Eu não tinha reconhecido de cara, mas ao levantar a boina e revelado parte do rosto destruído por uma cicatriz de queimadura, a voz e o jeito, eu sabia perfeitamente quem era.
Roxie não estava errada, os caras de casaco cinzento eram Team Plasma e o assassino do Joslyn estava ali.
=8=
— Eu não acho que isso seja uma boa ideia – Haila resmungou ombro a ombro comigo. Lila apertava o passo tentando nos acompanhar sem realmente entender o que estava acontecendo.
O homem de casaco cinzento e rosto queimado estava andando através dos passadiços de madeira, a caminho do píer no extremo norte. Eu o seguia a uma distância segura, tentando não perdê-lo de vista. Ele não andava rápido, mas eu me sentia muito nervoso e parecia que a qualquer momento, se eu tirasse os olhos dele, ele sumiria no ar.
— Eu preciso fazer isso – disse meio sem pensar. Normalmente eu não era tão imprudente de perseguir um vilão assim, mas era o assassino do Joslyn e eu precisava fazer algo.
— Vingança não é algo que combina com você – a loira começou, mas a interrompi.
— Isso não é vingança.
— Então o que é? Justiça? – E percebi seu tom mordaz.
— Não, eu só preciso saber a verdade.
— Verdade?
— Sim, se ele está vivo, talvez Joslyn também esteja. – A polícia nunca tinha encontrado o corpo de Joslyn, de nenhum dos dois. Se o membro da Team Plasma estava ali, mesmo que com cicatrizes, talvez Joslyn também tivesse se safado.
— Não acha que se o Joslyn estivesse vivo, nós já saberíamos?
— Talvez ele esteja se escondendo para a Team Plasma não tentar nada contra ele novamente.
— Se isso for verdade, obviamente o cara ai não vai ter conhecimento disso.
— Mas ele deve saber alguma coisa – senti minhas mãos se crisparem.
— De qualquer forma não acho que ele vá te contar de boa o que aconteceu.
— Eu sei disso – eu não tinha pensando claramente sobre aquilo. Era estúpido e idiota, eu tinha plena certeza disso, mas eu precisava saber o que tinha acontecido ao Joslyn. Se nenhum corpo tinha sido encontrado, ele deveria estar vivo, e eu me sentiria muito melhor sabendo disso.
— Deedee, sério – Haila me puxou pelo braço me fazendo parar. – Eu não acho que seja uma boa ideia. O que vai fazer? Seguir o cara e confrontá-lo tentando extrair a verdade? Nem você é tão estúpido.
Haila estava certa, eu não poderia simplesmente chegar ao sujeito e perguntar se Joslyn estava vivo ou não. Ela então puxou o braço e começou a fazer uma chamada no Xtransceiver. Enquanto o aparelho tocava podia ver o homem caminhar no longo píer e então conversar com o locador de barcos.
Lila não estava entendendo nada e eu não estava no clima para contar a ela toda história de Castelia.
— Roxie não está atendendo –constatou Haila depois da terceira tentativa. Depois de passar a madrugada toda acordada e voltar aos estudos assim que o sol raiou, depois de uma longa viagem, imaginava que finalmente o cansaço tivesse vencido e ela não estivesse ouvindo o aparelho tocar. – Lila, eu preciso que você nos faça um favor – disse se voltando para a menina. – Vá até a Roxie e o Marlon e avise que tem Team Plasmas aqui.
Os olhos escuros se arregalaram e ela inclinou a cabeça tentando espiar o homem que havíamos seguido.
— Esse sujeito é um Team Plasma? Tem certeza? – Ela não parecia muito crédula.
— Sim, nós já o encontramos antes – respondeu em um muxoxo – mas eu não tenho tempo para te explicar agora, apenas vá.
— Mas eu quero ficar aqui com vocês – disse com um de seus beicinhos característicos.
— Lila!
A garota não pareceu muito animada, mas acabou acatando. Ela conhecia a cidade muito melhor que nós, poderia achar um caminho mais curto até Marlon e Roxie. Saiu correndo desajeitada, gritando para não fazermos nada sem ela.
— Qual é seu plano? – Perguntei assim que Lila tinha se afastado suficiente, imaginava que Haila não tinha mandado a garota embora apenas porque a julgava um empecilho.
— Ficamos de olho no cara, e quando finalmente Roxie chegar e der um jeito nele, você poderá fazer todas as perguntas que desejar.
Encarei novamente o homem e vi que ele ainda conversava com o locador de barcos, rindo vez ou outra.
Haila sugeriu que nos aproximássemos e fingíssemos sermos turistas. Sentamos em um banco de madeira e ferro próximo a um passadiço cheio de pescadores. A movimentação ali era alta e podíamos ver claramente o píer do outro lado.
Minutos se passaram e nenhum movimento suspeito do homem da Team Plasma ou de Lila retornando com Roxie e Marlon. Minha barriga roncava ruidosamente e eu ponderava se deveria comprar alguma guloseima dos ambulantes que circulavam por ali. Mas seria uma péssima hora, já que estávamos seguindo o tal sujeito.
— O que vamos fazer se ele tentar fugir? – Perguntei tentando tirar a atenção do meu estômago.
— Lutamos! Chiclete e Bacon devem dar conta do recado, e eu tenho Leaf para ajudar – disse levando a mão ao bolso e envolvendo a Pokéball.
Eu não tinha muita certeza disso. Nossos Pokémon estavam mais evoluídos, mas a Team Plasma também deveria andar treinando nesse tempo. Além disso, nós só tínhamos três Pokémon para nos ajudar, Serpio não era alguém com quem poderíamos contar e Couve-Flor e a Deerling estavam fora de combate. Eu tinha Abóbora, mas não me arriscaria colocá-lo em batalha e não sabia se Absol me obedeceria.
— Achei que Roxie tinha te feito prometer que íamos ficar fora de problemas...
— Então você ouviu? – Mas ela não estava furiosa. Dei de ombros e ela repetiu o gesto como se não se importasse de eu saber tais coisas. – Qual é o lance com o Joslyn afinal? – perguntou depois de um silêncio curto. Encarei-a sem entender. – Eu entendo que foi uma situação ruim a que passamos, mas vocês não eram tão próximos assim.
Eu tinha conhecido o homem durante meus dias em Castelia, almoçando em seu restaurante na companha de Louis. E realmente não era ninguém que eu conhecesse bem ou fosse íntimo, mas isso não significava que eu não me preocupava com seu bem estar. Ele havia se sacrificado para permitir que saíssemos a salvo do estabelecimento enquanto o fogo comia as paredes e o Team Plasma não dava descanso. Se ele estava vivo, eu precisava agradecer e se tinha morrido, merecia ao menos um enterro digno.
— E se ele estiver vivo e se unido a Team Plasma? – Era uma possibilidade, mas eu não gostava de pensar nela. Joslyn não teria salvado nossa pele se fosse para se aliar ao cara que preferia matá-lo se não poderia persuadi-lo.
— Eu não acho que Joslyn...
— Joslyn! Eu não ouvia esse nome fazia um bom tempo – uma voz grossa e rouca me cortou.
Encarei sobressaltado o homem parado diante de nós. Meus olhos correram instintivamente para o píer apenas para se certificar que a presença diante de mim era mesmo o homem do rosto queimado.
Durante minha conversa com Haila nós havíamos nos distraído e o perdido de vista sem realmente perceber, e agora ele estava bem ali, exibindo a cara deformada e arreganhando os dentes. A garota puxou a Pokéball do bolso e tentou se levantar, mas um par de mãos com as unhas muito bem feitas a empurrou de volta.
— Eu não tentaria nada se fosse você, querida – a mulher que havíamos visto mais cedo estava atrás de nós. Quando Haila fez uma careta e menção a reclamar, ela puxou a ponta do casaco e exibiu uma pistola presa a cintura.
Mil coisas me passavam pela cabeça, mas eu não conseguia organizar os pensamentos. Se eles estavam ali a paisana, não fariam uma cena em um local com tantas pessoas. Mas, se eles estavam mesmo dispostos a tudo, não hesitariam em atirar em pessoas inocentes.
— Eu me lembro de você, rapaz – o homem voltou sua atenção a mim. – Você facilitou muito meu trabalho pondo fogo naquela espelunca. – E riu abertamente. — Vou te dar uma dica importante, mas que infelizmente acho que você nunca poderá por em prática: se for seguir alguém, seja discreto – e me puxou pelos cabelos, pegando um generoso tufo pintado de rosa.
— O que vamos fazer com eles, Thiers? – Questionou a mulher com a voz enjoada.
— Que tal um passeio? – E ele me puxou pelos cabelos com tanta força que fui obrigado a ficar em pé.
— Mas o mestre disse para não fazermos nada desnecessário. O resto de nós já está em posição, não temos tempo para...
— Calada! – Rosnou para a mulher que se calou imediatamente. – Eu me acerto com o chefe depois. Agora vamos.
E começou a caminhar pelo passadiço me arrastando com ele. Haila acabou nos acompanhando enquanto a mulher a puxava pelo braço. Não era exatamente uma cena discreta, mas parecíamos a qualquer um filhos desobedientes que provocaram a ira dos pais, então ninguém realmente pareceu se importar.
Chegamos até o píer e Thiers nos empurrou para dentro de um dos barcos. A mulher falou alguma coisa com o locador e então usou o Xtransceiver para falar com alguém. Depois disso, ela veio para o barco com uma expressão bastante irritadiça.
Thiers passou algumas instruções ao barqueiro, que rapidamente começou a soltar as amarras dos cabeços de amarração do píer e ligar o motor do barco. Enquanto isso, a mulher amarrou nossos pulsos bem apertados com fitas plásticas atrás das costas. Haila ficou se debatendo e mexendo os braços numa tentativa de se soltar, mas mulher apenas dava um risinho de deboche ao ver seu esforço.
Thiers foi até o fundo do barco quando finalmente este começou a se mover pela água e me encarou com um sorriso vitorioso.
— Aproveite garoto, você terá uma oportunidade que Joslyn não teve. Ver a ascensão da Team Plasma.
— Então ele está morto? – Haila questionou tentando usar o tom de voz mais agressivo que conseguiu. Senti um frio percorrer a espinha, receoso da resposta.
— Se ele tivesse se preocupado mais em salvar a própria pele do que em tirar vocês do restaurante, seriam vocês num caixão aquele dia – e o sorriso feioso se arreganhou. – Na vida real não há espaço para heróis.
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