Rota Zero
88 O Último Dia de Castelia - parte 3
Notas iniciais
Haila
Assim que Dee saiu pela porta as discussões começaram. Alder, que nunca estava satisfeito com nada, pareceu entrar em parafuso quando deixamos toda a estrutura de nosso plano nas mãos de um garoto de cabelo estranho. E mais rápido do que eu mesma poderia ter feito, Cheren gritou com o velhote.
E eu não sabia o que mais me irritava. O fato de Alder não conseguir ficar um minuto sequer com aquela boca enrugada fechada, ou Cheren ter um reflexo tão melhor que o meu e não me permitir defender o garoto.
A ansiedade estava começando a subir a níveis extraordinários. Eu não conseguia simplesmente ficar parada e era claro que o restante das pessoas ali não estava tão diferente. Eu estava alternando entre estar caminhando de um lado para o outro, batendo um pé ou mesmo tentando roer unhas que eu não tinha mais.
Adoraria poder dizer que estava tranquila. Que todas as situações até aquele momento me deixaram preparada para o que estar por vir, mas aquilo não era verdade. Quando criamos o plano de tentar salvar Castelia e deter a Team Plasma, ninguém teve coragem de dizer, mas todos sabiam. Não criamos um plano de fuga caso tudo desse errado.
Aquele era o nosso ultimo tiro. Um passo de fé. Não havia mais meio termo ou uma batalha para vencer no dia seguinte. As coisas mudariam para sempre se a Team Plasma obtivesse sucesso agora.
Eu não entendia toda a politicagem envolvida, mas sabia que o acordo feito pelo presidente significava que o exercito não se envolveria no que aconteceria ali. A Team Plasma tinha tirado do caminho o maior empecilho que eles poderiam ter.
Ginásios e Day Care fechados. Cidadãos proibidos de andar com seus Pokémon nas ruas. Eles estavam obrigando todos a se render e essa seria nossa realidade daqui pra frente. Pior sem duvida se eles tivessem controle total da ultimas cidades livres. E por mais que eu quisesse acreditar em Marlon e Elesa para defender suas cidades, eu sabia que a Team Plasma estava disposta a fazer.
O que acontecera na Elite Four era a prova de que assim que eles decidissem mover suas tropas e atacar, seria o fim.
— Esta tudo bem? – Cilan me chamou, me trazendo de volta dos meus pensamentos. Eu não tinha o visto se aproximando.
Skyla e Burgh tentavam traçar a melhor rota até a mansão presidencial. Alder continuava reclamando. E Cheren estava calado, nitidamente pronto para explodir novamente com o velhote.
— Não, na verdade estou pirando, – contei a verdade.
— Dee vai ficar bem. Eu tenho certeza.
Então o encarei. Ele podia não saber do que estava falando, mal conhecia Dee. Mas eu conhecia. Eu confiava no garoto, sabia que ele era engenhoso e sabia se cuidar. Seus Pokémon apesar de ainda não estarem totalmente curados, eram mais do que capazes do que cuidar de qualquer inimigo que surgisse.
Foi ai que percebi que não estava com medo de algo que Dee pudesse fazer, mas sim com medo do que Clarice fosse fazer. Eu não podia deixar que Clarice colocasse Deedee em perigo. Eu tinha que estar lá.
— Eu tenho também, – afirmei, dando as costas a ele, indo em direção a porta.
Virizion estava comigo. Era um fato que Skyla e nem os outros me deixariam sair com o Lendário na minha bolsa, por isso decidi simplesmente ir. Não disse uma palavra até que Cilan me segurou quando finalmente alcancei as escadas.
— O que você esta fazendo?
— Preciso mesmo dizer? – Perguntei.
— Você não pode fazer isso. É arriscado demais, – tentou me convencer, mas dei risada.
— Você acha que consegue me impedir de ir atrás de Dee?
Seus olhos pareceram dançar por um segundo. Consegui ver que ele realmente ponderava tentar. Por fim, suspirou e disse, – você não vai sozinha.
— Eu não preciso de uma baba.
— Você sabe o que Skyla faria comigo quando descobrisse que te deixei ir sozinha?
Sem duvida bateria nele com tanta força que a carne descolaria dos ossos. – Bem, parece que temos um acordo.
E aparentemente realmente tínhamos. Ele não disse mais nenhuma palavra sobre voltar, mas percebi seu olhar atento enquanto andávamos pelas ruas lotadas e silenciosas. As pessoas mantinham suas vozes baixas, quase inaudíveis em meio ao som dos carros.
Não precisava andar muito para encontrar com um soldado da Team Plasma com uma arma na mão, ou um Pokémon mal-encarado ao seu lado.
Faziam meses, mas parecia mais uma vida desde a ultima vez que eu estivera em Castelia. Ser entregadora de sorvete não tinha sido uma das minhas mais incríveis façanhas, mas de uma coisa eu não podia reclamar. Eu conhecia o centro da cidade muito bem.
Desde os prédios espelhados do centro internacional, aos de arquitetura mais antiga da bolsa de valores e executivos. Não importava pra onde eu olhasse só havia enormes prédios a minha volta, fazendo sombra sobre nós, deixando tudo ainda mais sombrio.
Mesmo com o céu aberto, o tempo naquela manhã estava frio. Minhas roupas estavam quase secas a essas alturas, mas um calafrio insistia em iniciar na minha nuca.
— Eu nunca imaginei que as coisas chegariam a esse ponto, – Cilan comentou, sem desviar o olhar do soldado usando uniforme preto, encostado no poste, alguns metros a nossa frente. – Quando a Team Plasma atacou no passado eles tiveram planos muito menos ambiciosos. É quase como se fosse outro grupo.
— Até onde sabemos quem comandou tudo no passado foi Ghetsis. Ele que manteve a Team Plasma viva, certo?
— Sim, mas ele sempre fez questão de estar fora das sombras. Sempre tínhamos noticias de suas aparições e rumores sobre seus planos, – ele parecia muito preocupado com o que dizia, – É claro que eles fizeram coisas horrorosas no passado, mas as atitudes da Team Plasma não batem com o que aconteceu antes. Eles foram muito além. O numero de mortos já é quase quatro vezes maior do que da ultima vez.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, assim como o resto das pessoas na rua, enquanto passávamos pelo soldado. Mantivemos a cabeça baixa e não parecemos chamar atenção.
— Você acha que ele pode ter perdido totalmente o controle da Team Plasma ou que ele parou de se importar de vez com as vidas em jogo?
Ele analisou um pouco antes de responder. – Não da pra ter certeza ainda.
Pra mim, os acontecimentos de três anos antes pareciam uma coisa muita distante. Eu tinha treze anos, e apesar de Hilbert ter nascido na minha cidade, ela nunca teve qualquer impacto no destino de Unova. Eu sabia apenas que coisas ruins estavam acontecendo e que tudo sempre tinha a ver com algum lendário.
No começo as pessoas acreditavam que não passava disso, lendas. Mas quando Reshiram e Zekrom surgiram em posse de Hilbert e N. E alguns anos depois Kyurem se tornou Pokémon de Nate, as pessoas começaram a se perguntar se tudo mais era verdade.
Havia Meloetta. Contos sobre Tornadus, Thundurus e Landorus. Espadas da Justiça e nas cidades mais ao norte Victini. Eu preferia não duvidar de sua existência a essas alturas, nem o impacto que cada um deles podia causar no mundo.
Mas pra Cilan que provavelmente conhecera Hilbert, as coisas eram muito diferentes. Mais reais. Talvez até com mais lados do que o preto no branco que conhecíamos. – Você esta com medo? – Tive que perguntar.
— Estou, – ele admitiu, – pensei que estaria com mais quando finalmente entrássemos em Castelia, mas percebi que tenho mais medo que você se machuque, do que eu mesmo.
A frase me pegou de surpresa, mas não tive tempo de responder. O medo de Skyla se tornou real. Como por um passo de mágica, Thiers, o soldado que sequestrou a mim e Dee em Undella e matara Joslyn meses atrás surgiu na nossa frente, virando uma curva, acompanhado de mais dois soldados.
Eu travei no mesmo instante, sendo acompanhada por Cilan que não entendeu o que estava havendo. Deveria ter me abaixado, virado, corrido. Não sei, tomado qualquer atitude, mas todo o meu corpo pareceu entrar em curto.
Apenas senti a onda de terror correr por todo o meu corpo quando os olhos do soldado se encontraram com os meus. Ele pareceu ficar em choque por alguns instantes, tempo suficiente para eu poder levar a minha mão as minhas Pokeball me preparando um ataque.
— É a irmã do Guerra, – ele gritou assim que conseguiu recuperar o próprio folego. –Peguem-na.
Assim que ergui minha GreatBall senti a mão de Cilan agarrando força a minha, me puxando na direção contraria a dos homens. As pessoas nas ruas ficaram em pânico e começaram a correr juntas na mesma direção, criando uma massa assustadora de pessoas gritando e tropeçando umas nas outras.
Os soldados começaram a gritar e xingar, enquanto eu tentava me manter de pé e correndo, ainda sentindo meu punho preso a mão dele. Estava em uma rua aberta, com trânsito muito ativo e calçada cheia de pessoas.
Nos íamos trombando com força em todas as pessoas a nossa frente, acotovelando e empurrando enquanto ouvimos as Pokeball se abrindo. Antes que pudéssemos correr meio quarteirão um Unfezant surgiu sobre nossas cabeças. Suas asas brilhavam e a massa de ar empurrada pelo movimento da ave chegou a fazer o vento assoviar.
O ataque passou tão próximo a minha cabeça que pude sentir o impacto do vento com tamanha força que foi como tivesse me acertado com algo maciço. Minhas pernas começaram a queimar com o esforço repentino enviando uma onda de dor ao meu corpo.
Meu folego em um instante já era um problema. Mas eu não podia sonhar em parar, se nos envolvêssemos em uma batalha ali seriamos capturados ou talvez pior, mortos. Não tínhamos como nos esconder a luz do dia, o que nos restava era continuar correndo.
Cilan estava cada vez mais rápido, quando outro Pokémon fez o chão tremer, fazendo varias pessoas irem ao chão. Continuei amaldiçoando a decisão de sair. Os gritos dos soldados e de Thiers ainda nos acompanhavam.
Fiz um movimento rápido com a mão, me livrando do aperto de Cilan e agarrando o punho dele. Nos puxei para o meio do trânsito sem pensar duas vezes, passando no meio de carros em velocidade suficiente para nos quebrar vários ossos.
Quase fui atropelada por um taxi amarelo se Cilan não tivesse me puxado. Um motoqueiro que passava pelo corredor de carros acabou batendo no retrovisor de uma van tentando desviar de nós. O homem perdeu o equilíbrio e foi arremessado da moto praticamente dentro da janela de uma mulher que começou a gritar histérica.
Quando chegamos ao outro lado da rua um soldado da Team Plasma já estava com seu Pokémon apostos, pronto para nos agarrar. O Arcanine deveria ter minha altura ou mais. Sua boca se encheu de chamas em um momento, fazendo a onda de calor vir em nossa direção com violência.
Mal tive tempo de pular para trás da placa de promoção da loja de roupas que estava do nosso lado. As chamas dançaram com ferocidade, passando pelo nosso escudo de cinquenta por centro de desconto, fazendo-o aquecer tanto e tão de pressa que o metal vagabundo tomou uma cor avermelhada antes do ataque se encerrar.
— Por aqui – Cilan gritou, mesmo estando colado em mim, me puxando com força para dentro da galeria lotada de lojas de bijuterias a nossa esquerda.
As pessoas foram abrindo caminho percebendo a confusão que tínhamos nos enfiado. Alcançamos as escadas-rolantes em um instante, empurrando homens, mulheres e crianças que estavam na nossa frente.
Não podíamos imaginar que os Team Plasma estariam tão dispostos a acabar conosco que ordenariam ao Arcanine usar Flametower mesmo com um monte de pessoas inocentes no caminho.
Quando as chamas alcançaram as pessoas, incendiando suas roupas e provocando-lhes queimaduras instantâneas a curiosidade das pessoas da galeria se tornou terror. Gritos de medo e ódio tomaram conta de lojistas e clientes.
Eu tive que tomar um segundo sem conseguir aceitar o que o Team Plasma tinha acabado de fazer. Os sprinklers se ativaram um momento depois fazendo Arcanine uivar em meio aos lamentos e pragas das pessoas.
Ainda havia soldados atrás de nós quando alcançamos a saída da rua de cima, aproveitando sem pensar o sinal aberto para continuar correndo pela multidão ainda desavisada do quarteirão de cima.
Cilan acabou esbarrando em um homem desnecessariamente alto e acabou perdendo o equilíbrio até não conseguir mais se manter em pé e rolar pelo chão. Quase não consegui parar, puxando garoto com uma força que eu não sabia que tinha.
Um soldado colocado na esquina de cima percebeu a nossa fuga e estava preparado para sacar um Pokémon quando praticamente joguei uma senhora de idade que passava em cima dele. Cilan estava finalmente conseguindo se reequilibrar, mas pela sua calça consegui ver de relance a mancha de sangue começando a brotar do tecido.
Agora eram três soldados atrás de nós e meu folego já tinha terminado á algum tempo. Minha vontade de viver era a única coisa que me mantinha correndo. Eu ainda não tinha conseguido me recompor e o desespero da situação tornava tudo ainda pior.
Nos enfiamos no primeiro beco que surgiu na nossa frente, evitando os enormes montes de lixo e poças de líquidos que eu preferia não saber o que eram, saindo em uma rua maior. Os soldados estavam logo atrás de nós, não podíamos parar, mas logo mais a frente havia mais dois soldados fazendo uma ronda.
Foi quando eu vi o senhor entrando no restaurante. Dei um toque em Cilan e praticamente nós jogamos pra dentro, fazendo a porta bater com força contra o vidro que servia como parede de fora, atraindo a atenção de todos os clientes.
Uma garçonete que estava um pouco mais a minha frente nos olhou chocada. Antes que ela ou nós pudéssemos decidir qualquer coisa o grito do primeiro soldado saindo do beco pode ser ouvido claramente lá de dentro.
A expressão da moça mudou completamente de uma hora pra outra. Ela me segurou pela camisa e me levou para ao fundo do restaurante nos fazendo sentar em uma das mesas. Um senhor de idade que estava sentado no fundo arrancou seu chapéu e praticamente jogou em Cilan que o pôs na mesma hora e antes que eu pudesse colocar minha bunda na cadeira a garçonete arrancou o pequeno pano de prato branco e o enrolou em volta do meu cabelo.
Dois soldados entraram no restaurante na mesma hora fazendo meu coração sair pela boca. – Onde eles estão? – Gritou com uma voz rouca e ofegante.
Senti a mão de Cilan como um tapa, acertando minha nuca, puxando meu rosto na direção do dele, fazendo com que nossos lábios se encontrassem com tanta força que nossos dentes bateram. A onda de choque foi enviada para o meu corpo quando finalmente pude entender que ele estava me beijando. Pude sentir meu rosto corar quando, em um momento, sua língua veio em direção a minha.
— Agora não podemos sequer comer em paz? – O velho que chapéu gritou.
— Saiam daqui, – Uma das clientes sentadas mais a frente gritou.
Com os olhos um pouco abertos pude ver o Team Plasma indo na direção da mulher e outra garçonete que estava na parte da frente gritou, – como se não bastassem agora agridem mulheres.
— Nos deixe em paz, – outro cliente qualquer gritou, fazendo Team Plasma vacilar.
Ele bufou de raiva, deu mais uma olhada em volta e saiu do restaurante, parando na porta onde outro membro apareceu gritando. – Morte vai literalmente soltar aquele lendário em cima de nós.
— Se ninguém abrir o bico quando chegarmos á avenida cinco ele não vai fazer nada.
— Talvez ainda consigamos acha-los... – foi a ultima coisa que ouvi antes que a voz desaparecesse e meus musculo finalmente relaxassem sentindo os lábios de Cilan ainda contra os meus. Demorou ainda mais um segundo ou dois para sentir sua mão finalmente afrouxando em minha nuca e seu rosto se afastasse do meu.
Fitei seus olhos por um momento e puder notar sua vergonha. Os clientes finalmente voltaram a olhar pra nós, curiosos com os dois garotos meio molhados que estavam fugindo da Team Plasma tornando tudo ainda mais desconfortável.
— Desculpe pelo beijo... – Cilan tentou falar, – pesquisas indicam que pessoas se sentem desconfortáveis em olhar para casais se beijando. Eu não queria...
— Não queria? – Perguntei fingindo surpresa.
Ele ficou vermelho na mesma hora, – eu queria, claro que queria. Mas não assim...
— Então você estava planejando fazer de outro jeito? – Perguntei só pra deixa-lo ainda mais incomodado.
Ele abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas notou que o restaurante todo ainda nos fitava. Inclusive da garçonete que estava ainda praticamente sobre nós. Ele se levantou e tirou o chapéu da cabeça com calma, recuperando seu próximo folego antes de dizer – obrigado a todos. Você salvaram nossas vidas – agradeceu. Eu me levantei e fiz o mesmo.
— Não precisa agradecer, – a mulher que quase apanhou disse da frente do restaurante, – esses idiotas acham que só porque o presidente fez um acordo Castelia é deles. Nós somos Castelinos e quem manda aqui somos nós, – falou cheia de orgulho, fazendo as pessoas do restaurante começarem um murmurinho meio exaltado de concordância.
Assim que levei minha mão ao lenço para devolvê-lo a garçonete me impediu, – acho que você vai precisar mais disso do que eu.
— Fique com o chapéu garoto, – o velho disse fazendo um movimento com a cabeça, – lá fora está especialmente perigoso para ex-lideres de ginásio.
Os olhos de Cilan se arregalaram por um momento, mas ele não precisou mais do que um segundo para tomar o controle de novo. – Tem alguma outra saída daqui? – Ele perguntou para a garçonete.
— Uma nos fundos. Eu vou mostrar, – ela respondeu indo em direção á cozinha. A seguimos sem nos encarar. Ofegante, molhados e ainda com a sensação dos lábios um do outro sob a pele.
=8=
Demorou mais do que deveria para conseguirmos voltar ao bordel de Burgh. Tínhamos nos desviado apenas três ou quatro quarteirões de onde havíamos vindo, mas tivemos um trabalho grande desviando dos soldados no caminho.
Quase não conversamos até finalmente estarmos descendo as escadas que levavam ao porão onde todos estavam reunidos.
Skyla estava esperando de braços cruzados, com um olhar animalesco ostentado no rosto. – Eu não acredito que vocês se arriscaram desse jeito. Espero que tenham um ótimo motivo para terem saído levando o lendário para uma cidade enfestada de soldados.
Todos ali nos encaravam com um misto de curiosidade, preocupação e talvez um pouco de raiva. Suspirei e respondi – fomos tomar um sorvete!
— Claro, porque isso explica porque vocês estão banhados de suor e a perna sangrando de Cilan, – Kara não perdeu a oportunidade.
— Vocês ainda estão com o lendário e não foram seguidos, certo? – Cheren quis saber.
— Continua comigo, – disse apontando para o meu cinto.
— Eu verifiquei todo o caminho. Não havia ninguém nos seguindo.
— Então o assunto está encerrado – Cheren afirmou.
— Não mesmo, – Alder começou, – esses pivetes arriscaram não só a vida inútil deles como a nossa...
Cheren se virou para Alder e a raiva em seu olhar estava tão clara e densa que o velho engoliu seco, – eu disse que o assunto esta encerrado, – o líder repetiu pausadamente. O ex-champeon da região deu de ombros e virou o rosto.
— Vocês estão bem? – Tom perguntou, saindo do lado de Kara e vindo na nossa direção.
Eu fitei Cilan por apenas um instante antes de perceber que Cheren me encarava. O líder do tipo normal apontou para mim e moveu o pescoço, indicando para eu segui-lo até o outro cômodo de forma discreta. Assim que chegamos lá Cheren me fitou por um instante e depois olhou de volta para o outros, tentando provavelmente ter certeza de que eles não nos ouviriam antes de perguntar – Deedee está bem?
—Eu não fui atrás... – tentei mentir, mas seu olhar era tão inconveniente que me deixou desconfortável. Suspirei e olhei para as pessoas ali por um momento antes de responder a verdade. – Não consegui chegar até o ponto de encontro. Soldados da Team Plasma me reconheceram e quase não conseguimos escapar.
Ele balançou a cabeça positivamente e não disse nada, mas a expressão dele claramente se endureceu.
— Deedee é o garoto mais sortudo que eu conheço. Ele vai conseguir voltar com segurança.
— E se não voltar eu vou varrer cada buraco dessa cidade até acha-lo.
— Parece que temos um plano, – topei.
Ele me encarou e pela primeira vez desde que nos conhecemos, nos não só tínhamos alguma coisa em comum como também concordávamos em alguma coisa.
Foi quando o radio fez um barulho alto fazendo todos não só se calarem ao mesmo tempo, como também olhar para o objeto que havia sido deixado em cima da mesa. – A ativação do Sinal foi adiantada. Terá inicio em quinze minutos. Coloquem as coleiras em seus Pokémon.. Repito. Sinal será ativo em quinze minutos. Coloquem as coleiras em seus Pokémon.
A expressão de todos tomou uma forma assustada. – Era uma armadilha, – Louis supôs.
— Se Deedee e Clarice foram realmente capturados temos que deixar esse lugar – Skyla afirmou.
— Dee não foi capturado, – eu gritei.
— Temos que supor que sim Haila, – Cheren disse com a voz mais tranquila do que eu imaginei que poderia sair. Ele percebeu a confusão no meu olhar e comentou mais baixo, – isso não muda o que eu acabei de dizer.
— Temos quinze minutos até a ativação do sinal. Nossos Pokémon podem ficar sob o controle da Team Plasma. Temos que nos preparar – Burgh trouxe a tona.
— Como se lida com uma coisa dessas? Não podemos vencer uma batalha contra nossos Pokémon, – Bianca lembrou o obvio.
Skyla se colocou adiante, – uma coisa de cada vez. Vamos focar no essencial. Temos que achar os lendários para acabar com tudo isso e esse lugar pode estar comprometido. Precisamos sair agora.
— E para onde vamos? Não temos outro esconderijo, – Kara quis saber.
— Vamos ter que lidar com isso. Movam-se, – Skyla gritou com firmeza.
Todos concordaram. Em cerca de um minuto todos estavam com suas poucas coisas nas mãos, saindo do prédio. Burgh, Skyla, Cheren e Cilan foram na frente conversando sobre um possível lugar.
Kara, Tom, Louis e Bianca foram logo atrás, seguidos por Alder que não parecia nada satisfeito de sair com o grupo. Mas eu não consegui me mover. Eles poderiam estar errados. Deedee ainda poderia voltar para aquele lugar e eu não poderia simplesmente deixa-lo para trás.
Desde que nos encontramos em Lentimas quando nos separarmos pela primeira vez eu prometi que nunca mais o abandonaria novamente. Eu não ia quebrar essa promessa agora. Ele era uma das pessoas mais importantes do mundo pra mim.
Olhei para o grupo e depois para o caminho que levaria ate o restaurante de Joslyn. Meu coração estava batendo intensamente. Meu punho estava fechado com força. Passei a mão pelo meu sinto esperando pegar a Pokeball de Leaf, mas eu acabei sentindo a Pokeball de Virizion.
O que aconteceu na floresta no dia anterior ainda estava dentro de mim. Eu ainda podia sentir como foi acordar na minha casa e ter a opção de não lutar. Não tinha contado ainda pra ninguém. Se eu sobrevivesse a esse dia pretendia contar a Dee.
Mas se ele não estivesse bem... Abaixei a cabeça tentando afastar o pensamento. Eu tinha feito uma promessa aquele lendário. O destino de toda Unova podia depender daquele Pokémon e eu não podia virar as costas para isso. Olhei mais uma vez para os dois caminhos e tomei a decisão, indo em direção ao grupo.
O rosto de Deedee estava ali toda vez que eu piscava. Tudo que já tínhamos vivo. Todos os sorrisos. Lagrimas. Batalhas lado a lado.
Eu confiava nele. Sabia que ele poderia resolver qualquer coisa que surgisse. Ele era meu irmão e irmãos tem que acreditar uns nos outros. – Boa sorte, incendiário – sussurrei tentando alcançar o resto do grupo.
Mas mal conseguimos perder o prédio de vista. Uma onda sonora aguda encheu a rua, enviando um som tão desconfortável que levou todos para uma posição defensiva na mesma hora. As poucas pessoas na rua ali se abaixaram. Os carros frearam bruscamente, cantando seus pneus.
E por um momento quase houve silêncio antes dos sons de Pokeball se abrindo e a luz vermelha preencher toda a rua. Todo o tipo de Pokémon estava sendo libertado. Pequenos, grandes, feitos de pedra ou corpos em chamas. Peixes fora d’agua e serpentes furiosas de grama sibilantes.
Recuei quando Serpio surgiu na minha frente. Seus olhos estavam completamente brancos, seu corpo pronto para o ataque. Ele sibilou em minha direção e não pensou duas vezes antes de partir para cima de mim, tentando novamente me agarrar com aquela mandíbula enorme. Saltei para o lado e depois para frente, agarrando seu corpo com todas as forças dos meus braços.
Ele começou a balançar de um lado para outro enquanto eu lutava para me segurar em suas escamas escorregadias. Eu podia ouvir os sons de gritos, urros e silvos animalescos tomando conta da rua.
Skyla, Burgh, Louis, Alder, Kara, Bianca... todos estavam tendo problemas com seus próprios Pokémon. Um som explodiu em nossos ouvidos, chamando a atenção de todos. Um andar inteiro de um prédio tinha se partido. Pelas janelas e por rachaduras recém-criadas nas paredes podíamos ver a pele azul do Wailord que tinha saído da Pokéball dentro do prédio.
Sangue e gordura escorriam pela parede do prédio enquanto chamas começavam a surgir por todo o lado. Pokémon enviavam ataques de um lado para outro. Sem alvo. Sem motivo. Só queriam atacar.
Serpio chicoteou seu corpo para trás me fazendo escorregar em seu dorso e depois saltou tão alto que pude ver todas as pessoas nas ruas e até pelas janelas dos prédios, lutando para lidar com seus Pokémon. A cidade tinha se enchido de sons de morte e agouro.
O pior pesadelo de todos tinha se tornado realidade, constatei antes que Serpio voltasse ao chão me fazendo cair de cabeça na tampa de um bueiro. A pancada foi tão forte que o metal ressoou.
Quando me levantei ele estava em cima de mim, pronto para me abocanhar. Serrei os punhos e estava pronta para partir para cima dele, quando ouvi Clarice chegando, gritando a todos os pulmões que estava com as coleiras.
Mas Serpio não estava interessado nisso, sua boca veio aberta em minha direção com os dentes amostra. Era nítida a intenção de matar. Meus instintos estavam aguçados e meus músculos responderam bem.
Girei meu corpo depressa, me apoiando no pé que ficara atrás e enquanto ele projetava seu corpo para frente, prestes a me rasgar, consegui acerta-lhe um soco na cabeça fazendo-o ficar desorientado por um segundo.
Tempo suficiente para a garota arremessar a coleira em minha direção. Era um objeto metálico com uma presilha na parte detrás. Serpio fez um movimento com a cauda tão rápido que mal consegui desaviar, então pulei novamente sobre ele, colocando o dispositivo próximo a sua cabeça.
Assim que a coleira entrou, automaticamente se ajustou diminuindo o tamanho, prendendo no Pokémon. Serpio sibilou com uma intensidade que quase nunca eu cheguei a presenciar. Seu corpo ficou menos tenso e sua respiração menos ofegante. Até que finalmente seus olhos que estava revirados desceram devagar.
Eu fui arremessada de repente. Meu corpo girou no ar antes de se chocar contra o de Serpio que amorteceu a queda. Skyla estava tentando prender o colar no pescoço do seu Crobat, mas o Pokémon estava usando o ataque Gust com tanta intensidade que todos estavam sofrendo com ele.
Cheren tentava alcançar seu Snorlax que corria descontrolado, enquanto Tom corria atrás dele segurando seu Ratata com tanta força contra o peito que o Pokémon parecia sem ar.
Alder estava sentado em cima de seu Bouffalant como se tentasse doma-lo. O Pokémon saiu em disparada, indo para cima das pessoas, carros e Pokémon como se fossem simples cortinas que ele pudesse empurrar.
Cilan acabara de conseguir colocar a coleira em seu Tropius e Burgh estava simplesmente sentado em cima de Karrablast esperando Clarice lhe entregar a coleira. E de algum modo não consegui encontrar Louis e Bianca, eles simplesmente tinham desaparecido em meio á multidão.
O céu ficou escuro de repente com a aparição de nuvens carregadas sobre nós. Um relâmpago cortou o céu quase nos cegando, antes dos raios começarem a descer. No meio da rua, em cima de um carro Galvantula, Eelektroos e Ampharos usavam Thunder ao mesmo tempo.
O ataque desceu rápido demais para que qualquer um de nós pudesse reagir. Consegui trazer Serpio de volta para a Pokeball antes de tudo virar um inferno mortal de luzes. Todas as pessoas nas ruas correram, tentando se abrigar, enquanto Pokémon ensandecidos ainda lutavam entre si, destruíam e esmagavam tudo o que achavam pela frente.
Corri o mais rápido que pude enquanto o mundo a minha volta virava um inferno. O zumbir dos raios era quase ensurdecedor junto ás explosões causada pela queda dos raios. Pessoas estavam sendo atingidas e sendo eletrocutas, postes estavam caindo, janelas estourando, Pokémon atacando.
Skyla, Burgh, Cilan e Clarice estavam atrás de mim de algum jeito. O resto do grupo tinha sumido. Provavelmente estariam procurando abrigo em algum lugar, ou a essas alturas, quem sabe a que distancia já teriam corrido.
Quando consegui entrar no primeiro prédio que vi de porta aberta uma explosão aconteceu, enviando uma peça de metal que se cravou profundamente na lateral do prédio a minha frente. A chuva de raios finalmente parou, o carro cujo qual os Pokémon estavam em cima explodiu com tamanha carga elétrica. Matando os Pokémon e deixando ainda mais feridos com os estilhaços.
Mas a loucura dos Pokémon ainda não tinha terminado. Uma mulher histérica saiu gritando por nós, se enfiando na rua sem sequer olhar duas vezes para os lados. Nos entreolhamos confusas até que o estalar de madeira e o cheiro da fumaça surgiu.
Magmortar, o Pokémon de fogo surgiu pelo vão da porta com o corpo quase em chamas. A massa de calor pode ser sentida a mais de dois metros de distâncias. – Eu não gosto de Pokémon tipo fogo, – Burgh conseguiu dizer antes que saíssemos correndo do prédio.
Não havia abrigo. Não havia pra onde ir. Quanto mais corríamos mais Pokémon, mais pessoas machucadas e mais destruição nos cercavam. Não sei por quanto tempo mais seguimos até que finalmente achamos um beco estreito que nos levou até os fundos de uma construção.
O prédio tinha um andar ou dois terminados, mas o resto não passava de uma pilha de tijolos e vigas de metal. Usamos as escadas dos operários e nos abrigamos lá para tentar recuperar o folego.
Meu coração ainda estava na boca quando Skyla pegou seu Xtransceiver e ligou para Cheren. Pude ouvi-los falar de Dee e quase me joguei em cima do aparelho, mas a olhada rápida de Skyla me fez parar na hora.
Ainda assim aquela noticia apenas entrou para o misto de sensações. Saber que Dee estava bem era ótimo. Saber que Castelia estava indo ao chão, ruim.
Assim que Skyla desligou o Xtranceiver ele começou á tocar. Desta vez era Elesa. – Os Pokémon estão enlouquecendo Sky. Mareep me atacou. E há Pokémon atacando as pessoas por toda a cidade, – a Líder gritou, dando a notícia em pânico.
— Eu preferia que Rose tivesse mentido sobre isso, – Skyla respondeu apavorada.
— Alanna acabou de receber um chamado de Black City. A situação é a mesma lá. Pode ser em toda Unova. Vocês precisam fazer alguma coisa, – Elesa conclui em pavor.
— Nós vamos, – Skyla respondeu antes da ligação cair. Ela tentou retornar, mas o aparelho sequer chamou.
Ela parou por um instante e respirou profundamente. Depois correu o olho em volta até achar as escadas e saiu correndo por elas. Fomos todos atrás dela. Subindo lance apos lance de escada até chegar ao topo do prédio de sete andares.
Quando finalmente alcançamos o terraço, mortos pelo exercício inesperado, pudemos ver o que Skyla queria ali. Ela tinha uma vista de uma boa parte daquele quarteirão e um pouco além. Em todo o canto que se olhava, cada pedaço da cidade, havia gritos, fumaça e hora ou outra, luzes se acendendo com ataques de Pokémon.
Todos estávamos olhando em voltar apavorados com o que víamos. Não havia palavras pra descrever os sentimentos que brotavam ali. Raiva, triste, pavor, choque. A Team Plasma tinha colocado os Pokémon contra nós.
— O que vamos fazer? – Clarice perguntou se apoiando nos próprios joelhos.
— Temos que continuar, – respondi sentindo as Pokeball vibrarem no meu sinto. Exceto as de Virizion e Serpio.
Peguei a Pokeball do lendário nas mãos e a fitei por um segundo antes de ter certeza. – Virizion não está sendo afetado, – praticamente gritei.
Brugh veio até mim e pegou a Pokeball segurando-a contra o peito e confirmou. Ela estava calma.
— Isso explica porque a Team Plasma queria todos os Pokémon Lendário. Aparentemente eles não são afetados por essa energia. – Skyla percebeu.
— Eles podem ser a salvação de Unova, – Cilan concluiu.
— Ou o fim dela, – Burgh interveio trazendo todos de volta para a realidade. Aquilo tudo era causado por Cobalion.
Todos ficaram em silêncio por alguns momentos. O peso de tudo que estava acontecendo parecia cair sobre nossos ombros. Os planos tinham sido adiantados por causa da captura de Fome e agora toda a Unova estava pagando por nossas atitudes. Prédios em chamas, pessoas desesperadas e uma quantidade, humana e Pokémon, crescente de feridos e mortos.
— Acho que a pergunta é o que ainda podemos fazer? – Burgh comentou desanimado. Ele parecia abatido, mais do que qualquer um de nós ali naquele momento. Talvez por estar assistindo a cidade que tentou proteger começar a ruir. Ou pelos amigos que viviam ali e provavelmente estavam em risco.
Eu não sabia dizer ao certo, mas estava claro pra mim que até mesmo os grandes cachos brilhantes de Burgh pareciam menos vivos ao ver aquela cena caótica ao nosso redor.
Skyla olhou para Burgh e seus olhos pareciam marejados. Algo totalmente novo e chocante pra mim. Desde que tudo começara. Perdendo Pokémon, perdendo batalha atrás de batalha, Skyla sempre foi a pessoa mais forte que eu conheci. E agora, ali, ela finalmente não conseguia mais conter a enorme pressão que toda a situação infringia sobre ela.
— Meus pais, – Clarice soltou de repente olhando um enorme grupo de Pokémon voadores voavam na direção contraria ao sol, chamando a atenção de todos.
Burgh apertou os lábios até que sobrasse apenas uma linha fina e foi até a garota, puxando ela para um abraço. Não havia mais rixas aquele ponto. Não consegui deixar de sentir-me mal vendo como a garota estava.
— Por que eles estão fazendo isso? – Clarice perguntou e sua voz não parecia bem. – Por que fariam os Pokémon nos atacar?
Burgh beijou a cabeça da menina e suspirou, – oh criança inocente. Eles vão usar isso como marketing positivo a “abolição” Pokémon que eles tanto querem. Fome ter ido a televisão não foi apenas para mostrar seu rosto fino. Ela quer que a Team Plasma tenha a simpatia do publico e agora que os Pokémon se voltaram contra os humanos, o discurso deles terá ainda mais força. Talvez suficiente para que as pessoas abandonem em massa seus parceiros Pokémon.
Parecia tão simples quando ele falava, mas a ideia nunca me ocorreria naturalmente como para ele. Eles usariam a destruição que eles próprios causaram como estopim para que as pessoas os seguissem. E o problema é que só nós sabíamos disso.
— Skyla? – Cilan chamou, esperando que ela tivesse a resposta.
Ela encarou o garoto de cabelos verdes e balançou a cabeça negativamente, – eu não sei. Estamos longe demais da residência presidencial. Até que consigamos alcançar o grupo de Cheren muitas vidas já terão se perdido. Não podemos fazer com que eles nos esperem. – Ela deu de ombros, – eu não sei o que podemos fazer para ajudar.
Olhei em volta, tentando pensar em um meio de passar pelos Pokémon de maneira rápida o suficiente para ajudar Dee e os outros, mas nada me veio á cabeça. Comecei a correr o olho pelas ruas e prédios até que algo se acendeu em minha mente, – Avenida cinco, – contei a todos.
O grupo me olhou sem entender, então me dirigi a Cilan – lembra aquele Team Plasma gritando na porta do restaurante?
— Mas é claro, – ele quase teve um surto de animação, – ele falou que Morte usaria o lendário para mata-lo numa avenida qualquer.
Skyla claramente se interessou pelo que estávamos dizendo. Sua postura mudou completamente, – então há uma chance de que esse general esteja com um dos lendários?
— Podemos supor que se trate de Terrakion, – Burgh constatou empurrando Clarice para longe, quase fazendo a garota cair. – Já que Cobalion é o centro do plano da Team Plasma e eles não arriscariam o levando para dar um passeio.
— Mas como vamos encontra-lo? Ha dezenas de avenidas nessa cidade – Skyla perguntou.
— Porque essa não é uma avenida qualquer. É a avenida cinco, – contei animada, mas ainda mais preocupada. – a avenida cinco tem inicio aqui na região central e...
— Termina quase na saída para o deserto, – Burgh terminou a frase, – eles estão levando o lendário em direção ao deserto, onde parte do exercito da Team Plasma esta aguardando para atacar Nimbasa.
— Então mesmo que Cheren e os outros consigam libertar o lendário e o presidente a Team Plasma ainda vai usar o outro para invadir Nimbasa, – Skyla constatou. – Temos que impedi-los.
— Ele provavelmente estará com um pequeno exército e Terrakion. E nós com coleiras para seis Pokémon, – Clarice lembrou. – Parece que temos muita chance.
Skyla sorriu, – três lideres de ginásio, dois pupilos prodigiosos e um lendário.
— É uma perspectiva um pouco exagerada, – comentei ainda me sentindo um pouco orgulhosa por ter sido chamada de prodígio, – mas não é como se eu tivesse planos melhores.
—Vamos acabar morrendo lá, – Clarice falou alterando seu tom de voz.
— Se não quiser, não precisa vir, – Burgh disse com uma voz afetuosa, mas senti o julgamento em cada silaba. A garota fez apenas uma careta.
=8=
Fomos o mais rápido que conseguimos, evitando o máximo de Pokémon que era possível. As ruas estavam completamente lotadas. O centro da cidade estava ainda mais cheio de gente do que qualquer lugar que tenhamos visto até então. Mesmo com o caos as pessoas pareciam que não conseguiam retornar para suas casas ou se abrigar.
Pessoas estavam presas dentro de carro tentando se esconder. Portas de lojas estavam fechadas, mas ainda podíamos ver pessoas através das vitrines. As ruas estavam completamente cheias de entulho e Pokémon.
Fizemos o possível para evitar batalhas, mas ainda sim Burgh fora obrigado a libertar Lolita que estava abrindo o nosso caminho. Mais vezes do que podíamos contar algum Pokémon saltava sobre nós ou algum ataque surgia vindo nossa direção.
Mesmo assim o trajeto demorou muito menos do que eu pensei. A Team Plasma estava tendo problemas também para avançar. Assim que os avistamos não foi difícil reconhecer Morte que ia a frente do batalhão com um Klinklang usando Protect que brilhava intensamente parando ataques.
Logo mais a frente dele alguns soldados faziam a limpeza do caminho, usando Pokémon para derrubar os que estavam na rua. Um treinador qualquer que não deveria ter mais do que doze anos se jogou na frente de seu Snivy tentando impedir que o Slaking esmagasse seu parceiro. Mas o Pokémon da Team Plasma não se intimidou, acertando um soco no menino que o arremessou na calçada.
A mãe do garoto correu pra cima dele chorando o trazendo para os seus braços. O sangue começou a jorrar na mesma hora e as pessoas que ainda estavam na rua começaram a gritar e xingar os soldados. Focando seu ódio no grupo.
— Temos que nos envolver agora, – Burgh praticamente gritou, correndo na frente. – Eles vão atacar as pessoas na rua.
— Não era esse o plano, – Skyla comentou enquanto saia correndo atrás do Lider Inseto.
Lolita passou voando sobre os quase trinta homens que acompanhava Morte e usou X-Scissor no chão, entre Morte e o garoto. O campo de força do Pokémon o defendeu, mas os soldados receberam parte da energia do ataque. Começaram a dar comandos para seus Pokémon atacarem Lolita instantaneamente.
Quando eles finalmente perceberam que erámos nós os sons de Pokeball se abrindo praticamente abafou o som do caos que ainda ornamentava a cidade. Chamei Serpio que já saiu da Greatball saltando sobre os soldados da Team Plasma.
Continuei correndo junto de Cilan que estava com sua Leavanny abrindo caminho, enquanto Skyla já estava montando em um enorme Pidgeot. O Pokémon era tão grande que sua sombra cobriu facilmente a mim, Cilan e Clarice, antes da líder de Ginásio partir pra cima de Morte.
Ele estava furioso gritando para os soldados fazerem alguma coisa, mas os pegamos desprevenidos. Com a pequena demora no tempo de reação dos homens quase dez deles já haviam ido para chão.
Quando finalmente Burgh conseguiu chegar á mulher e a criança, um soldado comandou Liepard para cima dele. O Pokémon abriu a boca e uma quantidade enorme de energia roxa se juntou com uma rapidez incrível, o ataque estava prestes a ser disparado diretamente quando um Corsola surgiu, se atirando para cima do Pokémon que não conseguiu conter o próprio ataque que acabou explodindo em sua própria boca.
— Meu mestre não, – Clarice gritou.
Um Aggron de mais de dois metros de altura veio correndo pesadamente em nossa direção e mesmo usando a coleira o Pokémon parecia fora de si, soltando seu rugido metálico de forma bestial.
— Cuidado, – Cilan gritou como se eu não estivesse vendo a coisa.
Ele quase passou por cima de mim se não fosse pelo Pokémon Planta/inseto de Cilan que saltou sobre ele de forma ágil, agarrando seus chifres o fazendo ir em direção á vitrine de um salão de beleza. Mulheres saíram gritando lá de dentro desesperadas enquanto soldados da Team Plasma viam pra cima de nós.
Foi quando o inesperado aconteceu. Antes que os soldados conseguissem nos alcançar uma Pokeball a mais se abriu, mas diferente de tudo que já tínhamos visto até então a forma luminosa criada pela luz vermelha era enorme e brilhava mais intensamente do que qualquer outra que eu já tinha visto.
Eu só percebi que se tratava de Morte que tinha um olhar furioso no rosto quando o Terrakion finalmente se materializou fora da MasterBall que o general da Team Plasma tinha nas mãos, amassando um carro apenas com o peso do seu próprio corpo sobre as patas dianteiras. Ainda era possível ver feridas abertas em todo seu corpo e sangue seco em seu focinho.
As pessoas nas ruas pareciam estar no meio de um tiroteio. Correndo e se escondendo enquanto os soldados pararam um instante de lutar impressionados com o tamanho e o poder que aquele Pokémon inspirava ter.
O colar que Dee citara ainda estava em seu pescoço e diferente de tudo que podíamos imaginar ele rugiu de forma animalesca, gutural. Fazendo até mesmo soldados da Team Plasma recuarem.
— Perdendo para ex-lideres de ginásio há muito derrotados – ele cuspiu suas palavras em direção aos soldados. – Eu terei que resolver isso sozinho. Incompetentes. Vocês vão conhecer o verdadeiro poder.
Terrakion não esperou por comando, começou a correr no meio da avenida ainda lotada de carros como uma locomotiva fora dos trilhos usando seus enormes chifres para arremessar tudo que estava em cima para a fachada dos prédios criando ainda mais destruição.
— Como vamos parar isso? — Cilan perguntou mais para si mesmo do que para qualquer pessoa, enquanto os soldados e nós ainda estávamos sem reação.
— Só tem um jeito – respondi pegando a simples Pokeball do meu cinto. – Por favor, nos ajude! – Praticamente implorei sussurrando para a Pokeball antes de libertar Virizion.
Diferente de Terrakion, Virizion surgiu na mesma hora que eu abri a Pokeball. Seu corpo estava tomado por um brilho esverdeado. Seu pelo era tão lustroso que parecia reluzir e ao mesmo tempo ser tão delicado quanto ceda.
Os soldados da Team Plasma finalmente voltaram a si e se voltaram para Virizion prontos para atacar, mas Morte os deteve, – Não! – Ordenou com um timbre autoritário, – vamos ver quem tem o maior. Matem os lideres.
Virizion partiu para cima de Terrakion que só percebeu o Pokémon planta quando eles se chocaram rolando em cima das mesas de uma lanchonete que estavam em na calçada, estourando sua vitrine.
Serpio voltou para o meu lado bem a tempo de usar Leaf Storm no Golduck que estava vindo em minha direção. Cilan estava preso batalhando contra um Scolipede. Skyla estava de novo partindo pra cima de Morte que agora tinha liberado um Charizad que perseguia Skyla e seu Pidgeot pelo céu.
Burgh parecia furioso com o que os Team Plasma fizeram. Ele estava de pé ao lado de Lolita que abatia um Pokémon atrás do outro enquanto Clarice dava o máximo de si para dar-lhe cobertura.
De alguma forma meu olhar era atraído para Virizion que desviava de um ataque após outro de Terrakion. Ele não parecia querer lutar com seu companheiro, ainda mais com ele nesse estado. Eu quase podia dizer que sentia isso.
Mas ele teria que fazer. O poder destrutivo de Terrakion era impressionante. Seus olhos brilharam enquanto Virizion ainda estava no ar e como se o solo seguisse seu comando, enormes pedras se levantaram do asfalto acertando o Lendário Planta com tanta força que seu corpo girou no ar antes de cair no chão com uma chicotada.
Corri em sua direção o quão rápido eu pode. Algo dentro de mim gritava que eu precisava fazer alguma coisa.
Terrakion não parou, indo pra cima de Virizion que ainda tentava se recuperar do ultimo ataque, pisoteando tudo que estava na sua frente. Derrubando as pedras que ele mesmo havia erguido como se fossem uma pilha de cartas.
Olhei para Serpio que vinha do meu lado e ele entendeu o que seu queria. O Pokémon saltou quase a distância de um poste e moveu seu corpo com violência enviando a tempestade de folhas na direção do Lendário de pedra.
O ataque o acertou em cheio, mas quase não teve impacto, ele continuou correndo como se nada tivesse acontecido. Virizion se levantou e saltou para trás pousando quase ao lado de Serpio.
A serpente sibilou para o Lendário que apenas devolveu um olhar que eu pude entender como agradecimento e “saia do meu caminho”. O corpo de Virizion voltou a brilhar, dessa vez com muita mais intensidade. Uma aura de energia o envolveu, afastando poeira e até mesmo pedaços menores de entulho no asfalto próximo a ele.
Do meio de sua testa começara a surgir uma enorme espada feita de luz maciça e verde, tão grande que bem podia ser maior do que eu. O Pokémon emitiu um som como se desafiasse Terrakion e o Pokémon o respondeu o imitando.
Seu corpo começou a brilhar intensamente, emitindo ondas de energia que qualquer um a menos de quinze metros de distância conseguia sentir. A espada surgiu na cabeça dele tão grande ou maior que o de Virizion. Suas feridas, cada uma delas pareciam vazar luz, quase se tornando invisíveis. Seus músculos pareceram mais evidentes e sua respiração pesada ficou ainda mais alta.
Os dois correram na direção um do outro e fizeram u m movimento com a cabeça, acertando o chifre em forma de espada um contra o outro. O choque dos dois Pokémon causou não só um brilho intenso como uma onda de choque que fez carros serem empurrados, vitrines e janelas estourarem, como lançou pessoas e Pokémon ao chão. Mesmo os Pokémon ensandecidos pela Team Plasma pareciam recuar diante aquela maciça demonstração de poder.
Um atrás do outro os ataques se repetiam e tudo o que eu pude fazer foi me abaixar. As pessoas não conseguiam entender perfeitamente o que estava havendo, mas podiam sentir as pancadas vindas dos ataques dos dois Pokémon. Eu podia ouvir gritos, o som de metal sendo amassado, pequenas explosões e até mesmo silvos vindos da batalha.
Os dois saltavam de um lado para outro dando tudo de si para tentar derrubar o adversário. Virizion tinha movimentos limpos e claros, quase parecia deslizar no vento como uma folha. Enquanto Terrakion parecia ser força bruta. Até mesmo suas pegadas ficavam cravadas no asfalto enquanto os ataques eram repetidos e as feridas iam sendo abertas um no outro.
No meio dos ataques pude ver que Charizard estava no chão e Pidgeot estava segurando Morte com as garras, mas para o azar deles e de Skyla que ainda estava nas costas do Pokémon, á batalha entre os dois Pokémon foi pra cima deles.
Uma explosão aconteceu quando os dois se chocaram e Virizion foi arremessado no ar acertando Pokémon, líder e general que despencaram junto com Lendário de uma altura considerável.
Tentei ir na direção deles, mas mal consegui correr dois metros sem sentir o choque de outro ataque. As pedras estavam começando a se erguer do chão uma a uma, enquanto o asfalto começava a rachar.
Terrakion estava urrando como nunca e as poucas pessoas que ainda não tinham se abrigado nos prédios estavam dando tudo de si para escapar do ataque maciço que viria. Vi Virizion tentando se levantar e Skyla tentando sair debaixo de seu Pokémon.
Vi Cilan chegando até ela e tentando puxa-la do Pidgeot e as primeiras pedras sendo lançadas com tanta força que explodiram no peito e na cabeça que Virizion como se fossem bombas. Então Burgh surgiu do nada como se estivesse ali no meio da rua o tempo todo, do lado de Lolita.
Não consegui ouvi-lo gritar, mas pude ler seus lábios quando ele ordenou o Bug Buzz e Lolita começar a enviar dezenas de disparos de energias nas rochas que Terrakion enviava. Uma atrás da outras as pedras foram sendo destruídas, criando uma nuvem de pó e estilhaços que foi aumentando de acordo com que Lolita ia atacando.
Foi inacreditável a quantidade de rochas que ela conseguiu partir com seus ataques. Não havia como eu ficar triste quando pensava que tinha perdido para aqueles dois. Eles eram incríveis juntos, mas por melhor líder que Burgh fosse ou melhor Pokémon que Lolita fosse Terrakion era um Pokémon lendário e suas habilidades não podiam ser comparadas. As pedras não pararam de vir, sendo arrancadas do asfalto, da fachada dos prédios, dos parapeitos e sacadas.
Burgh simplesmente desapareceu em meio a um dos ataques, sumindo debaixo de uma das pedras junto a Lolita. As pessoas arfaram e Clarice gritou tão alto que não importava o tamanho do barulho causado por aquele ataque ou o resto da cidade ruindo, ninguém poderia abafa-la.
Ela tentou sair correndo em direção ao líder, mas os ataques ainda aconteciam e seu Corsola teve que derruba-la para conseguir impedi-la.
Virizion simplesmente saiu correndo desviando de pedra por pedra, aproveitando a vantagem que tinha ganhado. Seu chifre ainda reluzia na testa e apesar das feridas ela se movia ainda mais rápido do que antes. Parecia enfurecida, quase fora de controle.
Alcançou Terrakion tão rápido que nem ele teve reação e como se descontasse toda sua raiva e frustração no outro Lendário, Virizion usou Close Combat, acertando-lhe golpes simultâneos com as patas dianteiras e cabeçadas, finalizando com um coice tão poderoso que fez com que o Pokémon de mais de uma tonelada fosse jogado de barriga pra cima, finalmente desacordado.
Virizion parou sobre ele o observando com a respiração ofegante e cortes por todo o corpo, enquanto as pessoas finalmente foram saindo de seus esconderijos. Não havia mais Pokémon descontrolados por causa do sinal ali.
A rua parecia uma zona de guerra. Não parecia mais haver janelas ou asfalto inteiros. Fachadas de prédios inteiras estavam destruídas e varias pessoas estavam mortas, dezenas feridas. Inclusive Burgh. Clarice ainda estava chorando, agora abraçada ao seu Corsola, enquanto Cilan e Skyla se levantavam finalmente.
Assim que dei o primeiro passo na direção deles eu senti que minhas Pokeball pararam de vibrar, mas eu ainda podia ouvir os gritos de Pokémon voadores. De algum modo o sinal tinha sido diminuído e alguns Pokémon já estavam voltando ao normal. Deedee tinha conseguido finalmente diminuir a potência daquilo.
Um dos Team Plasma que ainda estava vivo libertou seu próximo Pokémon e estava pronto para ir na direção de Skyla quando um garoto um pouco mais velho que eu, de pele negra, libertou seu Camerupt e foi pra cima do Team Plasma gritando.
As pessoas começaram um murmurinho se perguntando se os Pokémon não estavam mais loucos e uma depois da outra se juntaram ao garoto, libertando parceiro atrás de parceiro, fazendo esse e o restante dos soldados que ainda estavam ali recuarem.
Fui até Clarice e dei a mão a ela, fazendo com que ela se levantasse. Ela secou as lagrimas, mas elas continuaram escorrendo. Claramente ela estava tentando se manter forte e orgulhosa do que Burgh tinha feito, mas ela não conseguia parar de chorar. E eu estava a menos de um minuto disso.
A pedra que tinha sido jogada sobre Burgh tinha coberto tudo. Nem mesmo um fio de cabelo sedoso sobrara. Tentei fazer com que Clarisse seguisse em frente, mas ela se obrigou a olhar. Ficamos ali só um segundo, mas pareceu uma eternidade.
Mais a frente, caído dentro de uma poça do seu próprio sangue, Morte também tinha tido seu fim. A cabeça do Pidgeot de estava caída sobre o peito do general da Team Plasma que não tinha tido a mesma sorte.
— Ele provavelmente caiu de cabeça, – Skyla constatou encarando o corpo com desdém.
O mesmo olhar que Clarice carregava. Eu senti que mais um pouco e ela cuspiria sobre ele. Sinceramente. Eu não a culparia.
— Burgh está morto, – a garota fora a primeira a falar o que nenhum de nós estava querendo dizer.
— Ele nos salvou, – Cilan contou.
— Burgh se foi como um herói, – Skyla completou.
Clarice soltou uma risada irônica, – não existe heroísmo na morte. Ele nunca vai saber se o que ele fez valeu de alguma coisa.
— Mas nós vamos saber e vamos usar isso como lenha para o fogo que vai queimar a Team Plasma até o chão, – falei e senti que era verdade. Burgh seria mais um mártir dentre tantos outros, mas sua morte não seria em vão, – vamos fazer com que a chance que ele nos deu valha a pena.
— Vamos destruir esses desgraçados, – Clarice afirmou finalmente conseguindo conter suas lagrimas.
Me abaixei junto ao corpo e retirei a Masterball do sinto de Morte. Virizion continuava no mesmo lugar quando finalmente consegui me aproximar. Nos entreolhamos e sabíamos que o trabalho ainda não tinha terminado. Algo me dizia que Virizion estava um pouco menos desconfiado de mim.
Trouxe Terrakion de volta para a Masterball e em seguida, depois de fazer uma mesura, fiz o mesmo com Virizion. Skyla, Cilan e Clarice me olhavam ainda chocados com o que eu estava fazendo. Principalmente a garota mal-humorada.
As pessoas na rua começaram a nos aplaudir sem mais, nem menos. Mulheres, crianças, idosos, homens de meia idade. Sujos, alguns com machucados feios. Todos estavam nos aplaudindo.
Foi quando o Xtransceiver tocou e Skyla atendeu, mas não era Cheren ligando para ela. Era o Xtransceiver de Fome e quem estava na tela era Jaden. – Posso falar com a minha irmã?
Peguei o dispositivo das mãos de Skyla antes que ela processasse o que estava vendo. Jaden estava todo pomposo na tela usando uniforme prateado da Team Plasma, parecia satisfeito em me ver. – Você esta imunda, o que anda aprontando?
— Como você sabia que eu estaria com o Xtransceiver de Aida?
— Ela me contou, ué. Ela, um general da Team Plasma, obviamente não ia ficar preso em um barco fedorento durante muito tempo. Ela tratou de matar todos no barco e me trazer um pequeno brinde, – ele virou a câmera e mostrou Corin amarrado com fita a uma cadeira.
— Se você tocar em um fio de cabelo dele, eu juro que te mato Jaden.
— Então é melhor começar a trabalhar, porque eu já toquei, – seu tom tinha mudado de repente. De irônico agora era arrogante e autoritário, – ele esta na base da Team Plasma, junto com Cobalion. O lugar mais protegido de Unova nesse momento. A barcaça está estacionada em cima do Bank One Plaza, venha pega-lo, – e com um sorriso desligou a ligação.
— Isso é uma armadilha, você não vai – Cilan disse com tanta presa que parecia estar engasgado com as palavras.
Olhei para ele furiosa e pude ver que ele recuou, mas eu não consegui me conter, – eu não sei quem você pensa que é para achar que pode me impedir de qualquer coisa, mas vou lá bater naquele desgraçado até a morte e junto levar aquela maldita barcaça pro inferno comigo se for preciso.
— Talvez esse seja um bom plano, – Skyla admitiu, me fazendo franzir o cenho.
— Você está louca? – Cilan perguntou, – como podemos confiar nesse cara? O lendário está em outro lugar. Sabemos disso.
— Se realmente estivesse Cheren já teria parado o sinal a essas alturas. Temos uma chance de por fim a isso. Pegar os grandões de uma vez e eu tenho um plano – Skyla falou com tanta confiança que ela quase me fez pensar que tínhamos uma chance. – Mas eu preciso que todos vocês estejam dentro pra funcionar.
— Pode contar comigo, – Clarice foi a primeira a dizer.
— Lila, Dania e Arthur podem estar mortos agora. Eu não vou deixar que a Team Plasma tome Corin de mim.
— Então que morramos todos juntos, – Cilan terminou.
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