Rota Zero
71 Mascaras - Parte 1
Notas iniciais
Haila
MASCARAS
O enfermeiro tinha passado a pouco e deixado a coberta no quarto, mas não era realmente necessário. A calefação era o suficiente. Ainda assim arrepios corriam pela minha espinha hora ou outra. As lembranças naquela altura da noite, misturadas ao sono, tinham se tornado como pesadelos que agora conseguiam me atormentar mesmo com olhos abertos.
Dan fez um barulho e meus olhos correram para a cama a minha frente, doloridos pelas horas sem dormir. Ele gemeu baixinho e depois deixou que sua cabeça pendesse para o meu lado, trazendo seus olhos de encontro aos meus.
— Eu devo estar no inferno Pidovizinha, porque se eu tiver ido para o céu, o critério deles para entrar é bem ridículo. – A voz de Dan saiu baixa e apesar da frase soar como um insulto, não havia nada de ameaçador em seu tom.
Puxei meu corpo um pouco para cima, tentando evitar um pouco das dores nas costas e tentei fingir uma expressão melhor – sem dúvida estamos no inferno. Aposto que eles serviriam qualquer coisa melhor lá em cima – respondi lançando um olhar para bandeja cheia de comida ao lado da cama do garoto.
Havia pouco mais de um dia desde que conseguimos chegar a Icirrus, mas parecia que cada hora se arrastava mais do que a outra. Tinha um clima pesado entre nós, tão nítido que chegava a ser palpável.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, até que ele resolveu quebrar o gelo – não conseguiram colocar meu braço de volta, sabe. Não havia muito mais o que ser recolocado depois que ele virou suco debaixo daquela pedra. E ainda por cima seus amigos resolveram transformar a ponta que sobrou em churrasco, então... Não que eu esteja reclamando, salvaram minha vida. – Deu uma risada baixa, porém nervosa – ainda posso senti-lo, sabia? Ouvi que se chama membro fantasma. Demora um pouco a desaparecer.
O comentário me deu um nó na garganta – você está ainda sentindo dor?
— Não física. Eles me deram um remédio bem forte aparentemente. Mal consigo manter os olhos abertos. – Sua voz realmente parecia um pouco pausada demais. Quase chegava a soar embolada.
— Eu vou te deixar descansar então – comentei levantando da cadeira.
Mas antes que eu pudesse alcançar o fim de sua cama ouvi a voz do garoto me chamando – você não veio aqui só pra saber como eu estava não é mesmo? Sequer podemos ser consideramos coleguinhas.
Girei meu corpo, voltando a ficar de frente pra ele e encarei um pouco sua face sob a luz do único abajur que fornecia claridade ao ambiente. Não havia nada além de uma tristeza profunda em seus olhos, mas que o resto da sua expressão firme nunca deixaria transparecer.
Prendi a mecha do meu cabelo que estava caindo no meu rosto atrás da orelha e respondi – não, não somos. – Fiz uma pausa para que eu mesma pudesse entender o peso do que havia sido dito e continuei, – eu precisava de um pouco mais de motivação para ir atrás da Team Plasma.
Ele sorriu, um sorriso nitidamente irônico e talvez até um pouco doentio, mas eu não o culpava por isso. – Então a Pidovizinha vacila, começa a duvidar de si mesma e acha que eu posso servir de lenha para o seu ódio, pra que você possa continuar a sair por ai e bater nas pessoas?
As palavras dele me pegaram de surpresa, não podiam ser mais verdadeiras. – Por que você acha que eu estou vacilando?
— Talvez porque você não imaginasse que isso fosse chegar a esse ponto? Clay também não e vejamos onde ele está... – fez uma pausa teatral como se precisasse pensar, – por Arceus, morto – quase gritou com os olhos arregalados, mas não tinha surpresa neles.
— E nitidamente você está lidando muito bem com isso, – soltei sem realmente me importar com o quão furioso ele ficaria com o comentário.
Mas ele não ficou, apenas suspirou profundamente antes de continuar – não estou e não vou fingir que vou Haila. Eu perdi meu braço por estar no lugar errado, na hora errada e nada vai fazer esse momento voltar. Eu podia viver brigando com Clay, mas ele era meu mestre, meu amigo e por mais que eu quisesse que ele saísse de linha para que eu pudesse assumir o ginásio, eu nunca consegui imaginar o desgraçado morto.
Enquanto os olhos do aprendiz tipo Ground se enxia de lágrimas meu coração batia cada vez mais forte e as minhas próprias lágrimas começavam a se dar conta de que também queriam ser derramadas. Ele estava certo, eu tinha vindo buscar coragem no pior lugar que conseguira pensar. Não havia nada ali além de um garoto literalmente destroçado.
— Fuja enquanto você ainda pode. Fuja enquanto ainda está inteira e leve todos os seus amiguinhos idiotas com você. Pode não haver mais tempo pra isso depois – ele disse com a dor estampada em cada sílaba, mas naquele quarto de hospital nenhuma lágrima foi derramada.
=8=
Depois de dias sem conseguir pegar no sono eu simplesmente apaguei, uma noite sem sonhos, banhada apenas pela escuridão. Eu não via como algo ruim, uma noite sem sonhos também significava uma noite sem pesadelos, uma noite em paz.
O grito e o peso sobre mim me fizeram saltar, ar faltou em meus pulmões para poder acompanhar as batidas aceleradas de repente do meu coração.
— Parabéns. Feliz aniversário! – Lila gritou, me envolvendo em um abraço.
Por reflexo acertei seu nariz com um soco, fazendo a garota ir para trás depressa, deixando Dee e Desmond completamente apavorados.
— Por Arceus – Desmond gritou correndo para segurar Lila antes que ela se espatifasse no chão.
— Foi o que eu disse que aconteceria – Dee exaltou parecendo revoltado.
Lila gemia sem parar com a mão sobre o nariz e olhos molhados. – Desculpa, desculpa Lila. – Pedi depressa, ainda tomada pelo susto, afastando as cobertas que me cobriam para longe de mim.
— O aniversario é seu, mas quem se surpreende somos nós – Des soltou uma gargalhada.
Dezesseis anos e por algum motivo, a essas alturas eu me sentia muito mais velha do que isso. Era uma das coisas engraçadas em estar tão perdida em preocupações, indagações e medo. Até a data do seu próprio aniversário some completamente da memória.
Lila retirou a mão por um instante a pedido de Desmond e bem, estava tudo no lugar e sem nenhum sangramento, – tenho que treinar mais meu gancho de esquerda – brinquei socando o ar.
— Ele me pareceu muito bom, – Deedee sorriu de volta e só então percebi que eu também estava com os dentes à mostra, mas não era realmente por divertimento, era mais como um reflexo.
— Eu nunca mais te acordo, nem se a Team Plasma estiver vindo nos matar – Lila reclamou de brincadeira, mas ao contrario de sorrir como Desmond fez a vontade simplesmente não veio. Eu não conseguia achar mais graça nesse tipo de brincadeira.
Mesmo assim forcei um sorriso, falso o suficiente para conseguir enganá-la e provavelmente também a Desmond. Mas Dee colocou a mão sobre meu ombro, do mesmo lado onde eu deveria estar usando a tipoia.
Mas assim como Dee que ainda mantinha o braço enfaixado por causa das queimaduras, eu decidi manter apenas o curativo no buraco que menos de uma semana atrás tinha sido reaberto. – Temos bolo – Des apontou para o criado mudo nos pés da minha cama.
Roxie tinha nos feito ficar no mesmo hotel que ela, mesmo reclamando muito por ter que pagar pela estadia de nós quatro. Eu estava dividindo com Lila, enquanto Des e Dee dividiam o quarto ao lado.
— Era chocolate, mas se eu fosse você não comeria, – Lila continuou – eu posso ter colocado laxante.
Ela iria reclamar daquilo o dia todo – já sabemos pra quem vai o primeiro pedaço, – conclui e ela sorriu carinhosamente de volta.
Eu entendia a intenção de todos, mesmo sem realmente concordar. Não havia mais dias para se comemorar aniversários, não dava mais para fingir que estava tudo bem e tentar ter um dia comum, por que tudo o que fazíamos agora era sentar, conversar, planejar, treinar e esperar.
Meus Pokémon, fora Couve-flor, ainda continuavam no Centro Pokémon, assim como os de Lila e Dee. Aquela era minha primeira manhã de aniversário, desde que Leaf nasceu, que eu acordava sem ela. Isso fazia ainda mais com que eu quisesse que todos eles simplesmente fossem embora.
Todos estavam sorrindo, pareciam contentes e eu os acompanhava, mas tudo o que eu queria é que eles fossem embora e me deixassem dormir por mais algumas horas. Sozinha e em silêncio. Porque por algum motivo até o som de suas risadas parecia demais pra eu aguentar. Estava doendo sorrir.
— Haila – Dee me chamou tirando minha mente do vácuo que tinha sido puxada. E apesar de sua frase ter terminado ali eu sabia que o olhar dele significava que ele sabia o que eu estava sentindo. Ele olhou para os outros dois e coçou a cabeça de forma meio constrangida. – Que tal a deixarmos dormir mais algum tempo? É o aniversario dela afinal. Dia de acordar tarde – fez um movimento engraçado com o corpo ao dizer aquilo.
Lila que ainda cobria o nariz com as mãos fez um movimento negativo com a cabeça, – por mim tudo bem, mas e a visita dela?
— Visita? – Questionei confusa e acompanhei o olhar da garota e de Desmond para a porta.
Nos primeiros segundos eu não consegui processar a informação. Havia uma figura encostada no arco da porta, com os braços cruzados e um sorriso carismático no rosto. – Eu queria dizer que viria antes, mas Deedee não deixou.
Dei outro salto, dessa vez para fora da cama. Meu cabelo estava totalmente desarrumado, meus olhos inchados e Cilan estava ali me olhando. – O que você está fazendo aqui? – Foi tudo o que consegui dizer, mas logo me dei conta do que tinha dito. – Desculpa. Quero dizer... O que você está fazendo aqui?
— Bem, – ele começou, parecendo constrangido. – Como seu Xtransceiver só estava dando fora de área a dias eu acabei pegando o numero do seu amigo com Tom.
— E eu tomei a liberdade de convida-lo para o seu aniversario, – Dee completou.
Lila fez um barulho fino com a boca em comemorativa e serrou os punhos como se precisasse apertar algo. – Que fofinho!
— Vocês realmente só se envolvem com celebridades e líderes de ginásio? – Des perguntou parecendo incrédulo. – Quero dizer, o que eu estou fazendo aqui? Fora você – apontou pra mim, – Lila é prima de Marlon, Dee é filho de Adzia e protegido de Roxie, além de ter uma relação de ódio e proteção com Cheren. E você praticamente é pupila de Skyla, ganha presentes e conselhos da desaparecida Lenora e recebe visitas de aniversario de ex-líderes de ginásio. Eu esqueci alguma coisa?
Dee pareceu pensar por um instante, – Burgh também me empregou uma época e tenho quase certeza que ele queria que eu fosse aluno dele por algum tempo.
— Bem, e tem a professora Juniper. Temos uma relação muito legal – completei.
Desmond sorriu parecendo perturbado e se soltou na cama pesadamente. – Eu sou um zero a esquerda.
— Você é sim, – Lila completou fazendo uma cara tristonha e balançando a cabeça positivamente.
O comentário arrancou um sorriso de todas as outras pessoas no cômodo, menos meu. – Pessoal, vocês podem me dar um instante para me arrumar e me vestir?
— Claro, – Cilan respondeu prontamente e foi acompanhado por Dee e Desmond para fora do quarto.
Enquanto eu tentando me ajeitar Lila ficou sentada em cima da cama com as pernas cruzadas, olhando pra mim. Ela pareceu distante por alguns minutos, mergulhada em seus próprios pensamentos.
Quando finalmente consegui colocar uma roupa ela comentou sem me olhar diretamente, – acho que sinto falta da época em que a gente tinha tempo para pensar em garotos, roupas pra Contest e eventos de fim de semana.
— Eu sinto falta de ter tempo, mas nunca tive uma amiga de verdade para falar de garotos e essas coisas de menina, – a expressão dela estava triste e não consegui deixar de me sentir exatamente como ela. Lila era uma garota meiga e sempre feliz. Amava a todos que a dessem oportunidade de se aproximar. Ela não merecia ter que viver todo aquele horror.
Lila segurou minhas mãos e olhou nos meus olhos e apesar de novamente estarem marejados, havia uma ponta de felicidade neles, de esperança, – agora você tem.
— E você também. Mesmo que eu seja melhor em dar socos – respondi colocando meu indicador na ponta do nariz da garota. Ela sorriu.
— Muito melhor em dar socos, – ela repetiu e me puxou pra ela, me envolvendo em um abraço. E pelo dessa vez eu não resisti, nem quis me soltar. Era bom ter uma amiga.
— Desculpe pela coisa do nariz.
— Tudo bem, eu deveria ter ouvido mesmo o Deedee – soltou minhas mãos e olhou para as próprias, meio constrangida.
Dei um sorriso e pela primeira vez naquele dia ele foi completamente sincero. – Eu também odeio quando ele tem razão.
=8=
Os acompanhei toda a manhã, comemos o bolo, os ouvi cantar os parabéns, ganhei presentes e soprei as dezesseis velinhas. Apesar da minha falta de crença nesse tipo de coisa não consegui deixar de desejar que quando isso tudo acabasse as pessoas com quem me importo estivessem bem.
Um sopro no vazio.
Depois do almoço seguimos para uma casa de jogos no alto da rua principal. Icirrus não era o tipo de cidade que se podia sentar em uma pracinha e ver a tarde passar. Os dias eram frios e cinzentos apesar da charmosa arquitetura das casas e estabelecimentos, feitos de madeira grossa e envelhecida.
A respiração se transformava em pequenas nuvens enquanto caminhávamos pelas ruas pouco movimentadas da cidade nortenha, criando pequenos fantasmas que abrigavam nossas palavras e suspiros.
Dee e Lila conseguiram algumas fichas e disputavam naquelas máquinas de dança, onde você tem que apertar a setas correta com os pés, enquanto Desmond assistia com um enorme sorriso satisfeito no rosto. Os dois tinha arrastado Deedee a força e o jogado em cima da máquina. Agora, era tarde demais para desistir, a atenção de todos no lugar estava focada neles e o garoto se esforçava para não passar mais vergonha do que já fora conduzido a passar.
Enquanto isso Cilan e eu estávamos recostados em um sofá amarelo no canto, tomando chocolate-quente. A blusa que eu vestia não era o suficiente para evitar todo o frio daquela cidade. Eu estava acostumada ao calor e ao litoral e não estava preparada para aquele tipo de lugar.
— Eles são sempre assim? – Ele perguntou curioso, olhando pra os três sendo o centro do mundo.
Confirmei com a cabeça, – Lila costuma ter esse poder sobre as pessoas. Você vai ver – respondi erguendo um pouco mais o rosto e avaliando sua expressão, – e com o que você está preocupado?
Ele me encarou por alguns segundos. O braço dele estava atrás dos meus ombros sem realmente me tocar, mas ainda assim eu podia sentir o calor emanando dele sob a grossa malha preta que ele usava.
Tomou mais um gole da bebida que ainda exalava vapor e comentou voltando a olhar pra frente – com tudo isso. Com você.
O comentário por algum motivo fez meu estomago gelar. Contive minhas emoções e tentei parecer o mais tranquila em relação aquilo possível, mas a verdade era que eu não estava. Não mais. – Eu aprendi a me virar.
— Sei que aprendeu, – continuou sem me olhar ainda, – e mesmo que nos falemos apenas por Xtransceiver todos esses meses, eu consigo perceber o quanto você mudou.
— Mudei? – Eu sabia que tinha mudado, em muitos sentidos, mas queria ouvi-lo dizer. Queria saber qual era a visão que ele tinha de mim.
Ele se ajeitou, virando seu corpo um pouco mais na minha direção, fazendo seu joelho encostar-se ao meu e analisou meu rosto. – Você passou por muita coisa e não cabe mais a mim tentar te impedir de fazer qualquer coisa que você queira fazer. Eu sei que você é capaz. Mas não confio no resto do mundo Haila.
Eu podia sentir o hálito quente dele em meu rosto, tamanha nossa proximidade. Ouvir aquilo dele me fez esquentar, ouvir que ele confiava em mim mesmo depois de tudo, de Simi, era uma sensação estranhamente reconfortante.
Tomei um gole do meu chocolate e esperei a sensação do liquido me aquecendo por dentro. Apesar de tudo parecer bem eu ainda sentia o impulso de voltar para o hotel. Skyla, Roxie e Cheren deveriam estar reunidos naquele momento decidindo o que fazer, pra onde ir.
Novamente não havia pista, apenas pequenos rumores sobre os lendários. Icirrus era a escolha obvia para as buscas cinco dias antes, quando o incidente com Keldeo acabara de acontecer. Mas agora...
O corpo do Pokémon tinha sido mandado para a Professora Juniper na esperança de algo pudesse dar indicio de onde ele vivia, ou de como encontrar o restante dos lendários. Porem depois de todos os dias era como se a Team Plasma tivesse novamente desaparecido.
A lembrança de Jaden atacando Iris, Deidran e o Zoroak eram como uma adaga cravada no meu peito que doía a cada pulsação, a cada respiração, a cada pensamento. E por mais que eu estivesse lutando para deixar isso de lado, fingir que estava tudo bem, que eu podia continuar mesmo com tudo isso, a cada dia ficava mais difícil.
A lembrança da forma como a Team Plasma controlara Cobalion fazendo indiretamente matar Keldeo brutalmente diante dos nossos olhos era perturbadora. Meu estomago chegava a revirar quando eu me lembrava da expressão tranquila no rosto dos generais da Team Plasma diante de tudo aquilo.
— Mudou, – Cilan repetiu me chamando de volta a realidade que a cada momento parecia mais distante. – Suas motivações. Eu sinto que a raiva ainda queima dentro de você, mas agora é diferente. Você parece diferente. Eu só sei o que você me conta do que tem vivido, apenas isso. Imagino que deva esconder às partes que provavelmente me fariam vir te buscar e te levar pra casa a força, mas Haila... – ele fez uma pausa, parecia ansioso, como se precisava mesmo dizer aquelas coisas. – Eu estou acompanhando tudo o que está havendo de longe e sei o risco que está correndo. Eu só preciso que você fique bem. Precisava vir aqui e olhar pra você pra ter certeza de que você vai ficar bem. – Ele bufou e parecendo agora frustrado – e eu não estou mais falando coisa com coisa.
— Você conseguiu o que precisava?
Seus olhos dançaram pelo meu rosto mais uma vez, com seus lábios entre abertos. Eu podia sentir seu hálito ainda. Pasta de dente e chocolate. – Nunca vai ser o suficiente, – respondeu sorrindo sem graça, – mas algo me diz que eu devo confiar em você.
— Sinceramente não sei como ainda consegue, – a vergonha continuava ali, mesmo depois de tanto tempo.
A expressão dele se tornou mais dura e algo em seu olhar denunciou o desconforto com o comentário, – você ainda acha que eu tenho raiva de você, pelo que aconteceu a Simisage?
— Não, – respondi depressa, – não acho que sinta, eu acredito que você realmente se importe comigo. Só não consigo ver o porquê – e essa era a verdade.
Ele passou a mão no cabelo, ajeitando o topete verde e ponderou antes de falar, – às vezes um tempero tem o cheiro forte, mas seu sabor é suave.
— E claro isso é muito útil para o momento, – respondi meio frustrada.
Ele parou um pouco e franziu o cenho, depois tornou a falar, – eu sei que deveria Haila. Deveria sentir raiva de você, deveria colocar a culpa nos seus ombros e te odiar todas as vezes que sinto falta dele, mas eu não consigo. – Fez uma pausa e umedeceu os lábios, – eu ouvi dezenas de vezes a história de como Simi morreu e por mais triste que toda essa historia seja, eu não conseguiria imaginar atitude diferente dele.
“Simisage sempre foi mais corajoso do que eu. Sempre se arriscou pelas outras pessoas e Pokémon e ele sempre o faria, – me encarou com firmeza, não havia duvida em seu olhar, – ele não estava feliz com o estilo de vida que estava levando. Preso, servindo mesas. Simisage era um guerreiro, essa era sua natureza. E assim como foi escolha dele ir com você, também foi se enfiar debaixo daquela roda gigante para salvar a vida de um Pokémon que ele mal conhecia. E eu o amo ainda mais por isso.”
— Entendo – foi o que eu consegui responder. Não tinha mais nada a ser dito.
— Só pra que você saiba, – ele disse fazendo uma cara meio feia, – Tom pediu pra te dar os parabéns e avisar que não pode vir por causa das responsabilidades de Ranger.
Dei de ombros e não fiz questão de esconder o tedio, – azar o dele.
Cilan deu uma risada abafada com o comentário e se afastou, retirando uma caixinha do bolso. Ela estava recoberta por um papel de presente branco com bolinhas rosadas e um lanço amarelo. – Não é muita coisa, mas achei que você poderia gostar.
A caixinha não era muito maior que o meu punho. Desfiz o laço e desembrulhei o presente com calma, apesar da ansiedade que tinha surgido. Era uma caixa preta aveludada, de formato retangular.
Ele a apoiou com a mão direita e a abri. Dentro dela havia um colar prateado com um pingente e acabei ficando ainda mais surpresa quando reparei o que era. – Uma Leaf Stone? – Ou pelo menos representava uma, tão pequena e delicada que parecia que o pingente se partiria se eu a segurasse, não deveria ter mais que o tamanho de uma unha. Mesmo assim eu segurei e lá estava ela.
— Como eu disse, não é muitas coisa, mas acho que combina com você, – ele a pegou das minhas mãos e perguntou, – posso?
Fiz que sim com a cabeça e ergui um pouco meus cabelos. Não havia tantos mais para serem erguidos, mas eles tinham crescido depressa e já tocavam quase meu queixo. Ele deu a volta e passou gentilmente o colar ao redor do meu pescoço, prendendo por fim.
Passei a mão pela corrente e admiti quase em um sussurro, – linda.
— Linda mesmo, – a voz de Desmond fez com que eu e Cilan os olhássemos assustados. Lila, Dee e ele estavam parados na nossa frente, nos encarando.
— Como você consegue aparecer sempre que as pessoas estão tendo conversas importantes? – Perguntei raivosa. Eu poderia mordê-lo se aprendesse o Bite.
Lila se jogou do meu lado no sofá, exatamente onde Cilan estava sentado e se ajeitou me fazendo deseja-la morta por um segundo ou dois. – Eu não faço isso – ele negou ríspido.
Dee limpou o suor da testa e se intrometeu, – na verdade sim. Lembra-se de Lentimas? Eu e Haila depois da briga? Reencontro.
— Aquilo foi um caso a parte.
— Deu pra ver isso hoje, – Dee respondeu parecendo satisfeito consigo mesmo por encontrar uma brecha.
— Estão todos contra mim hoje? – Ele não pareceu satisfeito.
— Eu sempre estou contra todo mundo, – comentei com um tom irônico. – Lila ama todo mundo e Dee, bem... É o Dee. – Deedee confirmou com a cabeça como se tivesse satisfeito por não ser rotulado, mesmo esse sendo seu rótulo.
=8=
O dia se arrastou. Primeiro o bolo no quarto, depois a casa de jogos, almoço em um restaurante, tarde no cinema e quando a noite finalmente caiu e a temperatura baixou eles decidiram que os planos de comemoração continuariam no hotel.
Eu estava me esforçando para parecer satisfeita com tudo o que eles estavam fazendo por mim. Sorrindo quando uma piada era contada, ou apesar tentando manter minha linguagem corporal e expressão leves. Mas era engraçado afinal eu ter passado a maior parte do meu aniversario tentando agradar aos meus amigos.
Assim que atravessamos as portas automáticas para o saguão do hotel eu me senti aliviada, como se um ombro finalmente fosse retirado dos meus ombros. Estava de barriga cheia e com as bochechas rosadas por causa do frio e só conseguia ver minha cama em meus pensamentos.
— Acho que podemos ir até o jardim de inverno que Roxie comentou – Deedee sugeriu andando na frente, em direção ao elevador.
— Aquele que fica no telhado? – Perguntei incrédula. O vento frio cortante me veio à mente na hora.
— Eu acho uma ótima ideia, – Desmond comentou, colocando as mãos na nuca, de forma preguiçosa.
Engoli o que tinha verdadeiramente a dizer e sorri, enfiando as mãos no bolso da calça. Lila estava agarrada agora a Cilan, querendo saber tudo sobre a vida dele como líder de ginásio. Pegamos o elevador e todos eles ficaram em silêncio, enquanto subíamos. Até mesmo Lila, que balançava seu corpo para trás e para frente.
Era fácil notar que tinha algo errado envolvendo aquilo. Deedee não me olhava nos olhos, Des lia um panfleto preso à parede e Cilan encarava o chão. – Contem-me, o que tem de tão importante no telhado?
— A vista – Desmond respondeu.
Ao mesmo tempo em que Lila disse – Coisas.
— Nada – Dee fechou o coro.
Cilan acabou sorrindo e as portas do elevador finalmente se abriram. Num primeiro momento só senti a brisa gelada entrando no elevador, mas em seguida percebi que além de realmente haver um jardim de inverno com dezenas de plantas que eu desconhecia, o lugar estava completamente decorado.
Luzes tinham sido colocadas nas vigas que faziam parte da estrutura do Jardim, uma mesa cheia de comida e bebidas que exalavam valor e um cheiro adocicado, ao lado de chapeuzinhos ridículos de festa. E Roxie ladeada por Cheren e Skyla, vestindo grossas roupas de inverno, sorrindo até as orelhas.
— Feliz aniversário – disseram quase em uníssono.
Tive que me esforçar para continuar usando a mascara de felicidade e surpresa que mantive o dia inteiro. Recebi os abraços de Skyla e Roxie com todo o calor que consegui representar e o aperto de mão sem graça de Cheren com um sorriso estampado no rosto.
Tomamos chocolate quente. Comemos Brownie, bolo e cookie. Falamos sobre assuntos aleatórios e rimos das eventuais lerdices de Lila ou comentários descabidos de Desmond até que começamos a ficar largados pelas cadeiras estofadas do Jardim.
Aproveitei para fugir um pouco e fui em direção ao parapeito, onde Roxie e Dee estavam olhando as luzes da cidade. O hotel dava uma ótima vista para o restante da cidade e passava uma sensação quase irreal de tranquilidade.
— ... Estava com uma vontade enorme – ouvi Roxie dizer, chegando no meio da conversa.
— Vontade do quê? – Perguntei me intrometendo. Mãos nos bolsos e agora touca da blusa na cabeça, assim como os outros dois. Sem a proteção do vidro do Jardim, o vento castigava o rosto.
— Brownie – Dee respondeu. – Eu não comi desde o meu aniversário e aparentemente Roxie nem lembra que isso existia até comer mais da metade da bandeja hoje.
A líder sorriu, dando ainda mais evidencia ao seu nariz vermelho, como se estivesse orgulhosa do seu feito de gulosa. – Não que eu faça regime, mas é bom fugir um pouco da alimentação saudável.
— Lugares assim só dão vontade de comer e dormir, – Deedee comentou se encolhendo ainda mais dentro das roupas.
— Acho que quando tudo isso acabar vou vir pra cá e dormir uma semana, – admiti olhando as luzes dos poucos carros na rua àquela hora da noite, num dia tão frio quanto aquele.
Dee concordou, – acho que posso te acompanhar.
— Pois eu estou pensando em praia – Roxie comentou chamando nossa atenção.
Mesmo a líder tendo vindo de uma cidade litorânea, era estranho pensando nela vestida de biquíni em uma praia. A pele dela era tão branca que quase era possível ver o sangue correndo em suas veias.
Dee armou um sorriso maldoso no rosto e cutucou a líder, – Humilau? Quem sabe na companhia de Marlon...
A líder deu um soco no braço de Deedee que o fez vacilar e praticamente cair em cima de mim, o que acabou nos fazendo cair na gargalhada, – como se eu e Marlon tivéssemos qualquer coisa haver um com o outro.
— Os opostos costumam se atrair – Dee continuou corajosamente a caçoar.
Mas pela expressão da líder ela não estava nada a fim de continuar aquele diálogo. Então aproveitei a situação para puxar o assunto que me interessava, – vocês tem qualquer nova pista sobre os lendários restantes?
Deedee parou de sorrir e me olhou meio preocupado, seguido pelo olhar confuso de Roxie, – é seu aniversário, não pense nessas coisas.
— Saber em que pé está às coisas me acalma, – tentei convence-la com a verdade. – Quanto antes isso terminar, mais rápido estarei longe disso tudo. Qualquer nova informação que você tiver vai me tranquilizar
Ele balançou a cabeça positivamente, mesmo parecendo relutante, – infelizmente não saímos muito do ponto onde estávamos. Quanto a Unova, estão comentando que é provável que uma intervenção militar será tomada se as coisas continuarem dessa forma.
— Exército contra a Team Plasma? – Dee não pareceu surpreso realmente, apenas como eu queria entender o que estava ouvindo.
— Pressão das outras regiões. O caso de Opelucid acabou sendo noticiado no mundo inteiro. Uma cidade inteira saindo do mapa por causa de um grupo extremista da audiência, – revirou os olhos. – Está havendo muita pressão externa em cima do nosso governo para tomar atitudes e é provável que o presidente tenha que ir para Castelia a qualquer momento para decretar finalmente uma guerra em Unova. Ou ceda a pressão e permita que outras regiões enviem forças especiais para tratar com a Team Plasma.
Ergui as sobrancelhas ainda com dificuldade de processar tudo aquilo. – E seremos obrigados a aceitar intervenção de outros países? É ridículo. Parece que eles não acreditam que não podemos resolver nossos próprios problemas.
— Haila, infelizmente estamos pagando o preço por experiências ruins vividas em outras regiões – ela não parecia nada feliz com aquilo também.
— Do que você está falando? – Dee quis saber. Eu fazia uma ideia, mas também teria perguntado se ele não tivesse feito.
Roxie olhou para trás rapidamente e depois nos lançou um olhar preocupado, – outros grupos já deram prejuízo de milhões e apavoraram governos em outras regiões. A Team Plasma não é a única organização “do mal” no mundo – fez os gestos de aspas com os dedos. – Organizações como a Equipe Rocket, que vocês já devem ter ouvido falar, chegaram ao ponto no passado de ter integrantes no mundo inteiro. Roubando Pokémon de todos os lugares e machucando centenas de pessoas inocentes.
Dee fez um som como se estivesse entendo o peso da nossa conversa e recapitulou; – Então eles temem que a Team Plasma fica poderosa o suficiente para ultrapassar os limites das nossas fronteiras e virem uma ameaça mundial? É isso?
— Bem por ai, – ela concluiu infeliz.
Nem mesmo nos meus piores pesadelos eu podia imaginar que a Team Plasma representasse tão grande perigo. Era algo que deveríamos exterminar rápido, antes que eles que eles sonhassem em espalhar sua ideologia sangrenta pelo resto do mundo.
— Faz sentido. Afinal, o que eles almejariam depois de dominar Unova? – Dee admitiu suspirando.
— Vamos botar fim nesse assunto. Estou cansada de falar da Team plasma, ainda num momento em que deveríamos estar comemorando que depois de fazer tudo o que você fez ainda esta viva. – Roxie reclamou se virando de costas para o parapeito.
— Comemorando a sobrevivência de um mesmo com tantos mortos pelo caminho? Me parece um pouco mórbido – rebati.
Seus lábios se comprimiram se tornando uma linha fica por um instante e seu olhar endureceu de uma forma que eu não estava acostumada a presenciar, – se não quer fazer isso por si própria, faça pelos seus amigos, – olhou em direção ao Jardim fechado atrás de nós. – Eles estão sorrindo, quer ir lá e dizer o quão mórbido está achando isso aqui e mandar todos pra suas camas?
Senti o nó na garganta instantaneamente. Não importava o quão mal eu estivesse me sentindo, ou achasse que estava. Não importava se eu estava cansada de fingir o dia todo. Eu seria muito egoísta se retirasse minha mascara estragasse o primeiro momento que eles tem de felicidade depois do que vivenciamos com Cobalion.
Algumas mascaras tinham sido feitas para não ser tiradas.
— Não, não dessa vez. – Roxie me encarou por mais um momento antes de nos das às costas e voltar para a proteção do Jardim de inverno.
— Ela não precisava ter reagido dessa forma – Dee comentou acompanhando a líder de ginásio com olhar. Depois me encarou e não havia raiva em seu olhar, – eu te entendo. Todos aqui estão fingindo. Mentindo pra si mesmos, dizendo que tudo pode voltar a ficar bem, que a Team Plasma não causou tanto mal assim, tentando se agarrar ao que pode pra não ceder.
Eu estava surpresa pelo desabafo. Só então pude entender que o que eu estava fazendo não era nada especial, porque naquele dia todos ali estavam fazendo o mesmo. E enquanto eu estava embolada na minha nuvem de altruísmo não consegui enxergar que aquilo era o que as pessoas faziam diariamente. Vestiam seus sorrisos e encaravam o mundo para torna-lo um lugar melhor, mesmo que por dentro estivessem destruídas.
Dei um passo grande pra frente, o suficiente para conseguir alcançar Dee e o abracei com força, como não fazia a tanto tempo que sequer conseguia lembrar-me qual fora a ultima vez, fechando os olhos e sentindo seu cheiro. Ele se assustou no primeiro instante, mas logo sorriu e retribuiu, me envolvendo nos seus braços.
— Obrigado.
— Pelo que? – Ele perguntou ainda abraçado a mim.
— Por ser meu melhor amigo. Ser quem você é. Não sei o que faria da minha vida sem você December Charleston – ele não respondeu apenas me abraçou mais forte, mas não precisava. Eu sabia que ele não era muito bom com essas coisas.
Quando abri os olhos Cilan e Desmond nos olhavam por outro lado do vidro com expressões indecifráveis. Me separei de Dee e o convidei a voltar, – acho mesmo que esta na hora. Estou virando um picolé – ele comentou esfregando as mãos uma na outra.
Passamos até tarde conversando ali e por mais que parte das risadas fossem exageradas, que alguns sorrisos não fossem tão espontâneos quanto aparentavam, a noite acabou se tornando surpreendentemente agradável e o meu aniversario não fora passado em branco.
Cilan acabou indo dormir no quarto dos meninos ao lado, enquanto os lideres foram para os andares superiores. Aquela seria a ultima noite deles ali e provavelmente a nossa também. Era hora de dar o próximo passo a caçada. Fosse lá o que isso significava.
=8=
Eu estava sonhando com Nimbasa. A roda gigante ainda estava de pé e crianças brincavam em volta do balão em formato de Pikachu. O ginásio antigo estava em pleno funcionamento e pessoas se aglomeravam na porta para ver o que tinha dentro.
Me enfiei no meio do tumulto e consegui ultrapassar as portas do ginásio, mas já não estava no ginásio. Estava no restaurante de Joslyn e ele estava em chamas, eu apenas sabia que precisava tirar os Pokémon de lá enquanto tinha tempo, as suas Pokéball tinham desaparecido no fogo.
Foi quando eu abri os olhos assustada, meu coração estava acelerado, minhas cobertas no chão e meu corpo suado. Lila devia ter deixado à calefação muito alta. Rolei na cama e me levantei meio desorientada. O quarto estava escuro, apenas iluminado pela luz azul emitida carregador do Xtransceiver de Lila.
Foi quando vi a sombra na porta, havia alguém ali, de braços cruzados, encostado a porta. Dei um salto para trás como reflexo, me jogando contra o criado mudo que separava minha cama da de Lila.
— Quem...? – Perguntei sem reação, praticamente sem voz. Meu braço procurou instintivamente a cordinha que servia para acender o abajur e o quarto se iluminou o suficiente para que eu reconhecesse a forma que se escondia na penumbra.
Jaden estava sorrindo. Seus olhos estavam escuros pela falta de luz. Usava um longo sobretudo preto , mostrando orgulhosamente o brasão da Team Plasma do lado direto. – Achei que me reconhecia com mais facilidade, Haila.
Lila gemeu na cama e acordou, olhando para Jaden sonolenta. – Quem é ele?
— Meu irmão – Respondi e senti as palavras cortarem ao passarem pela minha garganta. Era novo estampado em cada silaba.
A garota deu um pulo e ficou praticamente ajoelhada sobre a cama, – o malvado?
— Então é assim que você me chama pelas costas? – Ele perguntou erguendo as sobrancelhas da forma como sempre fazia quando ficava realmente surpreso por algo. Mas aquele dia tinha me ensinado que as aparências podiam me enganar.
O irmão que eu tive não era aquele garoto. O Jaden que eu amava nunca concordaria em se juntar a uma organização como a Team Plasma por causa de seus meios, mesmo que ele concordasse com a ideologia. Não importa quem fosse aquele garoto e o que ele pensasse que significava pra mim. Jaden pra mim estava morto e eu não ia hesitar.
Puxei a Pokéball do bolso da minha calça que estava em cima do criado e libertei Couve-flor a alguns centímetros de mim. – Eu o chamo de extremista psicótico. Assim como todo o resto do grupo que você faz parte. Agora, o que vocês fizeram com Lenora?
Ele sorriu, um sorriso de satisfação pleno. Eu odiava o conhecer tanto. – Você está perfeita. Exatamente como pensei que estaria.
— Obrigada, irmãozinho. Vou ter que perguntar de novo ou te furar com as folhas cortantes do meu Pokémon?
— Sabemos que você não faria isso...
Antes que ele pudesse terminar a frase eu dei o comando, – Couve-flor, a nas pernas.
O Pokémon reagiu de imediato, exatamente como nos treinamentos. Se Leaf era boa usando os chicotes, Couve tinha mostrado uma mira impressionantemente precisa com as folhas cortantes.
Uma rajada foi atirada contra as pernas de Jaden, mas se chocou violentamente contra uma parede luminosa, que apareceu apenas por um segundo. Das sombras, flutuando atrás de Jaden surgiu um Alakazam que se mantinha praticamente invisível na escuridão.
Seus olhos brilharam tão intensamente que por um instante pareceram faróis de um automóvel preenchendo o quarto. Lila gritou assustada com a visão e se jogou para fora da cama, agarrando meu braço com força.
O sorriso de Jaden se alargou até se tornar uma risada contida e então uma gargalhada. – Aparentemente você cresceu mais do que eu esperava.
— Nem um centímetro – rebati, – vou precisar perguntar de novo ou você percebeu que eu realmente estou a fim de ter machucar? Muito se for preciso.
— Você acha mesmo que está em condições de ameaçar aqui irmã? – as feições dele mudaram, mas ainda havia divertimento claro na sua expressão. – Eu não vou precisar te explicar o efeito do Protect de Alakazam, terei?
Serrei os punhos, meu sangue estava começando a ferver em minhas veias. Ignorei completamente o frio que estava sentindo na barriga e me foquei nesse sentindo, vestindo a expressão que precisava usar naquele momento. – Acho que foi você quem cometeu um erro invadindo meu quarto. Você só sairá daqui agora acompanhado dos Policiais.
Dei um passo para trás e aproveitei a embolação das minhas roupas para apertar os botões do meu Xtransceiver.
— Quem você vai chamar pra te ajudar? – Ele perguntou inclinando a cabeça. É claro que aquilo não funcionário duas vezes. – Achei que você não gostasse de ajuda. – Estendeu o braço na minha direção e comandou – Alakazam, destrua o brinquedo da minha irmã.
Senti algo estranho, como uma energia, mas nada realmente invasivo e vi o Xtransceiver ser envolto por uma aura luminosa assim que os olhos do Pokémon voltaram a brilhar. Como se fosse esmagado o aparelho começou a se amassar e rachar, seguindo de estalos agudos, até parecer apenas uma bola de papel jogada fora.
— Se você me conhecesse sabia que eu vou te bater muito por ter quebrado isso, – ameacei evitando pensando no que aquele Pokémon poderia fazer comigo. – Ele não custou barato.
Ele ainda continuava com seu sorriso ostentado no rosto, mas algo na sua expressão parecia diferente, como se não estivesse satisfeito como rumo da conversa. – Você nunca conseguiu ganhar uma briga sequer nossa, o que a diz que poderia fazer isso agora? – Cuspiu as palavras sem a diversão que lhe acompanhava desde que aquela palhaçada tinha começado. – Aparentemente você ainda precisa enxergar as coisas do meu modo – estendeu o braço na minha direção, – venha. Eu vou te mostrar.
Respirei fundo tentando me acalmar o máximo possível e dei alguns passos para frente até conseguir chegar perto o suficiente para toca-lo e segurei sua mão com a minha esquerda. Seu toque era quente e macio assim como eu me lembrava. Pude ver a expressão dele se abrandando e um pequeno sorriso, desta vez mais sincero, brotar em sua face.
E a satisfação foi ainda maior por isso, quando posei todo meu peso sobre meu braço direito e acertei de punho fechado o espaço entre os olhos de Jaden. Ele arfou de dor e cambaleou para trás com violência. Seguindo o extinto meu punho voltou a subir e as lembranças do Team Plasma sentado sobre mim em Opelucid, me socando voltaram como uma flecha, cravando no meu peito. A raiva queimou como o inferno dentro de mim, e eu voltei a socar.
Mas antes que eu pudesse encostar de novo em Jaden os olhos do Alakazam brilharam. Senti aquela presença novamente e meu corpo foi envolto pela luz. E assim como quando fui pega pelos policias em Driftveil City meu corpo foi completamente dominado por aquela energia.
Lutei por um segundo para me libertar, mas era tarde. O Pokémon me arremessou com força contra o criado mundo. Bati com forças minhas costas e senti o ar escapar dos meus pulmões. O abajur explodiu em faíscas enviando o quarto para penumbra, enquanto eu caiu no chão de joelhos, tossindo incontrolavelmente buscando respirar.
Lila gritou de novo, se jogando no chão para me amparar, enquanto Jaden ainda gemia por causa do golpe recebido.
E sem qualquer tipo de comando Couve-flor emitiu um som, diferente de tudo o que eu já o vira fazer e ouvi o som das folhas sendo lançadas. Os silvos preencheram o quarto, acompanhados do som oco das folhas se chocando contra a parede invisível.
Um vergão estava se formando nas minhas costas e eu podia senti-lo começar a queimar. Deveria ter o tamanho da quina da mesa e ficaria uma marca horrível posteriormente, se eu conseguisse sair daquele quarto.
Quando a luz se acendeu meus olhos queimaram e Couve-flor parou, se voltando pra mim. Eu estava ainda no chão com Lila me abraçando como se eu precisasse de tanta ajuda. Jaden cobria o local onde eu o acertei com uma das mãos e balança a outra, como se o movimento aliviasse a dor.
— O que você quer? – Gritei furiosa, ainda tomada pela dor. Mas me forcei a levantar, me focando no monstro atrás dele. Eu não sabia como vencer um Pokémon Psychic. Ataques Dark, Bug e Gost tinham vantagem. Que legal, Couve-flor não sabe nenhum.
Ele parou de gemer e me lançou um olhar curioso, sem qualquer raiva estampada nele, – se você não sabe ainda está pronta.
— Pronta para o que? – Gritei de novo tentando chamar o máximo de atenção possível para o quarto.
— Faça me o favor Haila. Vai mesmo me enrolar? Eu te acompanho há um tempo, sei que é muito mais esperta do que isso.
Uma onda de pavor correu pelo meu corpo por um segundo, mas eu ainda estava fingindo e desta vez muito bem. – Desde quando você está me vigiando?
— Desde que você teve o azar de presenciar a buscar de Nimbasa, – ele pareceu contente em me contar aquilo, como se estivesse animado em eu saber daquilo. Tudo que eu sentia era nojo. – Eu sabia que você tinha saído de casa como eu planejava, mas só consegui encontra-la quase dois meses depois.
Era muita informação de uma vez. Ele estava mesmo em Unova aquele tempo todo. A professora Juniper tinha reagido estranhamente ao saber quantos Pokémon eu tinha capturando usando Pokéball registradas no nome de Jaden na região. Ele nunca sequer tinha saído de daqui.
Mas havia um assunto que eu não podia mais evitar, mesmo não sendo tão importante quanto às intenções dele quanto Team Plasma. – Claro, exatamente como seu plano e de nosso pai. Vocês me parecem exatamente iguais.
Ele cerrou os punhos e deu um passo a frente, sua expressão endurei depressa deixando transparecer completamente a fúria que tinha tido inicio dentro dele. Ou é claro aquilo apenas fazia parte do circo que ele queria montar, sabe-se lá por que.
— Ele e eu não somos nada parecidos, – disse quase como em um rosnado. Sua voz tinha ficado grave e alta, como eu nunca tinha visto antes e isso deixou as coisas ainda mais fáceis.
— Não, realmente. Apenas a cor do cabelo, da pele, dos olhos, o queixo... – eu poderia enumerar a noite inteira. – São farinha do mesmo saco e vão para o mesmo lugar, pra bem longe de mim. Onde eu nunca mais precisasse ver a cara dos dois na vida. Eu tenho nojo de vocês. Nojo.
Ele passou a mão no rosto e forçou um sorriso, mas não tinha contentamento em seus olhos, apenas antipatia. – Eu o odeio tanto quanto você. Ele me tornou o que eu sou hoje.
— Claro, a culpa é sempre dos pais não é mesmo? Seria engraçado se a outra filha do casal, de praticamente a mesma idade, não se juntasse a um grupo extremista responsável pela morte de dezenas e vestisse roupas de palhaço pelas ruas dizendo que humanos e Pokémon não devem viver juntos. – Dei uma risada irônica, – faça um favor a si mesmo Jaden, auto piedade não combina com esse seu rostinho bonito.
— Cuidado, Haila – Lila pediu e só então me lembrei da sua presença dentro de quarto. Eu não temia por mim, apesar da presença assustadora constante do Alakazam, mas eu não podia permitir que Jaden a machucasse.
— Haila, eu sei o que ele te disse, – ele parecia estar tentando se acalmar, parecia tentar acalmar a raiva dentro dele, mas eu sabia muito bem o que era aquilo e conseguia notar o quão grande era o esforço dele, porque nisso ainda éramos iguais. – Como você acha que sairia daquela casa? Você acha mesmo que Magnus te deixaria simplesmente fugir assim? Ele iria atrás de você até os confins da terra.
— Ai você resolve brincar com a minha vida e se tornar Arceus, apostando quanto tempo à garotinha indefesa aqui sobreviveria fora de casa? – Eu não sabia mais o que estava sentindo, só sabia que estava a ponto de explodir. A dor nas minhas costas ainda era gritante e só então notei que meu braço tinha um corte que sangrava. Provavelmente vindo da lâmpada do abajur.
Ele ficou em silêncio por um segundo, provavelmente escolhendo as palavras corretas, e depois continuou com a voz o mais tranquila possível. – Eu fiz o que foi preciso fazer, disse o que aquele desgraçado precisava ouvir. Acreditei que você encontraria o seu caminho e quando estivesse forte o suficiente eu voltar a te encontrar.
Eu precisava estender aquela conversa o máximo possível, precisava gritar e chamar atenção porque sozinha eu não conseguiria detê-la e Lila nesse momento era completamente inútil. – Você queria ajudar a si mesmo, você é um monstro egoísta. Não finja que se importa por que você não o faz – continuei e me surpreendi com a facilidade em dizer aquilo. Porque simplesmente era verdade. – Você queria que eu saísse de casa com as suas Pokéball para esconder sua presença na região. Para que pudesse capturar Pokémon e ninguém desconfiasse que o filho perfeito de Magnus Gray era um psicopata extremista.
— Cada vez você soa mais ridícula, – ele respondeu ainda com o mesmo som tranquilo e isso me irritava ainda mais. – Criando hipóteses vitimistas para fugir da sua realidade. Você sabe que não foi feita para aquele lugar como sabe que uma parte de você está tentada a acreditar no quanto eu me importo com você. E sabe por que isso te enfurece tanto? Porque é verdade.
— Chega dos seus joguetes, você nunca me soou tão piegas – cuspi as palavras, mas algo dentro de mim gritava que aquilo era verdade e se preguntava o que mais poderia ser. – Vamos fazer o que sabemos que uma hora vamos acabar fazer, lutando, irmão.
Ele me olhou estupefato, até seus lábios se abriram um pouco de espanto. – Eu já disse Haila, não vim aqui essa noite pra isso. Vim pra ver se estava pronta.
— Pronta para o que?
— Havia sempre um agente da Team Plasma próximo a você, te vigiando a meu pedido, porque eu precisava esperar que você ficasse mais forte. Que compreendesse o mundo e suas injustiças. Que percebesse até onde as pessoas podem chegar pelo que acreditam...
— Seu discurso está lindo, mas vamos abreviar – me adiantei, dando uma risada realmente divertida, lotada de ironia. Depois de tudo o que vivi, de tudo o que eu passei, a vida tinha me mostrado que eu não deveria duvidar de nada, principalmente das pessoas. Eu sabia o que ele queria, – você não acha mesmo que eu vou me juntar a você irmãozinho, acha? – Pude ouvir Lila arfar do meu lado, em choque pela constatação. Era apenas um tiro no escuro, mas parecia ter surtido efeito.
Os olhos dele se arregalaram e seus punhos se fecharam com força ao lado do corpo, – Você vai. Vai sair daqui comigo agora e eu vou te mostrar tudo o que você precisa ver e sua opinião vai mudar.
— Vou mesmo?
— Vai – ele respondeu abrindo de novo as mãos.
— Ou o que? – Eu serrei os meus com ainda mais força, os erguendo a altura do peito. Estava pronta para lutar.
Ele sorriu, apenas parte do lábio dele pelo menos. Eu podia estar jogando bem até ali, mas me esqueci por um segundo que a Team Plasma não gostava de jogar com regras e meu irmão agora era um deles. – Eu vou quebrar todos que você ama. Um por um... Alakazam.
Os olhos do Pokémon se iluminaram e quase não houve tempo para reação. Me virei para Lila a tempo de ver seu corpo ser envolto pela aura luminosa e nossos olhos se encontrarem cheios de pavor. Ela foi arremessada com violência contra a janela, partindo-a em dezenas de pedaços de vidro e madeira.
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