Notas iniciais
-- Julio, são 20 horas já, achei que não ia mais postar. Você já amanhece publicando. Culpada foi essa segunda-feira com cara de sábado. Dormi até tarde, depois dei uma saída e deu ruim pra mim, Cheguei em casa bebendo trocentos litros de agua, tomando um banho e acordei agora a pouco. Se não fosse minha conversa diária com Tia Chibieska da fic (sim, conversamos todos os dias sobre o enredo [somos dedicamos e amamos os personagens]) eu nem ia me lembrar que tinha que postar. Bem, chega de papo, espero que gostem.

Haila

IMPASSES

— Então o que faremos? – Perguntei a Dee. Estávamos sentados no saguão do Centro Pokémon. Lila, ele e eu. – Roxie tinha liberado Deedee, de alguma forma parecia que o garoto finalmente conquistara sua confiança.

Deedee passou a mão no rosto, estava cansado depois do Contest. Não poderia ser diferente, depois do seu ótimo desempenho gastei parte das minhas ultimas economias para sair para comemorar. Fartamo-nos em um restaurante do píer e passamos horas papeando na praia.

Eu sentia falta disso, de tê-lo por perto, brincar, sorrir sem motivo. Gostava de Lila e seu jeito engraçado e às vezes irritante, e gostava até mesmo de Roxie, apesar de ela achar que também me dominava. Era bom não ter que me preocupar.

— Parece que o Xtransceiver dela está sem sinal – comentou me encarando, – mas eu já avisei que partiríamos hoje. Não sei ao certo se ele ainda está tentando convencer Caitlin a entrar na caça aos lendários, ou se ela está a importunando só por prazer a essas alturas.

— Quanto tempo demoraríamos para ir até lá?

Enquanto eu virava meu corpo para pegar o mapa dentro da mochila, Lila se pronunciou – não mais que um dia de viagem.

— Você conhece o caminho? – Dee perguntou curioso.

— Acho que esqueceu qual é minha cidade natal – respondeu com um ar importante. Os Psyduck que estavam agarrados a suas pernas fizeram um som engraçado em concordância, dando ainda mais importância ao comentário.

Mesmo assim peguei o mapa. Havia estradas que levavam até lá, poderíamos pegar um ônibus, ou até mesmo o metrô. – Acho que o Metrô é a forma mais rápida e barata...

Lila me interrompeu, fazendo um som de desaprovação com a boca – achei que estivessem sem dinheiro, às trilhas pela floresta nos deixarão lá rapidinho.

As trilhas cortavam o caminho passando diretamente pela floresta, num caminho quase reto até Humillau City. Enquanto a estrada dava a volta por quilômetros de praia. Mesmo assim Lila não parecia exatamente alguém que conseguia se orientar bem. – Acho que seria mais prudente se fomos de Metrô, não é tão caro e...

— E é dinheiro jogado fora – me interrompeu novamente. Abraçou Dee com um braço e o puxou para perto de si, antes que eu pudesse escapulir o mesmo aconteceu a mim, – vamos amigos. Vai ser incrível! Um passeio ao ar livre seria revigorante e todos nós precisamos disso.

=8=

— Seria revigorante, ela disse – Deedee estava mal humorado e com razão. Lila tinha nos enfiado em um mangue. Estávamos com as pernas atoladas na lama, cansados, famintos e perdidos há horas. Corphish, Pokémon crustáceos com carapaças alaranjadas, já estavam ficando nervosos com nossa presença, não demoraria para que um deles resolvesse nos atacar.

Olhei para o relógio no Xtransceiver no meu braço, já eram duas e meia da tarde. Cinco horas desde que partimos. – Da próxima vez eu vou na frente – propus já sem paciência.

— Melhor não. Lembra do deserto? – Deedee interveio.

— Quer nos guiar então, senhor sabe tudo? – Fiz um gesto apontando para frente. Ele apenas sorriu de forma irônica em resposta.

A maré continuou a subir depressa e por pouco Lila não se afogou, depois de prender a perna em uma raiz mais alta. Conseguimos finalmente achar terra firme por volta de quatro da tarde, mas estávamos esgotados. Parecia sinceramente que eu não estava mais acostumada ao calor abafado praiano.

Depois de muita discussão e mau humor decidimos acampar na primeira clareira que encontramos. Definitivamente tudo o que eu queria era passar mais uma noite dormindo em uma barraca no chão da floresta.

Lila nos surpreendeu retirando uma mesa dobrável da sua mochila de viagem, sorriu pra gente e estendeu uma toalha laranja com bolinhas amarelas – sempre quis usar isso, mas nunca tive oportunidade.

— Isso não é um peso desnecessário? – Tive que questionar.

— Nunca é um peso desnecessário quando se trata de conforto para cozinhar.

E incrivelmente ela tinha mesmo talento. Usando a panela que estava no fundo da mochila Lila mexia uma mistura incrivelmente cheirosa. Visualmente não estava legal, mas se o gosto fosse tão bom quanto o cheiro eu teria que amarra-la a Deedee e oficializa-la como companheira de viagem.

Aproveitei para dar mais uma lida nos novos capítulos do livro da folha que estavam cada vez mais interessantes, explicando técnicas de batalha e agora revelando mais informação sobre leech seed.

Deedee estava sentado distraído com Abobora que por algum motivo deveria estar confundido o cadarço da nova bota do garoto com macarrão. Enquanto os outros Pokémon dormiam na grama ou brincavam entre si.

Me distrai na leitura durante algum tempo, tentando não pensar na fome até que Deedee me chamou a atenção. Sentou-se do meu lado e ergueu a pedra em sua mão. – Eu ganhei isso como premio no Contest – me contou. Era uma Sun Stone, eu podia reconhecê-la pela ilustração que havia nos primeiros capítulos do livro da folha. – Acho que você faria melhor uso dela.

— Você não pode ficar me dando coisas Deedee – tentei explicar empurrando a mão do garoto para o lado. – Esse é seu primeiro premio de verdade, eu não posso aceitar.

— Ela serve para evoluir o Couve-flor, certo? – Lançou um olhar discreto para o Pokémon que estava quietinho olhando Chamander e Bubassaur brincar com as orelhas de Lucario, que não parecia nada satisfeito com aquilo.

Seria legal que ele finalmente evoluísse para Sunflora. Sempre achei que Sunkern passassem por situações complicadas por serem tão pequenos. Não indefesos, Couve-flor tinha se mostrado incrível na batalha contra Elesa, eles conseguiam se virar muito bem.

— Sim, mas eu posso comprar uma em algum Mart ou algo assim – finge que não estava interessada nisso.

Ele deu de ombros – Haila, se não fosse você, eu nunca teria ganhado nada, sequer teria participado de algum Contest. Essa vitória é tão minha quanto sua. Afinal, você é minha orientadora.

Não consegui conter o sorriso – acho que posso dizer o mesmo. Eu nunca teria ganhado a insígnia de Elesa sem sua ajuda. – Tomei a pedra nas mãos e olhei novamente para Couve-flor. – Acho que eu devo perguntar a ele, – a decisão no fim das contas não era minha, mesmo se eu quisesse. Eu tinha aprendido a não passar dos limites com meus Pokémon, respeitar suas decisões e vontades. Eu apenas o faria evoluir se ele estivesse de acordo com isso.

— Acho que ele gostaria disso – Dee completou.

Caminhei até ele e me sentei ao seu lado na grama. Ele me lançou um olhar alegre e deu um salto em minha direção. Passei a mão no que deveria ser suas costas e ele fez um som baixinho como aprovação. – Você sabe o que é isso? – Ele olhou para a pedra nas minhas mãos e depois pra mim novamente. Se tivesse entendido não sabia o que era. – Ela te fara evoluir se você toca-la. Você se tornará um Sunflora. O que acha disso?

— Sunflora são engraçadinhos – Lila gritou. Estava parada ao lado do fogo ainda mexendo fosse lá o que estivesse naquela panela.

Coloquei a pedra no chão na frente dele e sorri – se você quiser só precisa tocar para evolui-la, mas quero que saiba que eu gosto de você de qualquer jeito. Deedee também – O garoto sorriu de lá também.

— Eu também gosto – Lila gritou fazendo uma cara constrangedoramente fofa.

Os Pokémon a essas alturas tinham parado o que estavam fazendo e encaravam Couve-flor curiosos. Menos Serpio. Ele ainda se mantinha mais distante dos outros Pokémon, enrolado em si mesmo. Leaf tomou à dianteira e veio caminhando depressa até nós, sentou-se na frente de Sunkern, a alguns centímetros da pedra e balançou a cauda animadamente.

Sunkern piscou bem devagar e me encarou uma ultima vez, antes de dar alguns pulinhos e encostar-se à pedra. Um instante depois os dois começaram a brilha. O corpo de Sunker começou a mudar, se esticar e crescer enquanto a pedras desaparecia, se desfazendo como areia. Seu rosto agora era um girassol de amarelo vivido, ganhara braços e até mesmo pernas de folha, além de estar mais alto do que a mim sentada.

Ele pareceu curioso, olhou seus braços, ergueu suas pernas e depois sorriu, me lançando uma expressão super feliz. Depois correu meio atrapalhado e me abraçou, enrolando suas folhas em mim. Emitindo um som que lembrava seu próprio nome “Flora-flora”.

— O guisado está pronto – Lila cortou o clima, tirando a panela do fogo, colocando-a sobre a mesa usando uma camisa como pano de prato. Ela não podia ter tudo ali.

Assim que colocamos ração para os Pokémon, nos fartamos. O dia tinha sido cansativo, mas por algum motivo eu não me sentia tão bem há muito tempo. Eu sentia falta de Corin, da minha mãe, de Simi. Mas por mais que eu tivesse vivido coisas horríveis, havia tido também muitos momento de felicidade boba como daquele fim de tarde. E eu estava bem com isso.

Bacon nos ajudou a acender a fogueira e nos deitamos ao redor dela logo mais tarde. Deixamos nossos Pokémon do lado de fora das Ball, e depois de horas de conversa jogada fora acabamos adormecendo daquele jeito mesmo. Abobora entrara no saco de dormir de Dee, e Bacon e Lucario se amontaram em cima dele. Os Psyduck se aconchegaram nas pernas de Lila. Leaf e Couve-flor deitaram atrás de mim. Apenas Absol, Peach e Serpio estavam distantes do grupo.

=8=

— Ouviu isso? – Uma voz distante falou. Um barulho terrível ecoou e meu coração acelerou. Me sentei depressa e me deparei com a fogueira quase apagada. Ainda estávamos no meio da noite e Lila e os Psyduck encaram as arvores atrás de nós.

O som voltou a correr pela mata e meu coração congelou. Eu o conhecia bem, era Serpio, ele deveria estar atacando alguém. Olhei em volta desesperada tentando me agarrar a ideia de que poderia ser outro, mas mesmo com pouca luz consigo ver que ele não estava mais no acampamento.

Dei um salto depressa e procurei meu tênis. O enfiei de qualquer jeito nos pés enquanto Lila acordava Deedee que dormia profundamente. – Leaf, comigo – chamei com urgência antes de começar a correr em direção à floresta.

Algum Pokémon estava sofrendo, ele só podia estar tentando devorar algum Patrat, ou talvez fosse o Pokémon de algum trainer, eu precisava chegar rápido. Tentei correr mais depressa, mas tropecei, Leaf estava junto comigo e Couve-flor também vinha meio atrapalhado atrás.

O chocalho em sua cauda começou a balançar, o som estava próximo. Desejei ter uma lanterna enquanto corria o mais rápido que podia em meio às arvores costeiras. Meu coração estava na boca. Eu odiava aquele som, odiava ter medo de Serpio, mas ele se dar bem com Leaf não tinha me isentado disso. As lembranças do ataque ainda estavam presentes, todas as marcas ainda estavam aqui.

Em uma subida leve poucos metros à frente reconheci o corpo em S de Serpio. Um Pokémon realmente estava sendo atacado, mas ao contrario do que eu imaginei não era nenhum Patrat, nem havia treinador. Serpio estava atacando um Deerling selvagem.

— Serpio – gritei depressa – pare.

Ele fez o som que vinha de sua garganta, um som cheio de raiva e antipatia. Deerling berrou e se arrastou, empurrando o corpo com as pernas traseiras. Ele deveria estar muito machucado, mas não dava para saber por causa da pouca luz.

Peguei a Pokeball de Serpio e tentei trazê-lo de volta, mas ele se esquivou depressa, dobrando o corpo para que o feixe não o acertasse. Depois se virou para mim e sibilou longamente de forma ameaçadora.

Meus músculos se enrijeceram e o sangue nas minhas veias pareceu ter esfriado, era como se metal liquido corresse dentro de mim. Quando meus olhos lacrimejaram e Serpio decidiu voltar sua atenção novamente para Deerling eu decidi tomar uma atitude.

Sai correndo e empurrei com as mãos o tórax de Serperior. O Pokémon fez um movimento brusco com a cabeça e me acertou, me jogando sentada no chão. Abriu a boca, revelando todos os dentes e sibilou ameaçadoramente de novo.

Um milhão de coisas percorreu minha mente naquele momento. Mas de todas as reações que eu esperava ter, de algum modo eu gritei. Apenas uma silaba “Ah”, não de forma apavorada ou medrosa. Foi um “Ah” tomado de raiva e atitude.

Serperior parou de sibilar e me olhou confuso. Meu braço pareceu se mover sozinho, acertei um tapa na cara da Serpente que recuou. Me ergui depressa, ajeitando minha postura para ficar mais alta que Pokémon e gritei – pro inferno com você. Estou cansada dessa palhaçada – meu corpo agora estava queimando – sou sua trainer e você vai me obedecer. – Algo dentro de mim tinha despertado e eu queria socar Serperior até ele ficar desacordado.

— Haila – Deedee chamou assustado, de repente ele, Bacon e Chiclete tinham surgido ali, acompanhados por Lila e os Psyduck. Ele sabia da historia, ele sabia que eu deveria estar com medo. Eu também sabia, mas naquele momento algo mudou, porque eu não estava mais.

— Volte para a maldita GreatBall ou eu juro por Arceus que ateio fogo no seu querido corpinho, Pokémon planta – Serperior recuou alguns centímetros e eu o chamei de volta, agora, sem nenhum problema. Ele parecia paralisado pelo choque, ou quem sabe simplesmente não soubesse como reagir. Não importava.

Quando diminui o tamanho da Greatball na minha mão percebi que estava tremendo, desde os braços até as pernas. Suspirei aliviada e corria até Deerling. Seu pelo rosado estava vermelho, banhado de sangue.

Havia uma ferida aberta em suas costela e marcas de mordida na perna direita traseira. Ele deu um solavanco tentando se levantar, mas eu o segurei, minha mão acabou encharcada de sangue.

— Ele está morrendo – Lila sussurrou apavorada.

Olhei pra minha mão e lembrei-me do sangue escorrendo do corpo da mulher em Nimbasa, enquanto seu Emolga lutava para levantar sua parceira. Senti uma tristeza profunda e raiva. Eu não poderia deixar que Serperior ferisse mais ninguém, mais nenhum Pokémon. Tinha que aprender a domina-lo de alguma forma. Não fosse pelo amor, seria pelo cansaço.

Dee se abaixou do meu lado e olhou para Deerling com piedade. O Pokémon estava assustado, fazia um som baixinho, como um choramingo, provável como muita dor. Uma dor conhecida por mim.

— Eu tenho Potion na mochila, talvez se... – ele não terminou a frase, não sabia o que dizer.

— Ele precisa ser levado a um centro Pokémon – disse o que todos já sabíamos – Lila, precisamos chegar a Humillai agora. Qual é o caminho?

Ela recuou, ergueu as mãos e as colocou sobre o peito – eu... está escuro, não sei se consigo achar o caminho.

Olhei para Deerling mais uma vez, as feridas estavam sangrando muito, ele não resistiria até o dia amanhar. Ele precisava de tratamento com urgência. Serpio não era como os outros Pokémon. Ele não tinha nenhum respeito ou afeto por mim e não hesitava em matar para comer.

A raiva cresceu ainda mais dentro de mim. Eu acabara de alimenta-lo, mas seu maldito instinto de caça era mais forte, ele tinha que ir atrás de uma presa, mesmo que ela fosse grande demais para ele engolir.

Serrei os punhos com força e olhei para Lila mais uma vez – não temos outra escolha. Precisamos levar Deerling agora. – Tentei ser lucida, eu precisa ficar calma se quisesse salvar a vida do Pokémon – Dee, você pode ficar com ele? Preciso pegar uma Ball.

— Tudo bem – ele confirmou, mas estava claro em seu olhar o quão assustado ele estava com tudo aquilo.

— Lila, preciso que você volte comigo, temos que desmanchar o acampamento – Deedee ainda estava machucado, eu não podia fazer tanto esforço.

— Certo – respondeu, sua voz transparecia claramente a sua ansiedade.

Corremos juntas para o acampamento e eu revirei minha mochila. Abobora tinha corrido para Absol e de alguma forma se enfiara entre as patas do Pokémon, se escondendo do que quer que fosse. Lila enquanto isso começou um movimento frenético, desmontando tudo e guardando.

Quando voltei Dee estava fazendo carinho no pescoço de Deerling que agora se debatia menos, mas ainda sim não conseguiria parar de gemer. Os cortes eram profundos, as presas do Pokémon tinham cravado de forma certeira.

— Dee – chamei e ele deu alguns passos arrastados para trás. Os Pokémon estavam ali estáticos, olhando para Deerling sofrendo. O raio vermelho trouxe o Pokémon para dentro em um instante. A Greatball sequer chegou a balançar, simplesmente o capturou. Ele deveria estar ferido de mais para conseguir lutar.

A imagem de Serperior sobre Deerling quando eu os encontrei estava clara ainda na minha mente. Eu estava cada vez mais irritada. Queria arrancar Serperior da Ball e gritar com ele ate não ter mais garganta. Queria apenas saber o porquê.

Voltei para o acampamento e Lila dobrava o saco de dormir de Deedee. Peguei o meu próprio e comecei a enrola-lo de qualquer jeito, enquanto Dee trazia seus Pokémon de volta. O lugar virou simplesmente uma correria. Todos guardando, trombando e suspirando.

Mas cerca de dois ou três minutos depois já estávamos pronto. Lila foi a primeira a terminar e ficou um tempinho olhando para as arvores sem expressão. Estava clara sua preocupação, a garota não sabia guardar seus sentimentos só para si.

— Prontos? – Perguntei apenas para alerta-los que queria começar a me mover. Deedee assentiu e Lila em seguida – para que lado Lila?

— Eu refiz o caminho mentalmente – começou a dizer ainda encarando as arvores – acredito que se seguirmos para o norte, mesmo tendo errado o caminho, vamos sair na praia e consequentemente na estrada.

Parei por um instante e respirei fundo – pessoal, foi Serperior quem fez isso, vocês não precisam vir comigo.

— É claro que vamos, está louca? – Lila perguntou parecendo incrédula.

— Deedee está machucado e eu preciso correr, isso poderia reabrir sua ferida.

Deedee deu dois passos a frente chegando mais próximo a mim e me encarou com um olhar firme – você se esqueceu do “nem que eu tenha que te arrastar... se você quiser?”.

Ele conseguia me deixar sem graça – então se apoie em mim, vamos!

=8=

Andamos o mais rápido que podíamos pela floresta, com os nossos Pokémon nas Ball. Quase não falamos nada entre nós. O clima de mais cedo havia desaparecido, apenas dávamos sugestões hora ou outra de qual caminho seria melhor.

“– Por esse lado há menos vinhas.”

“– Ali parece haver uma clareira.”

“– Cuidado, há espinhos nessa arvore.”

Devemos ter andando quase duas horas quando finalmente após um longo declive chegamos a rodovia. Eu estava completamente molhada de suor, meu ombro doía, mas não soltei December em nenhum pedaço do caminho. Eu não poderia permitir que por causa de Serperior Deerling e ele se machucassem.

O mar estava do outro lado da rua, o barulho das ondas tinha nos guiado.

Assim que saímos da mata apertamos ainda mais o passo. Por mais de vinte minutos não vimos nenhum carro e quando finalmente um caminhão passou por nós ele deliberadamente ignorou nosso pedido de carona.

Lila não conseguiu segurar e foi a primeira a reclamar da dor nas pernas. As minhas também estavam queimando, meu corpo estava quase inteiramente molhado de suor, mas preferi me manter quieta.

— Acho que deveríamos descansar um pouco – Deedee sugeriu meio quilometro a frente.

As palavras quase saíram da minha boca, pensei seriamente em gritar com ele e mandar que ele continuasse andando, mas quando vi sua expressão não consegui fazê-lo. Estava claro sua exaustão, seu cabelo agora enorme estava todo molhado, seu peito subia e descia depressa e Lila logo atrás dele, apoiada aos joelhos não parecia melhor.

Coloquei a mão no bolso para sentir a greatball e pedi a Arceus em pensamento que Deerling estivesse bem. Eu não poderia carregar o peso de mais uma morte em minhas mãos, eu não tinha peito pra isso, não tinha forças.

Olhei para o céu e tentando segurar o maldito choro que estava chegando quando o feixe de luz iluminou meu rosto. Um carro virara a curva a cerca de cem metros de distância. Fui para o meio da pista e comecei a acenar feito louca e graças a Arceus o veiculo começou a diminuir, parando a poucos metros de nós.

Um homem desceu do carro, sua expressão estava tomada por medo – o que aconteceu? Está tudo bem?

Fomos depressa até ele, e ofegante Deedee tentou explicar – precisamos chegar a um centro Pokémon, um Pokémon que está com a gente está gravemente ferido.

— Achei que o sangue fosse seu – ele apontou para mim e só então reparei, com a ajuda da luz do farol, que minhas roupas estavam banhadas de sangue. – Entrem depressa.

Deedee foi no banco da frente e Lila e eu fomos atrás. Assim que me sentiu comecei a agradecer ao homem, repetindo obrigada tanta vezes que o homem acabou rindo, talvez de nervosismo.

Ele dirigiu depressa, cortando a rodovia vazia como um corredor profissional. Chegamos a Humillai City vinte minutos, talvez meia hora depois. Minhas roupas ainda estavam pregadas no corpo quando entramos correndo pelo saguão do Centro Pokémon que tinha parte das luzes apagadas.

Apenas um enfermeiro de plantão estava sentado, meio cochilando, atrás do balcão. – Temos uma emergência, o Pokémon está morrendo – Lila gritou.

— O que houve? – Ele acordou em um salto, nos encarando com olhos inchados.

— O Deerling... Serperior o atacou, ele não para de sangrar – entreguei a Greatball e o homem apetou um botão no teclado do computador, fazendo luzes vermelhas se acenderem dentro da ala hospitalar atrás dele e desapareceu dentro do corretor.

Levei as mãos sobre a boca e respirei profundamente, enchendo meu peito de ar, soltando devagar em seguida. Lila e Dee estavam de olhos arregalados também, respirando fundo, suspirando e olhando para o nada.

Caminhei meio atrapalhada até o sofá mais próximo e me joguei. Estava exausta, com raiva e com medo. Não queria que nenhum Pokémon morresse por minha culpa, não podia viver com o fato de mais um Pokémon sofrer por negligencia minha. Eu deveria ter dominado Serperior, deveria tê-lo mantido preso até que tivesse controle sobre ele.

— Vai ficar tudo bem – Deedee pôs a mão sobre meu ombro. – Eles vão cuidar dele. – Balancei a cabeça positivamente, afirmando sem saber direito no que acreditar.

Lila tinha começado a andar de um lado para o outro e aquilo me deixou ainda mais nervosa. Aquela noite seria longa.

=8=

Eles cochilaram no sofá mesmo, sujos e famintos. Infelizmente eu não consegui pregar o olho a noite toda. Assim que amanheceu fiz nosso check-in no centro Pokémon, o primeiro usando meu próprio Dex. Isso significava que meus pais conseguiriam saber onde eu estava.

A luz vermelha foi apagada por volta de sete e meia da manha, quando finalmente corri para o balcão sozinha. O mesmo enfermeiro que tinha desaparecido com minha ball na noite anterior saiu conversando com uma mulher jovem, cerca de uns vinte e poucos anos do corredor.

Ele se debruçou sobre o balcão e a moça cruzou os braços, me lançando um olhar fuzilante. – Gostaria de conversar sobre o estado de seu Pokémon mocinha.

— Como ele está? – Não suportava mais a incerteza.

— Ela – deu ênfase a palavra me corrigindo – começa a se recuperar agora dos ferimentos, mas não demorará menos que quinze dias para voltar a se reestabelecer – a mulher contou com um tom de voz severo.

— Como sua Pokémon ficou naquele estado? – O enfermeiro quis saber.

Dei uma espiada rápida em seu crachá e descobri seu nome antes de responder, estava com medo, mas disposta a aceitar quaisquer consequências que aquilo fosse ter. Com a minha visão periférica pude perceber que Lila e Dee estavam vindo em minha direção. – Há algumas semanas eu capturei um Serperior na montanha entre Driftveil City e Mistralton. Ainda não consegui ganhar sua confiança... – suspirei – ele simplesmente não me obedece. Aparentemente não consegue apenas comer o Pokebloco e é a segunda vez que ele foge da Ball a noite. Desta vez ele atacou Deerling antes que eu percebesse – abaixei a cabeça, sentia vergonha, sentia raiva, mas acima de tudo tristeza.

A mulher suspirou de forma que pareceu que um peso saísse de seus ombros – um Pokémon assim pode ser extremamente perigoso, já ouvimos falar de como são os Serperior daquela área, mas isso não justifica o que aconteceu.

— Doutora Karma e eu achamos que você fosse trainer de Deerling. Teríamos que entrar em contato com a Corporação Pokémon. No entanto isso não lhe exime da responsabilidade, seu Pokémon deve ser domado. – Kitty contou sem muito animo, parou um segundo pensativo e depois continuou – isso nos coloca em outro empasse. Não temos vagas para novos Pokémon na UTI.

— Eu posso cuidar dele até que se recupere – respondi antes mesmo que ele pudesse fechar a boca – não é menos que minha obrigação.

— Sabemos que não. – Karma deixou claro quem era o vilão e quem era o mocinho. Vaca. – E quanto ao seu Serperior?

— O que vocês querem com ele? – Lila se intrometeu, dando um grito agudo, cruzando os braços em seguida. Se sua intenção fosse ser ameaçadora ela tinha conseguido passar bem longe disso.

— Como saberemos que isso não voltará a acontecer? – A mulher ergueu a sobrancelha como se fosse à dona de toda a razão e a verdade do mundo.

— Não vão, mas eu farei meu melhor quanto a isso – e estava realmente disposta a fazê-lo.

Notas finais
Bem, sem ação, mas são coisas que precisavam acontecer e acredito que precisassem de atenção. Espero que tenham gostado, deixou o ritmo um pouco menor e apesar de não ter grandes acontecimentos que mudaram o rumo dos personagens, acho que foi necessário pro que esta prestes a acontecer. A ideia era dar pelo menos a principio um pouco de paz e alegria para eles. As coisas estão numa vibe começando a dar certo e depois que Haila e Deedee se reencontraram senti falta disso. Semana que vem teremos o ginásio de Humillau.