Notas iniciais
Chamemos de aparando pontas também. Tinha que acertar certas coisas sobre os personagens, decidir novos rumos, deixar velhas tretas pra trás para que eles possam seguir em frente. Espero que gostem.

Haila

FIM E RECOMEÇO

– Lila, pelo amor de Arceus, Leaf vai acabar te mordendo. Para com isso – gritei finalmente, fazendo todo mundo do Centro Pokémon nos encarar assustados. Eu juro que tentei manter o controle, mas a garota era impossível.

Era a enésima vez que ela tentava pegar Leaf no colo e obviamente minha Pokémon estava ficando louca. Já aranhara o braço da garota e a ameaçara com os chicotes, mas claramente Lila estava tentando vencê-la pelo cansaço. Isso não ia dar certo.

Ela ergueu os braços e sorriu meio sem graça, – mas ela é tão fofa – disse fazendo um muxoxo.

– Se eu fosse você a ouviria – Deedee tentou alertá-la, provavelmente se lembrando de quando Leaf o segurou pelos chicotes no quarto de hotel, pois lançou um olhar discreto para a Pokémon em seguida. O comentário pareceu finalmente surtir algum efeito sobre Lila que deu de ombros e deu alguns passos para longe de Leaf.

Me larguei no sofá pesadamente deixando meu cansaço tomar conta pelo menos por alguns instantes. Pensei que agora que estava com Deedee novamente eu voltaria a ter boas noites de sono, mas estava enganada. Os pesadelos ainda continuavam me atormentando.

Desta vez sonhei com Desmond. A realidade se misturou com o pesadelo em algum momento entre a despedida em Lentimas e a chegada a Undella Town. A Team Plasma havia ressurgido e atacado a cidade logo depois de minha partida. Nele Desmond havia sido caçado e Liepard abatido enquanto os dois tentavam escapar. As memorias se misturaram de tal forma que quando acordei no meio da noite, já no quarto do Centro Pokémon, tive o impulso de ligar para o garoto.

– Eu já te disse Lila, não acho que devo ficar com esse Pokémon – Deedee tentou retrucar mais uma vez. Não havia mais incerteza, Lila lidava com humanos e Pokémon da mesma forma.

– Mas Deedee, você o capturou não eu. Mesmo se eu ficasse com ele, Absol jamais me obedeceria – Olhei para Charmander e Bulbassaur e não houve como conter o sorriso. Os Pokémon de Lila eram tão malucos quanto ela. Sem duvida um Pokémon como Absol ficaria perturbado em semanas tentando seguir o ritmo dos Psyduck.

Deedee a encarou por alguns segundos, analisando suas feições, provavelmente esperando qualquer brilho de duvida iluminar o olhar da garota, mas Lila continuou firme. Eu o entendia, acabávamos de voltar de Ixia, ou pelos menos um impostor que passou por ele e chegamos o mais próximo de entender nossos Pokémon do que nunca.

Mesmo que grande parte tenha sido ladainha de um Hippie fedorento, bebedor de chá, farsante, intrometido e insano. Algumas das palavras dele haviam servido para que eu percebesse que Leaf e Serperior eram Pokémon orgulhosos e precisavam que eu respeitasse suas vontades e limites.

Assim como Dee tinha se dado conta de que seus Pokémon só estavam em duvida porque ele estava. Deedee só precisava de mais confiança, porque aparentemente não havia caminho certo, ou talvez houvesse se tivéssemos ido ao Ixia verdadeiro.

– Lila eu realmente acho que não devo ficar com...

– Fique com ele pelo menos até depois do Contest – ela o interrompeu, estendendo as mãos na frente do corpo, como se estivesse tentando impedir que ele saísse correndo – caso ainda sim pense do mesmo modo eu fico com ele.

Deedee suspirou cansado, ele provavelmente acreditava o mesmo tanto que eu nas palavras da garota, nada. Porem, mesmo claramente não gostando da ideia ele aceitou. – Até o Contest – repetiu com firmeza. Depois me lançou um olhar curioso – você pensou no que eu te disse sobre Couve-flor?

Era uma proposta muito legal. Eu realmente gostava bastante de Couve-flor e sentia que ele tinha afeição por mim, mesmo assim eu não conseguia deixar de me sentir desconfortável com a situação que me remetia a Simi assustadoramente.

Também não podia negar que passei boa parte da manhã pensando na proposta que ele havia me feito no dia anterior. Ter Couve-flor no meu time deixaria as coisas mais equilibradas já que Serpio não me obedecia e Leaf ainda estava estranha. Eu finalmente tinha conseguido entender como meus Pokémon se sentiam, mas alcançá-los seria um trabalho difícil.

Mas no fundo eu estava com medo. Depois do que acontecerá com Simi eu realmente ficava contente por Deedee confiar em mim para cuidar de um Pokémon que ele capturou, mas não conseguia afastar a ideia de que talvez eu não fosse capaz de cuidar de Couve-flor do mesmo modo que fiz com Simi.

Eu tinha a consciência hoje de que o que ocorrera não tinha sido minha culpa, nem mesmo diretamente da Team Plasma, mas isso não queria dizer que ele não estava sob meus cuidados. – Eu não sei se consigo fazer isso – disse em voz baixa, desviando o olhar do garoto.

Ele se levantou e deu alguns passos em minha direção, parando a poucos centímetros de mim. – Fique com ele até o próximo ginásio. Você ainda pretende conseguir mais insígnias, certo?

Dei um sorriso de lancei um olhar divertido pra Lila – tá vendo, você o está influenciando – em seguida voltei a encarar Dee, – ainda não sei, eu esperava descobrir o que era necessário para ser considerado um especialista Pokémon.

– Você é analisada pela Corporação Pokémon – Lila anunciou – há uma banca avaliadora formada por especialistas que julgam a suas capacidades através de alguns testes. Mas não sei quais são.

– E como você sabe disso? – Tive de perguntar.

– Sou parente de Marlon, líder do ginásio de Humilau City – ela respondeu com uma expressão vitoriosa – ele se tornou especialista há alguns anos e me lembro dele comentar algo assim, você poderia perguntar a ele.

– Você tem contato com Cilan. Se não estou confundido ele era especialista em Pokémon Grass também. Por que não liga pra ele? – Dee sugeriu.

– Brilhante! – Com tanta coisa acontecendo à ideia de me tornar especialista tinha desaparecido da minha mente e eu sequer me lembrei desse fato. Cilan era o líder de ginásio, ou pelo menos ex-lider que eu tinha mais intimidade. Não era uma má ideia. – Esperem um minuto, já volto.

Me levantei do sofá e corri para fora, fugindo do barulho do Centro. O Xtransceiver chamou varias vezes e Cilan surgiu com o rosto molhado de suor e sem camisa. Ele estava em na calçada a beira da floresta, sem duvida na entrada de Accumula Town. – E ai! – Me cumprimentou ofegante – como está o ombro?

Passei a mão sobre onde Serpio havia mordido e ainda senti uma leve ardência – quase cem por cento.

– Antes que eu me esqueça Tom me pediu pra mandar um beijo – comentou fazendo careta – ele ameaçou nunca mais devolver meu CD’s caso eu não o fizesse.

– Diga a ele para os devolver da próxima vez que vocês se virem, se não dessa vez eu o empurrarei de um penhasco – respondi sem muito animo, mas com um tom ameaçador. – Preciso de uma orientação...

– Hum... – pediu que eu continuasse.

– Como você fez para se tornar um especialista em Pokémon Grass? – Fui direto ao ponto.

Ele coçou a cabeça e suspirou – a historia de ser líder de ginásio, não é? Eu e meus irmãos não somos especialistas. Herdamos a posição depois que nossa mãe morreu.

– Me desculpe, eu não sabia – fiquei constrangida.

Ele balançou a cabeça negativamente, não parecia ter ficado triste ou algo assim. – Sem problemas, já fazem bons anos. Ficamos no lugar dela avaliando o conhecimento dos treinadores em relação à vantagem de tipos até que Cheren foi convidado para ficar em seu lugar. Tecnicamente fui só um tapa buracos.

Isso explicava porque Skyla tinha feito aquela cara quando Lenora sugerira que Cilan os ajudasse na busca pela Team Plasma no dia da reunião. De algum modo Skyla parecia não considerar Cilan bom o suficiente naquele momento, mas agora isso fazia sentido.

– Entendo, obrigada assim mesmo.

– Vê se não some – respondeu dando um sorrisinho. – Vou terminar de correr agora. Depois nos falamos.

Quando entrei no Centro Pokémon Lila e December estavam chegando ao balcão de transferência. – O que você terá de fazer? – Dee quis saber.

– Cilan não sabe. Ele não é especialista – respondi mordendo o lábio. – Parece que eu vou ter de conversar com Marlon. Se Roxie não voltar até o seu Contest vamos até Marlon, preciso mesmo descobrir como isso funciona.

– Eu não disse que vou participar – Deedee tentou retrucar.

– Ainda não conversamos sobre isso – Lila interveio, me lançando um olhar que dizia “Espere, ele vai” que me fez sorrir.

– Além disso acho que seria legal batalhar contra Marlon. Preciso de dinheiro, o meu está quase no fim e com seu histórico em Contests acho que vamos morrer de fome.

Lila deu uma risada aguda e olhou para Deedee que não pareceu nada animado com meu comentário. Quando conseguiu controlar sua crise ela suspirou e apontou para o homem sentado a poucos metros de nós no balcão. – Se você pretende usar Couve-flor no ginásio é melhor fazer a transferência temporária com a gente pra evitar algum problema.

– Transferência temporária? – Nunca tinha ouvido falar de nada disso.

– Você sabe, pro Pokémon ser seu – respondeu como se dissesse algo obvio.

– Não é só dar a Pokéball a ela? – Deedee comentou abrindo a mochila e pegando a esfera de duas cores. Ele precisava me entregar Couve-flor antes de ficar com Absol, em seu time já haviam seis Pokémon.

– Não, precisamos fazer isso por causa da Corporação, vocês nunca fizeram isso antes? – Perguntou parecendo incrédula.

– Já, mas nunca precisamos fazer nenhum tipo de transferência temporária – respondi no mesmo com que ela usara. – Fiquei com Simi durante um bom tempo e batalhei contra Burgh e Elesa o usando e ninguém nunca falou disso.

– Eu também estou com Peach há vários meses – Deedee também parecia confuso.

Lila coçou a cabeça e deu dois passos em direção ao balcão – isso é errado. Venham, vou pedir pro moço explicar melhor.

Fomos junto com ela até o balcão e Lila chamou o homem das transferências. Ele aparentava ter por volta de seus trinta anos, cabelos longos e cacheados pendiam sobre seus ombros. A garota explicou a situação e ele franziu o cenho nos encarando curioso, – as transferências temporárias são obrigatórias para participar de competições nesses casos – ele começou – as Pokeball contem o registro de quem as comprou, logo o Pokémon dentro delas é legalmente desse individuo.

– Eu estou com Peach, a Pokémon de uma amiga. Mas é como se fosse um empréstimo, Peach ainda é a Pokémon de Cassie e eu pretendo devolve-la em algum momento – Deedee contou com um olhar preocupado.

– Em competições normalmente é feito o registro antecipado do Pokémon que você irá usar – o homem continuou, apoiando o corpo sobre o balcão de informações – imagine o que eles achariam se você tentasse dar entrada com o Pokémon em nome de outra pessoa, o que eles poderiam pensar?

– Que você o roubou – Lila completou fazendo movimentos com os braços, dramatizando a situação.

– Existem três tipos de transferências. A primeira é quando a guarda do Pokémon é transferida imediatamente entre trainers. As transferências do tipo dois tem períodos estipulados onde o treinador recebe a guarda do Pokémon enquanto o período pré-definido durar. As do tipo três funcionam um pouco diferente, onde o detentor da guarda atual cede seu Pokémon para outro trainer. A tutela desse Pokémon é desse segundo individuo, mas guarda continua a ser do primeiro, até que esse segundo confirme legalmente o recebimento dessa guarda ou o primeiro cancele a ação.

Continuamos o encarando com expressões que transmitiam nitidamente o quanto estávamos perdidos. Ele suspirou e tentou se explicar novamente – na primeira o Pokémon muda de dono na hora. Na segunda você define a guarda do Pokémon, por exemplo; por um mês e depois ele volta a ser seu. E na terceira é como se fosse um período aberto de teste, você deixa o seu Pokémon sobre os cuidados do outro até que ele decida confirmar o recebimento da guarda ou você cancelar a mudança de guarda.

– Faremos a do tipo três Deedee. Caso você confirme o recebimento Absol será seu – Lila anunciou orgulhosa, como se tivesse nos mostrado um novo mundo. – Porém, enquanto isso você vai poder ficar com ele para se certificar de que realmente o quer. Vamos lá então? – Perguntou animada.

Deedee comprimiu os lábios e me encarou – eu tenho seis Pokémon no meu time, antes de fazer a transferência com Lila preciso que fique com Couve-flor. Não vou conseguir fazer a transferência com Cassie agora.

– Beleza – olhei para o homem e questionei – como faremos isso?

– Preciso da Pokéball e dos seus registros apenas. É bem simples.

– Que tipo de registro? – Deedee perguntou me lançando um olhar preocupado por um instante que apenas nós dois percebemos.

– Seu Pokedex contendo o registro das suas atividades – o homem informou – treinador, coordenador, Sommalier, Colecionador, Performer – enumerou como se explicasse para crianças.

Abri minha bolsa e peguei o Pokedex de Jaden. Fazia tempo desde a ultima vez em que eu o abrira. Havia um sentimento estranho por trás daquele objeto, uma lembrança tênue do que meu pai me dissera naquele dia no quarto em Nimbasa.

Eu claramente não podia entregá-lo, ali não haviam meus dados, não havia como me identificar. Se eu quisesse mesmo ficar com Couve-flor precisaria resolver minhas questões legais, mas eu não podia ligar pra casa. Bem, a verdade era que eu não tinha intenção nenhuma de fazer isso.

Sentia falta da minha mãe, de Corin, mesmo que odiasse admitir de Jaden. Mas as coisas haviam mudado, eu havia mudado e precisava resolver minha vida sozinha. Eu era capaz disso. – Você tem o numero de telefone do Centro de pesquisas da Professora Juniper? – Perguntei ao moço.

Ele ergueu o dedo, fazendo um gesto para que eu esperasse por um minuto e se retirou do balcão. – O que você pretende fazer? – Deedee parecia preocupado, agora não se importando de transparecer isso.

– O que está acontecendo? – Lila questionou quando se deu conta do clima que tinha se formado.

Deedee me lançou um olhar discreto, que eu reconheci como se pedindo permissão para contar para Lila sobre mim. Fiz um leve movimento com a cabeça dizendo que estava tudo bem e ele a contou – Haila fugiu de casa, ela não tem um Pokédex, quanto mais um registro de atividade.

– Você fugiu mesmo? – Lila perguntou com os olhos arregalados. Parecia totalmente surpresa, como se eu fosse à primeira menina a fazer isso.

Antes que eu pudesse responder o homem voltou com um cartão com o nome da Professora. Agradeci e fui até os comunicadores públicos do Centro Pokémon. Caso tudo desse errado eu não queria que ela tivesse alguma forma de me encontrar.

Olhei para os dois garotos antes de discar e suspirei. Estava nervosa, mas sem duvida eu já estava me acostumando com noticiais ruins e situações constrangedoras. – É melhor que vocês não apareceram em vídeo quando ela atender, eu não quero meter vocês nisso.

– É meio tarde pra isso – Dee parecia confiante agora. Colocou a mão sobre meu ombro e balançou a cabeça em um sinal afirmativo. – Vou ficar do seu lado – deu alguns passos para trás encostando-se à parede do lado do aparelho, onde ficaria fora de vista para Juniper, mas bem ao meu lado e foi seguida por Lila que parecia animada com toda aquela situação.

– Que emocionante, nunca conheci ninguém que fugiu de casa – confirmou meus pensamentos, mordendo o lábio inferior com um brilho infantil no olhar. Seus Psyduck ainda corriam pelo Centro Pokémon, mas pareciam muito mais tranquilos para meu alivio.

Disquei o numero e o aparelho começou a chamar. Depois de alguns toques uma garota loira de cabelo curto, usando óculos atendeu – Laboratório de pesquisas Juniper, meu nome é Bianca. Como posso ajuda-la? – Perguntou córtex.

– Bianca – repeti seu nome com medo que o nervosismo me fizesse esquecer – eu preciso de um registro de treinadora. Sai em jornada e ainda não tenho um.

– Saiu em jornada? – Perguntou parecendo surpresa – bem, você pegou um inicial com a professora? Não me lembro de já termos nos falado.

– Bem, sai com meu próprio Pokémon e o Pokedex do meu irmão, mas aparentemente preciso do meu próprio.

Ela ergueu as sobrancelhas – oh, sem duvida. Preciso da sua identificação pessoal, você está com ela?

Engoli seco, temia que a qualquer momento algo fosse dar errado. Tirei minha identificação da bolsa e virei para o comunicador. Bianca se aproximou um pouco mais e começou a digitar alguma coisa em um teclado que ficava abaixo da tela, o som dos botões sendo apertados estava alto e claro.

Em determinado momento ela franziu o cenho e encarou os próprios dedos enquanto voltava a digitar. – Haila Dinger Gray – leu meu nome mais uma vez. Eu sabia, alguma coisa estava errada. Ela olhou para o lado e depois me encarou – Professora, pode vir aqui por um instante – chamou Juniper sem tirar os olhos de mim.

A mulher de cabelos castanhos surgiu em um instante. Quando me viu na tela seus olhos se arregalaram – Haila! – Gritou meu nome – você está bem? Por Arceus. Você fugiu tem meses, você quer nos matar do coração?

O laboratório da Professora Juniper ficava em Nuvema a alguns quarteirões da minha casa. Quando criança Jaden e eu a atormentamos durante semanas querendo que ela nos desse um Pokémon inicial, mas depois que Magnus descobriu acabamos sendo proibidos de visita-la sem motivo.

Sempre que ela nos via na rua fazia questão de nos parar e perguntar como nós e nossos Pokémon estavam. – Bem na medida do possível – respondi tentando parecer divertida.

– Seus pais sabem onde você está? Você já falou com eles? – Perguntou depressa e depois passou a mão pelos próprios cabelos parecendo ainda mais apavorada – o que aconteceu com seus cabelos?

– Eu precisava mudar um pouco – fugi das perguntas sobre meus pais. Mas sabia que ela precisava saber um pouco do que estava acontecendo, se não, nunca me daria o registro de atividade – Olha, eu sai da casa porque meus pais não queriam que eu saísse em jornada, não acreditavam que eu tivesse capacidade. Estou há meses fora de casa e venci três lideres de ginásio depois de percorrer mais da metade da região. Eu sei que pode ser pedir muito, mas eu preciso de uma identificação de atividade para poder transferir um Pokémon. Eu vou ficar bem, juro.

Juniper me avaliou durante alguns instantes, parecia ainda coletar e processar cada nova parte da minha aparência. – Haila, eu precise que entre em contato com seus pais. Eles cancelaram as buscas por você e Greta está em frangalhos. Corin está viajando com a amiguinha porque ela não tem condição de cuidar dele. A Pokeball de Leaf que era nossa ultima informação de você parece estar quebrada, ela não aparece no sistema.

– Ela pegou fogo junto do Centro Pokémon em Nimbasa. Não se preocupe, ela está bem. Só tive de recaptura-la.

Ela passou a mão pelo rosto chocada – você estava lá durante o ataque? Por Arceus. Como você fez isso? Não consta que você tem nenhum Pokémon no sistema, imaginamos o pior.

Franzi o centro e dei de ombros – Isso é estranho, eu recapturei Leaf usando uma das Pokeball que Jaden me deu antes de eu fugir.

Juniper suspirou – você fez mais alguma captura usando essas Pokeball? – Balancei a cabeça afirmativamente e ela colocou a mão na cintura. Parecia muito nervosa. – Os seus Pokémon não estão em seu nome, Jaden tem a guarda deles.

– Como assim? – Perguntei apavorada. Olhei para Deedee que carregava a mesma expressão.

Nos já tínhamos entendido, mas ela precisou repetir para que eu pudesse processar toda a informação – você capturou os seus Pokémon usando as Pokéball no nome do seu irmão. Legalmente os Pokémon que você carrega não são seus.

Deu um passo para trás e levei a mão a boca. Depois de toda aquele inferno para sair do Centro Pokémon em chamas e de capturar Serpio os meus Pokémon para a Corporação sequer eram meus. Não havia reconhecimento nenhum por todo meu esforço legalmente e nem mesmo Leaf que me acompanhava durante anos era realmente minha.

No dia em que dei depoimento se Clay tivesse me acusado de alguma coisa meus Pokémon seriam tomados de mim imediatamente por estarem no nome de Jaden. Era de mais pra processar. O que eu tinha mais para perder? As coisas pareciam fugir de mim. Nenhuma das minhas conquista, nada do que eu fiz foi realmente valido e agora legalmente eu não tinha nada.

– Precisamos dar um jeito de te enviar um Pokedex – Juniper continuou – sem o registro de atividades é ilegal fazer capturas na região. – Ela digitou alguma coisa e sem olhar diretamente para mim comentou – isso explica o por que de Pokémon estarem sendo capturados por seu irmão em Unova. Eu sei que ele partiu para o arquipélago laranja, mas os dados que recebemos não faziam sentido.

Eu mal ouvi as palavras dela. Não podia acreditar que meus Pokémon não me pertenciam. Não fora por Lila e sua insistência infernal eu só descobriria isso da pior maneira possível. Aquilo não era justo, definitivamente não era.

Deedee me olhava fixamente. Seu semblante parecia preocupado ainda. Tomei um pouco de ar e tentei me estabilizar, eu não queria preocupá-lo mais ainda. Enquanto Lila parecia intrigada com toda a situação.

– Estou com o Pokedex dele, isso ajuda de alguma forma?

Ela pareceu ficar mais intrigada ainda – ele te deu isso tudo antes de partir? – Apenas confirmei com a cabeça – certo. Façamos o seguinte, tem uma entrada na parte direita do comunicar, preciso que você plugue o Pokedex e eu vou configurar um novo registro nele. O que você está fazendo exatamente?

– Pretendo me especializar em um tipo especifico de Pokémon, como isso se encaixa?

– Bem, isso é ótimo, mas essa não é uma categoria. Especialistas são classificados como treinadores – me contou parecendo meio distraída, digitando rápido no teclado. – Olhe pra a câmera na parte superior – mudou de assunto. O fiz e um flash me cegou. – Bem, acho que é só isso. Tive que resetar todos os dados, o Pokedex está vazio e a partir de agora será preenchido por todos os Pokémon que você buscar informação.

Senti um frio na barriga. A promessa que eu havia feito a Jaden, uma das únicas que eu já tinha feito na vida agora não podia mais ser cumprida. De alguma maneira estranha isso ainda mexia comigo intimamente.

– Professora – tive que perguntar, – para que eu tenha essa autorização eu não preciso da permissão dos meus pais? Eu não quero que você tenha problemas por me ajudar.

Ela parou por um instante e olhou em meus olhos – querida – um sorriso sutil brotou em seus lábios – eu sou a professora mais conceituada de Unova, responsável pelos Pokémon iniciais e Pokémon capturados em jornada de todo o continente.

Não precisou terminar a frase, eu mesma não consegui conter o sorriso – ótimo!

– A partir de agora você é legalmente uma treinadora Pokémon. Os dados sobre o seu desaparecimento serão repassados para a polícia e cancelados dentro de algumas horas. Sempre que você fizer check-in usando o Pokedex sua localização será atualizada – me contou séria, mas de repente suas feições mudaram. – Eu conheço seu pai Haila, sei que você fez o que fez porque precisava e estar de pé ai agora prova que você é capaz. Você sabe que adoro sua mãe, mas tenho consciência que parte disso também é culpa dela por não ter voz. Tenha força e dê o seu melhor, eu confio em você.

Meu coração estava batendo rápido. Nunca pude imaginar que ela me diria aquelas coisas. Tinha consciência da amizade que tinha se formada entre ela e minha mãe depois dos acontecidos, mas Juniper parecia realmente se importar comigo.

Esse tempo todo eu havia tido medo de finalmente terminar isso, de finalmente sair do escuro e de mostrar meu rosto na rua ou voltar a Castelia, mas agora eu não precisava mais temer. Tinha finalmente recomeçado do zero e tinha um caminho definido para trilhar.

Eu não era mais a garota sem rumo fugindo de casa com lagrimas nos olhos e com medo do futuro. Deedee tinha me ajudado a encontrar meu caminho e todos aqueles que conheci durante a jornada contribuíram de alguma forma também.

Finalmente eu estava dando o primeiro passo pra me tornar quem eu queria ser, não estava sendo manipulada ou carregada pela situação. – Obrigada Professora. Isso é realmente muito importante pra mim.

– Não se esqueça, use seu registro para comprar novas Pokeball e use-as para recapturar seus Pokémon. – Ela se aproximou mais da câmera e falou baixinho – não haverá como fazer a transferência já que não sabemos como encontrar Jaden, mas se por um acaso a Pokeball voltar a quebrar os Pokémon estarão livres – terminou dando uma piscadela.

Não tentei conter o sorriso – obrigada mesmo.

– Não a de que – respondeu fazendo um sinal positivo com a mão. – Ligue pra sua mãe – pediu mais uma vez antes de desligar.

Deedee suspirou alto antes de desgrudar da parede – então oficialmente aqui acaba a historia da garota que fugiu de casa?

– Definitivamente não, mas com certeza ganha um novo capítulo com um futuro muito mais certo adiante.

– Que emoção – Lila intrometeu-se. – Chega a ser quase romântico, mas ainda não vi nenhuma troca sendo feita.

=8=

Lila e Deedee estavam do meu lado a alguns metros de distância do Centro Pokémon, em uma calçada pincelada de área a beira da praia onde quase não havia movimento. Ja havíamos feito as transferências e agora Absol era Pokémon de Deedee. Pelo menos até que Lila ou ele cedesse. Peguei as Pokeball de Leaf e Serpio e libertei os Pokémon ao mesmo tempo.

– Eu não sei bem se vocês conseguem acompanhar o que acontece aqui fora – tentei fazer com que eles me entendessem. Leaf estava calma, mas Serpio mantinha os olhos em mim com uma expressão ilegível, – mas preciso mudar vocês de Pokeball por motivos de segurança. Eu sei que não estávamos bem Leaf e Serpio, bom nunca foi uma opção para julgar nosso relacionamento.

“Preciso que vocês sabiam que eu estou disposta a dar meu melhor e fazer com que vocês encontrem seu potencial. Mas aprendi que tenho que respeitar seus limites. Espero que vocês estejam dispostos a continuar comigo, como eu os quero ter em minha companhia.”

Deixei que as duas Pokeball caíssem no chão e pulei sobre elas, em seguida acertando-lhes chutes, deixando-as em pedaços. Peguei as novas Greatballs que tinha comprado no Mart e rolei duas delas na direção deles. – Eu quero que vocês façam isso porque querem e não porque tem de fazer. – Um dos Psyduck agarrados à perna de Lila fez um som engraçado, como se concordando com o que eu havia dito – as coisas vão ser diferentes a partir de agora.

Leaf deu alguns passos rápidos até a Greatball e me lançou um olhar feliz que eu não percebia nela há muito tempo. Fez seu típico barulho e depois olhou para Serperior que estava com seu dorso levantando, como se o convidasse a segui-la. Em seguida tocou com o focinho a Greatball e desapareceu no raio vermelho.

Serperior ficou parado um tempo. Olhou o ambiente a sua volto e balançou a cauda – se realmente preferir seguir eu posso te levar de volta para a sua montanha – expliquei e ele me encarou por mais algum tempo, me avaliando de cima embaixo. Não parecia certo do que fazer, até o ultimo momento quando se abaixou depressa e rastejou até a Greatball, desaparecendo no raio vermelho.

Caminhei até as duas Greatball extremamente satisfeita. Agora eles eram legalmente meus e porque queriam ser. Apertei o botão fazendo os dois objetos diminuindo de tamanho e os depositei ao lado da Pokeball onde Couve-flor estava.

A carinha do Pokémon semente quando descobriu que ficaria aos meus cuidados quando confirmei a transferência de tipo um, tinha me deixado mole e agora eu estava novamente com vontade de chorar. Mas pela primeira vez em muito tempo sem nenhum tipo de remorso, culpa ou saudade. Apenas felicidade.

Notas finais
This is it. Juniper estava registrando todas as capturas de Haila como Jaden. Então, o que acharam?