Rota Zero
3 Escolhas Que Você Não Pode Fazer
Notas iniciais
December
ESCOLHAS QUE VOCÊ NÃO PODE FAZER
Pesadelo. Eu aprendi quando criança que era quando você tinha um sonho ruim, que te deixava triste, angustiado ou com medo. Mas, todos esses sentimentos desapareciam quando você acordava, deixando aquela sensação de alívio e conforto de que tudo não passava de uma peça pregada pelo seu cérebro.
Pesadelo. Eu estava vivendo um agora, e embora ainda estivesse de pijamas, tinha certeza que não estava mais dormindo. Aquele deveria ser um agradável e reconfortante café da manhã, mas minha mãe não parava de falar. Agitava os braços, falava alto. Estava tão empolgada que estava praticamente em pé sobre a cadeira.
Meu pai, sentado do outro lado da mesa, sorria às vezes, quando minha mãe tentava trazê-lo para sua desnecessária felicidade. No resto do tempo, ele praticamente enfiava a cara no aparelho televisor tentando assistir ao telejornal matinal, que era quase impossível de ser ouvido devido à algazarra da minha mãe. O único que parecia dividir a empolgação da mulher era Violeta, a Pidove da minha mãe, que tinha como hobby fazer ninho nos meus cabelos todas as manhãs.
– Você precisa se alimentar bem, é um grande dia hoje! – E mais comida era colocada no meu prato. Eu nunca tinha muita fome pela manhã e toda aquela animação estava me deixando enjoado.
– Eu não sei com o que você está tão feliz... – Resmunguei chateado. Eu sabia, e isso me chateava ainda mais.
– Ora, ora. Finalmente meu bebê vai se tornar um Charleston. – E agitou os braços como se fosse um boneco inflável.
– Eu não sou mais bebê, mãe. E eu já sou um Charleston. – E realmente eu era, apesar do nome não constar nos meus documentos.
– Mas, finalmente chegou o momento de você assumir o manto. Fazer jus ao honrado nome dos Charleston e trazer orgulho para nossa família. – Os olhos dela brilhavam.
– Eu já disse que não me interesso por essas coisas de...
– Eu não quero saber se você se interessa. – Me interrompeu. – Era nosso acordo, caso você tenha se esquecido, você me prometeu que sairia em jornada aos dezesseis.
– Eu já fiz dezesseis anos faz semanas. – Tentei argumentar. – Como você deixou passar, achei que já tivesse se esquecido desse seu sonho idiota. – Cruzei os braços, mal-humorado. Se não fosse minha mãe, já a teria esganado.
– Você disse que eu poderia escolher a data... – A frase foi morrendo, enquanto um sorriso diabólico se abria no rosto. – Além disso, seu pai está totalmente de acordo com isso, não é, querido? – Ela lançou um olhar sonhador.
Meu pai, que nem estava prestando atenção ao que era discutido, apenas balançou a cabeça afirmativamente. Senti o sangue correr para o rosto, velhote traíra.
– Agora, pare de enrolar e vá se vestir. Bianca está esperando. – E puxou o prato quando finalmente meu estômago protestou. Maldita mulher.
Eu queria estar com raiva, furioso ou frustrado, mas tudo o que eu sentia era uma indignação não muito sólida. A verdade é que eu tinha concordado com essa papagaiada toda, só para que minha mãe parasse de falar. Eu me lembrava exatamente de como isso tinha acontecido, dois anos antes, e me arrependia amargamente de não ter dado um pause no jogo e ter prestado atenção ao que ela dizia.
Minha mãe, Adizia Charleston, fora uma grande coordenadora de Pokémon quando jovem, assim como minha avó, bisavó e todas as outras mulheres da família. Ela não era apenas boa, mas era conhecida por seu grande amor aos monstrinhos. Uma veneração quase fanática, que chegava a assustar. Meu pai gostava de Pokémon, mas nada que fosse exagerado. Eu era o problema. Não que eu odiasse Pokémon, longe disso. Achava-os fofos, bonitinhos e funcionais. Entretanto, não tinha o menor interesse neles. É como não gostar de futebol ou sorvete. Não há um motivo para não se gostar, você simplesmente não gosta. E eu realmente não me importava com eles e minha mãe fazia um drama sobre isso.
Mal terminara de amarrar os tênis quando ouvi minha mãe esmurrar a porta e gritar que eu já estava atrasado. Surpreendia-me que ela não tivesse me obrigado a manter a porta aberta, só para se certificar de que eu não iria fugir (eu fugira uma vez, aos dez e o resultado disso, eram os acontecimentos desta manhã). Abri a porta e antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela jogou uma pesada mochila na minha direção. Minhas mãos foram de encontro ao objeto voador, mas ele passou direto, me acertando em cheio no rosto. Doeu, não tanto, mas eu fiz um drama na tentativa de persuadir minha mãe a desistir da ideia. Não colou, e ela me arrastou para fora de casa, me chamando de bebê chorão. Antes da porta da frente se fechar, ouvi meu pai gritando um ‘boa sorte’. E eu teria realmente que ter muita sorte para sobreviver a sandice da minha mãe.
Aspertia City era uma cidade pequena em constante desenvolvimento, mas mesmo assim não perdia o ar bucólico. Era um local agradável e eu gostava bastante. E deveria ser o único. A maioria dos meus amigos de infância, quando fez 10 anos pegou seus Pokémon e foi conhecer o mundo. Mas eu não estava nenhum pouco ansioso para sair de casa aos dez, e nem estava agora, aos dezesseis.
A tal Bianca, de quem minha mãe falara, estava esperando no mirante da cidade. Ela era loira e os óculos escorregavam constantemente para a ponta do nariz. Não parecia ser muito mais velha do que eu e tinha um ar risonho e bobo. Era bonita, mas nada excepcional. Ela pareceu meio chocada a me ver e avalio que seja por dois motivos. Primeiro, minha idade. Eu não era mais um moleque de dez anos e segundo, minha mãe estava ali ao meu lado, coisa que não acontecia nem com as criancinhas.
– Você deve ser Bianca, a Professora Juniper falou muito a seu respeito. – Minha mãe chacoalhava o braço da moça em cumprimento com tanta ênfase que achei que iria arrancá-lo.
– A senhora deve ser a senhora Charleston? – A garota estava visivelmente confusa com a presença da minha mãe ali.
– Por favor, não sou tão velha, pode me chamar de Adizia – sorriu coquete. – Mas, agora eu sou Adizia Hanks. Charleston é meu sobrenome de solteira.
A loira só sorriu, sem saber o que dizer. E eu nem sorrindo estava, porque me sentia extremamente envergonhado com toda aquela situação.
– Bem – a moça ajeitou os óculos e me mostrou uma caixinha. Dentro, havia três pokéball. – Ser um treinador Pokémon é uma responsabilidade muito grande e é preciso muito trein...
– Desculpe, mas meu bebê não será um treinador e sim um coordenador. Você entende que um Charleston sempre irá caminhar para o lado mais belo e sublime do mundo Pokémon – floreou.
– Mãe, deixe a moça falar – rosnei. Eu estava começando a reavaliar a possibilidade de esganá-la, mesmo sendo minha mãe.
– Bem – Bianca respirou fundo e retomou. – Ser um coordenador Pokémon também exige muita responsabilidade e treinamento. Finalmente, você está na idade – e ela corou furiosamente ao dizer isso. Provavelmente, seu discurso era ensaiado com antecedência e ela não esperava um adolescente ali – de ter essa responsabilidade. Escolha com sabedoria – e com um floreio empurrou a caixa na minha direção.
Eu realmente não me importava com nada daquilo. Meu objetivo era pegar qualquer um, enrolar um mês fora de casa e voltar com a cara mais deslavada possível dizendo que as coisas não deram certo. Mas antes que eu pegasse alguma pokéball, minha mãe se intrometeu.
– Você precisa escolher com sabedoria, avaliar bem a beleza e charme do Pokémon. Além disso, agilidade e graça também contam nos concursos e... – Enquanto ela falava e falava, estendi a mão e peguei qualquer um.
Abri a pokéball e libertei o pequeno ser. Um roliço e acanhado Tepig saiu de dentro da capsula e me lançou um olhar desconfiado. Eu não sabia muito de Pokémon, mas ele era bem bonitinho, daquele tipo que dá vontade de apertar até os olhinhos pularem para fora.
– O que você fez? Por que não escolheu o Snivy, que é muito mais gracioso e imponente – ela não estava verdadeiramente horrorizada com minha escolha, já que gostava de qualquer Pokémon, mas era visível que ela preferia um Snivy.
– Esse é bonitinho também – disse dando um aceno para o bicho que ainda me encarava com receio.
– Você pode dar um nome, se desejar – Bianca informou.
Analisei aquela bolinha laranja e preta, o rabinho de mola e o narizinho achatado. Era engraçadinho.
– Bacon – afirmei enfiando as mãos no bolso. O nome soava bem e o bichinho parecia ter gostado.
– Como assim, Bacon? Você ficou maluco? Já não basta ter pegado um Tepig, agora dá esse nome ridículo. Como acha que vai ganhar algum Contest desse jeito – ela estava furiosa.
– E quem disse que eu vou participar de algum Contest besta? –Enfrentei.
– E você acha que estou te preparando à toa? – Esbravejou.
– Me preparando para quê? Passar vergonha no meio de todo mundo enquanto eu exibo meu Pokémon com um lacinho? – Eu já tinha tentado me imaginar durante um Contest e quando mais eu o fazia, mais tinha certeza que não nascera para isso.
– Vergonha é o que você está fazendo, jogando o nome da nossa família na lama e desgraçando nossos ancestrais – a mulher usava um tom dramático que me fazia parecer o pior criminoso de Unova.
– É ridículo que eu tenha que seguir o destino que você escolheu – estava perdendo a paciência.
– Se você tivesse escolhido algum destino, eu não teria que fazê-lo por você – golpe baixo, bem baixo. Eu realmente não sabia o que queria fazer da vida e nem perdia muito tempo pensando sobre isso, mas minha mãe não precisava jogar na cara.
– Vocês querem um tempo para conversar a sós? – Bianca interrompeu, totalmente sem jeito. No calor da discussão eu tinha me esquecido completamente da presença dela e também de Bacon, que se enrolava nas pernas da moça, tentando se esconder, apavorado com a troca de insultos.
– Isso não será necessário, não é, December? – Minha mãe empinou o nariz como uma dondoca enjoada. Ela nunca me chamava pelo nome completo, só quando queria me provocar.
– Pare de escolher as coisas por mim. Se você gosta tanto dessas coisas, porque não vai você participar dos torneios?
– Eu tive meu momento. Agora é sua vez de brilhar.
– Eu não quero brilhar, eu só quero ficar aqui – estava ficando sem argumentos e minhas respostas soavam cada vez mais infantis.
– Se eu tivesse uma filha, ela não daria metade desse trabalho – resmungou insatisfeita.
– Então faça uma! – Gritei tão alto que a frase ecoou pelo mirante. No momento em que dissera tal frase, me arrependera. Vi os olhos da minha mãe ficarem nebulosos e ela fechar o cenho. Esse assunto, de ter outros filhos, era sempre muito complicado na minha família. – Eu não quis dizer isso – tentei consertar. Mas ela parecia cada vez mais triste e amargurada, e aquilo me fazia entrar em pânico. – Ok, ok. Eu lamento muito, mãe. Eu vou participar dos Contest por nós – concordei, derrotado.
Mal terminei a frase e vi o rosto dela se abrir em um sorriso. Mas não era um sorriso feliz, mas sim vitorioso, meio cínico, do tipo ‘eu consegui’. Só então me dei conta que toda aquela tristeza era fingimento e ela tinha me enganado direitinho. Eu era um trouxa e estava ferrado.
No final, Bianca me entregara a Pokédex e algumas pokéball para capturar meus próprios Pokémon. Ela explicara o procedimento de captura, que eu realmente não prestei atenção alguma. Dera ainda, algumas outras instruções sobre Centros Pokémon, Markets, Ligas e outras coisas que não me interessavam minimamente. Tudo o que eu fazia era responder tudo com um aceno de cabeça para que ela acabasse logo. E talvez, por toda situação que havia presenciado e com medo que ela se repetisse, Bianca desatou a falar e precisou recuperar o fôlego quando terminou. Para completar, tive que praticamente arrastar Bacon comigo. Ele havia se enroscado na loira e não queria mais soltar, talvez visse nela um porto seguro. Embora, não o criticasse por achar que seu destino não seria nada bom ao meu lado.
Nos despedimos de Bianca e partimos do mirante. Minha mãe analisava a pokéball onde Bacon descansava, parecia em dúvida da capacidade do porquinho em ganhar alguma coisa. Estávamos retornando para casa, quando minha mãe me puxou pelo braço e apontou para o caminho que levava a saída da cidade.
– Agora, esse é seu caminho.
– Mas...
– É hora de provar que eu não estou errada sobre você.
– Que eu sou um vagabundo preguiçoso? Sim, você está certa.
– Não diga isso – e sorriu. E dessa vez, foi um sorriso bonito e feliz. – Na mochila tem tudo o que precisar. Trocas de roupa, mantimentos, algum dinheiro. Ligue se precisar de alguma coisa.
– Você realmente não quer que eu volte para casa, não é? Para já deixar tudo isso pronto...
Ela não respondeu a provocação e eu finalmente entendi. Aquilo era uma despedida, mas nenhum de nós tinha jeito com isso. Se fosse resumir minha vida ao lado da mulher seriam apenas brigas. E como brigávamos. Não a odiava, mas era estranho não estar resolvendo as coisas na base do quem fala mais (e que ela sempre ganhava). Ficamos nos encarando naquele silêncio constrangedor. Ela parecia em dúvida se me abraçava, me beijava ou dizia mais alguma coisa. Eu estava esperando a reação dela e rezando para que não fosse nem beijo, abraço ou sermão.
– Você deveria cortar o cabelo – passou a mão pelos meus cabelos, bagunçando-os. – Agora vá.
E foi assim. Sem beijos, abraços ou sermão. Parecia frio para qualquer um que olhasse, mas não para mim. Ela não tinha falado demais nem gritado e todo esse comedimento mostrava o quanto ela se importava.
– Mande um abraço pro velho – disse antes de me virar. Meu pai já deveria estar no trabalho e não me veria partir.
Meus passos eram lentos, o cascalho sob meus pés fazia um barulho gigantesco. Eu não tinha me afastado muito, pois no meio do som de terra e pedra pisoteada ouvi minha mãe chorar. Não sei se era de tristeza ou felicidade, porque não tive coragem de olhar para trás.
Os passos aceleraram e em pouco tempo, eu estava correndo. Não demorou muito para que finalmente atingisse a saída da cidade. Diante da pequena placa espelhada que marcava o limite de Aspertia, vi meu reflexo. Os cabelos negros bagunçados, caídos sobre o rosto, praticamente tampando os olhos, a roupa em desalinho, o rosto marcado. Eu também estava chorando e nem sequer tinha percebido. Tentei me ajeitar da melhor maneira possível, eu precisava estar bem para o primeiro passo da minha nova vida, embora não estivesse verdadeiramente interessado nela.
=8=
Rota 19. Eu tinha estado ali meia dúzia de vezes em viagem com meus pais, mas era muito diferente agora. Eu podia sentir a grama sobre meus pés, a relva pulsando, a vida presente. Era bonito e bucólico e eu gostava de como o ar cheirava. Havia muitas árvores e a grama estava alta, o que significava que era provável meu encontro com algum Pokémon. Tentei andar o mais cuidadosamente possível para não topar com nenhum ser selvagem, não estava com um pingo de animação para entrar em combate.
Caminhei cerca de dez minutos quando acidentalmente pisei em alguma coisa, e essa coisa guinchou. Eu não podia ser tão azarado, certo? Um Patrat furioso me dizia que sim, eu poderia ser muito azarado. O pisão deveria ter doido um bocado, já que ele parecia disposto a arrancar minha cabeça só com o olhar.
Na verdade, eu não tinha certeza se era um Patrat e nem tive tempo de conferir na Pokédex, ele investiu contra mim e só consegui me jogar para o lado para não ser atingido. Se era briga que ele queria, então ele a teria. Passei a mão no cinto da calça à procura da pokéball que Bianca me dera, mas o objeto não estava lá. Como um filme passando na minha cabeça, me lembrei que minha mãe estava brincando com a pokéball do Bacon quando saímos do mirante, mas não me lembrava de ter pegado o objeto de volta.
– Mas que merda – resmunguei, enquanto um raivoso Patrat avançava em minha direção.
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