Rota Zero
61 Depois da Última Hora
Notas iniciais
December
DEPOIS DA ÚLTIMA HORA
Meus olhos correram pelos rostos das pessoas naquela sala, não eram muitas, mas eu me sentia acanhado de todas me olharem tão intensamente. Elesa estava sentada em uma cadeira no centro do cômodo, ladeada por Alanna. Shauntal estava ali também, e era a primeira vez que eu via a Elite Four, ela era bonita, mas uma beleza sinistra que mais me acanhava do que excitava.
Na fileira seguinte, havia três policiais, trajando suas fardas e tomando notas de tudo o que eu dizia, havia um Ranger de óculos que parecia estar ali para coletar informação. Ele era muito parecido com o rapaz que estivera na reunião quando Nimbasa fora atacada, mas eu não tinha certeza se era a mesma pessoa.
Em pé, ao fundo, Roxie e Cheren estavam encostados na parede e conversavam vez ou outra enquanto eu narrava o aparecimento de Keldeo em Seaside Cave. Embora a líder venenosa estivesse na ilha e lutara arduamente para protegê-lo, apenas Haila e eu estávamos dentro da câmara quando o monólito quebrou revelando a forma reluzente. E essas informações, mais o que tinha ouvido a Team Plasma comentando era o que eu estava relatando naquela reunião.
Haila deveria estar ali, mas o limite de paciência de Elesa com ela tinha terminado no dia anterior, de forma que só eu havia sido convocado para o último dia de reuniões. Enquanto eu estava ali narrando os fatos, ela deveria estar em algum canto treinando seus Pokémon.
Ela não era nenhuma obcecada por treinamento, embora fosse mais dedicada a isso do que eu, mas desde o que acontecera em Black City, ela queimava a raiva e ansiedade treinando nossos Pokémon. Não era apenas seu time que corria cinquenta voltas em torno do parque, mas Bacon, Chiclete e Marshmallow eram levados por ela e passavam pelo mesmo treino espartano. Até mesmo Peach, que não ouvia nada do que eu dizia, andava sofrendo nas mãos de Haila.
— São apenas estes nomes que você ouviu? – Um policial perguntou se referindo aos membros da Team Plasma me tirando do meu devaneio de qual tipo de treinamento Haila estava empregando naquele dia, talvez ataque em conjunto.
— Sim, apenas esses – concordei – eles chamavam apenas o líder por mestre, então não sei quem ele é.
Outro policial, uma mulher, arrastou sua cadeira mais próxima da minha e pediu que eu descrevesse fisicamente todos os membros da Team Plasma que poderia lembrar. Enquanto eu narrava suas feições, ela rabiscava rápida e avidamente em um bloco, dando olhos e rugas de expressão as palavras que eu dizia. Comecei pelo líder e sua chamativa cicatriz, depois para Thiers e a queimadura no rosto, entretanto, o restante deles não me pareciam mais do que um borrão mental. Muita coisa tinha acontecido depois de Seaside Cave, eu já não sabia quais Team Plasma tinha visto na ilha ou no ataque em Black City. Por algum motivo, omiti informações sobre Rose, eu não queria efetivamente protegê-la, mas não me sentia confortável em delatá-la.
Meus olhos correram para o canto da sala espiando Roxie, esperando que ela me desmentisse e falasse da menina, mas ela parecia ocupada demais tagarelando com Cheren.
Eu não fazia ideia do que havia acontecido a Rose, depois de cairmos dentro da água, tudo ficou muito confuso. Marlon me dissera que apenas eu estava dentro da piscina natural, mas eu tinha certeza de estar segurando seu pulso quando submergimos. Será que alguém a tinha resgatado antes? O garoto do Tropius, talvez, mas e se ela ainda estivesse dentro da água quando Marlon me resgatou? Talvez ela tivesse sido arrastada para o fundo e...
Tentei afastar o pensamento e me concentrar nos desenhos que a policial fazia. Aquilo pareceu muito mais longo e tedioso do que imaginei, quando ela finalmente pareceu satisfeita com minhas informações, fez sinal para os colegas, eles agradeceram e se retiraram. Shauntal também se levantou, chamando Elesa em um canto.
Eu me inclinei na cadeira, encarando o teto da sala. Estávamos dentro do ginásio de Elesa, que tinha sido parcialmente reconstruído e a pintura do teto daquele ambiente não estava concluída. A reforma vinha acontecendo rápida e o ginásio deveria abrir em algumas poucas semanas, ou pelo menos, essa era a ideia original, mas agora, eu podia ouvir a todo momento sobre paralisações e recessos.
— Você parece cansado – Alanna se inclinou entrando no meu campo de visão. Sorri e ela sorriu de volta. – Talvez você precise de um descanso – comentou pensativa, então começou a revirar os bolsos, até achar um pedaço de papel e me entregar. – Você deveria ir, leve a Haila.
Era um ticket de uma pousada spa. Tinha a foto de uma casa de madeira grande e com um estilo campestre e uma grande fonte bem a frente. As letras no papel ligeiramente amassado diziam que com a apresentação daquele informativo, a hospedagem era gratuita por um dia e servia para duas pessoas.
— Pertence aos meus pais – Alanna informou. – É um lugar calmo para desancar e renovar as energias.
Desviei os olhos do papel e encarei a moça a minha frente. Se fosse Haila no meu lugar, provavelmente teria voado no pescoço da aprendiz de Elesa. Cidades tinham sido atacadas, Lenora sumira, a captura de N não estava ajudando em nada e ela estava falando de spas? Mas não poderia negar que seria bom poder renovar as energias.
— Alanna – o Ranger de óculos chamou e ela se virou indo falar com ele.
Encarei a foto no ticket, parecia um lugar legal. Talvez eu conseguisse levar Haila até lá sem ela ter um surto. Já estávamos em Nimbasa fazia uma semana ,nada realmente havia acontecido e pelo andar das coisas, nós não iriamos para lugar algum tão cedo, então não custava nada perder um dia tentando ter uma vida normal.
=8=
O sol já estava nascendo quando conseguimos um carro em Black City e no sacolejar lento e ritmado do carro pela rodovia, Haila acabou adormecendo e se apoiando no meu ombro. Ela tinha lutado bravamente no topo do prédio tentando ajudar Roxie a manter todos seguros e deveria estar muito cansada. Eu cochilava vez ou outra, mas sempre que o carro passava por um buraco, eu batia a cabeça contra o vidro da janela e acabava despertando.
Roxie parecia exausta, mas se mantinha desperta e atenta, fosse para manter o carro na estrada, fosse por medo da Team Plasma aparecer novamente. A viagem foi silenciosa e deprimente. Eu não conseguia realmente me situar, éramos alvos ou apenas distrações para um ataque maior?
Havia muitas coisas que certamente eu não entendia, até onde eu sabia a Team Plasma defendia a liberdade e autonomia dos Pokémon e esse ainda era o discurso que Rose defendia dentro da caverna. Mas agora, eu não sabia exatamente como a unidade do grupo funcionava. Ela parecia uma voz sozinha no meio do tornado enquanto todos os seus amigos tinham mudado o discurso.
Eu não fazia ideia de se o discurso tinha mudado, se eles tinham apelado para uma abordagem mais enérgica apenas para serem mais efetivos, o velho “os fins justificam os meios”, ou se o discurso tinha sido sempre esse mesmo e eu tinha sido ludibriado pelas palavras bonitas, como Cheren dissera.
Chegamos a Nimbasa perto do horário do almoço. Meu estômago roncava ruidosamente enquanto passávamos pelas ruas movimentadas. Apesar do ataque na noite anterior, não havia destruição e caos como da outra vez.
Havia fumaça preta de focos de incêndios contidos espiralando pelo céu e muitas marcas de tiros nas paredes. Unidades móveis do Centro Pokémon faziam atendimentos em pontos específicos e havia outras unidades hospitalares improvisadas, desta vez direcionada a humanos, onde enfermeiras de uniformes azuis corriam de um lado para o outro, fazendo triagens.
Passamos diante do Centro Pokémon e Roxie reduziu. Mais de um mês não tinha sido tempo suficiente para reativar o local. Todo o estrutural do telhado estava sendo refeito e era possível ver as marcas de fogo nas paredes que ainda permaneciam em pé.
Roxie girou o volante e entrou na próxima rua e depois de uma longa alameda, chegamos ao ginásio de Elesa. A fachada tinha sido toda reconstruída, mas não pintada. Parte do jardim que havia sido destruído, mudas novas começam a florescer. Em uma das paredes laterais, havia uma pichação enorme com o logo da Team Plasma, seguido de LIBERDADE AOS POKÉMON.
Quando Roxie estacionou, Alanna pareceu na porta da frente. Ela estava bastante abatida e parecia ter dormido tanto quanto todos nós. O braço estava numa tipoia, mas não parecia quebrado, apenas imobilizado por precaução. E parte do rosto e do cabelo pareciam cobertos de fuligem.
— Roxie – deu o melhor sorriso que conseguiu. – Como foi à viagem? – Questionou cortês.
A líder apenas balançou a cabeça, sem realmente responder e perguntou de Elesa. Alanna disse que sua mestre já estava a espera dela e nos indicou o caminho. Antes de entramos no ginásio, a vi espiar por cima do ombro e nos encarar curiosamente, quase como se não nos reconhecesse.
Passamos pelo hall de entrada, que não tinha mais o mesmo luxo e glamour de quando Haila viera enfrentar a líder e rumamos para uma porta de metal, com os dizeres APENAS PESSOAL AUTORIZADO. Seguimos um corredor e Alanna parou em uma bifurcação, indicando a porta da esquerda para Roxie.
— Certo – a líder disse – você pode levar os dois para comer alguma coisa?
— Sem problemas.
— Espera ai, nós vamos com você – Haila disse como se finalmente tivesse despertado. Ela tinha acordado no meio da viagem, mas permanecera em silêncio total.
— Essa reunião é apenas minha com a Elesa – Roxie explicou, cansada.
— Mas tem a ver com a Team Plasma e a Lenora, você não pode nos excluir.
— Haila...
— Nós lutamos ao seu lado – despejou – e se não fosse por nós, você nunca teria encontrado aquele lendário e...
Roxie deu um passo, fechado a distância entre elas e colocou as mãos sobre os ombros de Haila. Achei que seria como uma mãe, mas vi ela apertar até Haila fazer uma careta, o ombro dela nunca mais tinha ficado totalmente bom depois da mordida do Serpio.
— Eu sei como você se sente e tudo o que eu souber, você também saberá, mas não agora.
Achei que a loira iria retrucar, mas ela não disse nada. Roxie soltou seus ombros, deu as costas a nós e rumou para a porta que Alanna indicara. Depois de Roxie sumir atrás da folha da porta que se fechava, a aprendiz elétrica nos guiou pelo outro corredor até chegarmos a uma pequena copa.
Nos indicou uma mesa de quatro lugares desmontável, enquanto revirava o frigobar e colocava algo para aquecer no micro-ondas. Quando o aparelho apitou que a comida estava pronta, se uniu a nós na mesa.
— Não é um banquete, mas é o que temos.
O vapor exalando da comida fez meu estômago roncar e eu comecei a comer quase que imediatamente, mas Haila ficou olhando para o prato como se não sentisse fome alguma.
— Eu quase não reconheci vocês – Alanna disse sorridente dando uma boa encarada em cada um de nós. Haila estava bem mais bronzeada e eu tinha pintado o cabelo, realmente estávamos muito diferentes de quando saímos de Nimbasa.
— O que aconteceu com o seu braço? – perguntei entre uma garfada e outra.
— No meio da confusão dessa madrugada eu acabei caindo em cima do meu próprio braço – disse analisando o membro na tipoia. – Não é nada grave, devo estar novinha em folha daqui uma semana.
— E como foi? – Finalmente Haila saiu de seu silêncio.
Alanna a encarou, parecendo ponderar o que responder.
— Ruim, mas se tivéssemos sofrido um ataque como de um mês atrás teríamos caído. A cidade ainda não estava pronta, mas resistimos bem. – Mordeu os lábios. –Mas, fomos apenas uma distração no final das contas.
— Por que eles levaram a Lenora? – E a voz saiu aguda, como se tentasse reprimir o choro.
— Eu não quero ser grosseira, mas não acho que tudo isso foi por causa da Lenora – Alanna informou.
— Então? – Perguntei curioso.
— N.
Eu conhecia apenas por nome, mesmo quando houvera os outros ataques da Team Plasma no passado, eu nunca me interessara, fosse por ser muito jovem e por parecer algo muito longe do meu convívio e realidade. Sabia que de algum jeito, ele, mesmo sendo jovem, tinha sido o cabeça da Team Plasma, mas realmente não entendia mais do que isso.
Se ele tinha sido preso como Roxie tinha nos informado, não era para os ataques terem cessado?
— Roxie já tinha nos falado sobre ele – Haila se recostou no encosto da cadeira. – Mas se ele está preso deve nos passar informações sobre o objetivo da Team Plasma...
— Talvez – Alanna se remexeu – com tudo o que aconteceu, os ataques, ainda não tivemos tempo de fazer um interrogatório, mas... Elesa não está colocando muitas esperanças nas informações que ele pode ter.
— Por que não?
— Mesmo com toda a habilidade que ele tem de entender o coração dos Pokémon, no final, ele foi só um peão. Mesmo que ele tenha voltado para a Team Plasma, ele não saberá alguma informação relevante.
Haila a encarou, desconcertada. Havia algo naquele olhar que eu sabia que ela esperava que talvez as informações pudessem ser sobreLenora. Mas se N, mesmo com o todo o poder que diziam ter era só um peão, então quem realmente puxava as cordas? Eu já tinha ouvido falar do tal Ghetsis, pai do cara, mas pelo que entendia, ele também era carta fora do baralho.
=8=
— Ficou estranho, mas combinou com você – Cheren estava sentado na cadeira que a policial que fizera os retratos-falados ocupara anteriormente. Eu estava tão absorto pensando no tal spa da família de Alanna que nem o vira se aproximar.
Ele falava do meu cabelo e me senti constrangido diante do comentário, Roxie tinha razão, aquilo chamava muito a atenção. Embora já fizesse três dias que ele estava em Nimbasa, não tínhamos conseguido conversar diretamente. Eu o via nas reuniões, mas depois ele simplesmente sumia, provavelmente tratando de assuntos que interessavam apenas aos líderes.
— Você parece triste – disse me analisando.
— Cansado – e voltei a encarar o teto. – Como as coisas vão ficar agora? – Eu já tinha perguntado aquilo a Roxie dezenas de vezes, mas as respostas eram sempre vagas e evasivas.
— Estamos fazendo o melhor que podemos...
— Em relação?
— A tudo – e ele deu um muxoxo. – Depois do que você viu em Seaside Cave, finalmente temos certeza que a Team Plasma está mesmo atrás dos lendários, só não sabemos por que...
— Dominação mundial? – Arrisquei.
— É uma possibilidade – ele se ajeitou na cadeira, cruzando as pernas. – Mas quatro lendários não é algo fácil de ter e muito menos controlar.
Nos encaramos mas não dissemos nada, por mais que eu tivesse visto o Keldeo surgir em luz e esplendor, lendários ainda pareciam um conceito abstrato para mim. A Team Plasma pregava liberdade, será que usariam o quarteto de lendários para induzir os outros Pokémon a abandonarem seus treinadores e seguirem para a “terra prometida”, onde eles viveriam livres e selvagens como Rose dissera?
— E quanto a Lenora? – Vi as sobrancelhas se unirem diante da minha pergunta.
— Estamos fazendo todo o que podemos...
— Mas...
— Deedee, eu sei como Haila se sente, mas não podemos deslocar nossos esforços apenas para isso – e deu um suspiro. – Eu “herdei” o ginásio dela e ela me ensinou muito quando eu era treinador. Ela é importante para mim também, só que muitas coisas têm acontecido e cabe a polícia investigar pessoas desaparecidas.
Eu queria argumentar, mas não havia nada a dizer.
=8=
Cheren chegou a Nimbasa sete dias após os ataques, acompanhado de Burgh. Os lideres tinham ido à cidade para a reunião que Elesa convocara, a mulher queria fazer a reunião no dia seguinte a nossa chegada, mas com várias cidades atacadas, a maioria dos lideres não poderia comparecer, assim ela esperou não muito pacientemente por uma semana, até que todos pudessem estar em Nimbasa.
Estávamos na sala de reuniões dentro do ginásio. Era ampla e arredondada com muitas cadeiras dispostas e um pequeno tablado. Apesar disso, por causa do número reduzido de participantes, as cadeiras foram arranjadas em semicírculo.
Elesa estava na ponta do semicírculo, ladeada por Alanna, que ainda usava a tipoia, mas já conseguia mover a mão. Do outro lado, na outra ponta, estava Roxie, Haila e eu ao seu lado. Burgh estava sentado do outro lado do círculo de frente comigo, ladeado por Cheren e Grismley.
Eu só o tinha visto na reunião anterior, de longe, e ele parecia um grande Zubat em suas roupas escuras. Ele nos encarava com certo desagrado e antes que Elesa começasse a discorrer do por que daquela reunião emergencial. Ele interrompeu.
— Eu achei que a reunião era apenas para líderes.
— Foram eles que viram o Keldeo, quer mesmo excluir nossa melhor fonte de informação por causa de um preconceito idiota – Roxie respondeu mordaz. Grimsley fez uma careta, mas Elesa ignorou e começou a reunião.
Em determinado momento, Haila e eu discorremos o que tínhamos visto e vivido na ilhota perto de Humilau City. Embora todos eles já soubessem da informação graças ao que Roxie tinha informado por Xtransceiver, eles pareciam muito impressionados, principalmente Alanna. Burgh, sentado diante de mim, sorria e balançava a cabeça a cada palavra que eu dizia como se me incentivasse a continuar. Antes disso, ele já tinha elogiado meu cabelo e me mostrado as fotos que Clarice mandava dos Contest.
— Então, oficialmente, a Team Plasma está atrás dos lendários – Grimsley falou com um tom de voz arrastado.
— Já sabíamos disso – Roxie se ajeitou na cadeira.
— Suspeitávamos – ele corrigiu. – Informações de um livro de fantasia não podem ser levados totalmente a sério – se referiu ao livro de Lenora com desprezo.
— Mas a Team Plasma está levando – Haila interferiu.
Grimsley pareceu não gostar da intromissão dela, mas ignorou seu comentário e continuou como se nada tivesse sido dito.
— Bem, precisaremos fazer algo a respeito. Tínhamos programados forças tarefa para conferir as informações de Lenora, mas agora precisaremos de algo mais incisivo.
Apesar do silêncio incômodo, Grimsley tinha razão. Roxie tinha ido sozinha para o litoral apenas para checar uma pista, e quase não dera conta de deter a Team Plasma. Eles provavelmente estariam mais preparados para a próxima vez, então os líderes também precisariam estar.
— Mas isso será um problema – Burgh tomou a palavra. – Com esses ataques surpresas, não podemos deixar as cidades sem proteção.
— Teremos que nos organizar – Elesa suspirou. – Infelizmente, a força policial também anda bem reduzida, não podemos contar que eles consigam conter a Team Plasma sozinhos.
— Temos os Rangers para ajudar – Alanna sugeriu.
— Sim, mas ainda assim, somos um número pouco expressivo.
— Eu estou disposta a ir atrás dos lendários – Roxie disse firmemente. – Meu pai pode dar conta de Virbank.
— Eu também – Cheren afrouxou a gravata. – Meu ginásio está em recesso. – Senti um frio na espinha diante das palavras do líder. Era verdade que Aspertia era tão esquecida no meio do nada que nunca éramos incomodados, mas sem ele por lá, significava que a cidade estava sem sua proteção e eu me preocupava com o que aconteceria aos meus pais.
— Eu também vou... – Burgh começou, mas Elesa o interrompeu.
— Você ficará em Castelia. – Pude ver no rosto dele se formar um beicinho enquanto se questionava por que. – Castelia e Nimbasa são as cidades mais economicamente importantes de Unova. Nós já estamos bem ruins das pernas, se Castelia cair, Unova será arrastada junto com ela. Você precisa manter a cidade segura.
Burgh não pareceu contente com a decisão de Elesa, mas a reconheceu como a mais inteligente.
— Marlon provavelmente não sairá de Humilau, ainda mais com a suspeita de Keldeo ainda estar escondido nas águas daquela região. – Roxie informou. – E Caitlin, eu desisti dela – emendou desanimada.
— Talvez Clay possa nos ajudar agora que não tem mais ginásio – Grismley provocou e percebi seu olhar deslizar para Haila. Ela se ajeitou na cadeira e pareceu irritada com a velocidade que esse tipo de informação corria. Eu só poderia imaginar que tipo de conversa os lideres tinham quando não estávamos por perto.
— Duvido muito, eu enviei uma mensagem falando da reunião e ele sequer me respondeu. – Elesa cruzou os braços. – Grimsley, vamos precisar da sua ajuda e dos outros membros da Elite. Convença Caitlin. Precisamos saber exatamente com quem podemos contar antes de decidirmos nossos próximos passos.
Ele pareceu não gostar de receber ordens da líder elétrica, mas respondeu com um grunhido indecifrável.
— E por que não contar com a ajuda de civis? – Haila perguntou. – Se eles querem tomar Unova, isso também é problema nosso.
— Eu entendo seu lado, Haila, mas não é assim que funciona. Nem todo treinador Pokémon está realmente pronto para um combate sem regras. Quando pessoas comuns estiverem lutando, isso vai se tornar uma guerra civil e não teremos mais controle de nada. Você já viu do que a Team Plasma é capaz, não posso permitir que pessoas comuns se envolvam nisso.
— Mas nós já estamos envolvidos – ela protestou.
— Você é muito jovem ainda para entender a situação – a líder começou. Não parecia o tipo de discurso que Elesa gostaria de usar, mas ela parecia sem opções. – Vamos fazer do nosso jeito, sem envolver pessoas inocentes. É o caminho que desejo seguir e é como estamos fazendo.
— Como fizeram pela Lenora – despejou e o silêncio assumiu conta do lugar. Ela não pareceu minimamente incomodada de ter jogado aquilo no meio da reunião, mas os líderes parecem incomodados em ouvir aquelas palavras.
— Nem sabemos o que foi feito com ela – Grimsley se fez ouvir.
— Do que está falando? Todos esses ataques não foram uma distração para levá-la? – Questionou ácida.
— Será? – E havia um sorrisinho cínico estampado nos lábios estreitos. – Por que alguém a sequestraria?
— A Team Plasma a levou – ela se levantou exaltada.
— Pode ser, mas não há provas – ele se acomodou melhor na cadeira. – Se ela fosse relevante para Team Plasma, já teriam levado ela antes, quando levaram o livro. Fora que ela ficou semanas em Nacrene e nada aconteceu. Ela era um alvo fácil, líder aposentada numa cidade a beira da floresta... Não precisava de todo esse espetáculo.
— Está dizendo que ela sumiu por que quis? – Haila estava espumando de raiva.
— Poderia, mas não faz o estilo dela. A questão é que poderia ser um imitador. Dezenas deles surgiram depois dos ataques a Nimbasa. Chegam dizendo que são da Team Plasma, comentem seus delitos e somem, crimes muito leves para uma organização que quase dizimou uma cidade.
— Lenora saberia lidar com meia dúzia de delinquentes se fosse esse o caso.
— Talvez, nunca se sabe, mas não deixa de ser curioso em como todas as cidades atacadas há dois dias o ataque foi maciço enquanto em Nacrene o foco pareceu apenas ser o Museu. Padrões diferentes, não acha, criança? – Ele sorriu e Haila não respondeu. Elesa tentou cortar com um “vamos parar com isso” que Grimsley ignorou. – Além disso, pode ser como você disse, uma distração. Mas não para levar Lenora, mas para nos afastar dos Lendários. Estranho esse ataque acontecer logo após vocês frustrarem uma iniciativa da Team Plasma. Sabemos a verdade agora, mas se eles dividirem nossas forças será mais fácil nos dizimar. E Lenora parece ser uma ótima isca, dada à comoção que seu desaparecimento está tendo...
Só que Haila não estava mais ouvindo, ela tinha avançado a curta distância e preparava um soco certeiro em Grimsley. O elite nem se abalou, mas Cheren se pôs de pé tentando controlá-la e enquanto ela se debatia, os dois foram para o chão.
Acabei indo até lá e puxando-a pela cintura, enrolando meus braços em torno dela, mesmo assim, ela gritava e chutava, com o rosto vermelho, praguejando tudo o que podia contra o cara de negro. Elesa me mandou tirá-la de lá e com esforço e ajuda de Burgh, consegui arrastá-la para o corredor.
Antes da porta se fechar, pude ver Roxie se inclinar para Cheren, que tinha os lábios sangrando, provavelmente um dos golpes aleatórios de Haila tinham o acertado. Grimsley permanecia alheio a situação com o mesmo sorrisinho irritante e Elesa se levantara indo até ele, reclamando da situação que ele criara.
Consegui levar Haila até a copa, onde uns dias antes almoçamos com Alanna. Burgh pegou água para ela e tentou tranquiliza-la, mas ela estava muito irritada.
— Eu vou matar aquele cara.
— Grimsley é assim mesmo, não o deixe te irritar.
— Como ele pôde dizer aquelas coisas da Lenora...
— Poupe suas energias – ele praticamente enfiou o copo de água na goela dela. – Nós vamos precisar dela para coisas mais importantes.
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