Rota Zero

76 Delírios Mágicos e Dias de Guerra - parte 2


Notas iniciais
Voltamos!!! Sim, podem chorar, se emocionar, festejar, cumprir promessas e afins, pois estamos de volta. Sei que demoramos, mas não tem muita justificativa além de vagabundagem com falta de tempo e inspiração. Mas chega de papo e vamos ao que interessa

December

DELÍRIOS MÁGICOS E DIAS DE GUERRA — parte 2

Estava escuro e por mais que eu forçasse os olhos e tentasse focar algo acima da minha cabeça, era impossível ver alguma coisa. Parecia não haver controle sobre meus braços e pernas e eu sentia que não conseguiria segurar a respiração por muito mais tempo.

Finalmente meus braços tocaram algo, havia pouca luminosidade vindo dali, mas parecia minha única saída. Reuni o pouco de força que eu tinha socando a película de gelo com os punhos. Não sei por quanto tempo bati, mas quando finalmente o gelo cedeu aos meus esforços, eu já tinha engolido uma quantidade razoável de água gelada.

Consegui me içar sobre a superfície congelada do lago, minhas mãos estavam sangrando e eu tossia incessantemente tentando recuperar o fôlego. Estava horrivelmente frio e escuro, o céu estava azul quase preto e não havia lua ou estrelas para me agraciarem com um pouco de luz. Eu odiava aquele lugar.

Eu mal conseguia divisar a caverna alguns metros dali e tudo parecia confuso e misturado, como se meu cérebro tivesse congelado e eu não conseguisse mais pensar direito. Minhas roupas estavam encharcadas, minha cabeça latejava e eu mal conseguia respirar. Pequenas névoas se formavam da minha respiração e parecia ser a única coisa a me fazer companhia ali. E eu não tinha certeza se aquilo era bom ou ruim.

Meu Xtrasnceiver começou apitar, cortando a noite silenciosa. Só então reparei que havia um trinco enorme na tela e tinha água dentro do dispositivo. O som saia engraçado, como uma caixa de som submersa. Eu podia ver o número de Kara aparecer embaçado no visor. Ela deveria estar furiosa para me ligar novamente.

Senti os músculos do rosto tencionarem, tentando um sorriso que não se formou. As coisas tinham sido tão mais fáceis horas atrás... Mentira, nada tinha sido fácil desde que eu tinha me encontrado com a garota.

=8=

— Haila! – uma voz masculina inquiriu.

— O quê? – eu não tinha muita certeza do que estava acontecendo e meus olhos demoraram a se ajustarem a luminosidade local.

— Quem é essa? – a voz questionou novamente.

Albion. Meus olhos encararam as letrinhas miúdas da tarjeta que o homem usava no peito. Era o mesmo policial que me prendera, o mesmo que nos encontrara na floresta. Eu não tinha dado atenção ao seu nome, pois esperava nunca mais vê-lo, mas ali estava ele me encarando de forma acusadora.

Demorei um bom tempo para me situar. Eu estava em uma cadeira de madeira e os braços algemados, tinha uma mesa de tampo gasto diante de mim e a calefação estava exagerada. Um biombo simples separava o ambiente do resto da delegacia. Ah, então eu tinha sido trazido novamente ali depois de ter apagado na floresta.

Era uma sala de interrogatório, ou deveria ser, porque não parecia em nada com aquela dos filmes, a prova de som e com vidros espelhados. Os outros policiais e mulher dos óculos de oncinha podiam facilmente ver o que rolava ali através do biombo.

Pela fresta entre os biombos eu podia ver outra mesa, onde meus pertences descansavam. Mochila, Pokéball, Xtransceiver, tudo exposto ao lado do meu registro de treinador. Essas coisas não deveriam estar ensacadas como provas? As coisas da Kara estavam ao lado, tão expostas e abandonadas quanto as minhas.

— Então, quem é essa? – Albion falou novamente. Ele estava encostado no biombo, do outro lado da mesa.

— Por que está perguntando dela? – Curvei as sobrancelhas sem entender.

— Você veio o caminho todo resmungando o nome dela – e um sorrisinho cínico apareceu estampado no rosto.

— É uma amiga – respondi secamente.

— Outra Team Plasma? – zombou. Abri a boca para responder, mas o gosto metalizado do sangue seco me fez parar. Só agora, que eu estava realmente consciente, eu sentia minha testa latejar. Eu não fazia ideia de como estava o ferimento depois da coronhada, mas não deveria ser nada bom. – Ficar em silêncio não vai te ajudar – retomou. – Ser colaborativo é o melhor que você pode fazer.

— Se eu dissesse que nós não fizemos nada do que está nos acusando, acreditaria? – Vi o policial curvar as sobrancelhas e então sorrir arreganhando os dentes.

— Claro, se você puder provar... – Eu não podia e ele sabia disso. – Você estava apenas seguindo ordens, estou certo? – Mudou a abordagem, usando um tom de voz mais acolhedor – você é jovem, vai destruir toda a sua vida por isso? Se me disser alguns nomes, quem o mandou fazer isso, eu prometo intervir para que sua pena seja branda.

Eu sabia que a coisa funcionava assim, muito peixe pequeno da Team Plasma tinha saído limpo delatando pessoas de alto comando nas outras vezes. Não era um negócio de todo ruim, mas eu não era um Team Plasma, eu não tinha feito nada daquilo e não poderia delatar ninguém, mesmo se quisesse.

Permaneci em silêncio, encarando as algemas já meio enferrujadas que adornavam meus pulsos. Não deveria ter muito uso. Eu não conseguia me lembrar do que tinha acontecido depois de estupidamente desafiar o policial na floresta. Eu tinha apagado e eles tinham nos capturado, aparentemente.

— Vocês mataram um idoso a sangue frio, você deve ter algo a me dizer sobre isso...

Silêncio.

— O que a Team Plasma quer na nossa cidade?

Silêncio.

— Estava cheio de si antes de capturarmos e agora o Liepard comeu sua língua?

Mais silêncio. E o policial perdeu a paciência.

Ele embrenhou a mão no meu cabelo e puxou com força, fazendo-me bater a cabeça contra a mesa que nos separava.

— É bom que você comece a falar – esbravejou impaciente – ou vou fazer vocês pegarem perpétua.

Eu podia sentir o machucado no rosto contra o tampo gelado da mesa e aquilo pulsava lentamente, me dando uma leve dor de cabeça.

— Agora... – mas a frase morreu quando um estrondo atravessou a pequena delegacia. Eu não sabia o que era nem de onde vinha, mas a mulher dos óculos de oncinha se sobressaltou, derrubando a própria cadeira. Os outros policiais presentes se levantaram e ficaram se encarando sem saber o que fazer. – O que está acontecendo? – Albion gritou autoritário, espiando por cima do biombo, mas como resposta houve um segundo estrondo e a energia elétrica foi cortada.

Meus olhos demoraram um pouco para se adaptar a falta de luz, mas como ainda era meio do dia, a opaca luz do sol de Anville entrava pelas janelas. Albion tentava espiar acima do biombo, mas mantinha a mão agarrada ao meu cabelo.

— Estamos sendo atacados? – Ouvi um dos policiais questionar.

— Não diga besteiras – alguém retorquiu.

— Pode ser a Team Plasma querendo resgatar os seus – uma policial jovem e pequena comentou apavorada. E eu entendia o seu receio. Se líderes de ginásio, rangers e forças policiais dos grandes centros não estavam dando conta da equipe, imagine meia dúzia de policiais de uma cidadezinha esquecida no meio do nada.

— Isso é coisa dos seus? – Albion puxou meu cabelo com ainda mais força e um tufo de cabelos pretos e rosas ficaram enroscados entre seus dedos.

— Isso é cheiro de queimado? – a mulher dos óculos de oncinha questionou. Através dos dutos de ventilação era possível ver um fino fio de fumaça serpear pelo ambiente.

— Parece estar vindo da ala oeste – outro policial emendou e agora era possível ver fumaça saindo por baixo da porta que separava a delegacia das celas.

— Merda, Barbara, vá e traga a prisioneira – Albion ordenou. Imaginei que só poderia ser da Kara que ele estava falando. Eu só poderia desejar que ela estivesse bem com toda aquela fumaça vindo de onde ela estava.

Eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Pelo barulho só poderia ser um ataque da Team Plasma, mas eles teriam invadido a delegacia sem muito esforço, para que todo esse teatro?

A policial jovem sacou a arma do coldre e foi em direção à porta de metal que separava a ala principal do corredor de celas. Ela se aproximava devagar, tentando ouvir algum som do outro lado da porta, mas parecia não haver nada para se ouvir. De repente os sprinklers do teto se ativaram, mandando água para todo o canto. A garota se assustou por um momento, mas rapidamente se recompôs. A água encharcou o uniforme e fez uma grossa camada de água no chão. Eu sentia meu cabelo ficar molhado e água escorrer pela nuca, entrando dentro das roupas.

A policial deu mais um passo, chapinhando água e respirou fundo antes de puxar a maçaneta da porta, mas quando tocou no metal tomou uma descarga elétrica gigantesca. Foi como uma descarga localizada e a garota caiu no chão, desacordada com a mão carbonizada, era quase como se um raio a tivesse atingido.

Antes mesmo que o corpo desacordado batesse no chão encharcado, a porta se abriu e um enorme Electabuzz surgiu no arco. Os policiais sacaram armas e Pokéball e finalmente Albion soltou meu cabelo. Mas o Pokémon não se deixou intimidar, saltou no meio da recepção, e levantou os braços acima da cabeça, de forma ameaçadora.

Da porta aberta, uma fumaceira branca e espessa rodopiava invadindo a recepção. Pelo canto dos olhos pude ver Kara se esgueirar, aproveitando a fumaça como aliada. Ela puxara a blusa cobrindo a boca e o nariz. Quando nossos olhos se encontraram ela fez um sinal, indicando a mesa onde estavam nossos pertences.

Eu não estava entendendo o que estava acontecendo, de onde tinha surgido o Electabuzz ou como ela tinha conseguido fugir, mas eu não tinha tempo para pensar nisso. Em meio ao caos, ela gritou um comando e o bicho amarelo saltou para cima do policial mais próximo, derrubando-o no chão.

Aproveitei a chance e me joguei no chão, girando por baixo da mesa. Não deveria ter cinco metros até a mesa que eu precisava chegar, Albion ainda estava próximo, mas parecia ocupado demais tentando decidir o que fazer, agora que se ligara da presença de Kara.

— Baixem suas armas ou vou usar Thunderbolt e todos vão ser atingidos – a voz da menina saiu engraçada por causa do tecido que cobria a boca.

— Você não ousaria – Albion gritou, apontando a arma diretamente para ela. – Isso também te atingiria.

— Teste – ela desafiou .

Aproveitei a brecha e corri para a outra mesa, puxei as Pokéball e enfiei-as no bolso, misturando as minhas, de Haila e Kara. Peguei os Xtransceiver expostos ali, que agora pingavam água e enfiei no outro bolso. Meus movimentos eram lentos por causa da baixa visibilidade e das algemas. Quando fui tentar pegar as mochilas, uma bala ricochetou sobre o tampo da mesa e minha mão parou no meio do movimento.

Um dos policiais tinha me visto e apontava a arma na minha direção, só tive tempo de me baixar atrás da mesa e ouvir o segundo disparo fazer um som abafado, provavelmente acertando uma das mochilas.

Aquilo não estava nada bom, os policiais eram maioria, estavam armados e obstinados. De onde eu estava podia divisar uma porta de emergência na saída norte, mas era longe de mais para Kara chegar até ali.

— Corra! – Ela gritou o mais forte que podia e apontou para a porta. Albion apontou a arma na direção dela e disparou, mas eu já estava em movimento e não sabia se ela tinha sido atingida. Eu corria meio agachado na direção da porta e podia ouvir tiros zunindo na minha direção.

Quando minha mão tocou a maçaneta, ouvi uma voz feminina comandar um Thunder Wave. Puxei a porta e me joguei no corredor que nem sabia para onde dava, mas ali, apesar da fumaça, estava seco.

Pelo canto do olho pude ver a recepção ficar iluminada em um tom amarelo-azulado por um segundo e antes que tudo ficasse escuro, Kara pulou pela porta e se virou com a Pokéball na mão, retornando o Pokémon.

— Vamos – ela me puxou pelo braço, me levantando do chão e me arrastando pelo corredor. Eu não estava entendendo nada e aquela não era hora de perguntar.

Chegamos a uma segunda porta que dava para rua. Estava horrivelmente frio e as roupas encharcadas pioravam ainda mais a sensação. Kara continuou avançando acelerada, me puxando pelo braço e me arrastando pela rua. Espiei por cima do ombro, apenas para ver uma parte da delegacia pegando fogo, com uma fumaça preta saindo dela e alguns curiosos do outro lado da rua.

Andamos rápido por três quarteirões, até chegarmos a uma ruela e Kara finalmente parar, colocando as mãos nos joelhos e respirando ruidosamente.

— O que aconteceu lá? – Perguntei tentando regularizar minha respiração ofegante.

— Eu salvei o seu rabo – respondeu secamente.

— Como? – Como ela tinha dado um Thunder Wave e não tinha sido atingida. Como ela tinha um Electabuzz para começar?

— Eu não ia ficar e esperar eles decidirem meu destino – respondeu como se fosse isso que eu esperava.

— Você matou eles? – Perguntei incerto.

— Não, eu usei uma descarga leve no chão, eles só vão ficar atordoados, por isso não podemos ficar aqui muito tempo, precisamos achar um lugar seguro para ficar até o horário do trem...

— Como você não tomou o ataque?

— Solas de borracha – ela apontou para o grosso solado do sapato. – E eu sei como funciona o ataque do meu Pokémon, o raio de ataque. A voltagem não é estável, ela não se propaga igualmente como se espera. Era só estar no ponto cego no momento certo – disse confiante.

— Como você estava com seu Pokémon?

— Eu consegui pegar uma das Pokéball enquanto voltava do interrogatório – explicou por alto. – Depois foi só usar descargas elétricas na fiação até entrar em curto. As portas das celas se abrem automaticamente se a energia cair... – Deu de ombros. – Minhas coisas... – e estendeu a mão. Desajeitadamente tirei dos bolsos as Pokéball e o Xtransceiver e entreguei a ela. – E o resto? Meus documentos, minha mochila?

— Eu só consegui pegar isso...

— Sério? Você é idiota? Meu dinheiro ficou na mochila – e estreitou os olhos.

— Eles estavam atirando... – protestei sem muita convicção.

— Ótimo – revirou os olhos.

— Pelo menos você não está algemada – puxei os pulsos até a corrente da algema esticar e elas tilintarem. – O que vamos fazer agora? – Nada tinha saído minimamente perto do que eu havia planejado desde que chegara a Anville.

Era só buscar uma informação, eu podia ouvir a voz da Roxie ecoando nos meus ouvidos. Se Cheren ou Skyla soubessem que iria virar esse pandemônio, nunca teriam me deixado ir até lá. E Lila nunca teria me deixado viajar sozinho.

De repente, meu Xtransceiver começou a tocar escandalosamente e Kara enfiou as mãos nos meus bolsos, desesperada que o barulho fosse atrair atenção para nós. Ela atendeu sem nem olhar quem era.

— Finalmente – e pude reconhecera voz do outro lado da linha. Cheren. – Quem é você? – A voz dele saiu mais agressiva ao ver o rosto da menina desconhecida do outro lado da tela. Kara fez um barulho engraçado com a boca, meio em descaso e me passou o dispositivo.

— Deedee – o tom soou mais ameno ao me ver. – Quem é essa? O que aconteceu com o seu rosto? – Ele me encarou preocupado, vendo o corte que a coronhada tinha feito acima da sobrancelha. Deveria estar horrível pela expressão que ele fazia.

— Nada...

— Estou tentando te ligar desde que recebi sua ligação mais cedo... O que aconteceu?

— Ah, eu estive ocupado – eu não queria ter que contar a coisa toda sobre a prisão.

— Deedee... Achou o professor Juniper?

— Isso... – balancei a cabeça sem jeito. – Ele está morto.

— Como assim? – ele curvou as sobrancelhas espantado.

— Eu não sei bem, fui até a casa dele e...

— Você não tem tempo para isso, fale do lendário – Kara me cortou e vi a expressão do líder ficar severa.

— Bem, encontramos um papel na casa do professor Juniper que apontava para Pledge Grove – disse – tinha os mesmos símbolos que na caverna de Driftveil...

— Tem certeza?

— Sim, mas...

— Eu posso ver o papel? – Meus olhos se voltaram para Kara, mas ela simplesmente deu de ombros. Assim como nossas mochilas, o papel tinha ficado para trás.

— Eu o perdi – disse sem jeito. – Olha, eu sei que não tenho como provar e são só minhas suspeitas, mas eu tenho quase certeza que havia um lendário aqui. A caverna está toda destruída, mas se a Team Plasma o tivesse capturado acho que saberíamos... – Cheren confirmou com um aceno de cabeça. – Do que descobrimos, eu acredito que o lendário tenha fugido, quer dizer, teve aquele terremoto em Pledge Grove uns meses atrás e ele pode ter ido para lá, não? Eu fiquei sabendo que é um lugar sagrado e que os lendários se reuniriam lá caso algo acontecesse... – Era verdade que meses atrás a Team Plasma não tinha feito nenhum movimento, mas isso não impedia deles estarem trabalhando à surdina.

Cheren me encarou demoradamente, como se processasse as informações.

— Realmente é um local sagrado, existe uma parte das lendas que falam sobre a reunião dos lendários lá, mas nenhuma das pesquisas da Lenora indicam...

— Eu não sei – balancei a cabeça – mas se a Team Plasma achar que há um lendário lá eles podem... – as palavras não saíram, ficaram entaladas na garganta – não fizeram isso em Opeluicd?

— Certo – ele disse pensativo. – Alder não está mais lá e nossa força está bem restrita, mas talvez eu possa mandar um ranger, apenas para verificar.

— Nossa, um ranger, vamos ficar todos seguros agora – Kara debochou, revirei os olhos, esperando que Cheren fosse dizer alguma coisa, mas Kara me puxou pelo ombro, mudando totalmente a expressão. – Ei, estou ouvindo vozes, é melhor irmos.

— Certo – concordei e ao longe pude ouvir uma movimentação. – Cheren, eu preciso desligar...

— Deedee, o que está acontecendo? Você está com problemas... – e ele assumiu uma expressão muito parecida com a da minha mãe.

— Eu estou bem, nos falamos depois – e desliguei antes que ele tentasse dizer algo mais.

=8=

— O que diabos você estava fazendo? – Kara apareceu na tela trincada e sua imagem parecia disforme. – Eu tentei te ligar um milhão de vezes, você acha que eu não tenho mais nada para fazer?

— Desculpe – mas minha voz mal saia em meio ao esforço que eu fazia para respirar.

— Você está pior que dá última vez – disse com certo descaso, ou ao menos, foi o que tentou fingir. Tentei sorrir, mas meu rosto parecia congelado. – Eu te deixo para trás e você não sabe como se virar?

— As coisas ficaram meio ruins depois que você se foi...

— Albion?

— Também...

— Team Plasma? – mas eu não consegui responder, pensar naquilo me deixava terrivelmente irritado e deprimido. Kara entendeu meu silêncio como afirmação.

— E você, como está?

— Bem melhor que você – e abriu um sorriso disforme graças ao dispositivo encharcado. – Mas sua amiga, ela é muito barulhenta – e fez uma careta e desta vez, mesmo com dificuldade, eu consegui sorrir. – Mas eu não liguei para ficar de papo paralelo – e assumiu uma expressão mais séria – falei com Ben faz alguns minutos e parece que Floccesy caiu...

=8=

Não havia lugar seguro em Anville, não para nós. Havia muita gente na rua por causa do incêndio na delegacia e era difícil passar por algum local sem movimentação. Mas Kara achou que seria uma boa ideia nos escondermos na antiga estação de trem. Estava abandonada e era perto do Gear Station, mas chegar até lá não foi exatamente uma missão fácil. Além da movimentação, estávamos cansados e congelando.

A garota conhecia razoavelmente bem as ruas da cidade, bem melhor do que eu. E conseguimos atravessar alguns quarteirões até que chegamos a uma praça. Praça não era uma boa definição, era apenas uma marcação circular no encontro entre algumas ruas, havia espaço para canteiros, mas não tinha nenhuma planta crescendo ali e os bancos estavam muito mal preservados, com a madeira apodrecendo.

Era um espaço aberto que teríamos que atravessar para poder chegar até a estação abandonada e embora não houvesse muitas pessoas ali, todas as janelas davam para a praça. Kara foi à frente, espiando por cima dos ombros. Tinha umas pessoas em uma ruela próxima, mas elas pareciam entretidas o suficiente com o incêndio na delegacia. Eu seguia colado com ela, tentando mover os braços o mínimo possível por causa das algemas. Só faltava mais alguns metros até a rua que iriamos tomar.

— Ei! – a voz desafinada ecoou pela praça vazia. Era um garoto, deveria ser pouca coisa mais velho que a Cassie e a cara parecia ter passado em um moedor de carne. Eu não sabia quem era, mas não precisou de muito para ligar os pontos e descobrir que era o garoto que eu tinha esmurrado no dia anterior, aquele vestido de Zoroark.

Kara resmungou um palavrão e me puxou pelo braço, me arrastando para a via que íamos tomar, mas antes que pudemos alcançar a rua, o grupo de cidadãos que se entretinham com o incêndio tinha nos cercado. Deveria ter umas oito pessoas ali, nenhuma parecia realmente muito perigosa, mas elas pareciam bastante furiosas.

— Então vocês são os membros da Team Plasma que vieram recrutar nossas crianças? – Hein? Gritou um homem que estava mais a frente.

— Nós deveríamos chamar a polícia, eles devem ser perigosos – uma garota comentou.

— Até eles chegarem aqui, eles já fugiram – esbravejou um homem de cabelos brancos, com uma Pokéball em punhos.

— Isso mesmo, olha o que fizeram ao meu filho – uma mulher que parecia a minha mãe, mas com uma grande cabeleira laranja, abraçava o garoto Zoroark.

— Ouvi dizer que eles mataram o professor Juniper e esconderam o corpo na floresta – alguém complementou.

— Isso mesmo, penduraram o coração dele numa árvore – o quê?

— Eles têm que ser punidos. – A mãe do garoto Zoroark exacerbou em demasiado tom comovido.

Era a centelha que faltava, eles tinham medo de nós e isso era visível, mas o senso de justiça e punição parecia muito mais palpável.

— Eu concordo – a garota que sugerira chamar a polícia tentou tomar voz. – Mas eu acho que as leis existem para isso.

— E desde quando as leis servem de algo – o homem do cabelo branco cortou – quase sempre esses cretinos acabam se safando. – E um coro acompanhou em concordância.

O círculo se fechou em torno de nós e Kara levou as mãos aos bolsos, em busca das Pokéball. Kara tinha dito que não estava com disposição para ser linchada por um bando de caipiras e parecia ser exatamente isso que iria acontecer.

Eu não queria ter que batalhar contra eles, eram pessoas de bem, de modo geral, só estavam assustadas e confusas. Mas mesmo pessoas boas podiam fazer coisas horríveis se motivadas da maneira errada. Kara já estava com uma das Pokéball em punho, enquanto algumas pessoas também se armavam com o dispositivo. Atacar só iria nos fazer mais culpados, mas eu não iria convencer Kara a se entregar sem lutar.

O homem do cabelo branco lançou a Pokéball e da luz avermelhada surgiu um Dunsparce, o Pokémon era totalmente inexpressivo e eu não poderia julgar quão perigoso ele poderia ser.

— Um Dunsparce? Sério? – Kara não conseguiu controlar o risinho de deboche diante do Pokémon, o que deixou o grupo ainda mais furioso. O cara nem esperou que ela sacasse seu Pokémon, comandou um ataque, que o Pokémon desferiu diretamente na garota.

Graveller apareceu do facho vermelho diante da treinadora e sem a menor cerimônia atingiu o Pokémon com um soco, fazendo o cair desacordado aos pés do treinador. Pude ouvir um burburinho correr a multidão, algo como se esse cara fosse o mais forte e tivesse sido facilmente derrotado, mas não dava para entender realmente o que comentavam.

— Isso é tudo que vocês têm? – Kara comentou presunçosa, colocando as mãos na cintura.

— Nós temos isso – uma voz feminina veio de algum lugar que eu não saberia julgar e um Primeape enorme surgiu e saltou sobre o Graveller, derrubando-o no chão. Me parecia uma investida idiota, já que o Primeape não conseguiria facilmente socar um Pokémon com a couraça tão dura sem se machucar. Até um Vaporeon surgir no meio da bagunça e mandar um jato de água cobrindo os dois Pokémon.

Pude ouvir o som da pele de pedra ceder diante do soco do primata, como o som de barro molhado cedendo a uma pegada. Kara gritou qualquer coisa, puxando uma nova Pokéball do bolso, mas pares de mãos a puxaram pelas roupas, fazendo ela se desequilibrar e derrubar a Pokéball.

Senti outros pares de mãos me puxarem, me afastando a garota. Eles puxam minhas roupas com tanta força que pareciam querer arrancar minha pele junto delas. Senti um par de mãos serpearem pelo meu pescoço enquanto ouvia a multidão gritar enlouquecida.

O plano deles não era nos derrotar em uma batalha Pokémon, como eu ingenuamente chegara a acreditar, mas nos linchar, como Kara havia previsto. Eu estava me debatendo enquanto a mulher que apertava meu pescoço aumentava a pressão nas mãos, cravando as unhas na minha pele.

Era a mãe do garoto que eu tinha batido, ela tinha uma expressão furiosa no rosto e eu podia ver que aquilo era pessoal. Ela não estava ali pelo destino de Unova ou para combater a Team Plasma. Ela estava ali para me fazer pagar pelo que tinha acontecido ao filho. Eu tentava afastar as mãos delas, mas as algemas que me prendiam dificultava qualquer movimento.

Eu sentia que já não conseguia respirar direito e a visão estava ligeiramente embaçada. Eu sentia outras mãos me batendo e me puxando e o grupo em torno de mim era tão denso que eu não conseguia divisar o que estava acontecendo com Kara.

Se eu não fizesse nada, iria morrer ali. As mãos se atrapalharam, mas consegui pegar uma Pokéball e abri-la sem jeito. Como se uma rajada de ar tivesse arremessado a mulher, ela voou em um arco e caiu no chão com um baque, só então me dei conta que tinha libertado Serpio e agora ele se enrolava na mulher com força o suficiente para fazer os ossos estalarem.

Mal tive tempo de processar que tinha sido Serpio que eu havia libertado, um grupo de mãos me emburrou me prendendo no chão. Eu sentia chutes vindos de todos os lados, enquanto alguém parecia tentar libertar a mulher do Serpio, sem sucesso.

Eu sabia que se não fizesse nada Serpio acabaria matando a mulher, mas eu não estava em condições de pensar no bem estar de uma pessoa que tentara me estrangular. Eu podia ouvir os gritos do filho, desesperado no meio da multidão, mas eu não tinha visão do que realmente estava acontecendo.

Eu me sentia cada vez mais fraco e sem ar. Os chutes nas costas e estômago pareciam mais doloridos e eu tinha vontade de vomitar. Depois de tudo o que tinha passado nas mãos da Team Plasma, seria uma morte bastante inglória, mas eu não me importava realmente com a grandiosidade da minha morte, mas com o fato de que seu morresse ali, eu nunca mais veria Haila, Cassie, Lila ou meus pais. Eu nunca saberia se Des se recuperaria ou se no final, os planos de Elesa funcionariam contra a Team Plasma, e essas coisas realmente eu me importava.

— Giga Impact – Kara gritou em meio a confusão. Eu nem sabia mais onde ela se encontrava, mas vi um grupo de pessoas e Pokémon serem arremessados para longe, enquanto ela aparecia majestosa em cima do lombo do Bouffalant. O cabelo dela estava uma bagunça, o rosto cheio de escoriações, a blusa molhada, mas ela trazia aquele maldito sorriso confiante na cara, como se fosse dona do mundo.

Ela veio a galope a toda velocidade, sem se importar se as pessoas desviavam pelo caminho e sem descer do Pokémon, conseguiu me puxar pela gola da camisa e me içar, me acomodando de qualquer jeito ao lado dela. Com um giro, o Bouffalant disparou em direção a rua mais próxima.

— Espera, o Serpio... – gritei estendendo os braços na direção do Pokémon. Ele estava no meio da praça, lutava contra um Slaking enorme e não parecia nem um pouco intimidado que o bicho era maior e mais forte do que ele. A mulher estava caída alguns metros dali, não dava para saber o estado, mas o garoto choramingava agarrado as vestes dela. – Kara, eu não posso deixar ele aqui – gritei para a garota, mas ela prontamente me ignorou.

Entramos na rua a toda velocidade e aos poucos, eu podia ver os cidadãos formarem um círculo em torno do Serperior. Eles iam ficando cada vez menores, à medida que o Bouffalant galgava distância. Mesmo que ele fosse forte e selvagem, eram muitas pessoas para ele combater. O que eu tinha feito?

=8=

— Você me ouviu? – a voz estridente e aguada de Kara me chamou novamente.

— Sim – confirmei. Eu estava congelando ali e meus dedos estavam ficando dormentes. O sangue tinha congelado nos nós dos dedos deixando minha mão muito mais avermelhada.

— Você não parece muito comovido com isso... – ela destilou. E realmente eu queria estar, mas tantas coisas haviam acontecido que eu não sabia mais o que priorizar e o que sentir. – Bem, mas parece que não havia nenhum lendário por lá.

— Eu sei disso.

— Como você sabe? – Ela curvou as sobrancelhas, mas a água dentro do dispositivo causou um efeito distorcido na tela. Ela esperou pela minha resposta, mas depois de um tempo bufou, visivelmente zangada por eu estar escondendo coisas dela. – Você sabe que eu preciso de todas as cartas para estar no jogo...

— Você está segura em Icirrus, esse jogo não é mais seu – e nunca tinha sido realmente. Eu apenas a tinha tornado uma jogadora temporária, mas se não fosse pelo nosso encontro ao acaso, Kara teria passado por tudo sem nenhum grande problema.

— Se é sobre a Team Plasma, é um jogo de todo mundo, você sabe disso...

— Não é só sobre a Team Plasma, não mais... – e eu sentia o restante das minhas forças se exaurindo como se eu não conseguisse mais falar.

— Deedee – ela fez uma longa pausa, como se escolhesse que palavras usar. – O que realmente aconteceu com você?

=8=

Eu não sei bem o que aconteceu depois, mas quando dei por mim, tínhamos chegado a estação antiga e aparentemente ninguém tinha nos seguido. Chegava a ser um alívio finalmente estar em um local vazio e protegido do vento, mas por outro lado, eu sentia que a cada segundo alguém iria nos flagrar ali.

O Gear Station não estava muito longe, menos de dois quarteirões, mas havia um pequeno contingente policial fazendo rondas diante do prédio. Além disso, nos poderíamos encontrar com outra multidão no caminho até lá e isso não me animava nada. Para piorar, no meio da confusão eu tinha deixado Serpio para trás e isso fazia eu me sentir horrível.

— Você poderia pedir para o Cheren te salvar – Kara comentou sentando no chão empoeirado perto da antiga recepção, ela tinha um bom panorama da movimentação da rua ali e tinha retornado seu Pokémon para a Pokéball.

— Ele já tem mais o que se preocupar – e tinha mesmo. Além disso, eu tinha me metido em todos esses problemas sozinho, o mínimo que eu poderia fazer era sair deles sozinho. Eu tinha usado Chiclete para quebrar as algemas e queria usar Bacon para nos aquecer, mas a fumaça acabaria atraindo a atenção para o lugar. – Eu deveria voltar e procurar o Serpio – disse mais para mim mesmo.

— Pode ir lá fora se quiser, mas eu não vou salvar sua vida dessa vez – meu primeiro ímpeto era ir de qualquer forma, mas o que eu poderia fazer? A cidade inteira estava atrás da gente, Serpio não me obedeceria de qualquer forma e eu nem fazia ideia de onde procura-lo. No final, apesar do meu desejo de ir procura-lo, eu simplesmente me acomodei perto da garota.

Ficamos em silêncio, faltava pouco menos de uma hora para o horário do trem e Kara encarava a movimentação lá fora, provavelmente planejando um meio de chegar até o Gear Station passando pela polícia. Só agora, com um pouco de descanso eu reparara no inchado na bochecha onde tinha levado a bofetada misturado as outras escoriações que ela carregava.

— O que aconteceu? – Minha voz soou estranha. A menina me encarou curvando as sobrancelhas, interrogativamente. – Na floresta...

— Você apagou, eu não tinha como reagir – ela deu de ombros como se comentasse uma tarde agradável no parque. – Eles fizeram um longo interrogatório, eles têm certeza que matamos o velhote. Querem saber nossas motivações, como fizemos, quais os planos da Team Plasma, quem nós verdadeiramente somos... Essas coisas.

— Eles bateram em você? – e a cena do policial esbofeteando-a no meio da floresta voltou a minha mente.

— Não, só pressão psicológica – informou com desdém.

— Você contou alguma coisa?

— Como se esse bando de caipiras fossem acreditar em nós... Aposto que eles adorariam nos enforcar em praça pública para sermos uma amostra que Anville não vai cair para Team Plasma – disse em meio a um suspiro. E depois do que tinha acontecido, eu era obrigado a concordar.

— Eu não acho que termos fugido foi uma boa ideia, vai parecer que somos realmente culpados – Arrisquei incerto.

— Você sabe o caminho...

— O professor Juniper está mesmo morto?

— Não encontraram o corpo na casa, mas pelas fotos e a quantidade sangue que tinha por lá é provável – ela se ajeitou melhor e encarou o teto abobadado cheio de arabescos apagados e esquecidos. – Eles pegaram o papel – disse para ninguém em particular.

— Está tudo bem, era só um papel sujo...

— Não era a informação que você precisava? – Questionou.

— Sim, mas... sem o professor para dar respaldo não é como se realmente fosse de grande serventia – o papel tinha anotações que eu não sabia o que realmente significavam, Kara e eu poderíamos tê-las interpretado errado. As coisas que eu tinha dito a Cheren poderiam ser um erro, mas agora não dava mais para voltar atrás.

— Certamente é importante, afinal o velhote morreu por ela – disse com um muxoxo.

— Talvez não. Quer dizer, se ele morreu por isso, deveriam ter levado o papel embora...

— Provavelmente, mas é nisso que aquele policial de meia tigela estava se apoiando, que matamos o velhote e roubos documentos importantes – disse com deboche.

Mas Kara estava certa, ter levado um documento do escritório de um homem recém-assassinado arrastava toda a culpa para nós e criava um belo álibi para quem quer que fosse. A verdade é que eu não sabia realmente se a morte do professor Juniper tinha alguma coisa a ver com os lendários, poderia ser só uma infeliz coincidência.

— Se foi um membro da Team Plasma – ela começou cautelosamente, me espiando – deveria ter mais forasteiros na cidade além de nós dois...

— Sim – concordei, eles poderiam estar acampando na floresta e com isso ficar fora da vista, mas ainda assim seria necessário circular pela cidade, afinal o professor foi morto em casa e não na caverna. – A não ser que... – a lembrança veio como um flash, e poderia fazer muito sentido se fosse esse o caso. – Quando eu estive em Castelia, eu conheci um homem chamado Joslyn, ele era um membro da Team Plasma. Um ex-membro na verdade, ele tinha se arrependido e seguia uma vida correta, mas quando a Team Plasma começou a surgir novamente, antigos membros começaram a ser recrutados...

— E você acha que pode ser o mesmo aqui?

— É possível, isso explicaria porque somos os únicos rostos diferentes na cidade...

— Mas se houvesse um ex-membro não acha que depois de tudo a população ficaria de olho nele? Ainda mais num lugar onde todo mundo conhece todo mundo? – Ela arriscou e o pensamento de Kara fazia muito sentido.

— Sim, mas eu não sabia que Joslyn era um ex-Team Plasma até outro sujeito aparecer... – mas eu mal conhecia Joslyn, então meu argumento não era realmente válido.

— Bem, muita gente não foi acusada formalmente – ela constatou. – Você sabe, um peixe pequeno entrega um peixe maior para ter redução da pena, benefícios... – Albion tinha dito algo parecido durante meu interrogatório.

Se houvesse algum membro da Team Plasma que nunca saiu das sombras é possível que nem a polícia soubesse. Ele teria acesso ao professor como qualquer cidadão e poderia agir se necessário. Mas quem poderia ser, o vizinho dedo-duro talvez?

— Assassinato não vai ficar bonito no meu histórico de treinadora – ela retomou com um ar zombeteiro. Eu invejava sua habilidade de fazer piadas com a própria desgraça.

— Eu sinto muito por ter te metido nisso – foi tudo que consegui dizer. Se eu não tivesse pedido para acompanhar Kara, nada disso teria acontecido a ela. Eu queria me sentir realmente culpado, angustiado pela minha situação e por toda a confusão que isso tinha virado em menos de doze horas, mas eu ainda me sentia alheio, como se eu só estivesse vendo as aventuras de alguém e soubesse que tudo terminaria bem no final, mesmo tendo certeza absoluta que não havia final feliz para mim.

— Como eu disse, eu tinha as cartas, eu aceitei o jogo, não se dê tanto crédito... Não arraste isso como um arrependimento, eu não vou – e a voz dela saia tão confiante que chegava a ser reconfortante.

— E você tem algum arrependimento? – Eu conhecia Kara muito pouco, mas ela não me parecia o tipo que se arrependia das coisas.

— Hm... – e ela gastou um longo tempo pensando até finalmente responder. – Namorado, ex-namorado. – Corrigiu. Ela estava falando do Tom?

— Qual era o problema dele? Era um idiota?

— Eu era, na verdade – e isso me surpreendeu. A sinceridade com que ela proferiu aquelas palavras. – Eu estava ocupada demais pensando na minha própria carreira como treinadora para realmente me preocupar com ele e sua visão artística das coisas. – Havia um tom saudosista e amargo. – Quando ele quis terminar, eu deveria ter implorado por outra chance, mas eu sou orgulhosa demais para me rebaixar. – Era alguém que ela realmente deveria sentir falta. Imaginei que só poderia ser o garoto que deu o pé nela no episódio da Clarice. – No final, eu desteto admitir, mas Desmond é uma pessoa muito melhor do que eu...

— Desmond? – E o nome enrolou na língua, não poderia ser que...

— É o nome dele, aposto que ele deve estar no conforto de casa, com a avó, esperando tudo isso acabar para sair por ai tirando suas fotos idiotas. Ele não é um cara de ação...

Era o mesmo Desmond. Só poderia ser. O garoto que ela julgava estar seguro e longe da guerra estava lutando pela vida no hospital na cidade ao lado. Eu tinha contado a ela tudo o que tinha acontecido comigo, mas não tinha me atido aos nomes. E no dia do restaurante, apenas Haila tinha visto o namorado de Kara, se ela tinha me dito que era a mesma pessoa eu não lembrava mais...

Encarei-a sem saber o que dizer. Deveria contar que o seu maior arrependimento poderia morrer a qualquer minuto? Eu não sabia como ela processaria essa informação. Eu não poderia esconder isso dela, mas agora não era um bom momento. Eu...

— E você? – Ela me tirou dos meus pensamentos conflitantes. – Quais os seus?

— Eu tenho muitos – respondi sem pensar. E tinha mesmo. Tinha sido um péssimo filho, um coordenador medíocre, tinha deixado Haila na mão, eu era fraco e indeciso, eu não tinha fibra para o que estava por vir... a lista era interminável.

— Escolha um – ela insistiu.

— Me arrependo de não ter um arrependimento como o seu... – ela me encarou sem entender. – Eu nunca me aproximei de ninguém o suficiente para ter esse tipo de sentimento.

— Haila? – Ela perguntou como se fosse óbvio.

— Eu a vejo como uma irmã.

— A garota de Undella? – Arqueou a sobrancelha interrogativamente.

— Clarice? É complicado, mas nós nunca tivemos nada...

— Algum garoto?

— Kara!

— Você não disse que tem um garoto que viaja com vocês, o que está no hospital? Talvez você tenha sentimentos reprimidos por ele – e um sorriso zombeteiro cruzou a expressão. Não deixava de ser bizarramente irônico que ela estava insinuando a minha sexualidade para cima do ex-namorado que estava entre a vida e morte. – Qual é, você deve ter algum interesse amoroso mesmo que nunca tenha realmente namorado ninguém...

Apoiei as costas contra a parede e encarei o teto. Eu não me lembrava de ter me apaixonado por ninguém. Havia Skyla, mas eu diria que era algo mais sexual do que romântico. Pensar na líder me fez lembrar de Roxie e minha preocupação se ela estava bem e se tinha conseguido resgatar Haila. Ela não tinha dado nenhum sinal de vida.

— Eu acho que... – mas não havia o que responder, eu não tinha uma resposta para essa pergunta. Eu já tinha pensado nessas coisas, mas certamente não nas últimas semanas.

Então meu Xtransceiver começou a tocar novamente, eu esperava por Roxie, Cheren, qualquer um, mas um número estranho piscava no visor. Atendi receoso, apenas para ver um rosto ligeiramente familiar no visor. Era um garoto que deveria ser pouco mais velho que eu, com a característica roupa de ranger. Eu o tinha visto orbitando Alana da última vez que estivera em Nimbasa.

— December? – Ele tinha uma voz grossa e firme. Afirmei com a cabeça e tentei puxar o nome do garoto, mas eu não me lembrava. – Benjamin – disse pomposamente ao ver que eu não me lembrava. – Ben – completou com um sorriso mais amistoso.

— Ben? – Kara voou de onde estava e quase arrancou meu braço tentando puxar o Xtransceiver na direção dela.

— Você o conhece?

— Ele frequentou a Academia com o Tom – disse como se fosse óbvio.

— Kara? O que está fazendo em Anvile? – Ele curvou as sobrancelhas ao reconhece-la.

— Vim buscar um livro – deu de ombros. Livro esse que eu acreditava já estar totalmente fora dos planos porque ela mal o mencionava.

— O Tom sabe que... – mas ela o interrompeu, revirando os olhos.

— Sabe, é por culpa dele que estou aqui – e fez um biquinho engraçado.

— December – ele se voltou para mim – Cheren me ligou, disse que você tem informações sobre um possível ataque a Floccesy Town.

— Bem, sim... – eu me sentia constrangido de conversar um assunto tão sério com um cara que eu mal conhecia. – É mais ou menos isso, mas não tenho realmente certeza, é mais... como uma suspeita.

— Entendo – ele disse depois de uma longa pausa. – Nosso contingente está bem restrito. Há cada minuto chegam relatos de movimentação da Team Plasma em várias regiões diferentes. – Apenas confirmei com a cabeça. Desde que eu estivera em Anvile era quase como se não houvesse o mundo lá fora. – De qualquer forma, eu vou destacar alguns colegas para me acompanhar até Floccesy. Existe alguma coisa que eu deva procurar em específico?

Minhas sobrancelhas se curvaram sem realmente entender onde ele queria chegar.

— Cheren disse algo sobre lendários – disse ajeitando a gola do uniforme – mas ele não foi muito claro, ele parecia muito ocupado e preocupado.

— Vá para Pledge Grove – Kara puxou o Xtransceiver novamente, se enquadrando.

— O que tem lá? – O rapaz perguntou curioso.

— Você vai ver – abriu um sorriso marcante antes de apertar o botão para desligar a chamada.

— Kara? – Eu poderia ter passado informações mais claras, por que ela tinha encerrado a ligação.

— Deu nossa hora, precisamos ir – e apontou para o relógio acima do Gear Station, teríamos menos de dez minutos para atravessar um quarteirão e meio, fugir da polícia e pegar o trem.

Saímos da estação antiga e pegamos uma pequena viela até as imediações do Gear Station. A ruela estava vazia e o vento na cidade tinha aumentado. A fumaça espiralada não subia mais na direção da delegacia, o que significava que o incêndio tinha sido contido.

— Certo – Kara me puxou pelo braço antes de virarmos a esquina que daria na estação. – Use um dos seus Pokémon para atrair os guardas para longe da entrada. Um que seja rápido – apontou. – Então usarei o Thunder Wave para derrubá-los. Você me entendeu?

— Mas meu Pokémon vai ficar para trás? – Questionei me lembrando do Serpio.

— Não se você escolher um que seja rápido o suficiente – deu um sorriso enviesado.

Considerando as opções que eu tinha na manga, minha melhor escolha seria Marsh, mas eu tinha receio que as coisas não saíssem tão bem e acontecesse o mesmo que com o Pokémon da Haila.

Empunhei a Pokeball na mão e avancei lentamente para a esquina, mas quando finalmente o Gear Station entrou no meu campo de visão, vi que nenhum dos policiais estava mais lá. Curvei as sobrancelhas e encarei a garota, que sorrateira, espiou por cima do meu ombro.

— Eles estavam ai, eu os vi quando saímos da estação – afirmou contrariada.

— Troca de turno? – Sugeri sem convicção.

— Seria estupidez não deixar ninguém – ela saiu de trás do muro, espiando os dois lados da rua.

Tudo estava tranquilo e vazio, estranhamente tranquilo e vazio. Os policiais estavam ali até alguns minutos atrás, eles não poderiam ter simplesmente desaparecido no ar. Avançamos cuidadosamente até a entrada e nada, não havia sinal de ninguém.

Não que o local fosse realmente movimentado, quando eu chegara no dia anterior não havia ninguém, as catracas eram automáticas e havia um pequeno café que estava fechado. O café ainda estava fechado e ainda não havia ninguém por ali, nada fora do normal.

Ao longe podíamos ouvir o barulho do trem se aproximando ruidosamente enquanto chacoalhava nos trilhos. Kara deu um passo, avançando na direção das catracas, quando um tiro ricocheteou no chão, próximo ao seu pé.

Ela deu um salto para trás e olhou em volta. Ali estavam, os policiais que tanto tínhamos procurado lá fora, estavam escondidos dentro do Gear Station, atrás das plantas decorativas.

— Mãos ao alto – um dos policiais gritou e pude ouvi-lo engatilhar a arma. – Eu não vou repetir novamente.

Kara me encarou pelo canto dos olhos, então para a linha do trem que se estendia diante de nós. O trem já estava visível e não iria parar muito tempo no ponto final.

— Corra – ela gritou, disparando na minha frente.

Eu podia ouvir os tiros zunindo e ricochetando por todo o lado, enquanto os sapatos gastos ecoavam no chão ladrilhado. Kara era muito mais veloz do que eu, mas se desequilibrou quando tentou pular a catraca e caiu. Saltei a catraca do lado e me voltei para ajudá-la, mas ela já tinha desajeitadamente se levantado e feito sinal para eu prosseguir.

O trem finalmente tinha parado na última plataforma e aberto as portas. Ainda tínhamos alguns metros a percorrer, com ameaças e tiros voando para todo lado. Eu corria o mais rápido que podia, sentindo o ar gelado entrar nas minhas narinas. Kara estava ficando para trás.

Quando estava quase a porta, puxei a garota pelo braço e dei um impulso, empurrando-a para dentro do vagão segundos antes das portas se fecharem. Ela se virou, me encarando pelo vidro da porta.

— O quê... – a voz saiu abafada por causa da porta.

— Eu te devia um favor – respondi com um meio sorriso. Se eu não a tivesse puxado, ela não conseguiria alcançar o trem. Não era exatamente uma atitude inteligente dar minha única chance de salvação para Kara, mas se não fosse por mim, ela nem teria se metido nessa confusão para começar, e ela tinha me ajudado tantas vezes que era o mínimo que eu poderia fazer.

— Mas...

— Eu não posso deixar o Serpio para trás – gritei para que ela pudesse me ouvir. – Vá para Icirrus, procure uma garota chamada Lila no Centro Pokémon. – Ela arqueou a sobrancelha sem entender, por que diabos eu a estava mandando para Icirrus? – Eu te devo muitos favores.

Os policiais estavam se aproximando e lentamente o trem começava a sair da estação, Kara sorriu através do vidro e deu um último aceno antes do vagão ganhar velocidade. Ela estava segura, mas eu ainda precisava achar um jeito de sair da estação, encontrar Serpio e voltar para Icirrus.

Notas finais
E é isso, Deedee está de volta fazendo o que ele faz de melhor, se meter em problemas. Espero que vocês ainda estejam por ai, nos acompanhando e que for novato, não se acanhe e comente, somos legais. Beijokinhas e até!