Rota Zero
78 Delírios Mágicos e Dias de Guerra - parte 3
Notas iniciais
December
DELÍRIOS MÁGICOS E DIAS DE GUERRA — parte 3
— Deedee, o que realmente aconteceu? – A voz da Kara cruzou a noite, me trazendo de volta a minha gélida realidade.
Olhei para expressão difusa que ela trazia no dispositivo, parecia menos cansada e o cabelo estava arrumado. Eu gostaria que Haila pudesse estar no mesmo conforto, mas dado aos últimos acontecimentos, se ela estivesse viva já estava de bom tamanho.
Ter ido para Anville só tinha piorado toda a situação e se antes eu estava insensível porque eu não sabia como me sentir, agora eu estava nesse estágio porque eram tantas coisas que eu não sabia quais delas eu deveria sentir primeiro.
“Agora, você sabe a verdade, faça o que acha que tem que fazer” a frase ecoava repetidamente em meus ouvidos e intensificava minha dor de cabeça.
— Deedee!
— Eu preciso desligar... – disse sem muita força.
— Como você pretende sair de Anville? – Mas eu não tinha resposta para essa pergunta. – Você deveria ligar para o Cheren salvar o seu rabo – ela repetiu as palavras que tinha me dito quando estávamos na estação velha. Ligar para o líder de ginásio provavelmente resolveria muito dos meus problemas, mas eu não sabia como encará-lo depois do eu vira, como contar a ele as coisas que eu sabia agora.
— Kara, eu preciso desligar...
— Certo – ela pareceu bastante contrariada com o fato de eu não querer contar nada. – Ao menos ligue para o Ben para saber sobre Floccesy, eu não sou sua garota de recados – disse com uma carranca. Tentei sorrir de volta, mas não consegui.
Desliguei o Xtransceiver e encarei a noite a minha volta, eu iria congelar ali, mas eu não tinha forças ou condições de voltar para Anville, e mesmo se conseguisse, eu ainda era procurado pela polícia local. Não que ser preso novamente ou linchado pela população fosse algo que me preocupasse agora, pareciam coisas tão pequenas.
Tentei me levantar, mas minhas pernas tremiam horrivelmente e eu mal conseguia senti-las, o gelo abaixo começou a estalar e eu tentei me mover o mais rápido que meu corpo permitia, antes que a superfície do lago cedesse novamente.
Quando cheguei a entrada da caverna vi que ela praticamente não existia mais, pedras e mais pedras ocupavam agora o espaço que eu tinha explorado a procura do professor Juniper, apenas uma pequena coluna se mantinha intacta no meio do caos.
Recostei na coluna, largando o corpo em meio a poeira e grama gelada. Minha cabeça estava latejando, minhas roupas estavam encharcadas e eu me sentia dolorido e gelado. Com esforço saquei uma das Pokéball e Bacon apareceu.
Ele parecia tão exausto quando eu, com um enorme ferimento na cabeça. Eu não queria depender dele, mas eu precisava de um último auxílio. Com um comando simples pedi a Bacon para recolher alguns gravetos. Ele os uniu diante de mim e ateou fogo. As labaredas dançaram incerta na noite fria, mas logo a madeira estalou e começou a crepitar.
Sob a luminosidade da fogueira pude ver rastros de sangue congelado no chão, marcas nas pedras, árvores destruídas e os holofotes caídos. Pensando agora, eu me perguntava o que tinha acontecido em Anville, porque era impossível que ninguém tivesse ouvido a barulheira que se desenrolara diante da caverna.
— Se eu tivesse feito as escolhas apropriadas, agora vocês estariam livres e eu seguro – resmunguei para ninguém em especial, mas Bacon respondeu com um grunhido ríspido, como se eu não devesse falar tais palavras.
Quando o encarei, ele me encarou de volta, firme. Não importava as escolhas que tinha deixado para trás, não tinha mais espaço para arrependimentos.
=8=
Eu deveria ter feito um plano B, porque ter enfiado Kara no vagão e ter ficado na plataforma enquanto os policiais se aproximavam me parecia uma coisa muito estúpida. Eu não iria reencontrar Serpio se estivesse encarcerado.
Eu poderia fugir pelos trilhos, mas eu estaria totalmente exposto assim que saísse da cobertura da estação. Os policiais estavam mais próximos, me pedindo para levantar as mãos. Eu não tinha muitas opções, peguei uma das Pokéball e lancei no ar.
Abóbora. O que havia de errado comigo? Eu só vinha escolhendo os Pokémon errados. Me preparei para recolhe-lo, mas os policiais já estavam muito perto, eu não teria tempo de outra ação.
— Muito bonitinho seu Pokémon – zombou um dos policiais – agora, levante as mãos.
— Isso mesmo, garoto – um policial bem mais velho e visivelmente cansado da corrida emendou. – Facilite as coisas e tudo vai ser melhor para nós e para você.
Seria mais esperto me render, mas eu precisava encontrar o Serpio. Eu tinha deixado Haila, não ia fazer o mesmo com o parceiro dela.
— Abóbora, ataque – disse sem jeito. Era Haila quem o treinava, eu não fazia ideia dos seus ataques fora morder cadarços. Ele virou a cabeçorra laranja na minha direção e me encarou com os olhinhos pretos como se não me entendesse. Um dos policiais reprimiu o riso e o outro, que buscava sua própria Pokéball, parou no meio do movimento. – Haila, ela te ensinou alguma coisa, não?
Eu não fazia ideia de como ela o treinava. Ela sempre falava dos progressos de Bacon e Chiclete, até Marsh e da pouca colaboração da Peach, mas nunca de Abóbora. Ele balançou o corpo ao ouvir o nome da loira e se voltou para frente, então começou a fazer um barulho estranho, como gemido de quem tenta fazer força, mas nada aconteceu.
— Certo, chega de palhaçadas – o policial mais velho tomou a dianteira. – Vamos, levante as mãos.
De repente, umas das vidraças do Gear Station estourou, e uma nuvem de areia invadiu o recinto. Não era muito densa, mas logo, outras janelas estouraram e mais areia foi entrando como uma grande tempestade. Em poucos segundos, ficou denso e furioso o suficiente, como a tempestade de areia que Haila e eu havíamos enfrentado no deserto.
Eu não tinha mais visibilidade nenhuma e pela gritaria dos policiais, eles também não. Senti Abóbora morder meu cadarço e tentar me arrastar para determinada direção. Só fiz segui-lo enquanto os policiais se moviam a esmo. Percebi pela mudança de claridade, que tínhamos chegado ao lado de fora, mas mesmo ali, ainda havia a nuvem de areia e só agora eu percebia que não era bem areia, mas sim fragmentos do cascalho que cobria as ruas.
Trapinch foi me puxando e me guiando até chegarmos em uma alameda vazia, onde as paredes impediam a tempestade de areia de chegar. Agora, olhando ao longe, eu conseguia ver todo o Gear Station coberto pela densa nuvem. Quando meu Pokémon tinha ficado com um ataque tão poderoso assim? Ele não era só um bebê. O ser alaranjado sorriu satisfeito ao ver minha reação, orgulhoso de seu próprio desempenho. Eu devia muito a ele e também a Haila.
Aos poucos, a tempestade foi minimizando e pude ver os policiais saírem da estação, cobertos de cascalho e gritando comandos uns aos outros. Era minha chance de dar o fora.
Andei algumas ruas a esmo, tentando me manter fora do campo de visão, até finalmente achar seguro e retornar a praça. Ela estava vazia e havia umas marcas de sangue no chão, nada exagerado a ponto de dizer que alguém morreu ali. Não havia sinal algum do Serpio ou qualquer rastro que eu pudesse seguir. Se ninguém o tivesse capturado e ele não estivesse por ai, estrangulando pessoas em cada esquina, a floresta me parecia a melhor opção.
Chegar até a orla da floresta tinha sido bem mais difícil sozinho, eu precisava olhar para todos os lados e qualquer barulho me assustava. Além disso, eu precisava ficar atento para ver se não cruzava com nenhum rastro do Pokémon. Quando finalmente cheguei, achei que seria mais fácil, pois não teria que me esgueirar em cada esquina, só que na verdade ficou muito pior, as árvores pareciam todas iguais e embora o chão estivesse congelado, não deixava marca alguma na grama.
Caminhei um pouco, mas percebi que iria acabar me perdendo, o sol fraco já estava começando a ficar mais baixo e não me parecia uma boa ideia ficar preso na floresta no meio da noite, embora eu não tivesse plano algum de onde ficar. Libertei Bacon e pedi que ele procurasse Serpio com o faro, mas ele parecia incomodado com o frio e pouco orientado. Talvez o cheiro do Pokémon não fosse familiar a ele, e ele não soubesse onde procurar. Retornei o suíno e liberei Leaf, ela era mais familiarizada com o Pokémon e talvez o encontrasse mais facilmente.
Ela me encarou por um longo tempo antes de olhar em volta e não ver sinal algum da treinadora. Eu tinha adiado aquilo o máximo possível, mas teria que explicar. Abaixei-me e encarei a Pokémon folhosa e então expliquei o que tinha acontecido a Haila. Eu não pude decifrar exatamente o que ela sentia, mas parecia algo como tristeza e raiva. Expliquei sobre Serpio e que não poderia deixar nenhum deles para trás e que me responsabilizaria e cuidaria deles até finalmente reencontramos Haila. Ela pareceu ponderar por um momento, então se virou e saiu marchando na minha frente, enquanto cheirava o ar.
Andamos por um tempo, as árvores pareciam iguais e estava ficando cada vez mais frio, conforme o sol ia se pondo. Vez ou outra, eu espiava por sobre os ombros para ter certeza que não havia ninguém me seguindo. Eu sentia que estava cada vez mais paranoico.
De repente, meu Xtransceiver começou a tocar e eu dei um salto tão grande que Leaf estreitou os olhos, como se zombasse de mim.
— December? – E o rosto de Ben apareceu na telinha.— Estamos investigando – ele foi direto ao assunto. – A cidade parece tranquila, não havia nada de anormal na rotina, pelo que notamos, o que é raro esses dias, todos estão sempre tão em alerta – e sorriu nervosamente, ajeitando os óculos. – Estamos em Pledge Grove, mas não há nada aqui.
— Tem certeza? – Minhas experiências anteriores tinham me ensinado que sempre parecia não haver nada.
— Aparentemente está tudo certo, não há sinais da Team Plasma nem de nenhuma movimentação recente por aqui. Mas eu vou investigar melhor, o monólito está parcialmente destruído, talvez isso revele alguma coisa. – Acenei com a cabeça e ele acenou de volta, deu um sorriso maquinal e achei que ele iria desligar. – E a Kara? – As sobrancelhas se uniram por trás dos óculos.
— Ela está bem – respondi sem ter realmente certeza disso, mas eu acreditava que sim. – Ela está em Icirrus.
— Oh, bem, é a cara dela não se meter no problema dos outros – ele coçou a cabeça sem jeito. – Parece algo bom, mas ela leva isso ao pé da letra – e sorriu mais espontaneamente dessa vez.
— Está tudo bem, Elesa não queria que civis se envolvendo mesmo. – Todo mundo que estivesse minimamente envolvido na caça aos lendários conhecia o discurso da Elesa.
— Isso deveria incluir você – disse seriamente, mas não em tom repressor.
— Sim, mas...
— Mas você e sua amiga são protegidos de alguns líderes – disse simplesmente. – Alanna me contou sobre vocês. – Então ele e Alanna eram bem amigos? Eu não sabia disso. – Eu preciso ir, te ligo informando quando descobrir algo.
As notícias de Ben poderiam se consideradas boas. Se não havia movimentação alguma em Pledge Grove ainda, talvez tivéssemos uma chance sobre a Team Plasma de salvar o lendário antes que eles chegassem e finalmente estar um passo a frente. Significava que Cassie estaria segura e que a região de onde eu vinha permaneceria intocada pela Team Plasma.
Mas por outro lado, era estranho que eles não tivessem feito movimento algum. Eles tinham Cobalion e uma força muito maior agora. Havia o assassinato do professor Juniper e as informações que eu descobrira. Não poderia ser uma simples coincidência. Mas se apontamentos dele indicavam para Pledge Grove, por que ir todos os dias investigar uma caverna semi-soterrada?
De repente, Leaf parou, as orelhas balançaram e eu achei que ela tivesse encontrado algum sinal do Serpio, mas do nada ela se jogou no chão. Mal tive tempo de questionar o que estava acontecendo, uma explosão seguida de um tremor me lançou ao chão. As árvores farfalhavam ruidosas, lançando folhas sobre nós e quando finalmente o tremor parou tudo ficou em silêncio.
Levantei a cabeça e encarei o lado que julgava ser a cidade, mas não havia nada vindo de lá. Então olhei em volta e vi uma nuvem de pó se desfazer de um local que saia um facho brilhante. Eu já tinha visto isso antes, na caverna em Seaside Cave quando Keldeo se libertou. Pensando um pouco, parecia vir da direção da caverna do Professor Juniper, mas não poderia ser, o lendário não deveria mais estar lá.
Leaf saiu correndo desembestada e precisei acelerar o passo para não perdê-la no meio de tantas árvores iguais. Já estava praticamente escuro, com o sol se escondendo rápido atrás dos pinheiros e a temperatura caia vertiginosamente, mas eu mal sentia esse último porque estava suando de correr atrás da Pokémon. Ela fez uma grande volta e tomou caminho na direção da explosão. Eu não achava uma boa ideia, mas se fosse um lendário eu teria que fazer alguma coisa.
Ela parou na orla da floresta, eriçando os pelos esverdeados. Do outro lado do lago, havia grandes holofotes que se destacavam entre as árvores, iluminando ofuscantemente a entrada da caverna que já não existia mais. Eu não me lembrava de ter holofotes próximos à caverna quando estivera lá antes, mas talvez, eu simplesmente os tivesse ignorado.
No meio dos fachos de luz, havia uma forma grande que se debatia. Eu não podia divisar exatamente, mas era um Pokémon e só poderia ser um dos lendários. Ele parecia ainda maior que o Cobalion e um grupo de Probopass tentava contê-los com correntes. O bicho se mexia e eu podia ouvir os grilhões rangendo, mas não conseguia se soltar.
O grupo de Team Plasma era pequeno, havia apenas dois deles e uma mulher que trajava as mesmas roupas distintas de Guerra e Morte. Pelo excesso de luz, eu não conseguia distingui-la, mas deveria ser Fome. Os Pokémon estavam com dificuldade em manter o Pokémon preso. O lendário fez um barulho infernal e conseguiu puxar uma das patas, tencionando a corrente e chicoteando-a, mandando um dos Probopass contra os pedregulhos que sobravam da caverna. A líder estava muito ocupada tentando orientar os membros a aprisionar o Pokémon, que não se deu conta da minha presença.
Eu estava em menor número e sem chances de poder chamar alguém que chegasse a tempo de me ajudar. A distração deles era a única chance que tinha de atacar e eu precisava de uma boa estratégia.
Peguei uma das Pokéball e libertei Ling. Ela surgiu majestosamente, fazendo uma pequena reverência antes de me encarar com os olhos brilhantes. Eu sabia que ela se questionava do sumiço da treinadora, mas eu não teria tempo para explicar, não agora.
Eu não sabia o quão obedientes os Pokémon da Haila seriam comigo, mas eu precisava deles e esperava muito que eles entendessem. Dei um comando e ela pareceu duvidar, então Leaf fez um barulho estranho e agitou as orelhas, então a Pokémon meneou a cabeça e concordou, sumindo entre os pinheiros que cercavam a caverna.
Peguei as Pokéball de Chiclete e Marsh. Quando Ling me desse o sinal, eu os mandaria junto com Leaf para atacar os Team Plasma e de algum jeito eu tentaria derrubar Fome com Bacon. Eu não tinha muitas chances contra a Nidoqueen, mas eu só precisava derrubar os membros menores, para que eles soltassem as correntes e o lendário pudesse fugir.
Eu mal conseguia ver Ling do outro lado da clareira, embrenhada nas árvores. A pelagem se misturava ao ambiente e as luzes dos holofotes eram muito intensas. De repente, pude ver pequenos esporos que se misturavam ao ambiente. Eram pequenos e eu precisava forçar meus olhos, mas aquele era o sinal.
Leaf, Marsh e Chiclete saíram em disparada, atravessando o lago congelado. Se tudo saísse como eu havia calculado, o Sleepy Powder faria efeito antes deles chegarem, impedindo que eles fossem atingidos pelo ataque e tornando os alvos bastante vulneráveis.
De repente, algo cruzou sobre os Pokémon que corriam na superfície de gelo e passou direto, atingindo Deerling em meio as árvores e mandando para o meio da floresta, em um local que eu não conseguia mais visualizá-la.
— Ling! – Gritei sem pensar e vi os membros da Team Plasma me encararem. Eles pareciam sonolentos, mas não o suficiente para estarem fora de combate. E lá se fora meu elemento surpresa.
Eu não tinha visto que Pokémon tinha atingido Ling, mas podia ouvi-los se digladiar na floresta. As árvores balançavam e madeira estalava a cada segundo. A minha direita havia um membro da Team Plasma saindo em meio às árvores, eu não o tinha visto e provavelmente ele atacara Deerling.
Ele já sacava uma nova Pokéball e vinha com um sorriso arreganhado na minha direção. Pelo canto dos olhos, eu podia ver um dos Team Plasma se preparar para o combate. Eu não era a Haila, eu não conseguiria comandar tantos Pokémon em batalha a mesmo tempo.
Um Bastiodon surgiu na minha frente, poucos metros de onde eu estava, dei um passo para trás e libertei Bacon. O suíno se posicionou, mas o Pokémon já vinha de encontro a ele com passos acelerados. Eles chocaram ruidosamente e pude vê-lo arrastar meu Pignite por alguns metros
— Ancient Power – o cara gritou enquanto atirava uma nova Pokéball no campo de batalha.
Pedras se ergueram do chão congelado, como se levitassem e atingiram Bacon em cheio, ele usou os braços gorduchos para se proteger, mas Bastiodon aproveitou a brecha para atacar com as presas, derrubando meu Pokémon.
Da outra Pokéball saíra um Pokémon que nunca vira, nem mesmo nos livros. Ele parecia um grande sino de metal que flutuava calmamente pelo terreno. Me parecia um bicho um tanto idiota e indefeso, já que ele parecia flutuar de um lado ao outro a esmo.
— Metal Sound – o Team Plasma comandou e vi Bastiodon se encolher. Isso não era bom sinal.
O Pokémon sino começou emitir um som, como se gritasse estridente, mas os lábios dele não se moviam. O som entrava diretamente na cabeça e parecia martelar o cérebro. Tentei cobrir os ouvidos com as mãos, para minimizar o efeito e vi Bacon fazer o mesmo, deixando a guarda totalmente exposta.
Bastiodon correu até ele, mesmo sob o efeito do ataque e o atingiu com o um Iron Head. O golpe foi tão forte que mandou meu Pignite longe, quase na orla da floresta. Havia um talho tão fundo na cabeça que eu poderia jurar estar vendo o osso do crânio e havia tanto sangue no chão e vertendo do ferimento que eu não tinha como não me desesperar.
Mas Bacon não era meu único Pokémon com problemas. Do outro lado do lago congelado, havia um enorme Salamance, eu não sabia qual Team Plasma era seu treinador, mas ele parecia ter bastante autonomia para lutar sem comando. Via meus Pokémon e Leaf se organizarem para ataca-lo, mas quase todas as investidas eram suprimidas por um bater de asas que os derrubava. Chiclete tentou uma manobra para se aproximar, mas o Pokémon se defendeu, usando as garras e derrubando meu parceiro no chão.
Havia um talho enorme no peito e sangue jorrava vertiginosamente dali. Mesmo assim, Lucario ainda conseguiu se pôr em pé, respirando com dificuldade e ruidosamente, eu podia, mesmo à distância, ver bolhas se formando no sangue do peito a cada arfada. Do que eu tinha aprendido com o Des, aquilo não era nada um bom, provavelmente um pulmão perfurado.
Leaf aproveitou a brecha para atacar com um ataque veloz e os chicotes, para não se aproximar muito. Mas o Salamance lançou um ataque flamejante. Ela conseguiu saltar para o lado a tempo, pousando graciosamente na grama congelada, mas um dos seus chicotes tinha sido atingido e agora pendia chamuscado ao lado do corpo.
Marsh deu um passo para trás, aumentando a distância para ganhar mais velocidade, mas antes de desferir qualquer ataque, o Pokémon dragão manobrou o corpo, atingindo-o com a cauda. Marsh foi mandado de volta para a superfície do lago congelado, com dificuldade, ele se colocou em pé, mas uma das patas dianteiras estava quebrada e toda torta.
Eu os tinha negligenciado totalmente e agora eles pagavam por tentar lutarem sem comando. Eu podia ver ao longe as árvores farfalhando, provava que a luta de Ling e o Pokémon não havia terminado. Eu esperava que ela estivesse levando a melhor.
Bastiodon começou a avançar na direção de Bacon, que ainda estava caído em meio ao próprio sangue. Eu não poderia deixa-lo lutar naquelas condições. Minhas mãos vasculharam o bolso sem certeza. Peach apareceu no campo de batalha. O pelo acinzentado combinando perfeitamente com o ambiente gelado. Des certamente conseguiria uma foto de efeito. Mas não era hora de pensar nisso.
Ela sequer olhou para mim, eriçou os pelos e olhou selvagemente contra o Pokémon. Agora, julgando o tamanho, Peach não tinha a menor chance. Ela saltou para o lado desviando habilmente do Pokémon e se voltou atacando com uma dentada poderosa atrás do pescoço. Sangue começou a jorrar e pelo urro do Bastiodon, aquele deveria ser um dos seus pontos fracos.
O Pokémon começou a se debater, tentando derrubar Peach, mas agora ela cravava as unhas nas costas, ganhando mais firmeza. Talvez eu estivesse errado sobre ela, e a parceira de Cassie tivesse alguma chance. Ele continuou se debatendo e girando, ignorando os comandos do treinador. O treinador pareceu irritado e ordenou um comando para o Pokémon sino, que vagarosamente foi voando na direção da dupla.
— Peach, cuidado – foi tudo o que consegui gritar, mas antes que o Pokémon esquisito fizesse algum movimento, foi envolto por chamas flamejantes que se dissiparam antes mesmo de causar algum dano. Bacon tinha se levantado e se arrastado para mais perto, mas fosse pela dor ou pela fraqueza, ele já não tinha total controle dos seus golpes.
O Pokémon pareceu indiferente ao golpe, fosse porque não tivesse surtido efeito ou porque eu não conseguia lê-lo. Mas ele mudou seu rumo e foi flutuando na direção de Bacon. O suíno estava muito fraco para continuar, caíra de joelhos e arfava enquanto o sangue lhe cobria totalmente as feições.
Por instinto ou burrice, liberei Abóbora no campo de batalha, ele era minha última opção e não era exatamente a melhor opção. Pelo canto dos olhos, Bastiodon ainda tentava se libertar sem sucesso da Peach e Salamance acuava o trio, Leaf tentou uma nova chicotada, mas que saiu tão ineficiente que o Salamance nem se deu ao trabalho de desviar. O som da respiração de Chiclete era tão ruidosa que cobria até mesmo os rangidos dos grilhões de aço que prendiam o lendário. Ele começou a tossir e sangue começou a sair pelo focinho. Ele estava afogando no próprio sangue. Eu precisava fazer algo, mas estava muito longe para conseguir chama-lo de volta e pela forma como o Team Plasma me cercava, eu não iria conseguir avançar no campo de batalha. Marsh se matinha mais afastado, mas ele mal conseguia se mover com aquela pata quebrada. De repente eu só tinha uma certeza, eu não iria conseguir libertar o lendário e nós íamos todos morrer ali.
=8=
Bacon tinha encostado a mim, tentando me aquecer com seu calor, a fogueira ainda crepitava, mas o fogo já estava quase se apagando. Eu tentava não encarar o ferimento na cabeça. Agora sem o sangue, eu tinha certeza que dava para ver os ossos do crânio pela abertura. Eu queria retorná-lo para a Pokéball, onde ele poderia descansar, mas ele se recusava a me deixar sozinho. O tal vínculo que Cheren tanto falava. Friamente falando isso tinha virado um problema. Eles simplesmente deveriam ter me abandonado, eu os deveria ter dispensado quando tive a chance e nada disso teria acontecido.
Eu me sentia cansado e infeliz e todos os momentos que eu havia vivido, nenhum me parecia agora tão deprimente como aquele. Eu tinha visto pessoas e Pokémon morrerem, mas nunca pessoas e Pokémon que eu amava realmente tinham se ferido. Mas agora, eu podia ver o rastro de sangue que se formava a cada passo que eu dava. Cada sacrifício que eu exigia dos meus Pokémon cada vez que eu decidia lutar.
Se eu estivesse em casa, estaria tomando um chocolate quente e com a cara enfiada no videogame. Minha mãe teria reclamado que não ajudei nas atividades domésticas e que eu não pensava no meu futuro. Se eu tivesse voltado enquanto ainda dava tempo, meus Pokémon estariam livres em seus habitats naturais e eu estaria acompanhando os horrores da guerra pela televisão, como se nada daquilo tivesse a ver comigo ou minha família.
Mas agora, eu sabia a verdade, e eu tinha que fazer o que achava que tinha que fazer e pela primeira vez, isso não incluía voltar para casa.
=8=
O céu escurecia rapidamente e aquilo estava virando um mar de sangue. Abóbora precisava de tempo para se concentrar na tempestade de areia, que era o único golpe dele que agora eu sabia, mas o Pokémon sino não lhe dava descanso. Ele dava rasante e outros ataques que realmente não surtiam efeito, mas distraiam meu Pokémon de preparar o dele. Abóbora tentou uma ou outra investida, mas o Pokémon sempre flutuava muito acima do seu alcance.
Bacon tentava se levantar, mas caia no passo seguinte. Chiclete, do outro lado do lago, estava na mesma condição. As pernas tremiam tentando mantê-lo estável, Leaf começava a sentir os efeitos do ambiente gelado sobre si e Marsh esquadrinhava o campo como se de repente algo pudesse salvar suas vidas, mas nenhum milagre iria acontecer para mim, não dessa vez.
Eu percebia que Peach estava perdendo as forças contra o Bastiodon que ainda se debatia aleatoriamente. Ela não conseguiria causar mais dano do que aquilo, mas a partir do momento que seus pés tocassem o chão, ela se tornaria um alvo fácil para o Pokémon robusto. De repente, um vulto verde cruzou as árvores e se arremessou sobre o Bastiodon. O Pokémon girou, mas as presas de Peach estavam cravadas na pele, de modo que ela não conseguiu se libertar e foi arrastada junto.
O embolado de Pokémon girou pelo terreno até eu conseguir divisar Serpio enrolado no Pokémon metálico e na Peach. As longas escamas esverdeadas se enrolavam e apertavam o Pokémon e por um minuto eu achei que ele tivesse vindo nos salvar, até perceber que o alvo real era a Patrat, seu prato preferido, e que Bastiodon tinha ficado apenas no caminho.
— Serpio, não! – gritei desesperado, mas ele prontamente me ignorou. Se a coisa toda já estava ruim pior ainda ficaria se eu permitisse que o Pokémon da Haila comesse o Pokémon da Cassie que estava sob a minha guarda.
Eu precisava fazer algo, mas eu nem sabia qual Pokémon socorrer. Chiclete desabou no campo de batalha desacordado, enquanto Bacon ia pelo mesmo caminho. Quanto tempo iria demorar para Abóbora cair? Quanto tempo iria demorar para que Leaf e Marsh também fossem sobrepujados pelo Salamance?
De repente, um clarão chamou minha atenção e eu só tive tempo de ver o Pokémon sino finalizar o golpe. Um Flash Cannon, eu conhecia muito bem o golpe. Quando a luz se desfez pude ver Abóbora cair no chão, gemendo e com as costas chamuscadas. Aparentemente o Pokémon sino tinha perdido a paciência e cansado de brincar com meu pequeno Pokémon. Abóbora ainda estava consciente, mas eu percebia a dor excruciante estampada nos olhos escuros. O Pokémon sino girou e pude vê-lo preparar um novo ataque, ele iria dizimar Abóbora. Bacon começou a se arrastar pela grama gelada, na tentativa de alcançar o pequeno e protege-lo, mas a despeito da sua determinação, ele não tinha forças para fazer isso.
Meu primeiro instinto foi o de pular na frente do ataque, como fizera com Chiclete no Contest, mas se eu apagasse ali todo o esforço deles seria para nada. Eu tinha que aproveitar a pouca chance que tinha e fazer algum esforço valer a pena. Eu não poderia me deixar abater pelo meu Pokémon bebê sofrendo, nem pela enrascada que Serpio tinha criado ou pela morte eminente de Chiclete e Marsh. Eu tinha ido lá pelo lendário, e era a única coisa que eu tinha que me concentrar.
Não sei como consegui por minhas pernas correndo pelo terreno. Eu mal sentia o chão abaixo de mim, eu sentia lágrimas se formando nos olhos e tentava ao máximo não focar nos meus Pokémon que iam se amontoando no campo de batalha. Eu podia ouvir o Team Plasma gritar nas minhas costas e libertar um novo Pokémon para me deter, mas eu não podia me dar ao luxo de me virar para ver o que era.
Eu já estava sobre o lago congelado quando vi Salamance desferir outro golpe, eu não tinha certeza, mas parecia um Dragon Breathe, algo entre um facho de luz e uma névoa, varreu o campo. Leaf saltou desajeitadamente, mas Marsh não teve a mesma sorte e foi atingido em cheio. A pelagem ficou chamuscada em um tom curiosamente avermelhado e ele voou como uma boneca de trapo arremessada por uma criança. Ele caiu seco no chão, batendo ruidosamente que tinha certeza que alguns ossos tinham se quebrado.
Pela visão periférica, vi algumas árvores balançarem e algo surgir entre elas, próximo de onde a Leaf estava, mas mal tive tempo de gritar algo, um vulto laminado a atingiu, derrubando-a no chão, e fazendo um enorme corte nas costas, a Pokémon tentou se colocar em pé, mas um segundo golpe a derrubou. Um Bisharp apareceu sorrateiramente, arrastando o corpo de Ling atrás de si. Ela trazia várias escoriações pelo corpo e cortes profundos. Eu não sabia precisar se ela estava viva ou não de tão imóvel que me parecia.
O embolado formado por Serperior, Patrat e Bastiodon tinha virado uma bola de sangue, mas eu não saberia precisar se era apenas o sangue do Pokémon da Team Plasma jorrando ou se algum dos outros tinha se ferido. O Bisharp os rodeava, provavelmente avaliando a situação e procurando um bom ponto para atacar, mas ele parecia incerto pela bagunça que o trio embolado produzia.
De repente, minhas pernas cederam e antes que eu pudesse ter total consciência do que estava acontecendo, senti meu corpo chocar contra o chão, meu rosto batendo contra o espelho do lago congelado e o gelo rangendo com meu peso. Sentado sobre as minhas costas havia um grande Scrafty. Eu não sabia se ele tinha sido o Pokémon que tinha sido libertado e que me perseguia, mas de qualquer forma, ele me prendia no chão com o seu peso e não importava o quanto eu me debatesse, isso não causava nenhuma reação.
— Ora, ora o que temos aqui – a voz ecoou nos meus ouvidos antes que eu tivesse alguma reação. – O garoto metido a herói – as palavras sibilaram e mesmo que eu não pudesse ver, eu sabia que era Thiers. Ele então se abaixou diante de mim, e me puxou pelos cabelos, levantando meu rosto e me obrigando a encará-lo. Havia um risinho cretino e vitorioso nos lábios.
Thiers se colocou em pé novamente e analisou o campo a sua volta.
— Salamance, acabe logo com isso – ordenou secamente, e o Pokémon o obedeceu, lançando um novo Dragon Breathe, dessa vez no embolado de Pokémon. Nenhum deles conseguiu se desvencilhar a tempo e foram atingidos pela baforada flamejante.
— O que está fazendo? – Ouvi o outro Team Plasma resmungar indignado ao ver que seu Bastiodon também tinha sido atingido pelo ataque. Agora o embolado de Pokémon permanecia parcialmente enroscados uns nos outros, mas além do sangue e da grama, um chamuscado avermelhado cobria escamas e pelos. Eu pude divisar Serpio tentar arrastar o corpo para fora do embolado, mas ele estava fraco demais e desmaiou segundos depois.
— Fazendo o que você deveria ter feito – Thiers resmungou autoritário. – Como pôde não conseguir abater um moleque? – As palavras saiam cuspidas e era visível que ele estava com raiva. Considerando que meus últimos encontros com ele, eu tinha me saído bem, ele deveria ter uma rixa pessoal comigo.
O céu já estava totalmente escuro e finalmente eu estava perto do lendário o suficiente para enxerga-lo direito. Ele ainda se debatia nas correntes e tinha derrubado outro Probopass. O Pokémon era mais baixo que o Cobalion, mas o peito era mais largo e musculoso. Os chifres eram espiralados e maiores. Ele tinha cor de terra e largas narinas, os cascos batiam no chão ruidosamente. E no pescoço reluzia o maldito colar da Team Plasma. Isso explicava porque ele se debatia, mas não tinha nenhuma reação para realmente atacar ou fugir.
As correntes tinham machucado de tal forma que a pele estava em carne viva onde os grilhões o prendiam e havia grandes cortes nas costas onde o sangue já parecia parcialmente coagulado. Eu sequer conseguia pensar que tipo de batalha tinha acontecido ali antes de eu chegar.
— Peste – Thiers disse com voz tediosa. – Podemos resolver logo isso?
Ele não parecia ter a metade do respeito que mostrara por Morte quando eu o encontrara em Seaside Cave. Peste? Espera, não era para a garota ser a Fome? Mas agora, observando melhor, ela parecia mais jovem e menor, mesmo estando de costas para mim e não podendo ver suas feições.
A mulher apenas bufou e lançou uma Pokéball de onde saiu um Toxicroak. O Pokémon tinha um porte respeitável e apenas com um aceno da treinadora, entendeu seu comando. Ele se aproximou do lendário e com maestria acertou um Posion Jab bem na linha do queixo, quase na garganta. O lendário arfou e deu um urro, as pernas pareceram ceder, mas ele não chegou a apagar. Usou o próprio peso para se jogar contra o Pokémon venenoso.
As correntes tencionaram fazendo uma barulheira de metal e com um meneio de cabeça, ele atingiu o Toxicroak que deu um salto para trás. Sob as luzes brilhantes dos holofotes eu podia ver a marca do soco deformar ligeiramente o rosto do lendário, do chifre espiralado pingava sangue. O Toxicroak mantinha a pose, mas havia um grande rasgo no rosto, sobre um dos olhos que agora sangrava vertiginosamente.
O lendário forçou as correntes novamente e só então vi que ele sapateava sobre o olho arrancado do Toxicroak. A falta de um olho não parecia abalar o Pokémon nem a treinadora, que com um movimento pediu que o Pokémon repetisse o golpe.
Fora mais difícil dessa vez o Toxicroak armar o ataque porque o lendário parecia preparado, mas os Pokémon que puxavam as correntes pareceram achar um ponto de apoio e em sincronia, puxaram as correntes, fazendo o lendário escorregar. Toxicroak atingiu a jugular em cheio, e o Pokémon finalmente tombou, a língua parcialmente exposta. Os olhos giravam aleatoriamente nas órbitas e a respiração parecia descompassada, mas mesmo assim, o lendário tentava se pôr em pé.
Uma segunda Pokéball girou no ar e dela um pequeno Crobat surgiu, agitando as asas. Peste fez um novo movimento e o Pokémon içou voo até atingir uma certa altura, graciosamente ele se endireitou e lançou um Air Slash. Diferente de qualquer um que eu já presenciara, o ar não foi arrastado como um carrilhão, mas de forma mais delicada e pontual, como se uma flecha de ar tivesse sido criada. O golpe acertou o Pokémon caído, abrindo um rasgo nas costas, próximo a uma das patas, o bicho mal teve tempo de urrar, pois Toxicroak já estava sobre ele, destilando um líquido roxo no ferimento. Parecia muito com o Venoshock, mas muito mais pontual. Provavelmente a couraça do lendário o estava protegendo dos ataques venenosos, mas agora, com parte dos músculos expostos ele não parecia mais ter resistência alguma.
— Pare com isso, você vai mata-lo – eu não sei como consegui gritar. Minha voz ecoou na noite, em meio ao rangido das correntes de metal.
Peste fez um sinal e o Pokémon se afastou. O lendário estava consciente, mas babava e tinha espasmos descontrolados. Com um movimento delicado, a mulher lançou uma Pokéball sobre o lendário e sem a menor resistência, ele foi capturado. Estava vivo, mas aprisionado, eu tinha falhado miseravelmente na minha tentativa de fazer a diferença.
O som do metal finalmente tinha cessado, assim como qualquer outro barulho na noite. Peste recolheu seus Pokémon e fez um sinal para os membros da Team Plasma recolherem seus parceiros. Pude ver a mulher girar a Pokéball na mão antes de guardá-la e finalmente se voltar para mim. A capa esvoaçando a cada passo.
— Eu queria dizer que você seria a última pessoa que eu esperava encontrar, mas isso soaria falso, você tem um certo talento para se meter onde não deve, não é mesmo, Deedee?
A voz me era terrivelmente familiar, o cabelo branco estava solto e adornava o rosto cansado e, diferente de qualquer outro Team Plasma, ela não estava sorrindo. Roxie.
=8=
Eu não sabia quanto tempo havia se passado, mas o céu já estava ficando em um azul mais suave. Eu tinha adormecido e acordado várias vezes, a fogueira tinha apagado e eu só não tinha morrido congelado porque Bacon me aquecia.
Tinha tido dezenas de sonhos, a maioria horríveis, mas eu não me lembrava deles, apenas da sensação desconfortável após um pesadelo. E eu ainda estava nesse ciclo de dormir e acordar quando um facho de luz brilhou diante da minha cara.
— Mãos na cabeça – Albion estava em pé, apontando um lanterna para minha cara e com uma aparência surrada muito pior do que a minha. Ele era ladeado por um policial mais velho e só então me lembrei de tê-lo visto no Gear Station.
Dei um muxoxo exasperado, mas não me mexi, não dava para o dia ficar pior.
— Eu disse, mãos na cabeça, moleque – gritou cuspindo. Mas antes que eu pudesse reagir, o policial mais velho se aproximou e com um chute me empurrou no chão, algemando minhas mãos atrás das costas. Bacon fez menção a reagir, mas eu fiz um sinal negativo, para que ele se contivesse.
Enquanto o velhote me algemava, Albion passou com a lanterna pela extensão da clareira, iluminando a caverna destruída, os holofotes caídos, arvores torcidas e rastros de sangue pelo chão congelado.
— O que aconteceu aqui? – Ele parecia confuso e isso me surpreendeu. Como com todo o estardalhaço, ninguém da cidade tinha ouvido nada? A caverna não era assim tão distante.
— Se eu te contasse – o policial mais velho me içou, colocando-me em pé – você não acreditaria.
=8=
— Eu queria dizer que você seria a última pessoa que eu esperava encontrar, mas isso soaria falso, você tem um certo talento para se meter onde não deve, não é mesmo, Deedee? – Ela me encarava, não de um jeito acusador ou apreensivo, apenas parecia terrivelmente entediada. Era a mesma cara que fazia quando discordava de Elesa, mas não podia fazer nada a respeito.
Mas se ela estava tão calma, eu não poderia dizer o mesmo. Minha mente parecia em turbilhão tentando processar o que estava acontecendo. Ela tinha me prometido resgatar Haila e agora estava ali, capturando um lendário em uma batalha sangrenta e cruel. Ela deveria ser infiltrada, só poderia ser. Única explicação para tudo aquilo. Mas ela tinha realmente maltratado o lendário, Roxie nunca faria isso.
E se ela tivesse se convertido, visto que iríamos mesmo perder a guerra e migrado para o outro lado? E se ela estivesse sendo obrigada, poderiam ter sequestrado seu pai e a estar chantageando. Mas fosse lá o que fosse que estava acontecendo eu não estava conseguindo processar.
— Roxie?
— Não chame Peste dessa forma, como se você fosse íntimo dela – Thiers me chutou na lateral do rosto, como se já não tivesse apanhando o suficiente. E senti o gosto de sangue na boca. Roxie não disse ou fez nada, ficou parada me olhando sangrar.
— Eu não entendo... – balbuciei, e não entendia. Era a Roxie, a garota mais incrível que eu tinha conhecido. Ela era forte como Skyla, determinada como Elesa, divertida como a Lila e uma grande irmã como Haila. Por que ela estava ali, vestida como uma general da Team Plasma?
— Eu sei que não – respondeu simplesmente.
— Mas por quê? – minha voz quase não saia.
— Mesmo se eu te explicasse, você não entenderia – respondeu naquele tom de voz explicativo que era tão familiar para mim. – A vida não é preto no branco como você imagina, a maioria de nós anda dentro dos tons acinzentados.
Tons de cinza? Do que ela estava falando? Que não era só bem e mal, certo e errado? Eu sabia que a vida não era tão simplista, mas estávamos no meio de uma guerra, não dava para ficar ponderando.
Meus olhos correram através dela, para as manchas de sangue escurecido sobre o terreno congelado, onde antes havia o lendário. Ela poderia ser uma espiã, uma infiltrada para termos um trunfo contra a Team Plasma, mas a maneira como ela tinha torturado o lendário, como ela tinha deixado o próprio Pokémon se ferir, aquilo tudo não poderia ser só uma farsa. E então a ficha caiu, ela não estava fingindo. Era real, o sangue, a luta, o terror. O que havia acontecido ao lendário, o que havia acontecido aos meus parceiros, não era um blefe. Ela não era mais uma de nós.
— Você nos traiu – e saiu mais alto, carregado de raiva.
— Isso é uma questão de ponto de vista, eu salvei sua pele em Seaside Cave e lutei contra a Team Plasma, quem eu estava traindo? – Me lançou um olhar que eu não soube decifrar. Realmente, ela tinha me ajudado inúmeras vezes, mas o que aquilo significava?
— Por quê? Por quê? Você me disse que eles estavam errados...
— E você me disse que eles estavam certos e mesmo assim, cada um de nós está do lado oposto daquilo que defendemos – respondeu simplesmente.
— Eu confiei em você. Você me prometeu salvar a Haila – e minha voz saia mais alta e agoniada. E era o que ela tinha me prometido.
— Minha culpa, isso eu realmente não o fiz. – Levantou as mãos amigavelmente, como se se defendesse. – Mas se te consola, ela fugiu do Guerra.
— Fugiu? – e minhas sobrancelhas se curvaram duvidosas.
— Sim, estão atrás dela, mas é a Haila, ela deve ficar bem... – resumiu a dizer com uma expressão mais leve dessa vez.
— É mais uma das suas mentiras? – Se ela era uma Team Plasma, quem me garantiria que Haila estava mesmo bem?
— Que mentiras? – E a voz se alterou, ligeiramente indignada. – Eu nunca menti para você. – Foi taxativa – Tudo o que eu disse desde o começo sempre foi sincero, meus sentimentos sobre você, sobre a guerra, sobre tudo, sempre foi real.
— Mas você é uma Team Plasma... – ela tinha razão, ela nunca tinha me dito que a Team Plasma era boa, mas nunca tinha me dito que eles estavam totalmente errados. Ela nunca forçara uma escolha para mim, me dava as opções e me deixava seguir o caminho.
— Você nunca me perguntou sobre isso – respondeu como se isso resumisse.
— E você responderia sinceramente se eu o tivesse feito?
— Sim, eu o teria – e por mais que eu não quisesse acreditar nela, parecia estar sendo sincera.
— Peste, estamos ficando sem tempo, precisamos ir – um Team Plasma se aproximou de Roxie, de forma respeitosa.
— E o que vai fazer com esse moleque? – Thiers bufou me encarando.
— Você está lutando do lado errado, isso não faz sentido – protestei. Eu não poderia concordar com aquilo. Eu não sabia os motivos dela, mas um pouquinho da Roxie que eu havia conhecido ainda deveria existir dentro da mulher.
— Isso é uma guerra, Deedee, não existem lados certos ou errados, apenas o lado que você escolheu.
— Por favor, diga que isso não é verdade, que você é uma espiã infiltrada ou algo assim... – eu sentia os olhos marejarem, mesmo não querendo chorar. Chorar não iria mudar a realidade.
— Eu sou uma infiltrada, mas não para o lado que você gostaria.
— Precisamos ir – o soldado da Team Plasma informou novamente.
— Eu vou matar esse moleque – Thiers resmungou, avançando em minha direção, mas Roxie o parou com um sinal.
— Não – respondeu friamente e ele parou.
— O que vai fazer, levá-lo conosco? – Ele a encarou desconfiado.
Roxie não respondeu. Caminhou na minha direção e com um sinal, fez o Scrafty sair das minhas costas. Então, lentamente, ele me puxou pelas vestes, tentando me pôr em pé, mas eu só tinha força para ficar ajoelhado sobre o lago congelado.
Espanou minhas roupas como uma mãe preocupada e ajeitou meu cabelo, da melhor forma que pôde. Então as mãos deslizaram para o bolso do meu moletom e ela encontrou as Pokéball. Um a um, ela chamou meus parceiros e os de Haila de volta e guardou os dispositivos de volta no meu bolso.
— Você vai precisar deles – disse me dando um tapinha no ombro, mas a expressão dela não era nada amigável. As lágrimas que tinham se formado, agora começavam a escorrer pelo meu rosto, mas ela não parecia minimamente comovida por isso. – Eu conheço você e no final, você vai morrer, mas eu não salvei a sua vida inúmeras vezes para te ver morrer aqui – disse calmamente, as mãos apoiadas nos meus ombros. – Lute de novo e tente, no seu último esforço, mostrar-me quem escolheu o lado errado na guerra. – Ela falava calmamente, como se estivesse me dizendo palavras de conforto muito doces. Eu tentei fungar um Roxie, mas ela ignorou qualquer apelo. – Agora, você sabe a verdade, faça o que acha que tem que fazer – e sorriu pela primeira vez naquela noite. Um sorriso que eu não soube decifrar.
Ela se levantou, ajeitou as roupas e fez sinal aos comparsas. Eu ainda estava ali, no meio do lago, sem ter ideia do que fazer. Era a Roxie, uma das pessoas que eu mais amava e confiava. O que tinha acontecido com ela?
— Lute – ela disse suavemente por cima do ombro. E antes mesmo que eu processasse tudo, algo que parecia um pequeno helicóptero descia do céu, agitando as árvores com mais força e fazendo os holofotes oscilarem nas bases, o Scrafty me encarou, antes de fechar o punho e dar um soco poderoso na superfície congelada.
Eu pude ouvir o gelo estalar sob meu peso e grandes rachaduras aparecerem na superfície. Meus olhos desviaram para Roxie, que se enrolara na capa e por um segundo nosso olhar se encontrou, não havia fria ou calor neles, não havia nada, como se a Roxie que eu conhecia não existisse mais, e foi a última coisa que vi antes do gelo ceder com o meu peso e eu mergulhar no lago.
=8=
Talvez aquilo fosse um recorde, quem teria sido preso três vezes em menos de dois dias? O prédio da delegacia tinha sido quase que totalmente destruído, de forma que Albion tinha me levado para um local adaptado. Eu estava algemado a mesa dessa vez e eles tinham se assegurado de manter minhas Pokéball longe o suficiente para que não pudesse recuperá-las.
O contingente policial parecia menor e havia curiosos espiando pelas janelas do armazém adaptado.
— Ótimo – Albion puxou uma cadeira e sentou diante de mim. – Conte-me o que aconteceu... você fez um belo estrago na floresta.
— Eu? – estava cansado demais para aquilo. Ele não poderia só me prender e me deixar quieto?
— E quem mais seria? – Deu um sorrisinho.
— Vocês são idiotas? Houve uma explosão na caverna e vocês acham que eu sou o responsável? – Saiu mais amargo do que eu pretendia e o sorrisinho sumiu.
— Olhe como fala, moleque. – Repreendeu. – E se não foi você, então quem foi?
— A Team Plasma – esbravejei, mas não teve o mínimo efeito.
— Sua organização – respondeu como se fosse óbvio.
— Eu... apenas esqueça – desisti. Iria ser um cabo de guerra que eu nunca iria vencer.
— Você veio e causou o caos na nossa cidade, não posso esquecer, você tem que ser punido por isso – bateu a mão com força na mesa em que eu estava algemado.
Minha cabeça estava doendo e eu podia ver mais curiosos se amontarem nas janelas. Eu tentava não pensar em Roxie, no lendário ou no que acontecera a Haila, mas tudo isso ficava voltando a minha mente de forma desordenada.
— Se eu causei toda essa desgraça, por que demoraram tanto para aparecer, eu poderia ter fugido – gritei, apontando uma falha. Como ele poderia achar que eu fiz tudo aquilo em tão pouco tempo. Minha primeira impressão, espancando o garoto Zoroark não era nada boa, mas como eu teria tanto tempo hábil para causar tanta desgraça?
— Você e sua amiguinha causaram muitas baixas, não podemos estar em todos os lugares – respondeu com uma carranca.
— Então a caverna não é uma prioridade? – E eu estava cansado daquilo.
— A vida dos cidadãos é muito mais importante – se empertigou na cadeira. Era um ponto, e eu tinha que concordar, mas considerando os últimos acontecimentos, parecia uma preocupação muito limitada.
— Isso não vai importar mais.
— O que quer dizer com isso? Está nos ameaçando? – Bateu na mesa com força, levantando e derrubando a cadeira no processo.
— Não, mas a Team Plasma está – fiz menção de levantar, mas a corrente que me prendia a mesa era curta e acabei puxado de volta.
— Escute aqui moleque, ou você fala as coisas claramente, ou vou te jogar no xadrez até seus ossos virarem pó – se inclinou, apontando o dedo na minha cara.
— Em que cela? – Saiu mais espontâneo do que eu queria e deixou Albion encolerizado.
— Seu... – mas ele não terminou a frase, meu Xtransceiver começou a tocar em outra mesa, incessantemente. Albion bufou e atendeu o dispositivo sem nem ao menos me consultar.
— Quem é você? – A voz de Cheren se fez alta, mesmo com o falante fazendo um barulho engraçado por causa da água no dispositivo.
— Sargento Albion, o policial responsável em Anville e você é? – Se apresentou pomposo e depois questionou desconfiado.
— Cheren, líder de ginásio de Aspertia.
— Oh, me desculpe, eu não o reconheci – e poderia não ter mesmo ou era por causa da minha tela que deixava a imagem distorcida.
— Onde está o Deedee?
— Você diz o delinquente? – E me lançou um olhar atravessado.
— Delinquente? – Cheren pareceu confuso.
— Essa pessoa está ligada a Team Plasma, matou um dos nossos nobres cidadãos e ainda explodiu um patrimônio histórico.
— Deedee não faria nada disso.
— Desculpe, mas ele está sob minha custódia...
— Ele é meu protegido. Estou falando que ele não fez nenhuma dessas coisas, está pondo em cheque a palavra de um líder de ginásio? – A voz de Cheren era alta e autoritária como poucas vezes o tinha visto falar.
— Não, não, é só que... – Albion começou a gaguejar.
— Ótimo, deixe-me falar com ele.
— Cheren, você tem que entender que...
— Agora! – A contragosto, o policial voltou até a mesa e me entregou o Xtransceiver, mas ficou plantado ao meu lado.
— Hey – cumprimentei desanimado.
— O que aconteceu com você? – E ele me analisou demoradamente.
— Cai num lago congelado...
— Como?
— Longa história... – eu estava cansado e dolorido, eu não queria falar sobre aquilo, sobre nada na verdade.
Cheren ficou em silêncio, havia uma ruga pronunciada entre as sobrancelhas, mas que parecia muito maior por causa do efeito na tela.
— Floccesy caiu – disse por fim.
— Kara me disse – informei e ele concordou com um aceno.
— Alder que voltar e tentar salvar o lugar – bufou. E Cassie voltou a minha mente. Eu não tinha pensado nela apesar de tudo, minha mente estava ocupada demais com Roxie. Eu só poderia pedir que Arceus a mantivesse minimamente segura. – O problema é que não foi a única cidade que perdemos... Estamos ficando sem aliados.
— Estamos... – concordei automaticamente ao me lembrar de Roxie.
— Deedee aconteceu alguma coisa? – Cheren percebeu a expressão sombria no meu rosto.
— A Team Plasma, eles capturaram o lendário – e vi Albion me encarar curioso.
— Como assim?
— A caverna, a que eu te disse antes, com os símbolos. Ele estava lá, o lendário. Eles o torturaram. Usaram aquele colar novamente – expliquei. Eu me sentia exausto e minha voz saia praticamente sem flexão alguma.
— Você lutou com eles?
— Eu tentei.
— Você ficou maluco? – A voz saiu alta e repressora, como eu sabia que seria.
— Eu não poderia deixar eles simplesmente levarem o lendário – rebati e ele pareceu engolir as palavras que queria dizer.
— Era o Terrakion?
— Eu não sei, talvez. – Eu não conhecia os lendários, não sabia diferenciá-los por nome. – Cheren, aconteceu mais uma coisa...
— O quê?
— Eu preciso te contar pessoalmente – disse. Eu não queria contar sobre a Roxie pelo Xtransceiver. Primeiro porque era um assunto delicado e talvez Cheren não acreditasse em mim, poderia dizer que eu estava delirando. E talvez estivesse mesmo, minhas alucinações com Zoroark, mas encarnados de outra forma. E segundo, porque o policial estava plantado ao meu lado, prestando atenção a toda conversa.
— Ótimo, estou precisando de você em Nimbasa – ele percebeu minha aflição em dizer ao telefone.
— Não ainda, eu preciso ir para Icirrus. – Não era exatamente a decisão mais inteligente naquele momento, mas eu sentia que deveria ir até lá. Pessoas que eu amava e que confiavam na Roxie estavam ali, totalmente a mercê.
— Por que? Não tem nada lá...
— Des, Lila e eu mandei Kara para lá – Enumerei. Ele curvou as sobrancelhas diante do nome de Kara, mas não perguntou a respeito. O policial também pareceu mais atento ao ouvir o nome da menina.
— Deedee.
— Por favor...
— Eu entendo, mas nós não temos tempo para isso – e ele tinha razão.
— Se eu não os vê-los agora, talvez eu não possa nunca mais fazê-los – e era o meu maior receio. Claro que eu queria ver minha mãe, meu pai, Cassie, Louis, todos eles mais uma vez. Mas eu não poderia fazer isso. Mas o trio em Icirrus eu ainda poderia encontrar.
— Certo, você tem meio-dia. Eu quero você em Nimbasa antes do sol nascer amanhã – disse autoritário, pondo um ponto final ao assunto. – O quê é? – Perguntou ao ver minha expressão vaga através da tela.
— Eu ainda estou preso – e puxei o braço fazendo as algemas tilintarem.
— Eu vou dar um jeito nisso, passe o Xtransceiver para o policial, mas você vai ter que me contar tudo isso depois – e apesar do tom severo, a expressão era mais suave do que a que eu vira em dias.
— Eu vou – e foi o primeiro sorriso que consegui dar sinceramente desde que chegara a Anville.
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