Roses and Demons: Hell's Flower
34 O Chamado do Bosque
O acesso principal ao esconderijo de Madame Ancara se dava por meio de uma caverna natural, estendendo-se pelo interior de uma elevação conhecida como Monte Ogmin. No final da caverna encontrava-se uma escadaria levando ao refúgio propriamente dito, oculta por uma poderosa magia ilusória. Galgando estes degraus, Carbon e Scythe deixavam para trás a cena trágica que o esconderijo havia se tornado.
A controladora da morte seguia à frente, mantendo-se atenta para a possível presença de algum inimigo, mas tudo estava quieto. Os únicos sons que ela e seu companheiro ouviam eram os de seus próprios passos, e tudo a levava a crer que o perigo maior já havia passado. O controlador da fumaça, por sua vez, vinha logo atrás, carregando Elbio em seus braços. Apesar do extremo desgaste causado pela luta contra Arloc, o rapaz respirava em ritmo regular. Ele não corria risco de vida. Nisto, sem aviso, os passos de Carbon deixaram de ecoar pela passagem estreita. Alarmada ao se dar conta disso, Scythe imediatamente virou-se, iluminando o rosto absolutamente sério de seu companheiro com a luz da tocha que carregava.—Não vou largar você no chão porque sei que está ferido, mas já pode parar de fingir que está desacordado. – Disse o homem.—Dá uma chance, vai. – Pediu Elbio, abrindo os olhos. – Será que não pode me carregar pelo menos até sairmos da caverna?—Deixe de ser folgado. – O manipulador insistiu. – Aquele monstro não quebrou suas pernas para você ficar sendo carregado desse jeito. Apesar do tom impaciente, Carbon desceu Elbio com cuidado, ajudando-o a se equilibrar. Entretanto, logo ficou evidente que ele não estava mesmo em plenas condições de se locomover, dando cada passo com grande dificuldade. Suspirando desapontado, o guerreiro da ordem passou o braço do rapaz sobre os próprios ombros, servindo-lhe de apoio.—É só até sairmos da caverna, viu?—Nós estávamos preocupados com você, Elbio. – Disse Scythe, um pouco aliviada, mas ainda apreensiva. – O que aconteceu naquela biblioteca?—Eu encontrei o líder dos demônios que atacaram o esconderijo e lutei com ele. – Disse Elbio, com toques sombrios em suas feições. – Fiz aquele desgraçado voltar para o inferno de onde saiu. O semblante triste do jovem deixava claro para os manipuladores que as maiores cicatrizes deixadas pelo confronto não estavam em seu corpo. Era melhor não insistir no assunto, e assim sendo eles retomaram a marcha escadaria acima, em silêncio. Pelos longos minutos que se seguiram, novamente apenas o som de passos sobre a rocha se ouvia. Por fim, os três viram a luz do dia invadindo a passagem e a deixaram para trás, sendo recebidos pelo sinistro céu avermelhado. Estavam diante da encosta íngreme do monte, contornada por uma pequena trilha, por vezes incerta. A julgar pela posição do sol e pela fome que começava a incomodá-los agora que a sensação de perigo iminente desaparecia, podiam concluir que já estavam na metade da tarde.—Acho melhor pararmos aqui mesmo para descansar. – Sugeriu Carbon. – Não comemos nada desde que entramos no esconderijo, e com o Elbio desse jeito não me parece ser uma boa ideia tentarmos descer agora.—Tem razão, é melhor fazer uma pausa. – Concordou Scythe. Elbio nada disse. Ainda olhava para a escuridão da caverna atrás de si, mantendo a mesma expressão fúnebre. Derrotar Arloc de nada havia servido para apaziguar a frustração fervilhando em seu peito. Pelo contrário, saber que seus esforços serviram apenas para destruir uma casca física, e que não havia nada que pudesse de fato fazer contra o demônio, era uma sensação insuportavelmente amarga. Em meio ao desgosto, ele dirigiu seu olhar para o céu rubro, a marca inegável de que Chesord estava maculada pela maldade de Pravus. Seu desejo de garantir que as bruxas pudessem um dia viver em paz parecia um sonho cada vez mais distante, impossível de se alcançar. No lugar dele, o que Elbio via diante de si começava a tomar os contornos de uma vingança sangrenta. A refeição foi simplória, feita apenas com mantimentos trazidos do esconderijo de Madame Papillon, e carregada com um clima apático. Carbon já imaginava que Elbio não estaria muito comunicativo, mas era estranho que até mesmo Scythe estivesse se mostrando mais isolada que o normal. Completamente calada, ela constantemente lançava olhares para o topo do monte, até que pediu licença para os outros dois, dizendo que logo voltaria. A passo acelerado, ela seguiu a trilha que conduzia ao cume. Algum tempo se passou, e então a garota retornou através da mesma trilha, agora exibindo um rosto muito mais apreensivo do que antes. Sem conseguir evitar uma pontada de preocupação, Carbon perguntou:—O que foi, Scythe?—Você não vai acreditar no lugar que fica aqui perto... Só existia um lugar que poderia ser tão relevante para Scythe a ponto de deixá-la daquele jeito, e levando-se em consideração o caminho que haviam trilhada para chegar até ali, não era exatamente uma surpresa que estivessem perto. Normalmente, Carbon apenas ignoraria a situação e se manteria focado no objetivo: retornar para o esconderijo de Madame Papillon. Contudo, a forma estranha como sua colega vinha agindo o enchia de uma tensão deveras desagradável.
—Está falando do Bosque Sinelth? – Disse ele, finalmente.—Isso mesmo. – Ela confirmou. – Acho que fica a uns 10 quilômetros a nordeste do monte.—É verdade. – Comentou Elbio. – Eu fiquei sabendo que um dos membros da ordem tinha o dever de conter as feras do bosque. Quer dizer então que essa pessoa era você, Scythe?—É, eu passei vários anos vivendo sozinha lá.—Chega a ser irônico que essas bruxas tenham escolhido viver justo aqui. – Disse Carbon. – Mas até que faz sentido. Provavelmente ninguém viria procurar num lugar assim.—Essa era para ser a ideia. Infelizmente, não funcionou muito bem contra os demônios... – Lamentou o jovem.—Bom, então o bosque fica logo ali. – Interveio o controlador da fumaça, ansioso por dar um fim naquele assunto. – Mas isso não tem nada a ver com a nossa missão. É melhor voltarmos logo, ainda temos que descobrir o que aconteceu com Inferno e Viper.—Espera, Carbon! – Scythe exclamou, mas ficou sem saber o que dizer em seguida. Ela sabia que dar atenção a seus anseios só causaria problemas, mas não conseguia ignorá-los. Era forte demais a sensação de que havia algo errado. – O bosque Sinelth não é um lugar normal. Tímida, ela continuou.—Ele tem uma aura sinistra, quase sobrenatural. É como estar constantemente em perigo só de ficar dentro do bosque. O problema é que eu estou conseguindo sentir essa aura daqui...—Tem certeza de que não são só os demônios deixando você paranoica? – Carbon perguntou. Sabia muito bem quais eram as intenções de Scythe e isso não lhe agradava nem um pouco. —Sim, eu tenho certeza absoluta! – A garota tomava coragem, já se preparando para a bronca que receberia, mas cada vez mais irredutível em sua decisão. – Depois de todos esses anos, eu nunca confundiria essa sensação desagradável. Tem alguma coisa de errado, e se a influência do bosque se espalhar, só Adriel sabe o que pode acontecer!—Eu entendo o que você quer dizer, Scythe, mas o bosque não é a nossa prioridade agora! – O controlador da fumaça impôs com firmeza. – Essa era para ser só uma missão de resgate! Não podemos ficar correndo riscos desnecessários!—Eu sei que não é com isso que devemos nos preocupar, mas eu passei quase dez anos protegendo o bosque! – A garota apertou os punhos. – Se aconteceu alguma coisa, é minha responsabilidade corrigir... Carbon queria retrucar, mas não fez. Imaginou que neste momento estaria sentindo raiva de Scythe, mas ao invés disso o que parecia brotar em seu coração era uma pontada de respeito por aquela jovem tão determinada. Tão decidida a cumprir com seu dever, mesmo sabendo que teria de colocar sua vida em risco.—Não estou pedindo para vocês irem comigo. – A manipuladora insistiu. – Se quiser, pode me deixar para trás. Pode até dizer para os outros que eu sou uma desertora!—Nada disso. – Devolveu o controlador da fumaça, tão firme quanto antes. Sentia-se irritado, mas não era com a jovem. Era consigo mesmo, pelo que estava prestes a fazer. – Nós vamos esperar você aqui, então se pretende mesmo investigar o bosque, faça isso rápido.—Carbon... – Disse ela, enchendo-se de gratidão.—Mas prometa que não vai fazer nada de estúpido. Se o que você disse sobre a aura estar se espalhando for verdade, não duvido que tenha um demônio por trás disso.—Não se preocupe, eu juro que vou ser cuidadosa!—É bom mesmo! Viper disse que ia voltar viva, então é melhor você fazer o mesmo.—Certo! – A menção ao nome de sua amiga lembrou Scythe de que não estava mais sozinha, e também do quanto desejava rever a controladora do veneno. Porém, sua vontade não era apenas de reencontrá-la, mas de fazê-lo como uma legítima guerreira da Rosa Branca. Era um sentimento que ela até então desconhecia, mas agora que tinha companheiros lutando ao seu lado, desejava de todo coração ser alguém de quem eles, especialmente Viper, pudessem se orgulhar. – Eu volto assim que descobrir o que aconteceu. Tendo dito isso, a jovem estendeu um dos braços, conjurando uma série de blocos de osso pela encosta, o que a permitiu usá-los como apoio e alcançar rapidamente o sopé do monte. Conforme ela ganhava distância pela campina abaixo, já longe demais para escutar Carbon e Elbio, este último disse:—Vai logo atrás dela.—Como é?—Ela é sua amiga, não é? – O rapaz dizia tais palavras com absoluta gravidade. – Se você não for junto e ela acabar morrendo, acha que vai conseguir se perdoar?—É óbvio que não vou me perdoar se ela morrer, mas não pretendo ir sozinho. Você vem comigo. – Diante do rosto pasmo de Elbio, Carbon sorriu antes de completar. – Não posso simplesmente deixar um aliado sozinho nesse estado, ainda mais num lugar tão perigoso. O rapaz não pôde conter uma gargalhada, mas seu riso era honesto. Não pensava que justo um guerreiro da Rosa Branca, alguém que até pouco tempo atrás seria um inimigo jurado, mostraria esse tipo de preocupação para com ele.—E quanto à Scythe?—Embora eu não tenha visto pessoalmente, fiquei sabendo o que ela fez na última batalha entre os exércitos de Chesord e Empericia. Se fosse eu no lugar dela, não sei se teria conseguido derrotar aquela bruxa medonha... – Carbon lançou um último olhar para sua companheira, que já havia se tornado apenas um longínquo ponto branco. – Claro que eu fico um pouco preocupado, mas é como a Viper disse. De nós três, Scythe é a mais perigosa. —Bom, se você insiste que eu vá junto, não vai se importar de me carregar nos braços até lá embaixo, certo? É mais rápido do que eu ir caminhando. – Sugeriu Elbio, com um sorriso cínico.—Na verdade eu tenho uma ideia melhor. Se descer caminhando é difícil demais para você, eu posso empurrá-lo daqui e deixá-lo descer rolando. Que tal?—Nossa, e eu achando que você se importava comigo. No interior do bosque Sinelth, uma substância negra e viscosa vertia de um rochedo robusto, com cerca de um metro e meio de altura, escorrendo do topo até o solo. Sob a grama, o muco se acumulava, assumindo aos poucos uma forma quase humanoide, ainda que franzina.—Preciso... de um corpo... – Disse a voz rouca que vinha da massa escura.
Notas finais
Scythe retorna para o bosque que protegeu por anos, mas ele não é mais o mesmo.
Capítulo 265: De Volta, Após Tanto Tempo
Se tudo correr bem deve sair no começo do mês que vem.
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