Roses and Demons: Hell's Flower
10 Mestra e Discípula
De certa forma, era quase engraçado. Erika Secrett havia sido enviada para uma missão muito perigosa ainda nos primeiros dias do conflito entre Empericia e Chesord, foi capturada pelos inimigos, permaneceu presa em Brokefront e quase morreu enfrentando uma adversária extremamente perigosa na batalha derradeira. Mas mesmo considerando tudo isso, o prospecto de lutar contra sua própria mestra ainda era muito mais assustador.
Naquela noite, ela traçou o caminho em direção à arena onde enfrentou Lince Walters. A luta fora semanas atrás, mas parecia que uma eternidade havia passado. Enquanto caminhava, uma voz em sua cabeça lhe dizia, a todo momento, para desistir daquela loucura, mas a bruxa não cedeu. Estava decidida a mostrar a mesma coragem que o capitão quando ele tentou convencer Anya a prestar seu auxílio na guerra contra o país vizinho. Quando finalmente chegou ao lugar determinado, a formação circular de castiçais, todos eles com cerca de um metro de altura, já estava disposta e as chamas ardiam, iluminando dezenas de bruxas que conversavam em tons baixos, discutindo os possíveis resultados do embate. Erika perguntou a si mesma se estariam torcendo por sua vitória ou derrota.–Posso estar enganada, mas a madame Anya não me parece o tipo de pessoa que se intimida com cara feia. A voz familiar de Kate tirou a princesa de suas divagações, e esta se viu um pouco embaraçada por tornar tão aparente a tensão interna por que passava. Ainda assim, conseguiu responder, à altura.–Não precisa dizer ‘madame’, aqui geralmente nós a chamamos de mestra ou de mestra Anya.–Desculpe, Erika, é o costume. Na verdade, nós deChesord temos muitas diferenças comparando com vocês, mas isso não vem ao caso agora, não é? Como está se sentindo?–Como se houvesse um quilo de chumbo no meu estômago.–Tão ruim assim? – A garota de cabelos negros ficou realmente preocupada, mas o melhor que podia fazer naquela situação, para ajudar sua amiga, seria mostrar otimismo. – Mesmo assim, essa é sua oportunidade de provar o mérito do caminho que você acredita, certo? Se realmente acha que está fazendo a coisa certa, então pare de pensar no quão difícil vai ser e concentre em dar o seu melhor. A princesa ergueu o rosto e encarou os olhos resolutos da outra bruxa. Encontrou neles conforto e a certeza de que havia alguém que lhe depositava confiança. Então ela sorriu e acenou afirmativamente com a cabeça.–Você está certa, essa é a oportunidade perfeita para mostrar do que sou feita. Posso até levar uma surra, mas não sem antes colocar um pouco de bom senso na cabeça dura da minha mestra. Kate tinha suas dúvidas a respeito de quem realmente merecia ser chamada de cabeça-dura, mas nada disse a respeito, apenas observou enquanto Erika adentrava o círculo de castiçais. Anya também estava chegando e o olhar das duas bruxas prestes a lutar se encontrou. A princesa tinha de admitir que também havia uma motivação pessoal naquela batalha. Sua admiração pela mentora nunca foi nenhum segredo, razão pela qual ela inclusive optou por estudar a mesma forma de magia. Mesmo que suas formas de lutar tivessem diferentes aparentes, no fato de que Anya preferia usar apenas seus punhos, ambas se fortaleciam usando o poder chamado Libero Repagula, um encantamento que as permitia superar os próprios limites físicos, tornando-se mais poderosas, rápidas e resistentes. Como nunca antes havia enfrentado sua mestra seriamente, finalmente poderia colocar à prova suas próprias habilidades e descobrir o quanto ainda teria que se aprimorar para conseguir se equiparar a Anya. Honestamente, não era uma luta que Erika esperava vencer, mas nunca antes ela segurou suas adagas com tamanha determinação.–Está pronta? – Perguntou a líder, calmamente.–Pode ter certeza que sim. – Respondeu Secrett, se esforçando para soar confiante.–Então começaremos ao comando de Esther. Ambas assumiram posições de combate, separadas por uma distância de três metros. As demais bruxas assistiam caladas, ansiosas, e a princesa decidiu tirar todos aqueles olhos curiosos de sua mente. Sua concentração seria dedicada a apenas uma pessoa, aquela que deveria encontrar alguma forma de derrotar.–Lutem! Como uma fera selvagem, Erika saltou adiante, desferindo uma miríade de golpes furiosos em rápida sucessão. Atacava com a intenção de ferir, visando atingir qualquer ponto fraco que pudesse alcançar a cada corte ou estocada. A despeito desse esforço, Anya conseguia se defender com tranquilidade, como estivesse testando sua aluna, até que, passados trinta segundos, finalmente revidou com um chute que a atingiu em cheio.–Não estou impressionada. As palavras da mestra atingiram Erika como uma lâmina de gelo. Depois de dar alguns passos incertos para trás, ela se recompôs e concluiu que era tolice se conter. Relâmpagos surgiram a partir das adagas e se espalharam pelo corpo da bruxa, decidida a invocar toda a extensão de sua magia. Apesar de usarem o mesmo poder, a forma como manifestavam o Libero Repagula era visivelmente diferente, resultado da forma como a princesa desenvolveu sua habilidade mágica. Anya justificava isso dizendo que toda bruxa criava sua própria ramificação, parte natural do processo de aprendizado de uma determinada magia, inconscientemente refinando seus poderes de forma a refletir sua própria alma.
Neste sentido, Erika era uma tempestade incontrolável, o mar revolto, o vento furioso. Sua alma inquieta, sedenta por superação, a transformava num borrão relampejante e seus ataques eram capazes de liberar pulsos elétricos. Sua mentora era o completo oposto, a rocha sólida, a árvore que não se dobra nem mesmo diante de um furacão, um lago de águas imperturbáveis. Por mais forte que fosse, Anya sabia que já não tinha mais condições de continuar lutando sem recorrer também a seus poderes mágicos. A liberação de suas energias era quase imperceptível, exceto por uma leve aura que a envolvia, e então ela se tornou rápida o suficiente para se defender de todos os ataques que a ameaçavam. Erika não sabia dizer se sua mestra estava utilizando a força total da magia presente em seus braceletes, e isso a preocupava. Sentia-se intimidada só de pensar que talvez não fosse forte o bastante nem para obrigá-la a lutar seriamente. Como da outra vez, Anya se concentrou primeiro na defesa, permitindo que sua pupila tivesse algum tempo para conseguir encontrar uma brecha. Logo ela se cansou disso, porém, e agarrou um dos braços da adversária, arremessando-a sem cerimônia no chão. Erika caiu desajeitada, deixando suas adagas escaparem e caírem na grama.–Se já está satisfeita, podemos parar por aqui. Erika não disse nada, apenas recolheu suas lâminas e se colocou em pé novamente. Não precisava responder, seu olhar era o suficiente para que Anya entendesse que ainda estava disposta a lutar. Mas o que poderia fazer, se até agora nem sequer conseguiu desequilibrar sua mestra?–É bom que saiba que a partir desse momento não vou mais pegar leve. Se quer continuar com a luta, tudo bem, mas esteja preparada para apanhar de verdade!–Não pense que vai me assustar com isso! Para mostrar que realmente não se intimidava, Erika atacou de forma instintiva, com um corte cruzado, liberando um arco de eletricidade ao executar o movimento. Anya saltou muito antes que o golpe pudesse alcançá-la e chutou o rosto de sua pupila sem a menor clemência. Logo em seguida, após retornar ao chão, lançou uma sequência de socos rápidos demais para que a garota pudesse reagir. Um pressentimento de perigo, porém, fez a mestre deter seus ataques e dar um passo para trás, instantes antes que uma massa de energia envolvesse o corpo de Erika, estalando ruidosamente por um momento e dissipando-se rapidamente. Ignorando a dor que sentia, a jovem tentou atacar, mas foi derrubada com uma rasteira.–“Maldição, nada que eu faço dá certo? Parece até que ela consegue ler cada um dos meus movimentos.” – A mente da bruxa de cabelos dourados se aquietou enquanto pensava a respeito. Levantando-se, ela limpou a sujeira de seu rosto. – “Talvez consiga mesmo, já que me conhece tão bem. Realmente, não tem como vencer se eu lutar do mesmo jeito que sempre faço.” Erika lançou-se adiante, da forma mais impetuosa possível, como se estivesse ignorando seus próprios pensamentos, e Anya deu um passo para o lado, evitando o golpe sem esforço nenhum. Mas dessa vez tratava-se de uma finta, e a garota se concentrou apenas em observar os movimentos de sua mentora. Percebendo o golpe de cotovelo que vinha em sua direção, Secrett abaixou-se e imediatamente contra-atacou com um chute. Todas as bruxas deixaram escapar um suspiro de espanto, mas nenhuma tinha expressão mais genuína de surpresa que a própria Anya, atingida de uma forma que verdadeiramente não esperava. Ela cambaleou, mas apenas por um breve momento. Ainda assim, o fato de ter acertado um golpe era suficiente para renovar a força de vontade de Erika.–“Se eu lutar de cabeça fria, talvez tenha uma chance.”
Notas finais
Finalmente, a decisão de Anya.
Capítulo 241: Já Acabou, Erika?
Em breve.
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