O sol já iluminava os céus há quase uma hora quando Carbon, Elbio e Scythe iniciaram a descida de uma encosta íngreme. Devido à urgência de alcançar o esconderijo de Madame Ancara, pouco tinham repousado, mas quase não demonstravam sinais de cansaço. A única exceção era Scythe, que deixava escapar alguns bocejos ocasionais.

Para facilitar a descida, esta última criou uma série de apoios feitos de osso com a ajuda de seus poderes, permitindo assim que pudessem chegar rapidamente ao fundo da encosta. A partir deste ponto, Elbio tomou outra vez a dianteira, guiando o caminho, enquanto Carbon vinha por último, aproveitando a ocasião para fumar um cigarro.

A caminhada continuou por vários minutos então, em silêncio, até que os manipuladores da Rosa Branca se viram envolvidos por uma miríade de minúsculas luzes azuis. Elbio, que estava no centro delas, as observava com uma sensação de familiaridade.

—O que é isso? – Perguntou o controlador da fumaça. – É algum tipo de magia sua, Elbio?

—Não. – O rapaz respondeu, sério. Revelar um segredo tão bem guardado pelas bruxas para a Ordem da Rosa Branca certamente o deixava hesitante, mas àquela altura estava disposto a acreditar que, quando a crise estivesse superada, eles se mostrariam dispostos a acabar com a marginalização das bruxas em Chesord. – Meu amuleto está reagindo a uma trilha deixada pelas bruxas do esconderijo. É uma forma de ajudar aliados a encontrarem o caminho.

—Artimanha interessante. – Disse Carbon, com um sorriso. – Não me admira que as bruxas sempre tenham sido difíceis de capturar. Elas são mesmo muito engenhosas.

—Então isso significa que estamos perto? – Perguntou Scythe.

—Sim. O acesso principal fica a alguns quilômetros de distância daqui, mas podemos usar uma das rotas de fuga para chegar até o esconderijo mais rápido.

O rapaz então os conduziu até a entrada de um túnel subterrâneo, no interior do qual as luzes continuavam a brilhar. Um pouco contrariado, Carbon jogou seu cigarro fora, seguindo seus companheiros passagem adentro. Agora que estava tão perto, Elbio mal conseguia conter a própria ansiedade, e antes que percebesse suas pernas já haviam começado a correr.

O ar dentro do túnel era pesado, sufocante, como se esperaria de um lugar tão abafado. Além disso, não demorou muito para que os três se vissem nauseados por um fedor insuportável. Um aroma inconfundível de podridão que os enchia de temor, especialmente Elbio.

Entrando em pânico, ele cobriu o próprio nariz com a manga das vestes e correu ainda mais rápido, até que finalmente as luzes revelaram a cena funesta que o aguardava. O cadáver de uma mulher, caído de bruços à beira do túnel, com sua túnica manchada de sangue seco. Completamente horrorizado, Elbio continuou seguindo em disparada, sendo acompanhado com dificuldade pelos manipuladores.

—“Não, não, não, não! Não pode ser! Isso não pode ser verdade!”

Eventualmente, o túnel levou Elbio a uma porção desabada, mas sua ânsia de descobrir o que havia acontecido com o esconderijo não o permitiria ser detido. Através de uma rajada de seu poder mágico, ele prontamente demoliu os destroços em seu caminho, revelando uma cena ainda mais macabra. Iluminados por uma única chama azulada e bruxuleante no teto, as paredes e o piso de pedra estavam repletos de sangue, vísceras e membros humanos arrancados.

Arrasado, Elbio gritou a plenos pulmões enquanto lágrimas inundavam seus olhos. Carbon e Scythe, logo atrás, nada disseram, mas suas expressões mostravam uma dor solidária à do rapaz.

Não demorou para que o barulho de passos começasse a ecoar, vindo dos corredores, seguido por figuras monstruosas que invadiram a sala. Demônios dos mais variados tipos, que vinham descobrir qual era a razão de tamanha algazarra. Ao vê-los, Elbio foi completamente tomado pelo desejo de vingança.

—Eu vou matar vocês. – Ele disse, consumido pela ira. – Eu vou matar até o último de vocês!!

Um poder mágico explosivo se expandiu, desestabilizando tanto os demônios quanto os amigos de Elbio. Então, envolvido pela aura prateada de sua magia, o rapaz moldou duas lâminas em seus braços, lançando-se na direção dos inimigos.

Carregado por suas asas místicas num frenesi de golpes cortantes, ele decepou os demônios que o cercavam e, em seguida, desapareceu escada acima, onde continuou a ser acompanhado pelos ruídos da batalha. Seguindo os gritos dos demônios, Carbon e Scythe correram atrás, preocupados que a fúria de Elbio pudesse levá-lo a cometer um erro.

Depois de atravessarem um corredor no andar de cima, os dois chegaram a um salão mais amplo, tão maculado quanto o lugar que haviam deixado para trás. Sem saber qual caminho tomar eles rapidamente olharam ao redor, adentrando em seguida num corredor à esquerda. Ao darem de cara com inimigos, porém, perceberam que não era por lá que seu companheiro havia seguido.

Com uma simples rajada de poder, Elbio abriu violentamente a porta dupla de madeira que dava acesso à biblioteca. Talvez tivesse chegado lá por puro costume, pois não havia tomado conscientemente a decisão de realizar aquele trajeto. Caminhando devagar para dentro do ambiente, ele se deu conta de que, diferente dos outros lugares por onde havia passado, lá não havia o menor sinal de massacre ou conflito. O que permeava o ar era o mesmo cheiro de livros velhos a que tinha se acostumado depois de tanto tempo. Uma voz, porém, interrompeu suas lembranças de tempos idos.

—Que bagunça toda é essa? Eu estou tentando ler aqui!

Uma figura de capuz e máscara, com mãos cinzentas e dedos finos que terminavam em unhas afiadas, surgiu em meio às estantes, fechando o livro que carregava consigo. O manto que vestia era surrado e desbotado, simplório, e a máscara que lhe cobria o rosto era grotesca, com uma superfície enrugada e cinzenta de cujas bordas brotavam vários espinhos avermelhados. Seus olhos, embora ocultos, faziam com que as lentes que os cobriam brilhassem com um amarelo vívido.

Elbio, apesar de surpreso com a figura que havia se revelado, não tinha nenhum interesse em entreter sua pergunta. Pelo contrário, avançou pronto para arrancar-lhe a cabeça, como já havia feito com vários outros até chegar ali. Porém, desta vez a lâmina mágica que se estendia de seu braço foi bloqueada por uma barreira de energia prateada e, em seguida, ele próprio foi jogado contra uma estante, que caiu ruidosamente.

—Muito interessante. Muito interessante mesmo. – Regozijou-se o demônio. – Esse encantamento que puseram em você parece ser delicioso!

—Quem diabos é você? – Perguntou Elbio, jogando alguns livros de lado para então se levantar.

—Está curioso para saber meu nome? Eu me chamo Arloc, mas em Pravus também sou conhecido como o caçador de bruxas.

—Caçador de bruxas? Como assim?

—Eu imagino que você saiba o que é o poder mágico, Airanul, certo? – Ao ver que não havia dúvida no rosto de Elbio, o demônio continuou. – Resumindo, eu sou um grande apreciador desse tipo de magia. Em todos os três mundos não existe nada mais delicioso do que a magia das mulheres humanas!

—Então foi por culpa sua que as bruxas que viviam aqui foram assassinadas? – A voz do rapaz vibrava com desprezo.

—Sim, fui eu que encontrei esse lugar literalmente encantador. – Arloc retrucou, despreocupado. – E agora que expliquei isso para você, é a sua vez de responder uma pergunta.

—Como assim?

—Esse poder que você está emanando. – A luz amarela refletida nas lentes da máscara do demônio se tornou sutilmente mais intensa. – Eu nunca vi um encantamento desse tipo, mesmo tendo séculos de vida. Como é que um humano como você, que só deveria ser capaz de usar magia Airalos, conseguiu algo assim?

—Você está louco se acha que vou sentar e bater papo! O que você fez aqui não tem perdão! Quando eu terminar, você vai implorar para eu destruir o seu corpo e mandá-lo de volta para Pravus!

—É mesmo? Que pena. – Arloc deu ombros. Claramente não levava a ameaça a sério. – Bom, talvez você seja um pouco mais comunicativo se eu torturá-lo um pouco primeiro. Ou quem sabe eu o devore com encantamento e tudo. Seja como for, isso deve ser interessante.

—Seu monstro demente...

Diante do combate inevitável, ambos assumiram posições de batalha, permitindo que seus poderes se expandissem e permeassem seus corpos. Elbio podia sentir que aquele ser chamado Arloc não era um demônio qualquer, que ele também era capaz de acessar um poder parecido com o seu. Ainda assim, com as vidas de suas irmãs assassinadas pesando sobre os ombros, ele jurou que o faria sofrer.

Notas finais
É evidente que estes dois só vão parar quando um estiver morto. Capítulo 262: O Caçador de Bruxas Deve sair no final do mês que vem.